segunda-feira, 11 de maio de 2020

Somos todos vulneráveis




E, de repente, nos vimos todos em meio a uma pandemia de proporções incalculáveis, embora façam muitas projeções. Covid-19 está assustando o mundo inteiro porque se dissemina rapidamente, atacando as vias respiratórias das pessoas infectadas, causando mortes em alguns casos, alastrando o medo em cada um e provocando muitas incertezas sobre o retorno da normalidade.

Achei que 2019 tinha sido um ano tenebroso, com toda aquela rivalidade por conta de escolhas políticas, dividindo as pessoas em lado direito e esquerdo. Alguns amigos e familiares se desentenderam e até deixaram de se falar.  

Ledo engano. Este ano de 2020 ficará marcado na história e em nossas lembranças, não apenas ao mexer com a rotina de todos de forma impactante, mas por ter nos forçado a enfrentar um mal invisível. "Fique em casa!" "Lave bem as mãos." "Saiam somente se for necessário." Recomendações novas.

Não estranhei o isolamento social. Estou acostumada a voltar para uma casa vazia. Moro sozinha e longe da família, num apartamento pequeno em Porto Alegre. Porém, embora estar só não seja um problema para mim (em tempos de pandemia e/ou em qualquer época), uma quarentena afeta o dia a dia de todos, inclusive o meu. Tento seguir mantendo meus hábitos de sempre (lendo, fazendo exercícios, montando quebra-cabeças, escrevendo, escutando música, vendo séries e assistindo noticiários só o suficiente para me manter informada.

Incluí agora um novo costume: manusear o rosto o mínimo possível. Faço exercícios para coçar o rosto com as costas das mãos, somente. Difícil resistir! Quando me dou conta já estou esfregando os olhos, passando a mão na boca, no nariz. Um perigo! Tenho de intensificar o exercício, senão... 

Não possuo uma varanda para pegar sol diariamente. Ah, como eu queria ter uma varanda! Mas não tenho. E o que eu tenho nesse meu espaço reduzido? Uma nesga de sol que bate na cozinha, num momento curto do dia. Coloco uma cadeira ali, abro bem a janela, e fico sentada por quinze minutos, com roupas leves, braços e pernas desnudos, sem protetor solar. Dizem que é o tempo e modo necessários que nosso corpo precisa para produzir vitamina D (tão importante para termos imunidade contra as doenças). Vou arrastando a cadeira, aproveitando até o último pedacinho de luz natural. Quando o sol se vai, respiro fundo e agradeço: "obrigada, universo!".

Depois de duas semanas "presa" em casa, saí para colocar o lixo no container do outro lado da rua. Foi bem esquisito. Eu me peguei cheia de medos novos. Abri a porta do elevador com desconfiança. Apertei o botão para descer. E tudo que eu ia tocando, de repente, passou a representar uma ameaça possível.

Na volta encontrei uma vizinha e tentei mostrar normalidade. Mas por dentro eu queria mesmo era voltar correndo para a segurança do meu lar-doce-lar e lavar bem as mãos com sabonete por 30 segundos.

O preocupante é saber (ou imaginar, ou supor, ou especular) que existem muitas formas de sermos infectados e por mais cuidados que tenhamos, ele (o vírus) pode nos pegar. Ainda assim, prevenção é a medida mais acertada.

Fiz compras no supermercado online porque o mais próximo aqui está a 600 metros. Daí, fui colocando "no carrinho" tudo que eu precisava. Bem prático.

Dois dias depois minhas compras chegaram. Levei um susto com o som do interfone. E eu sabia que ele iria tocar! Imagine o grau de tensão que uma quarentena provoca numa pessoa. Pois é. Ando tensa. Impossível não ficar.

Desci. Não encontrei ninguém no caminho. Abri a porta para um rapaz com máscara de proteção. Ele colocou as sacolas num canto, mantendo uma distância recomendável. Foi estranhíssimo. O rapaz com medo de mim. Eu com medo do rapaz. Naquele momento, representávamos uma ameaça um para o outro. Nunca pensei passar por algo assim. Só o medo de assaltos me fazia antes ter esse tipo de reação. Coisas que só uma pandemia batendo na nossa porta nos faz passar.

Vamos superar essa fase nebulosa. E talvez cada um passe a se cuidar melhor depois que nossas vidas voltarem ao normal. Porque até criarem uma vacina para o Covid-19, temos de ter em mente que somos todos vulneráveis. Então, será inteligente de nossa parte se continuarmos nos cuidando como agora.

