sábado, 26 de novembro de 2016

Escândalo na adega



A tranquilidade reinava na adega da família Valduga. Fora assim, até uma certa manhã, quando um novo e inusitado hóspede chegou, surpreendendo os atuais moradores.

— Que barulho foi esse?

— Ai, que médoc, vieram me buscar!

— Suavize-se, Amadeu, não precisa ficar bordeaux. Ele veio trazer uma garrafa e não levar, viu?

— Country Wine, olha o salton que o Marco Luigi deu de susto. Rárrárrá!

— Lovara, você que está mais próxima, conseguiu ver quem é?

— Bem que eu tentei, mas o Lacave quase Pizzato em mim.

— Viram? Humm. Colocaram ele afastado da gente. Por que será, hein?

Senhor Valduga, alheio ao farfalhar das garrafas, acomodou o nobre vinho, girou os calcanhares e saiu.

Mal ele fechou a porta e voltaram a indagar sobre o ilustre misterioso.

— Olááá!!! Qual seu nome? Quem é você? Por que ficou distante?  gritou Chalise, não aguentando mais de curiosidade.

— Silence, s'il vous plaît! Je suis, Château Lafite Rothschild.

— Hein? O que ele está dizendo? Alguém traduz pra mim, por gentileza?

— Ele deve ser importado, Chalise. E pelo biquinho que fez ao falar só pode ser francês  respondeu Bartolo, tinto de ciúmes.

— Esses ricos emergentes, vou te contar, são uns esnobes. Ao invés de valorizarem produto nacional, ficam trazendo estrangeiros, só pra se exibirem para os amigos — reclamou uma garrafinha sem rótulo, instalada nas fileiras mais humildes.

Rothschild se empertigou todo, pois não estava acostumado com hostilidades. Seco, tratou de se defender, mas com elegância, avéc élégance, oui monsieur.

— Je suis o que há de melhor nos tintos bordaleses. Ao contrário de vocês, eu fui esmagado com os pés. Sou famoso. Respeitem-me e façam silêncio. Estão me perturbando!  falou o francês, num francês miscigenado pela maturação.

— Só porque é importado, se acha melhor que nós? Que audácia!  exclamou, Chalise, embaçada de raiva.

Rothschild nunca fora tratado por tantos casca grossa num mesmo ambiente. Esqueceu a elegância e visivelmente atijolado, porém mantendo a tonalidade rubi brilhante, partiu para o ataque.

— E você, nem para fazer quentão serve!  disparou.

— Rárrárrá! Não sou importada, mas sou muito requisitada, viu?  retrucou, Chalise.
 
— Oui, por menos de quinze reais, qualquer um leva você para casa  replicou.

— O que está insinuando? Escutou isso, Bartolo? Vai deixar ele falar assim comigo? Faça alguma coisa!!!

— Chalise, minha uva, o francês só está de gabolices.

— Mas é um moscatel mesmo. Que tola eu fui em aceitar seu bouquet. E pensar que Marcus James e Chandon espumaram um dia por mim e eu recusei pra ficar com você  choramingou, rolando para outro lado.

— Chalise, não diga isso. Perdoa-me. Ando de miolo rosé, ultimamente.

— Eu tenho uma safra a zelar, viu, Bartolo! Está certo que não fui esmagada com os pés, mas venho de um parreiral digno, fique sabendo.

— Chalise, você é tão over. Está exagerando. Nem é para tanto, vá.

— Oh, Bartolo, quer saber? Merlot tudo entre nós.

— Acuda-me, Frei Damião! Não sei viver sem minha uvinha  suplicou.

— Oremus, meu jovem. Iomerê, sangue da uva tem poder. Cante-lhe uma canção. Seja mais doce, mais suave. Chalise é adamada, pode estar naqueles dias  respondeu-lhe o Frei.

— Pois se até a aurora Chalise não me desculpar, fugirei para a colina e cometerei vinhocídio.

— Por mim, você pode até avinagrar. Acabou, Bartolo. Pode aclamar por todas as videiras de todos os países, em châteaus, platôs, onde for! Basta! Fim!  revoltou-se, Chalise.

O francês, vendo que o assunto não era mais com ele, tratou de manter-se frio. Nem por todos os barris de carvalho iria se deteriorar por aquelas cepas inferiores. Aquietou-se. Com muito requinte e fineza, ficou torcendo para que se quebrassem de inveja.

A adega silenciou novamente.

Passados vinte minutos, Chalise perguntou:

— Bartolo?

— ....

