segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Nanocontos - do terror ao humor



Ele caiu em si e nunca mais se levantou.

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Tinha fome de Glória! Devorou-a. Depois, sem ela, acabou morrendo de inanição.

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Apressado, cortou caminho por um beco de má fama, e não chegou do outro lado.


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Passou a ter fortes dores nas costas. Fez todo tipo de exame e não descobriu o motivo. Um dia, pode jurar ter visto no espelho um vulto sobrenatural pendurado em seus ombros. Estarrecido, compreendeu o motivo das dores nas costas.


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Anastácia tomou remédio para não roer mais as unhas. E deu certo! Alguns dias depois, uma a uma, suas belas unhas começaram a cair.


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Morava há anos numa casa assombrada, sem saber. Certa noite, acordou cercado por figuras fantasmagóricas e foi puxado pelos pés e sacudido violentamente nos ares e jogado contra as paredes e atirado de volta sobre o colchão. Então, soube. 


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Isolou-se tanto para escrever um novo livro que perdeu os poucos leitores que tinha. E quando finalmente lançou sua obra, ninguém lembrava mais dele.


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Era uma vez um trapezista de circo que saltava sem rede de proteção. Era uma vez um trapezista de circo.


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Ela apaixonou-se pelo carteiro e passou a escrever cartas na esperança de revê-lo. Tudo em vão. Apesar disso, continuou escrevendo. Acabou seduzindo a si mesma e vivendo o seu melhor caso de amor.  


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Zibeline tinha voz de veludo, mãos macias como seda, dentes brancos como algodão, mas tinha fetiche em ser tratada como pano de chão.


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Desde o bercinho Natanael sofria de riso frouxo. Os pais fizeram de tudo para que ele aprendesse a controlar as risadas desenfreadas. Mas quando viram que não tinha mesmo jeito, desistiram, e passaram a rir com ele.


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No zoo, Hercílio viu pela primeira vez um avestruz e ficou encantado com as feições simpáticas da ave. A segunda vez foi numa visita a uma fazenda e levou um corridão tão brabo que ficou com um pé atrás. A terceira vez, folheando uma revista, tratou logo de virar a página bem depressa.


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Acidentalmente ele encontrou num livro a palavra 'muxoxo' e achou a coisa mais querida. Tentou inseri-la em suas falas diárias mas desistiu porque ninguém entendia o significado. Daí, fez um muxoxo e devolveu a palavra ao livro.


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Astrogildo tinha 20 anos quando passou a sonhar que morreria de forma trágica. Os anos foram passando, passando... Hoje com 96 anos ele nem lembra mais disso.






Espero que tenham gostado dos meus nanocontos, amigos.

Ótima semana a todos e obrigada pelas visitas ao blog!



sábado, 13 de agosto de 2016

Autorretrato



Eu tenho um lado melhor do que o outro. O esquerdo é ligeiramente mais baixo que o direito. Coisa pouca. Um maldito meio centímetro me dessemelha assimetricamente e me deixa com um aspecto meio por cento bizarro. Como se isto não bastasse, entre as sobrancelhas desencontradas eu tenho vincos profundos que me fazem parecer maquiavélica e pronta para matar alguém.


Tento contornar esta desarmonia, inclinando levemente a cabeça. Faço isso quando caminho em locais públicos, quando me dirijo a alguém, quando me exponho frontalmente e não me resta outra opção. Afinal, não tenho como mudar os meus ossos de lugar. Na verdade, eu já me acostumei a andar retorcida. O pescoço dói um pouco. Fora isso é bem tranquilo.

A diferença é tão evidente que nas fotos em que meu rosto está reto e estou olhando diretamente para a câmera, eu pareço duas. É sério! O formato alongado de minhas feições, o queixo pronunciado e o nariz avantajado, não me favorecem.

Pensei agora algo inusitado: seriam os emos assimétricos? A ideia do franjão não é de todo ruim. Um esconderijo perfeito!

Tendo os antigos emocores como inspiração, deixei crescer uma franja, não muito grande, somente até a metade dos olhos; mas como os meus cabelos são volumosos, rebeldes e sem um caimento macio, o resultado foi desastroso. Óculos grandes também funcionariam, se eu gostasse de óculos grandes. Um chapéu com abas generosas ajudaria tremendamente. Inclinaria um pouquinho só a cabeça, para que a aba cobrisse o meu rosto quando eu julgasse necessário. Melhor ainda seria eu usar franja, óculos grandes e chapéus generosos. E o meu nariz, o que fazer com ele? E o meu queixo saliente? Não, não me digam para usar uma burka, porque senão eu vou rir e burka não é nem um pouco engraçado.