Cuidem-se bem. Um abraço caloroso a todos.


*   *   *

Obs.: Esta crônica foi escrita dia 02/04. 
A tensão reduziu. Os cuidados e o isolamento 
continuam, porém mais leves. A vida segue. 






sexta-feira, 13 de março de 2020

A passageira




Entrei no ônibus intermunicipal que me levaria a uma cidade interiorana. Sentei e me preparei para uma viagem de muitas horas. Era um dia de inverno tipicamente gaúcho e fazia um frio de gelar os ossos. No entanto, a temperatura interna estava agradável.

Tirei da bolsa um livro de suspense, para me fazer companhia e também para enganar o tempo, fazendo o trajeto ficar mais curto.

Os passageiros foram se acomodando e ninguém apareceu para sentar na poltrona ao meu lado. Tanto melhor, faria minha leitura sossegada, sem distrações.

Eu já sorria satisfeita por ver que viajaria sozinha sem ninguém na poltrona ao lado, quando escutei sons arrastados no corredor. Fiquei torcendo para que a pessoa passasse reto pelo meu lugar, mas o retardatário sentou-se ao meu lado. Suspirei. Educadamente olhei para cumprimentar e senti na hora um inexplicável arrepio. Uma mulher. Uma jovem senhora, dona de um semblante sombrio e ao mesmo tempo sereno. Ela retribuiu meu cumprimento com uma inclinação de cabeça e o esforço de uma tentativa de sorriso. Reparei em suas mãos vazias. Achei estranho ela não ter nenhuma bolsa, nem mesmo uma mala pequena. Talvez já tivesse colocado tudo no bagageiro, concluí. Existem pessoas esquisitas no mundo, pensei na hora. Eu também tinha as minhas esquisitices.  

— O lugar 27 é meu — disse ela com firmeza, apontando para a poltrona da janela onde eu me encontrava.

Seu tom de voz e seu modo seguro de falar me fizeram levantar e ceder-lhe o lugar. Eu tinha certeza que o assento era meu. Bastava pegar meu comprovante e mostrar-lhe. Mas resolvi não criar caso. Assim, sem dizer nada, levantei e deixei que ela sentasse na janela.

Enquanto recolocava meu cinto de segurança, reparei que a mulher tinha uma pele muito clara, como se nunca tivesse ficado ao sol. Usava brincos e colar de pérolas. Trajava uma roupa escura e tinha um semblante triste. Um rosto difícil de esquecer, sem dúvida.

Peguei meu livro, recostei-me bem e preparei-me para uma viagem sem maiores surpresas. A jovem senhora fechou os olhos e dormiu todo o trajeto até o local onde faríamos uma parada de meia hora, como se estivesse muito cansada. Depois disso, novamente em curso, ela começou a conversar comigo. No início não demonstrei muito interesse em ouvi-la, mas alguma coisa nela fez com que eu desistisse da leitura e ficasse atenta a tudo o que me dizia. Fez um relato de sua vida, detalhando muitas tristezas e sofrimentos, conseguindo a cada palavra minha total atenção.

Ela me disse que fugira de casa com seu grande amor, há dez anos, numa viagem num ônibus como aquele, levando muita dor no coração por ter deixado sua família. Seus pais não aceitavam seu romance por ele ser bem mais jovem que ela. Então, nada mais lhe restara fazer, a não ser ir embora. Sua vida não seria fácil, porém, tomara uma decisão sem volta. Partiu sem levar bagagem, somente com a roupa do corpo.

De vez em quando eu olhava para a mulher em sinal de solidariedade. Mas nada falei.

— Não sinto as minhas mãos — ela disse — esfregando os dedos longos uns nos outros.

A mulher devia ser friorenta, pois estava até quentinho dentro do ônibus.

Abri a boca para dizer-lhe isso e comentar algo a respeito, quando finalmente chegamos.

Levantei e puxei minha mochila do compartimento superior de bagagem. E, então, algo espantoso aconteceu. A mulher desaparecera! Não estava mais na poltrona! Sumira! Senti um calafrio na espinha, sem entender como aquilo seria possível. Eu tinha ficado em pé, na frente da poltrona, para pegar a mochila, não havia como ela ter saído sem esbarrar em mim. Impossível! Olhei para os lados, observando as pessoas se levantando e pegando seus objetos, sem compreender como a mulher tinha saído de forma tão repentina. 

Impactada, mas ainda achando que a mulher estivesse dentro do ônibus, desci e fiquei esperando todos saírem para me despedir da jovem senhora. Mas ela não desceu.