— Bartolo???

— ....

— Bartolooooooooooooooooo?

— Sim!!! Que foi?

— Você ia mesmo se vinhocidar se eu não o perdoasse?  perguntou Chalise, empurrando Almadén que estava entre os dois.

— Sim!

— Ahh, Bartolinho! Vem cá, vem?

E mais que depressa, ele foi.



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A essência da felicidade



Vigiado pela paisagem verdejante dos pampas
Assentou duas achas de lenha no fogo de chão
Arrumando melhor o chapéu de palha trançada
Que teimava em sair ao minuano limpo e seco

Tirou os arreios do cavalo e alisou-lhe o lombo
Assobiando a cantiga em parceria com o vento
Que se espalhava pelo mar verde das coxilhas
E se ia embora espantando o frio e a quietude

Rodeado pelo cheiro das reses que pastejavam
Estendeu o corpo cansado da lida e mirou além
Construindo sonhos e planícies de simplicidade
No crepitar das chamas a natureza se enlaçava

Fechou os olhos e pensou, antes de adormecer
Como um homem pode ser feliz com tão pouco
Bastava-lhe o cheiro da terra e o calor da vida
Que brotava em torno das abas de seu chapéu



quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O Despertar de uma Nova Hera


Situado no ponto mais alto da terra, os templos dourados cintilam. As construções grandiosas, erguidas quase próximas às nuvens, abrigam os soberanos imortais do mundo.
A residência dos deuses ocupa o apogeu do Monte Olimpo, de onde as divindades vigiam os destinos de todos os seres da terra e do céu, sob o comando de Zeus, o deus de todos.
Caminhos reluzentes interligam todos os templos com o Palácio do Poder Supremo, local oficial das reuniões com o conselho divino e de onde Zeus controla tudo.
Chamo-me Hera. E é neste lugar majestoso que vivo, desde que fui desposada por Zeus, há tempos atrás.
Embora muitas estações tenham passado, jamais esquecerei aquele dia.
Oriunda de uma linhagem humilde, eu vivia com meus pais e dois irmãos em Creta, numa moradia simples.
Fazíamos a refeição da tarde, quando escutamos sons mágicos vindos do alto. Atraídos pelos acordes, saímos, e ficamos embasbacados com o que vimos. Uma enorme nuvem desceu do céu e pousou suavemente como um pássaro. Então, para nosso espanto, um belo jovem deslizou por sobre a nuvem e aproximou-se de nós. Sem nada dizer, entregou um pergaminho aos meus pais. Após lerem, mesmo sem saberem ler, entenderam e olharam-me incrédulos. Abraçaram-me. Choraram. Comovida, chorei junto. Apontaram para a nuvem e me disseram para ir. “Vá em paz, filha!”
Eu era tão jovem, pouco mais de uma menina. Queria passear na nuvem!
Despedi-me de todos. Acenei. Subi naquele algodão branco e desapareci no céu.           
A viagem foi fantástica. A maciez da nuvem causou-me sensações inacreditáveis.
Quando chegamos, eu estava com as faces coradas. E meus olhos se encheram com as belezas do Olimpo. Em seguida, fui levada por uma serva a um aposento, onde me banharam e trocaram minhas vestes desgastadas por uma túnica belíssima. Depois disso, guiaram-me até um amplo salão dourado, cuja imponência me deixou deslumbrada.
Sentado em um trono suntuoso, a fisionomia de Zeus me pareceu mais suave do que a imagem ameaçadora e sisuda esculpida numa estátua no portal de entrada.         
Diante de meu silêncio, Zeus esclareceu espontaneamente as minhas dúvidas. Desnecessariamente, apresentou-se. E com uma voz rouca e vigorosa, contou que me escolhera para ser sua esposa, a rainha do Olimpo, a guardiã e protetora dos lares, a deusa da moralidade, a mãe de seus filhos.
“Por que eu?” — perguntei — enrubescida.
Zeus respondeu-me que viu as cores que emanam de mim. E as cores nunca mentem.   
Ao ouvir isso, não pude evitar um tremor interno. “Ele me viu? Em que situação?”
“Não temas. Podes me recusar, se assim o desejares” — dissera-me Zeus.
No entanto, por mais disparatada que fosse a situação, o pedido causou um impacto tão violento em minha vaidade, que visivelmente lisonjeada, aceitei.
Como presente de casamento, Zeus ofertou-me a longevidade eterna. Algo que não seria extensivo a meus familiares. Entristeci, sem deixar transparecer. Este tinha sido o primeiro sacrifício em minha nova condição de rainha dos deuses.
Ofereceu-me ainda um desejo extra. Apenas um. Qualquer coisa que eu quisesse mudar em mim. Demorei para responder. Eu queria modificar tantas coisas em mim. Só um pedido? Pensei em pedir-lhe para poder comer o que quisesse, sem contudo jamais engordar um grama. Mas lembrei-me que os deuses não engordam. Automaticamente já havia ganho esse júbilo. Diante disso, pedi-lhe para que jamais lesse meus pensamentos. Afinal, era o único lugar onde eu poderia ser verdadeiramente livre. 
Zeus concordou com o meu desejo. Assentiu, comprometendo-se a não invadir minha mente para tentar desvendar o que penso, em hipótese alguma.
Bastante tempo depois, eu soube que mesmo que ele quisesse não conseguiria ler a mente de nenhum ser vivo. Essa fora a maldição impingida por seu pai, Cronos, ao passar-lhe o trono a contragosto.
Assim foi o começo de minha nova vida aqui nessa morada celestial.