Pois então, desta dissonância facial resultou que adquiri estima por apenas um lado meu e uma verdadeira aversão pelo lado que se perdeu. Não vivemos felizes lado a lado. Tem outra cara na minha cara e não há nada que eu possa fazer a respeito.

Quando me olham, fico prestando atenção em qual lado escolhem para fixar o olhar. Sim, porque não dá para olhar direito para os dois olhos de uma pessoa ao mesmo tempo, não é mesmo? A não ser que a pessoa fique jogando pingue-pingue de um olho a outro enquanto me olha. Ráá!! Pois foi assim que eu descobri que o meu lado torto é o menos encarado.

É natural optarem pela visão alinhada porque ela causa menos desconforto. Entre o regular e o disforme, para onde escolheriam olhar por mais tempo? Embora a bizarrice cause curiosidade, a normalidade propicia uma sensação agradável. E conforto interno é como a beleza, faz bem aos sentidos. Concordam?

A verdade é que essa constatação me fez passar a analisar meticulosamente os olhares alheios. A maioria faz assim: encara o rosto cheio, olhando com os dois olhos ao mesmo tempo, depois escolhe o lado esquerdo ou o direito e se concentra nele. Podem prestar atenção e vão se surpreender. Claro, há os que miram outros pontos do corpo e param o olhar lá por algum tempo, depois vão subindo e estacionam na retina, ou desviam para a boca, para os vãos de tecidos, enfim, cada olho segue o que lhe dá apetite, ou repulsa, ou nenhum dos dois. A verdade é que relendo este parágrafo eu noto o quanto ele é irrelevante. Portanto, relevem.

O mais dramático é que o meu lado melhor também não se enquadra em nenhum padrão de beleza em voga. Pois é, quando me dizem que devo dar minha cara à tapa, rio e respondo: “vou dar sim, quem sabe ela melhora”. O mais dramático ainda do que o mais dramático é notar que poucos captam minhas ironias. E ironizar é bem a minha cara, podem crer! Só não venham me dizer que sou mulher de duas caras porque aí o tempo fecha e metáforas sairão voando pela janela.

Enquanto eu não me acostumar com o meu lado desigual, continuarei optando por fotos de um lado só.


Tenho de reconhecer que o meu outro lado me racha a cara de vergonha.


Dizem que temos de aprender a rir de nós mesmos, não
 nos levando tão a sério, pois esta foi a inspiração que usei 
ao criar esta crônica - brincar com a minha própria aparência.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sumiu e ninguém viu. Ou viu?


Eugênio despertou num certo domingo de outono, sentindo-se esquisito.

Confuso e sem entender o súbito desconforto, olhou-se no espelho. Fixou os olhos em seu rosto e sentiu um leve tremor. Um sentimento tolo de irreconhecimento o dominou. Despiu-se. Conferiu-se por inteiro, perdendo um tempo melhor em seus olhos estreitos e negros. Do fundo deles, Eugênio viu refletido um outro Eugênio. De início, ficou tenso. Depois, sentiu medo. Por fim, decidiu se rever, num esforço ingênuo e pueril de romper os indícios misteriosos e se conhecer melhor.

Suspirou e estudou-se bem de perto. Feições e trejeitos, ok! Queixo proeminente, ok! Poucos pelos no peito, ok! Excesso de peso no tronco, ok! Um membro digno de respeito, ok!  

Suspirou.

Seguiu o intento. Porém, mudou o foco e inspecionou-se por dentro.

Jovem, com sonhos envelhecidos. Introvertido e com surtos eufóricos. Curte sons de outros tempos, filmes épicos, suéter preto, mel com presunto e um bom vinho do Porto. Consegue ser dócil e ríspido em momentos idênticos. Inteligente e preguiçoso. Tímido e decidido. Ciumento e indiferente. Cínico e sisudo. Ri em momentos impróprios. Emudece por longos períodos. Sente medo de roedores e um nojo incompreensível de mosquitos. Tem horror de compromissos longos. Foge como um doido dos riscos iminentes e quer ser compreendido por isso. Seu mundo interior é um imenso deserto com flores de perfumes rústicos. Sente-se forte como um touro em certos momentos e em outros sem vigor nenhum. Em seus sonhos ele se vê engolido de um século longínquo e inserido neste ritmo enlouquecido dos tempos de hoje. Tem vezes que seu desejo é sumir, fugir, esconder-se de todos. Em outros, quer ter vínculos ternos, filhos, inclusive. Bem, tudo é possível. Como dizem, o céu é o limite. 