Aquilo era esquisito demais. Ela não poderia ter descido sem eu ter visto. Uma sensação incômoda tomou conta de mim.

Perguntei a duas pessoas de poltronas próximas se tinham visto a mulher sentada ao meu lado e fiquei ainda mais cismada ao me olharem como se eu perguntasse algo insano. Disseram que não tinham visto ninguém comigo, pois eu viajara sozinha.

Como assim, sozinha? E a senhora sentada ao meu lado durante toda a viagem? Fiquei atônita e fui perguntando aos passageiros que ainda estavam por ali se tinham visto e ninguém sabia dizer nada. Nem mesmo o motorista lembrava de uma passageira ter chegado atrasada. Falei de suas características físicas e... nada. Não tinha visto. 

Deixei a rodoviária sem entender nada, pensando em tudo o que ela me contara. Dei-me conta que sequer sabia seu nome. Nunca acreditei em fantasmas, almas que assombram ou coisa do tipo, mas para meu próprio bem-estar eu precisava descobrir quem era aquela pessoa que viajara ao meu lado e depois desaparecera.

Fui pesquisar na internet e para meu espanto descobri que ocorrera um grave acidente de ônibus, há dez anos, vitimando todos os passageiros ao cair de uma ponte, sendo a morte de dois deles a mais trágica, pois seus corpos foram partidos ao meio e suas mãos decepadas do corpo, encontradas distante do local, entrelaçadas. Havia uma foto da mulher e do homem ... e ela era a mesma pessoa que viajara comigo.

Tremendo por dentro, decidi que nunca mais viajaria na poltrona 27.                    




sábado, 7 de março de 2020

Quebrando a cabeça


Olá, blogueiros! De vez em quando eu me ausento por um tempo prolongado, mas como sou apegada a este espaço tão querido pra mim (e sinto saudades de todos vocês), sempre retorno. Ainda assim, desculpe pelo sumiço.

Em janeiro/2018 montei meu primeiro quebra-cabeça (Paris, 1000 peças). Gostei tanto que não parei desde então. Já tenho até o momento 46 (nacionais e importados) e ainda não enjoei, como pensei que aconteceria. A cada um que eu compro digo que será o último. Mas, que nada! E lá vou eu comprar outro, depois outro e aiai...já estou com a estante lotada, de livros e puzzles, minhas duas paixões.









Criei uma fanpage AmoPuzzles, onde mostro meus quebra-cabeças.

Sigo escrevendo e preparando novos livros para lançamento. 
O importante é não deixar o cérebro mofar, não é mesmo? rs

Beijos e abraços!

♥Espero que estejam todos bem, assim como eu♥






segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Noites de arrepiar



Lá do alto, a pequena Agnes, acompanhada de sua bonequinha Bel, observa as casas enfeitadas com abóboras iluminadas, esqueletos e outros adereços macabros.
     
Uma vez ao ano, na noite das bruxas, no dia de seu aniversário, coisas pavorosas acontecem.

Agnes esconde um terrível segredo: Bel, não é uma boneca como as outras. Não. Ela é diferente. Ela é doce, gentil e carinhosa. Ela anda, fere e mata. E no dia seguinte, volta a ser uma inerte boneca de pano como as outras.
 
Ninguém jamais entenderia os mistérios que envolvem os poderes de sua vassoura mágica e as habilidades malignas de sua amiguinha.

A própria Agnes também já desistira de tentar compreender.

O começo - dia do aniversário

Na festa de quatro anos de Agnes, seu adorado pai cantava parabéns, sorridente, batendo palmas, quando subitamente sofreu um infarto e caiu morto sobre a mesa do bolo.
 
Houve gritos, choros, desespero.

Desligaram a música. Colocaram o corpo com cuidado num sofá e chamaram socorro.

Tudo isso diante dos olhos da pequena criança.

Deise, a mãe de Agnes, em choque, empalideceu, tonteou, amparou-se em quem estava mais próximo e perdeu os sentidos, aumentando ainda mais a preocupação de todos os presentes, com tamanha tragédia, num dia que deveria ser festivo. 

Esquecida por instantes, Agnes encolheu-se num canto da sala, colocou as mãos nos ouvidos e ficou chorando quietinha. Amava seu pai mais que tudo. Horas antes da festa ele a abraçara e dissera que estaria sempre por perto quando ela precisasse.

“Mentira! Ele mentira!”