*
Ah, quantos dissabores habitam a mente de uma mulher!
Estou cercada por divindades perfeitas e não resisto em fazer comparações. São musas graciosas, ninfas adoráveis, deusas da beleza que atraem olhares e lançam em troca promessas de delícias inomináveis.
Não sou feia. Mas também estou longe de ser uma deusa da beleza. Minha pele é muito branca. Tenho olhos verdes, levemente puxados, como se quisessem fugir do rosto. Uso túnicas largas para disfarçar a cintura reta. Não bastasse isso, depois de dar à luz a meu filho Ares, fiquei com ancas largas, cujas vestes me fazem parecer mais encorpada do que realmente sou. Ao menos sou magra. O que já é um consolo. Sim. Serei eternamente jovem e magra.
Meus cabelos são claros, longos e terrivelmente lisos, ornados com uma coroa cravejada de ouro e pedras brilhantes. A textura fina dos fios, obriga-me a ajeitá-la constantemente. Levo as mãos à cabeça tantas vezes, que ao final do dia o meu ombro lateja. 
Oh, como eu queria ter os cabelos cacheados de Afrodite! Os anéis em cascata lhe caem sedutores pelos ombros. Já os meus... de tão lisos, não caem, despencam!
Certa vez, passei em todos os fios uma substância feita de ervas, para alterar a coloração e surpreender meu rei. Tão logo minhas servas banharam minha cabeça retirando os excessos da tinta misteriosa, corri para a nascente sagrada e estonteada observei nos reflexos da água um tom carmim radiante. Aprovei a mudança. Bati palmas para mim pela iniciativa e aguardei ansiosa para me exibir a Zeus.
Meu rei, ao me ver, arregalou os olhos, levou as mãos à cabeça e emitiu um grito que acordaria qualquer criatura em sono profundo, afastada a qualquer distância impossível de se prever.
Não. Ele não fez nada disso. Antes tivesse tido tal reação. Ao contrário. Ele não fez coisa alguma. Olhou-me com os mesmos olhos neutros de todas as vezes.
Cabisbaixa, retirei-me. Removi a novidade e voltei a ficar como sempre fui. 

Intimamente eu sonhava em ter um amor fiel. Embora nunca tivesse conversado sobre isso com meu esposo, ansiava por um abraço, um beijo, um afago, uma manifestação de carinho, na cama e fora dela. O que tínhamos estava bem longe disso. Nossa relação me desgostava.
Zeus se ausentava cada vez com mais frequência. De início, usou de artimanhas para ocultar suas aventuras, depois, expunha-se afrontosamente, causando-me constrangimentos.
As festas se prolongavam por dias e noites. Ao longe, eu podia escutar os sons da lira, os cânticos, as vozes de homens e mulheres, embevecidos pela luxúria e pelo vinho.
Assim como ocorria em épocas de torneios e reuniões do conselho, eu estava expressamente proibida de participar de toda e qualquer festividade libertina. Não condizia com minha figura de deusa da moralidade.
Oh, mas como eu gostaria de saber o que Zeus estava fazendo!
Numa das noites, escutei algo que me fez chorar pela primeira vez desde que chegara naquele paraíso. 
Em meio aos sons dos cânticos e gritinhos femininos, escutei um riso de Zeus. Um riso! Aquilo me feriu mais do que todas as infidelidades sofridas nos últimos tempos.
Corri em direção ao jardim dos lírios, meu lugar preferido, meu refúgio particular. Deixei as lágrimas caírem e se misturarem com as lágrimas da chuva que também caía, muito mansa, muito fina.
E quando cansei de chorar, comecei a rir descontroladamente, cada vez mais alto. Girei em círculos, cada vez mais rápido. Senti uma tontura deliciosa. Queria sentir meu corpo. Queria sentir minha própria presença.
Estirei-me sobre o solo e fiquei contemplando uma nuvem. Estiquei o braço e quase a toquei. A nuvem, percebendo meu interesse por ela, aproximou-se e roçou meus dedos. Chorei novamente. Até que enfim, um toque, uma carícia! Eu precisava tanto disso. 
Voltei para os meus aposentos e tomei uma decisão. Dali em diante viveríamos em templos separados.
E em pensamentos, eu seria amada, do modo como sempre quis ser.