Preocupou-se depois de ver tudo isso nele. Julgou-se dúbio, indefinido, com os pés entre dois universos. Porém, inocentou-se no minuto seguinte, porque ninguém consegue ser cem por cento coerente o tempo todo, pensou.  

Enfim, Eugênio quer o que todo mundo quer: seguir em frente, ser feliz e ter um futuro melhor. 

Soltou outro suspiro. 

Viver é simples. Oh, porém, como é difícil!

De repente, ele entendeu o que houve. Ele mudou! Ele se renovou!

Depois de um longo tempo se vendo, percebeu que ele é hoje o mesmo Eugênio de ontem, mesmo sendo diferente. Nem melhor, nem pior. Só diferente. E reconhecer isso nele provocou um efeito que mudou o seu rumo.     

Vestiu-se.

E como se tivesse descoberto um tesouro precioso, sorriu e disse:

— Viver é isso... É sentir... É ver... É ver-se... Ver-se por inteiro!  

Depois, deixou o cômodo e levou o novo Eugênio com ele. 


 Você descobriu quem foi que sumiu? 
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Devem ter percebido, contudo, eu revelo: 

É que eu escrevi este texto inteiro sem o "a". 


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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Símbolo da razão



Um certo dia, sem nada melhor para fazer,
Pi resolve dar umas voltas pela vizinhança
Ansiando desvendar novas circunferências
E, quem sabe, transcender razoavelmente

No ímpeto de ampliar seu círculo simbólico
Desvia seu destino por diâmetros em série
Esbarrando com a gangue dos imaginários
Numa  colisão de proporções incalculáveis

Em complexidade numérica, girou um raio
Como qualquer irracional confiante demais
Excedeu-se em ousadia além do desejado
Sem  medir o valor real e a precisão exata

Arquimedes com certeza ficaria desiludido
Em ver seu ilustre pupilo em desvantagem
Mas então aparecem os racionais a tempo
Salvando  Pi  de um flagelo constrangedor



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Meninices


Eu estava com oito anos, quando conheci Jean. Minha família mudou-se para um prédio bem ao lado da casa dele. Tínhamos a mesma idade e frequentávamos a mesma escola. Diferente de mim, Jean era um menino de rosto fechado e parecia estar sempre aborrecido com alguma coisa. Como éramos vizinhos, desde o começo tentei fazer amizade, mas ele nem olhava na minha direção. Aquele jeito emburrado me intrigava. 

Fiquei amiga de outras crianças e todas me diziam para não dar bola, pois Jean nascera de mal com a vida. Porém, isso não me convencia pois eu não conseguia entender o motivo para tamanha irritação. Ele morava numa casa bonita, com uma família estruturada. Até uma bicicleta maneira ele tinha! Por que não sorria de vez em quando, pelo menos? 

Resolvi tentar "ajudá-lo", depois de passados três meses sem vê-lo sorrir uma única vez sequer. Como é possível uma pessoa não sorrir, não achar graça de nada? Nem um sorrisinho amarelo ele dava.
Eu e meus amiguinhos nos reunimos e decidimos que devíamos agir. Meu vizinho precisava de ajuda, urgente! Arquitetamos um plano infalível. Com certeza daria certo. Sempre que alguém estivesse com ele, ou perto dele, contaríamos uma piada bem engraçada. Não teria como ele resistir.  
O primeiro escalado foi Maurício. Contou uma piadinha de papagaio. Curtinha, do tipo que faz a gente trazer o riso, sem ele querer vir. Bom, ao menos conosco, porque se Jean sorriu foi por dentro. Os músculos da face nem se mexerem. Que desconcertante! Teríamos que planejar melhor. Ele realmente era duro de fazer rir.
No dia seguinte, foi a vez de Pedrinho. Assim que teve oportunidade, lascou direto a pergunta:
— Sabe a piada do Joãozinho?
— Não! - respondeu Jean, desinteressado.
— É assim, escuta só: “A professora pergunta pro Joãozinho, quanto são cinco mais cinco? Ele pensa um pouco, conta nos dedos e responde: dez. Ah, não vale contar nos dedos, diz ela. Coloca as mãos nos bolsos. Isso, agora responde, quanto são cinco mais cinco? Joãozinho conta em silêncio  e fala: onze, professora.”
— Já acabou? Então eu vou indo, porque minha mãe está me esperando - falou Jean. 
Incrível! Como não achou graça da piada? Joãozinho conta os cinco dedos de um bolso, o tiquinho no meio e os cinco dedos do outro bolso. Bobinha, é verdade, mas acho engraçadíssima. A primeira vez que me contaram tive um acesso e quase me mijei de rir. 