Fosse pelo trauma de ter visto o pai falecer em sua frente ou por isto ter acontecido durante sua festa de aniversário, o fato é que Agnes não foi mais a mesma. Sua primeira experiência com a morte marcou precocemente o fim de sua inocência. Uma dor imerecida cravou-se nela e nunca mais saiu.

Depois daquele dia, a avó de Agnes veio passar um tempo com elas.

Vovó Mary se esforçava para colocar um pouco de alegria no dia a dia da filha e da neta, mas a tristeza não deixava a rotina das duas voltar a ser como antes.

Deise, por sua vez, fechou-se num mundo à parte. Andava pela casa como se não enxergasse ninguém. Respondia o estritamente necessário e assim mesmo depois de alguma insistência. Uma vez por semana comparecia ao terapeuta e ficava durante os quarenta minutos com o olhar distante, sem falar nada.

A dor da perda estava sendo difícil de ser superada. Passava os dias olhando fotos, alisando as roupas do marido, falando com ele como se ainda estivesse vivo.

Assim, com o luto recluso da mãe, Agnes só podia contar com sua avó para lhe fazer companhia.

Algumas vezes pedia para vovó Mary lhe contar histórias, mas logo perdia a vontade, dava boa noite, fechava os olhinhos e fingia dormir, para que a avó saísse do quarto e ela pudesse chorar sozinha até adormecer.

Na prateleira acima de sua cama, várias bonecas e bichos de pelúcia permaneciam acomodados.

Queria tanto um amiguinho!

Agnes se sentia abandonada pela mãe, incompreendida pela avó, traída pelo pai.
     
Ganhara de aniversário uma vassoura, um chapéu e uma roupa de bruxinha. Presente de uma de suas tias que entregou a ela rindo, querendo fazer graça, como por brincadeira, pelo fato dela ter nascido no dia das bruxas.
     
Agnes achou engraçado na hora e se divertiu correndo pela casa, imitando uma bruxa, voando em sua vassoura.
     
Mas isso foi antes. Agora, sem mais ter vontade de brincar, encostou o presente atrás da porta de seu quarto e o deixou esquecido por lá.
     
Pensou em criar um amigo imaginário com quem pudesse partilhar segredos e dividir prantos e soluços, mas queria alguém a quem pudesse abraçar, com cabelos compridos para ela pentear.
     
Olhou para as bonecas. Não sentiu amor por nenhuma delas. Entristecida, abraçou-se a seu travesseirinho e pegou no sono.
     
Os meses seguintes foram uma sequência de pesadelos noturnos, choros a qualquer hora do dia, fazendo com que vovó Mary prolongasse por tempo indeterminado sua estadia naquela casa. A filha e a neta ainda precisavam dela. Viúva, sem muitas preocupações, exceto por regar suas plantas e alimentar seu gato, ambos deixados a cargo de uma querida e gentil amiga, poderia tranquilamente permanecer por tanto tempo quanto fosse necessário.  
     
Frequentemente Deise esquecia de pegar Agnes na escolinha, fazendo com que Mary ao ser avisada pela professora, corresse a buscá-la, num esforço penoso, em razão de uma cirurgia no quadril que deixara sequelas.
     
Quando tal fato ocorria, encontrava a neta cabisbaixa na sala da diretora. Dava-lhe a mão, desculpava-se pelo atraso de Deise e com um aperto no peito, controlava-se para não deixar rolar lágrimas de pesar por tudo que a neta passava em sua pouca idade.    
     
Horas depois, Deise aparecia em casa afirmando ter esquecido o endereço da escola. Saíra andando a esmo pelas ruas e mal conseguira lembrar o caminho da própria casa.
     
Coisas assim deixavam vovó Mary aturdida. Por quanto tempo mais a filha viveria daquele modo? Cada um tem seu tempo de luto, mas Deise, em vez de superar a morte do marido com o passar dos meses, parecia mais ausente.
     
Vendo a carinha triste da neta, Mary resolveu juntar retalhos e fios, chamando-a para juntas fazerem uma boneca de pano.
     
Às vésperas de Agnes completar cinco anos, aquele seria seu presente de aniversário.

Sentaram as duas no tapete da sala, rodeadas por pedaços de panos de cores variadas. Linhas e agulhas, tesoura, enfim, todo o arsenal necessário para fazerem uma linda boneca de pano.

Mesmo sem muita empolgação, Agnes separou as cores de sua preferência e pediu para a avó recortar, costurar e deixá-la ajudar a fazer o enchimento.
     
Ocuparam-se as duas por longas horas confeccionando a boneca.
     