Os dias e noites prosseguiam.
Zeus aceitou pacificamente morarmos em templos separados. Mudou-se definitivamente para o Palácio do Poder Supremo e adotou uma vida distinta da minha. Em contrapartida, passou a tratar nosso filho com indiferença e até um certo desprezo.
Pobre Ares, não merecia tal sorte.    
Tentando acalmar os ânimos, enchi-me de coragem e marquei uma audiência com Zeus. Disse a ele tudo que estava preso em minha garganta. Falei das minhas carências, do meu ciúme, da minha solidão, da minha revolta pelo seu comportamento libertino; mas também falei do meu respeito e admiração por ele. Continuei falando, apesar do olhar frio que ele me lançava. Reclamei da forma opressora com que eu era tratada, das humilhações, do desrespeito. Enfim, desafoguei meu peito. Disse a ele que nós dois tínhamos que ter uma relação de igualdade, pois tínhamos a mesma importância e que ele deveria compartilhar comigo as alegrias, as dores, os júbilos, os temores e o poder. E o mais importante: tínhamos que rir juntos.   
A audiência aconteceu realmente, mas apenas em meus pensamentos.
Cada vez mais eu vivia para dentro. Cheguei a tal ponto de atrevimento mental, que lancei uma maldição em Zeus. Acorrentei-o enquanto dormia. Coloquei nele vestes de prata, abotoadas diretamente no osso, para que ele nunca mais pudesse me trair.
Planejei também, com extremo refinamento, uma conspiração solitária, para destroná-lo, assumindo o poder em seu lugar. Eu me tornaria a primeira deusa mulher a governar os céus e a terra.
Como o mundo inferior dos mortais aceitaria uma novidade dessa magnitude?
Pensei em fazer tudo isso. Entretanto, se o fizesse, jamais o teria outra vez.
Respirei fundo, bem fundo mesmo. E lá das profundezas obscuras do meu interior, fiz emergir o maior de todos os suspiros.
Ohh! Como é atroz a dor da rejeição!