É, teríamos que mudar de tática, o caso dele parecia mais grave do que pensávamos. Agora tornara-se um desafio, faríamos ele rir de qualquer maneira. Nem que tivéssemos de fazer cócegas.
Bem, não seria assim tão simples, como descobrimos depois.
Durante a semana inteira nos revezamos, contando piadas, dizendo bobagens, fazendo brincadeiras do tipo   "O que é uma bolinha vermelha escondida atrás da porta?  É uma ervilha envergonhada!" Rá-rá-rá! Rimos todos, para ver se contagiávamos Jean.  Nada. Impressionante.
Combinamos fingir que cairíamos no chão, escorregando em algo imaginário. Foi hilário. Fabinho fez que escorregou em uma casca de banana inexistente e se estatelou de bunda no chão. De novo, nenhuma reação.  E olha que foi bem na frente dele. Jean era um caso de internação. Não entendíamos como a família dele não ficava preocupada, com tanta seriedade numa criança. Ele tinha apenas oito anos e não ria de nada. Já estávamos pensando em desistir de nossa intenção, pois tínhamos esgotado nossa cota de piadas, coisas engraçadas e tal. 
Um dia perguntamos: "O que te deixa alegre, feliz, satisfeito? "Não sei, não me ocorre nada agora" - respondeu  ele, bem assim, como um homem sério, sem ainda nem ter crescido para tanto.
Bom, talvez se a gente levasse ele num circo, vendo as trapalhadas dos palhaços, a gargalhada que estava presa se libertasse.

Levamos. E também não deu certo.

O fato é que fomos desanimando. Não sabíamos mais o que fazer.
Assim foi que desistimos e o deixamos em paz, pois nossa boa intenção já estava virando uma perseguição. Quem sabe, com o tempo ele aprendesse a sorrir. Afinal, o sorriso é nossa forma de expressar alegria de viver. E isso é algo que acontece naturalmente.
Algumas semanas depois, já tínhamos nos acostumado com a cara amarrada de Jean. Estávamos todos juntos na frente da casa dele, papeando. "Bah, que coceira no umbigo" - falei, de repente. 

Para nosso espanto, Jean começou a repetir: "umbigo, umbigo, umbigo" e desatou a rir. Riu tanto que chegamos a ficar preocupados. Rimos juntos, feito um bando de crianças felizes. Como todas as crianças devem ser, não é mesmo?
Dizem que até hoje ele não pode ouvir a palavra umbigo que cai numa risada convulsiva.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Brincando com as palavras



A surpresa é uma presa que também se surpreende e nunca aprende.

O soluço só cansa de soluçar quando não encontra outra solução.

O entusiasmo esbarrou na preguiça. A preguiça não gostou e até pensou em revidar, mas se espreguiçou, espichou-se no sofá e dormiu.

Ele tinha um coração de ouro. E por conta disso, foi explorado até perder o brilho.

Se eu tenho já não quero, quando não tinha eu queria. Eu queria porque não tinha, ou queria porque queria?

Dou tanta vida aos meus personagens que eles fogem linha afora pelas páginas e preciso correr atrás para trazê-los de volta.

Minha imaginação é tão fértil que só de imaginar a planta do meu pé as sementes já começam a germinar.

Tem dias que não estou a fim de socializar mas entro na rede social assim mesmo só para ver os outros socializando - daí me sinto mais sociável.

Eu te amo sem mais nem por que, porque se tivesse por que não seria amor... seria... sei lá o que.

Nesses dias gelados, você nem faz ideia de como aquece o meu coração e o meu corpo inteiro. Nem imagina como fico quentinha perto de você. Ah, EU TE AMO, Split!



sexta-feira, 13 de maio de 2016

Paredes Vivas - quinto capítulo


O tempo,
este senhor de sapiência infinita,
nem sempre desamarrota
o que passou.