Ao vê-la pronta, Agnes não se conteve e abriu um sorriso largo.
     
O primeiro sorriso, em meses!
     
— Bel. Vou chamá-la de Bel, vovó.
     
— É um lindo nome, meu anjinho.

Enquanto procuravam linhas para fazerem os cabelos de Bel, notaram que não tinham fios de lã suficientes para um comprimento longo de cabelo, como Agnes queria.
     
Mary prometeu que no dia seguinte compraria um novelo da cor indicada por Agnes, para fazer o cabelo mais bonito que uma boneca poderia ter. Não era isso o que a neta queria, porém, um dia a mais de espera, que importância teria? Não fosse pelo entardecer da hora, cujas lojas já se encontravam fechadas, iria com gosto em busca dos fios para alegrar a neta.
     
Por fim, juntaram tudo, guardaram na caixinha de costura e combinaram continuar na manhã seguinte, que seria o dia do aniversário.
     
Agnes insistiu para ficar com o presente, mesmo incompleto. Levou Bel para o quarto e colocou ao seu lado na cama. Finalmente, uma amiga para conversar!
     
Depois dos beijos de boa noite costumeiros, vovó Mary se despediu contente com a animação inteiramente nova que vira surgir no rostinho da neta.
     
Assim que ficou sozinha no quarto, Agnes abraçou Bel, muito, muito, muito.
     
Tentou dormir. Em vão. Virava de um lado a outro.
     
Não iria conseguir esperar até o dia seguinte.
     
“Perdão, vovó.”
     
Silenciosamente, foi até à sala e pegou a tesoura de dentro da caixa de costura. Sem fazer barulho, voltou para o quarto. Fechou a porta. Olhou-se no espelho. Repartiu os cabelos em duas partes e puxou para frente. Cortou seus longos fios castanhos e colocou-os sobre a cama.
     
Ao ver-se novamente no espelho, estranhou-se. O corte irregular deixara pontas esquisitas, mas isso não tinha a menor importância. Agora precisava costurar na cabeça de Bel. Ficaria lindo!
     
Deu pulinhos de alegria por não ter tido medo de fazer o que acabara de fazer.
     
O relógio marcava um minuto de um novo dia. Já era o dia de seu aniversário. Nem percebeu, pois estava concentrada em costurar os cabelos na pequena cabeça de Bel. 
     
Os fios desciam até próximo dos pés. Um tanto longos, mas Agnes achou o comprimento perfeito. Assim, poderia fazer vários penteados, pensou.
     
Como havia pouca linha da cor que combinasse, costurou usando seus próprios fios. Espetou-se algumas vezes, o que não a fez interromper o que estava fazendo.
     
Algumas gotículas de sangue penetraram no tecido, encharcando por baixo de onde ela estava costurando.
     
Continuou sua tarefa. E só parou e deu-se por satisfeita ao preencher toda a cabeça da pequena Bel, com longos cabelos lisos e acastanhados. Agora sim!
     
Passou a mão tantas vezes sobre os novíssimos cabelos de Bel, que sua mão ficou levemente aquecida.
     
Cansada e contente, deitou-se abraçada com sua nova amiguinha e dormiu tranquila como há muito não dormia.
     
Ao acordar, sentiu mãozinhas em seu braço. Achou que fosse impressão sua. Então, observou melhor e viu que ela se movia de fato.
     
Assustou-se na hora. Pulou da cama e ficou olhando para ter certeza.
     
Bel caminhava sobre o lençol, de um lado a outro da cama.
     
Sob o olhar espantado de Agnes, a boneca saltou e correu pelo chão até o canto do quarto. Subiu na vassoura, esparramando seus cabelos sobre o cabo de madeira, que ganhou vida, como num passe de mágica.
     
Agnes julgou estar sonhando, pois aquilo não fazia sentido.
     
Bel era uma boneca de pano. E a vassoura... era apenas uma vassoura.
     
Nesse instante, vovó Mary entrou no quarto, trazendo uma bandeja com o café da manhã especial de Agnes.
     
— Feliz aniversário, meu anjinho!
     
— Vovó...eu...
     
— Minha nossa, o que fez nos cabelos?!
     
Agnes não sabia se agradecia, pedia desculpas, ou avisava sobre o que acontecera com Bel.
     
Enquanto hesitava entre uma atitude e outra, Agnes espiava para o canto do quarto, atrás da porta, onde a boneca ficara.
     
Os olhos de Bel, antes dois pequenos botões pretos, agora brilhavam de um modo assustador.
     