*
Diante da falta de interesse de Zeus e das viagens demoradas que mantinham meu filho Ares distante por longos períodos, passei a ocupar-me de afazeres inerentes ao cargo de protetora dos lares. Quando isso também me entediava, solicitava permissão para sair. Seguidamente ultrapassava os portões, subia na nuvem mágica e descia até o mundo terreno. Transfigurava-me em uma camponesa e revivia os tempos de outrora. Para minha proteção, Zeus ordenava que um de meus servos me acompanhasse.
Curiosamente, percebi que a menina que fui um dia permanecia intacta em mim.
Saudosa, dispensei serviçais e passeei sozinha até o lugar onde morei. Não existia mais a casa onde cresci. Em seu lugar, havia um apiário e mais adiante um pequeno casebre, provavelmente para organizar o envasilhamento em ânforas e posterior transporte do mel.
Movida pela curiosidade, observei à distância. E fui andando com cautela até bem próximo dos cilindros de barro.
Fiquei por um tempo admirando as colmeias e respirando aquele ar limpo e fresco.
Tão absorta estava, que demorei a perceber um vulto se movendo ao longe. O homem entrou e saiu algumas vezes do casebre. Parecia compenetrado em seus afazeres.
Recuei vagarosamente, temendo que ele notasse a minha presença. Mas quando dei alguns passos, escutei um chamado.
Virei-me, pois seria bastante suspeito se eu o ignorasse.
— Olá — saudou-me o homem, vindo em minha direção.
— Olá — respondi-lhe, de modo tímido.
— Vens à procura de mel, certamente.
— S-sim.
— Temos potes de tamanhos variados. Qual deseja?
— Q-qual? Ahh, o menor pote que me possibilite carregá-lo.
— Buscarei. Com sua licença.
Enquanto o homem se afastava, critiquei-me duramente por tamanha imprudência. O que eu estava fazendo ali? Por que permitira que um mortal se aproximasse a ponto de trocar palavras comigo? Além do mais, tratava-se de um estranho.
Um medo inexplicável gelou-me por inteiro.
Não me restava outra escolha, a não ser aguardar.     
Durante o tempo de espera, analisei com atenção os arredores. Árvores frondosas à direita. Inúmeras colmeias à esquerda. O casebre à frente, circundado por vegetação rasteira e um jardim florido e bem cuidado. Na outra ponta, um caminho de pedras lisas, intermediado por flores de variados tipos. Algumas abelhas passeavam livremente pelos ares. E borboletas. Muitas borboletas.  
Sem querer, fixei o olhar no casebre, ansiando avistar o apicultor. Com os olhos atentos, suspirei agoniada pela demora.
Quando o homem saiu, deu com meus olhos cravados nos dele. Mantive meu olhar firme, apesar de sentir meu rosto enrubescer. Aqueles olhos me aprisionaram por instantes. Só então reparei o quanto eram profundos e carregados de mistério.
Sem desviar o olhar, ele veio até onde eu estava. Um calafrio inesperado me fez estremecer e cheguei a mudar os pés de posição, dando alguns passos a esmo.  
— Eis aqui, seu pequeno pote de mel.
— Sou-lhe grata. Mas... lembrei-me que não tenho como pagá-lo, senhor.
— Pois aceite-o, como um presente meu.
— Não sei se devo.
— Deve. A oferta é sincera, creia-me.
— Está bem. Agradeço imensamente.
Sem mais ter o que dizer, despedi-me.
— Espere!... Nem sei o seu nome.
— M-meu nome?
Rapidamente me veio à cabeça vários nomes, porém, nenhum deles parecia apropriado. Aturdida, olhei para o pote de mel e busquei nele um nome com a máxima urgência.
— Melisa.
— Melisa? É um belo nome. Mel... Melisa. De fato, um nome agradável.
Visivelmente constrangida e no afã de mudar o rumo da conversa, perguntei a ele como se chamava.                
— Sou Arcan, filho de Aristeu, que ensinou-me o ofício e deixou-me essas terras. Como podes ver, tenho feito um bom trabalho.       
— Arcan... Sim. Bem, então... adeus! — repeti, desta vez de um modo solene. 
— Adeus...Melisa.
Com aqueles olhos penetrantes segurando os meus, não consegui dizer mais nada e virei-me para sair rapidamente dali. 
Segui andando pelo caminho de pedras, sem olhar para trás.
Por fim, alguns passos adiante, não resisti e tornei a olhar. Para meu alívio, Arcan não estava mais lá. Retornara ao seu ofício, por certo. Tanto melhor, pois os serviçais me aguardavam do outro lado dos arvoredos. Apressei-me. Encontrei-os. E voltei para a cúpula celeste.

Em segredo, revivi minha visita ao apiário por tantas vezes quantas me foi possível. Relembrei meus temores por conversar com um homem desconhecido. A mentirinha do nome. O leve esboço de um sorriso, por parte de Arcan, ao repeti-lo, enfatizando a palavra “mel”. Os olhos muito vivos e seguros. A satisfação ao falar-me de seu ofício. A suavidade em seu rosto, contrastando com uma expressão de firmeza. O formato de suas mãos. O quase roçar de seus dedos nos meus ao entregar-me o pote com mel.
Ai de mim, é pequeno o espaço que tenho para guardar tantas emoções novas.

*
Alguns dias depois.