Meu retorno para a escola ocorreu sem traumas. Organi­zada, deixei tudo pronto na véspera para facilitar: a mochila com cadernos, estojo com lápis e canetas, o uniforme limpo, escorado na poltrona, bem como os sapatos e as meias. Naturalmente, Nice havia cuidado disso para mim com o zelo de sempre. A saia azul-marinho e a camiseta branca com o emblema do colégio bem passadas e impecáveis. Para os dias mais frios temos um casaquinho listrado nas cores marinho, branco e cinza. Além de um agasalho para praticarmos esportes.

Como a escola fica a uns dez quarteirões daqui, mamãe me levou de carro. Falei que não precisava. Eu poderia ir de bicicleta, mas como era o primeiro dia mamãe fez questão de me acompanhar.

O dia iniciara refrescante. Estávamos na segunda semana de fevereiro. Então, por certo, ainda teríamos muito calor pela frente.

Saímos. E, pontualmente às sete horas e trinta minutos, paramos em frente ao prédio. Despedi-me com um abraço caloroso. Depois acenei um tchauzinho, antes de entrar.

Tão logo atravessei o portão, um arrepio percorreu minha espinha ao ver a multidão de crianças entusiasmadas pelo reen­contro com os colegas depois das férias prolongadas de verão. Aquela algazarra me fez sentir vontade de sumir dali. Não queria conversar nem interagir com ninguém. Talvez eu devesse ter ficado mais uns dias em casa. Ainda não estava pronta para enfrentar olhares piedosos que certamente iriam me lançar. Sem contar as perguntas que me fariam, a curiosidade e os dedos apontados na ferida ainda aberta, sensível, doída e sangrenta.

Pois foi exatamente isso o que aconteceu.

Fomos todos para o ginásio. A diretora saudou-nos e em seguida fez um pequeno discurso para oficialmente celebrar a abertura do ano letivo. Cumprimentou professores e nos desejou bons estudos. Destacou também a presença de dois alunos novos: Tobias e João Gregório. Demos as boas-vindas a eles com uma salva de palmas.

Em seguida a diretora lembrou, com pesar, a morte do doutor Artur Macedo de Souza, cuja dívida de gratidão seria eterna visto que ele era um homem estimado na cidade, querido e generoso. A Fundação Avelar, criada por meu avô para incentivar eventos culturais e administrada por papai, patrocinava compe­tições esportivas de minha escola e de outras instituições de ensino.

Senti os olhares fixos em mim.

Uma combinação de vergonha e gratidão me sacudiu. Queria sumir dali e ao mesmo tempo fiquei comovida por papai.

Após a homenagem, enfatizando que aquela era uma perda irreparável e sua morte uma infelicidade enorme, a diretora pediu que fizéssemos um minuto de silêncio.

Nunca um minuto demorou tanto a passar.

Pronto, agora a escola inteira sabia de meu luto. O que eu tanto temia acontecera. Virei o assunto do momento. Quem desconhecia o ocorrido era rapidamente informado por outros. Logo o colégio todo comentava sobre a morte de papai numa pescaria na lagoa assombrada.

Enquanto íamos em direção às salas de aula, pensei na promessa que fizera de não voltar a chorar. Como era difícil! Segurei firme a vontade de molhar as faces com lágrimas. O momento não poderia ser mais impróprio. A melhor coisa a fazer seria me concentrar nas lições e continuar sendo uma boa aluna, com um rendimento escolar acima da média, dedicada e estudiosa como sempre fora.

Com exceção dos dois novatos, que descobri fazerem parte de minha turma, o restante permanecera igual ao ano anterior.

Sentei na segunda fileira, recostada à parede, próxima às janelas. A professora entrou, quis saber sobre nossas férias e se estávamos animados para mais um período escolar. Cumprimentou os alunos novos e aproximou-se de mim dando-me os pêsames. Apenas olhei e balancei a cabeça em agradecimento.

Queria que o tempo voasse e ninguém mais tocasse no assunto. Queria que o tempo varresse de minha memória qualquer resquício de tristeza. Queria que as pessoas não me olhassem com piedade. Queria curtir minha infância, como as outras crianças.

Ah, o tempo!...

Nesta época, eu considerava o tempo um grande aliado.