Incomodada com os sons estridentes e lascivos vindos do palácio de Zeus, afastei-me dos séquitos que me rodeavam e dirigi-me ao jardim dos lírios.
O que estava acontecendo comigo? O som da lira que antes me aprazia, agora me irritava. A lua pendurada no céu que antes me fascinava, agora me era indiferente. Até mesmo a fragrância das flores que antes me inebriava, agora causava-me um pouco de náusea.
Sentei-me num dos bancos do jardim. Alarguei os olhos e contemplei aquele paraíso magnífico de cores, cheiros e beleza. Uma lágrima desceu solitária de meu olho esquerdo. O direito se comoveu também, mas ficou apenas um pouquinho úmido. Era-me difícil admitir que algo em mim se modificara. 
Mas tenho toda a eternidade para descobrir um modo de voltar a ser feliz, como fui um dia, quando criança — pensei.
Ah, aqueles dias memoráveis, que eu nem sabia a raridade dos momentos que vivia!
Completamente voltada para os meus próprios pensamentos, custei a perceber o zumbido de um bichinho por sobre as flores. Apurei o olhar sobre um dos lírios e arregalei os olhos de estupefação — uma abelha! De onde viera? Como chegara até meu jardim? Seria possível que... não, não poderia ser uma das abelhas de Arcan. Ou poderia? Se fosse, então eu a teria trazido sem saber. Mas que abelhinha esperta e aventureira! Imediatamente, identifiquei-me com ela. 
Subitamente, minha tristeza desapareceu. O ziguezaguear e o bater de asinhas da abelha me encantaram. Exibida, ela voava em rodopios arriscados. Sorri. Esqueci tudo ao redor. Éramos apenas eu, os lírios e a pequena criaturinha.

No primeiro fulgor de uma nova manhã, coloquei os pés no chão, disposta a seguir meus instintos. Banhei-me demoradamente. Em seguida, refestelei-me numa deliciosa refeição. O pão quentinho, encharcado de mel, foi degustado sem pressa.
Devidamente saciada, peguei o pequeno pote vazio e coloquei a abelhinha dentro. Iria entregá-la pessoalmente ao seu dono. Seria minha forma de retribuição, diante de seu presente. Uma troca ironicamente singela. Uma abelha, por um pote de mel. 
Para descer até o mundo terreno eu precisava de autorização. E já esgotara minha cota naquele período lunar, bem o sabia. Assim mesmo, enviei através de um mensageiro um pedido formal a Zeus. 
Num instante brevíssimo, o mensageiro retornou com a permissão concedida.
Que estranho Zeus concordar tão prontamente!
Nem ocupei-me a refletir sobre a bondade repentina de Zeus, pois meu coração ansiava em retornar ao local, para rever o homem que o fizera bater descompassado.
Exatamente como da outra vez, transfigurei-me tal qual uma camponesa, deixando a nuvem mágica oculta num lugar secreto e protegido.
Segui pelo trecho de pedras, segurando o pequeno pote. Meus cabelos muito lisos, teimavam em fugir do adorno simples de flores silvestres que eu mesma fizera. A cada passo eu ajeitava um pouquinho os fios, para não chegar ao apiário com os cabelos em desalinho.   
Assim que o vi, parei e esperei para ver qual seria a sua reação.
E se ele não lembrasse mais de mim? E se ele me perguntasse coisas que eu não pudesse responder? E se eu tivesse que inventar mais mentiras? E se...?
Ele lavou as mãos num jarro do lado de fora do casebre. Ajeitou os cabelos. Olhou-me. E sorriu. 
Fiquei imóvel, esperando por ele. E apertei tanto o pote, que por pouco não coloquei a pobre abelhinha em perigo.
— Melisa... viestes! 
— Ah! — exclamei, a voz quase sumida.
— Tenho sonhado com estes teus olhos oblíquos.
— Meus olhos? Eu os detesto. São tão esquisitos.
— São lindos.
— Eu nem sei porque retornei. Nem sei o que dizer. Eu...
— Tenho pensado na doçura do teu sorriso.
— Arcan, não pense que.... bem... só vim para devolver-lhe algo.
— Devolver-me?
— Uma de suas abelhas me seguiu.
Arcan me olhou, sem entender. Então, entreguei-lhe o pote.
Ao abri-lo, ele libertou a abelha, que voou em direção à colmeia.  
— Não tenho certeza se é uma das minhas — disse Arcan, muito sério.
Ficamos os dois em silêncio pensando no assunto.
E então começamos a rir desvairadamente. Rimos juntos. Rimos tanto, tanto, que eu me quebrei em pranto. Coloquei as mãos no rosto, numa tentativa inútil de esconder do universo o real estado de fragilidade que eu me encontrava. Emocionada, chorei copiosamente.
Arcan, colocou o braço sobre os meus ombros e pressionou os dedos suavemente, consolando-me. Não falou nada. E não fez nenhuma pergunta.
Um misto de desejo e hesitação embaçaram os meus sentidos. Queria me jogar nos braços de Arcan e ser confortada por aquele homem envolvente. Ao mesmo tempo, nuvens espessas encharcavam a minha mente de dúvidas. Eu queria ser verdadeira com os meus sentimentos, mas para isso deveria ser verdadeira com Arcan.
Minha cabeça estava cheia de vontades que o meu corpo não deveria saciar.
Somando a tudo isso a pressão dos últimos tempos, em meio as agruras de minha união com Zeus, o deus imoral, restou que derramei um céu de lágrimas sem fim.
Arcan puxou-me. Aninhou-me em seu peito. Acariciou os meus cabelos. Beijou minha testa. E aos poucos, aquietei-me, colada de encontro ao coração dele.
— Venha, um copo d’água lhe fará bem.
— Sim.
Abraçados, caminhamos até o pequeno casebre.
O interior me pareceu bem maior do que supunha. E tudo era muito limpo.
Tomei a água oferecida. Recompus-me o melhor que pude. Ordenei meus pensamentos. Agradeci. Desculpei-me. E avisei que precisava partir.
Entontecida com aquela proximidade, movi os pés para sair.
— Fique — pediu-me Arcan, com uma voz deliciosa.
— Oh, não posso. Se eu ficar terei que revelar-te que...
— Sem revelações. Apenas, fique!

Frestas de luz invadiam o cômodo, irradiando feixes de fulgores extasiantes. 
Atraídos um pelo outro, ficamos nos olhando.
Quanta beleza se esconde no mistério — pensei, desejando ardentemente me perder naqueles olhos fascinantes.
Arcan estendeu sua mão e com doçura me levou até ele. Deixei-me ir. Abandonei os pudores, os recatos, os conflitos internos e encostei meus lábios nos dele. Beijamo-nos. Mutuamente nos tocamos, nos exploramos, nos descobrimos. As mãos quentes e macias de Arcan me tiraram do chão. Sua boca, sua língua, seus suspiros, me fizeram sair do invólucro. Embebida de carícias, retribuí e entreguei-me. Deitamos no chão. Retiramos nossas vestes. Aceleramos os carinhos. Paramos. Admiramos nossos corpos. Beijamo-nos novamente. E quando parecia que iríamos explodir, recomeçamos os carinhos e os beijos, entre gemidos, suspiros e respirações ofegantes. Então, Arcan afastou minhas pernas, entrou em mim e lentamente foi me levando para o céu.
De início, suaves acordes esquentaram as cordas do meu coração. Aos poucos, os sons se propagaram e se esvaíram por todas as frestas. Por fim, uma vibrante sinfonia formou uma composição das mais formosas. Borboleteei à flor da pele. 
Tão logo nossa respiração se normalizou, recomeçamos os beijos, os olhares febris, os carinhos, os gemidos,... 
Extasiada, encostei-me no peito de Arcan, enquanto sentia o confortável calor de sua pele. 
Como eu pude viver tanto tempo sem ter experimentado tamanha satisfação?
Uma quietude morna envolveu os ares do pequeno casebre.
Arcan estava tão quieto que escorei-me frontalmente para verificar se adormecera.
O que vi foi um rosto muito sério e um olhar aberto e perdido nos vãos do mundo. 
E naquele momento eu soube. Eu soube!
Levantei-me. Vesti a túnica e arrumei os cabelos. Tudo sob o olhar atento de Arcan.
Tão logo fiquei pronta, Arcan colocou as vestes e levantou-se também.
— Preciso ir — falei.
— Poderia ficar aqui, se quisesse.
— Sim, mas realmente não posso.
— Vou acompanhá-la.
— N-Não! Eu... prefiro ir só.
— Está bem. Mas quero vê-la novamente.
— Quer? Quer mesmo?
— Sim, meu docinho, quero muito.
— Vamos guardar este momento para sempre.
— Mesmo que eu quisesse, meu doce, jamais esqueceria.
— Adeus, Arcan.
— Adeus, meu amor. Irei esperá-la. Estarei aqui.
          * 
De volta ao templo, chamei uma das servas para providenciar-me um banho. Deixei a água escorrer, retirando vestígios exteriores. Internamente eu me sentia marcada perpetuamente.
Guardaria por toda a eternidade, aqueles momentos sublimes. E por terem sido tão valiosos, não seriam mais repetidos. 
Coloquei vestes limpas. Tentei dormir, mas nem mesmo o negrume da noite me convidava ao sono.
Agitada, fiquei andando de um lado a outro. Pensando... Pensando...
Enquanto isso, lá fora, o céu estrelado anunciava mais uma noite gloriosa aos deuses do Olimpo.