Desatenta, demorei a voltar a prestar atenção na aula. A professora escrevia no quadro-negro o tema da nossa primeira redação do ano. “Eu sou”... Devíamos nos descrever em apenas uma frase, ressaltando uma ou mais características dominantes e também um ou mais pontos fracos.

Pegamos a folha que nos foi entregue, abaixamos a cabeça e em silêncio escrevemos.

Sem olhar para os lados, peguei a caneta e prontamente redigi. Não me pareceu difícil falar de mim em poucas palavras. Ao contrário, em menos de um minuto concluí e entreguei minha frase.

Eu sou uma garota sonhadora que vive tendo pesadelos e 
mesmo sendo muito medrosa não resiste a um bom desafio.

Mauren Avelar - Santo Antônio, fevereiro de 2003


Os papéis em que escrevemos a frase, na verdade, eram as metades de uma folha inteira, quase um cartão. E à medida que eram recolhidos pela professora iam sendo fixados com alfinetes num grande mural de feltro que ficava na parede do fundo de nossa sala de aula.

Trinta e dois papeizinhos.

Achei que a professora iria ler para nós cada um deles, mas não. Avisou que eles ficariam lá até nossa próxima atividade.

Lógico que fiquei louca para ver o que meus coleguinhas tinham escrito. E assim que tocou o sinal para o intervalo fui lá conferir.

Quis ler primeiro o que os alunos novos haviam escrito, já que os demais eu conhecia mais ou menos e não me despertavam tanto interesse. Na verdade, mesmo tendo ótima memória algumas lembranças dessa época, são um pouco imprecisas.

João Gregório, que em pouco tempo passamos a chamar de Gregor, era um menino ruivo, sardento e um pouco rechonchudo. Foi a primeira pessoa de cabelo vermelho e com maior número de sardas que conheci na vida. Muito tímido, mas com um sorriso de dentes grandes e branquinhos. Ganhou minha simpatia.

A frase de Gregor encheu meu coração de ternura: “Eu sou... feliz, apesar de ser um garoto muito feio e complexado.”

Tobias tinha olhos negros, raivosos, cabelos castanhos e muito lisos. O que ele escreveu me atingiu de um modo esquisito. “Eu sou... a mosca que vai cair na sua sopa.” Não sei, mas assim que li percebi uma ameaça por trás das palavras. Mas talvez fosse apenas um deboche utilizando o trecho de uma letra de música.

O fato é que, algum tempo depois, minhas suspeitas iriam se confirmar: Tobias sentia prazer em incomodar, em ser a mosca na sopa.

Fui para o pátio tomada por uma angústia, um aperto no peito. Ainda com tão pouca idade, sem ter uma clara noção do que seria um mau pressentimento, suspeitei, mesmo sem nenhum motivo aparente, que alguma coisa ruim iria acontecer em breve.

Em pouco tempo alguns colegas me cercaram e me fizeram perguntas sobre o que realmente acontecera na lagoa. Queriam saber detalhes que eu sequer teria como responder.

Chateada, voltei para a sala vazia.

Sentei. Escorei os cotovelos na mesa. E foi nesse momento que vi o pedaço de um papel dobrado embaixo do meu caderno. Desdobrei. Com as mãos trêmulas, fui lendo o que estava escrito. E fiquei pasma com o teor do bilhete:

DUVIDO QUE VOCÊ RESISTA A UM BOM DESAFIO.
MAS SE ISSO FOR VERDADE, ME ENCONTRE HOJE
À MEIA-NOITE NA PORTA DO CEMITÉRIO.


Quem poderia ter escrito aquilo para mim?

Desconfiada, olhei pela janela em direção ao pátio lotado de crianças. Como saber quem havia deixado aquele bilhete? E por quê? Com qual intenção? Seria uma brincadeira maldosa?

Não havia como eu saber... a menos que...

A menos que eu fosse ao encontro no cemitério.

Levantei e fui até o fundo da sala para ler novamente os cartões no mural.

Quem sabe em algum deles eu reconhecesse a letra do bilhete.

Passei os olhos por todos eles. Nada. Mas, quando cheguei ao meu cartão, notei que haviam colocado uma interrogação no final de minha frase, bem grande, entre parênteses.

Então, a provocação estava declarada.

E eu teria até a meia-noite para decidir o que fazer.

[...]




* Paredes Vivas é uma obra de ficção *

* O romance é composto por 20 capítulos no total *

* Todos os poemas que precedem os capítulos são de minha autoria * 

* No link do Skoob podem conferir a sinopse e resenhas do romance *



quarta-feira, 11 de maio de 2016

Paredes Vivas - quarto capítulo



Retrato meus dias
com as cores que
tenho em mim.

Um aguaceiro desabou sobre a cidade, me tirando da cama antes da hora. Era cedo. A casa ainda estava silenciosa. O relógio redondo da parede do meu quarto marcava seis horas. Cedo demais para eu me levantar. Meus olhos ardiam de sono, pois novamente eu tivera muitos sonhos ruins. É difícil dormir com a cabeça cheia de sombras. Ah, se mamãe estivesse melhor, eu teria disparado para o quarto dela como fiz tantas vezes ao ter pesadelos. Respirei fundo. Aguentei firme. E não fui perturbá-la.

Levantei a persiana para espiar a chuva, quando relâmpagos cortaram o céu seguidos por uma série de trovoadas. Levei um susto tão grande que fechei a persiana na hora e me escondi embaixo das cobertas.

Fiquei encolhida, aguardando cheia de medo novos clarões e trovões. O ruído dos pingos fortes sobre o telhado me manteve em vigília. Se antes eu já tinha medo de tempestades, agora então, depois do temporal que vitimou papai, eu tenho ainda mais.

Papai, que saudades!...

Tem apenas seis dias que ele foi enterrado, mas as imagens do sepultamento permanecem vivas em minha mente, como se o tempo tivesse congelado naquele momento, lá no cemitério.

Perdida nas lembranças, acabei cochilando.

Escutei barulhos na cozinha.

Eram sete horas e trinta minutos. Levantei. Fui ao banhei­ro. Retornei. Troquei o pijama curto por um vestido leve, floral, de alças bem finas. Calcei os chinelos de ficar em casa e saí para ver quem estava acordado.

Tão logo botei os pés no corredor, já pude sentir um aroma delicioso de café tomando conta da atmosfera de nossa casa.

Acho esta uma casa muito aconchegante. Não é nenhum palácio, mansão, ou residência suntuosa, ao contrário, a simplici­dade está em toda parte. Qualquer pessoa que chega aqui sente-se à vontade, pois ao decorá-la mamãe priorizou o conforto em vez do luxo e da ostentação. Nossa casa é térrea, com suítes espaçosas, separadas do restante dos aposentos por um pequeno hall fechado. A cozinha, a despensa e a área de serviço ficam numa das laterais. Na parte da frente, o gabinete, as salas de estar, jantar e uma saleta de leitura. Um corredor central interliga todos os cômodos, em cujas paredes é possível admirar várias telas com pinturas da plantação de cana-de-açúcar de meus avós maternos. Todos os quadros são assinados por Margot Avelar, pintora talentosa de quem devo ter herdado a facilidade para desenhar e o gosto pelo desenho.

Quando entrei na cozinha me deparei com Nice preparando nosso café da manhã. Dei um meio-sorriso e falei um “olá”, sonolenta. Sentei. Cruzei os braços sobre a mesa. E fiquei por ali, mais para ter companhia do que para comer qualquer coisa.

— Caiu da cama, menina?

— Arrã.

— Que foi, hein? Que carinha é essa?

— Medo, Nice. Medo.

— Ora, ora, mas medo de que, menina?

— Do temporal, do relâmpago, do trovão, de cair um raio em cima da gente e...

— Ahh, pobrezinha, não vai acontecer nada disso não, viu? Foi só uma chuva forte, mas já está acalmando. E depois...

Nice interrompeu o que ia dizer. Abriu um sorriso largo, olhando para alguém atrás de mim.

— Mãezinhaaa! — gritei, contente por vê-la em pé e com a aparência tão boa.

— Bom dia, Nice. Bom dia, filha. Que está fazendo acor­dada tão cedo, mocinha?

— Tive um pesadelo horrível. Aí fui espiar a chuva e um raio quase entrou no meu quarto.

As duas riram do meu exagero.

— Vem cá, filha, me dá um abraço bem apertado.

— Assim? — perguntei enquanto abraçava forte e enchia mamãe de beijos.

— Assim mesmo — respondeu, entre risos, retribuindo todos os meus carinhos.