*
Assisti ao nascer de um novo dia, com a certeza do que deveria ser feito.
Mandei chamarem Atena, a deusa da sabedoria. E tivemos uma conversa esclarecedora. Sem entrar em detalhes sobre as reais motivações daquele inusitado pedido, solicitei-lhe informações sobre os meus direitos e deveres como esposa de Zeus e deusa dos deuses. Embora surpresa, Atena prontamente elucidou todas as minhas dúvidas.
Assim feito, voltei aos meus aposentos. Deitei-me. E adormeci profundamente, com um sorriso sagaz no canto da boca. 

Os dias seguintes transcorreram mansamente. Retomei minhas atribuições de sempre. E mantive-me ocupada, exemplarmente. Em breve estaria pronta e fortalecida para o confronto.
Alguns dias demoravam mais a passar do que outros. Um vagar torturante, pois meus pensamentos me bombardeavam sem trégua.
Ah, como o tempo anda devagar, quando se deseja que ele voe!
Certa manhã, acordei tão bem disposta que resolvi fazer algo que sempre quisera fazer. Cortei partes dos fios próximos aos olhos, de forma a dispensar definitivamente os artifícios para mantê-los comportados. Não sei se o resultado foi satisfatório aos olhos alheios, tampouco me interessei em saber. Finalmente os fios haviam deixado de me importunar. E isso era-me suficiente.
Incontáveis luas haviam girado no céu, desde o encontro no apiário. Muitos suspiros se refugiaram em mim, a partir daquele momento inesquecível até hoje. Mas o tempo segue, apesar de qualquer desejo contrário.
Nunca mais fui até o portal, nem solicitei permissão para sair.

Encontrava-me admirando os lírios novos que haviam florescido, quando nuvens negras fecharam o céu por inteiro. Raios e trovões sacudiram o Olimpo. 
Era chegada a hora. A ira de Zeus se manifestara, como eu previra.
Preparei-me para ir ao Palácio do Poder Supremo, no exato instante em que um mensageiro trouxe-me a convocação extraordinária.
Calmamente, atravessei a alameda dourada, entre riscos de fogo que cortavam o firmamento em pedaços.
Como eu supunha, Zeus estava furioso. E isso não me provocou medo algum.
— Eis-me. Aqui estou em sua presença, Senhor.
— Como ousas desobedecer minhas ordens?
— Quais ordens, Senhor?
— QUAIS ORDENS?
— Sim. Quais? Não sei a que ordens se refere.
— Pois bem, irei refrescar-lhe a memória: por TRÊS vezes enviei um mensageiro liberando-a para que fosse até o mundo terreno. E nas três vezes ele retornou, sem resposta alguma — gritou Zeus, batendo com a palma da mão no trono.
— Senhor, não fui e não irei mais ao mundo terreno.
— Vês? Não sabes que minhas ordens devem SEMPRE serem cumpridas?
— Nem sempre. Tenho os meus deveres, mas também tenho os meus direitos. E não sou obrigada a ir onde não quero ir.
— Direitos? Deveres? — bravejou. — Saiam todos! Deixem-me a sós com Hera.
Assim que todos os séquitos saíram, Zeus abaixou a cabeça e respirou fundo diversas vezes. Quando ergueu os olhos, a tempestade lá fora cessou, as nuvens negras sumiram do céu e os raios e trovões se apagaram.
— Diga-me, o que há? Porque me olhas desse modo sereno, quando estou aqui aos gritos e ameaças? — perguntou Zeus, confuso, franzindo a testa.
— Meus olhos oblíquos estavam cegos pela veneração. Não estão mais.
— Olhos oblíquos? Mas então... então... sabias? Mas como?!
— Tens os teus poderes, eu tenho os meus.
— Perdoa-me, meu docinho. Vamos conversar. Eu não paro de pensar em...
— Esqueça! Isso é passado. Vim apenas para lhe dizer que muitas coisas mudarão de agora em diante. Queira ou não, participarei dos torneios e das reuniões. Eu conheço os meus direitos e farei uso de todos eles. De resto, tudo ficará como antes. Continuaremos em templos separados. E eu jamais o perdoarei por todas as traições. E, principalmente, jamais o perdoarei por ter me traído comigo mesma, como fizestes.
— Espere! Deixe-me explicar... Eu....
— Zeus?
— Sim, meu doce?...
— Vá ver se estou no jardim dos lírios! 
Dei-lhe às costas. Porque se ficasse mais tempo, olhando aqueles olhos magníficos, não sei se resistiria. Não sei.

*
"Tenho  a  vida inteira  para  encontrar  um  jeito de ficarmos  juntos  outra  vez" — pensou Zeus, enquanto observava a esposa se afastando.