Mamãe parecia recuperada. Suas faces estavam coradas, seu semblante mais suave e o olhar brilhante voltara. Falou que após o café iria providenciar a Missa de Sétimo Dia de papai. E pediu para Nice caprichar no cardápio, pois iria convidar a irmã e o cunhado para virem almoçar conosco.

Suspirei aliviada ao ver mamãe reagindo e se reerguendo diante do baque sofrido. Vê-la mais forte me fortalecia. Vê-la voltar a sorrir me fazia querer sorrir também.

Após um tempinho com elas voltei para o meu quarto, a fim de dormir mais um pouco.  

Enfim a chuva cessara.

Abri uma fresta na janela, só para conferir.

O cheiro de terra molhada, ressecada por vários dias de sol inclemente, inundou minhas narinas.

Assim, curtindo o frescor de uma brisa suave misturado ao odor agradável da grama cortada na véspera, retornei para a cama.

Embora eu estivesse menos tensa por ter visto mamãe restabelecida, não consegui ter um sono tranquilo. Após várias noites insones e com sonhos agonizantes, pensei que finalmente iria dormir serenamente. Em vão. O pesadelo me envolveu tão logo entrei em sono profundo.

Em meio a uma nuvem de fumaça vi-me jogada em mãos implacáveis. Uma figura gigantesca, com garras enormes, invadiu o quarto pela abertura da janela puxando meu corpo para fora com violência e me arrastando pelas ruas da cidade. Esperneando, senti meus cabelos crescendo velozmente, esverdeados como a grama do jardim. Do couro cabeludo saíam ramos extensos, usados pela enorme criatura para me prender em uma das árvores próximas enquanto eu era levada para o fundo do rio. Sem conseguir respirar, debati-me, aterrorizada, como um peixe preso no anzol. Então... acordei!

Mauren, não vá enlouquecer, justo agora.

Por eu estar ofegante, custei a recuperar o fôlego e a razão.

Mesmo constatando que tudo não passara de mais um sonho terrível, fechei a janela.

E no exato instante em que eu vivia um grande conflito, correr pedindo colo ou ficar sem dormir dali em diante para evitar outros pesadelos, eis que Nice surgiu para avisar que meus tios haviam chegado e o almoço seria servido em breve.

Recompus-me. Embora por dentro estivesse desgrenhada, com as ideias em desalinho.

Assim, ainda sob o efeito daquelas imagens angustiantes, entrei na sala de jantar.

Cumprimentei educadamente meus tios, como uma boa menina.

Sentamo-nos todos para fazer a refeição.

Um aroma delicioso e peculiar exalava de uma grande travessa de porcelana, coberta, disposta no centro da mesa. Não podia ser!

Antes mesmo de ver eu soube o que era. Enquanto todos se serviam fiquei olhando sem acreditar na falta de sensibilidade de Nice. Preparou um belo prato de.... peixe à escabeche! Como pudera? Como pudera fazer aquilo?

Não sei se por esquecimento ou falta de tato, mas depois de tudo o que houve Nice nos servir peixe à escabeche me pareceu afrontoso, repulsivo e deixou meu estômago embrulhado.

Nauseada e com um nó na garganta, disfarcei o melhor que pude. Fingi comer, pois não queria chatear mamãe.

E enquanto brincava com a comida no prato observei o que acontecia ao meu redor. O teor das conversas me deixou estarrecida.

Tio Vicente falava sobre inventário, papeladas, situações legais a serem resolvidas. Com uma expressão tranquila, discutia com mamãe os problemas práticos da indústria de aguardente, na qual ele e papai estavam à frente sob o aval das irmãs, herdeiras de um patrimônio que envolvia plantações, engenhos, fábrica de engarrafamento, distribuição e um prédio onde funcionava a administração central. Naturalmente tudo ficaria nas mãos dele, dizia mamãe tendo a concordância de titia.

Tia Margot chegou a gargalhar em meio a uma das costumeiras piadas sem graça que o marido contou. Sem falar na preocupação em não adiar uma viagem já planejada a um de seus cursos de História da Arte.

Uma semana apenas da morte de papai e conseguiam gargalhar, fazer planos entre uma garfada e outra de peixe. Peixe!

Em choque, percebi o quanto eu estava só.

[...]



* Paredes Vivas é uma obra de ficção *

* O romance é composto por 20 capítulos no total *

* Todos os poemas que precedem os capítulos são de minha autoria * 

* No link do Skoob podem conferir a sinopse e resenhas do romance *