Sem entender muito bem o que se passava, Mary largou a bandeja sobre a cama e em seguida abriu a janela para clarear o quarto.
     
E quando virou-se para indagar Agnes sobre aquele horrível corte de cabelo, Bel, montada na vassoura, surgiu voando em sua direção e atropelou-a, empurrando-a com toda força janela afora.
     
Aterrorizada, Agnes disparou para ver se a avó se machucara muito.
     
Como o quarto ficava no segundo piso, o impacto foi fatal. O corpo de Mary  caiu sobre um roseiral e depois estatelou-se ao chocar-se com o cimento da calçada, próximo à entrada da casa.
     
Novamente Agnes ficou sem saber o que fazer, se devia brigar com Bel e colocá-la de castigo ou correr até o quarto da mãe para contar tudo que ocorrera.
     
“Perdão, vovó.”
     
Alguém chamou uma ambulância e quando Agnes abriu a porta da rua, uma multidão já se encontrava em volta do corpo da avó.
     
Deise tomara medicamento para dormir e só foi acordar muitas horas depois, quando todos já haviam voltado para suas casas e o corpo de Mary levado para algum lugar que Agnes não soube dizer para a mãe qual era.
     
A queda foi considerada acidental e nem chegou a haver investigação sobre o caso. Um dos vizinhos, solicitamente, sabendo da situação em que Deise se encontrava, prontificou-se para cuidar de tudo. 
     
Mais uma vez o aniversário de Agnes foi marcado pela tragédia.
     
Depois de viver um dia atribulado, ficando a maior parte do tempo na casa da vizinha, Deise finalmente foi buscá-la. Parecendo em transe com a morte da mãe, nem comentou nada sobre o corte de cabelo da filha.  
     
Agnes subiu em direção ao seu quarto, com pensamentos misturados de admiração e medo. Devia fazer algo bem drástico para castigar Bel, mas só conseguia pensar em como era magnífico ter uma boneca tão especial. E se pudesse controlar Bel? Talvez sua vida monótona ganhasse um pouco de aventura. Sua maior travessura até então tinha sido comer sorvete no quarto escondido da mãe.
     
Como seria agora, sem vovó Mary ali para cuidar dela? Com quem iria conversar?
     
Procurou a amiguinha por todo o quarto. E quando estava quase desistindo, notou dois olhinhos malvados espreitando-a entre as bonecas e bichos de pelúcia, sentadinhos na estante.
     
Pegou Bel. Abraçou-a. Ajeitou-lhe os cabelos e a roupinha. Deu uma bronca suave, pedindo a ela que não fizesse mais malvadezas como aquelas. Bel encostou-se no colo de Agnes, espichando o bracinho, carinhosamente.
     
Comovida, Agnes colocou-a sobre o travesseiro. Vestiu seu pijama com estampa de tartaruguinhas e ficou alisando os cabelos de Bel até pegar no sono.

*

Uma buzina lá fora fez Agnes despertar mais cedo do que de costume.
     
Cutucou Bel para acordá-la também. E quase chorou ao perceber que os olhos de sua boneca tinham voltado a ser dois pequenos botões pretos.
     
Assim foi também nos dias seguintes. A pessoinha temível desaparecera. Sua boneca de pano, voltara a ser uma inofensiva boneca de pano.
     
A vida de Agnes voltou ao normal. A mãe continuou esquecendo de buscá-la na escola. E ela ficava na sala da diretora, aguardando.
     
Numa das ocasiões, a professora perguntou se ela não ficava chateada por ter de ficar tanto tempo esperando. Agnes respondeu que não, pois estava com sua amiga, Bel. Dizia isso e mostrava a boneca.

*

Deise, lentamente ia se recuperando. Alguns dias até trocava algumas palavras com a filha.
     
Agnes não chorava mais por causa do alheamento da mãe. Nem tinha mais pesadelos ou medo do escuro. Agora ela tinha Bel, sua amiga especial.
     
Queria muito que chegasse logo seu aniversário de seis anos, para comprovar algo que suspeitava, mas não tinha certeza.
     
Bel era uma verdadeira peste. Uma pestinha adorável e má...muito má. E talvez algum tipo de feitiço acontecesse apenas na noite das bruxas, fazendo com que seu lado malvado se manifestasse.
     
O lado malvado dela, Agnes.
     
Uma vez, vovó Mary tinha lido uma história assim, onde a menina era enfeitiçada e passava a fazer coisas terríveis, depois voltava a ficar boazinha.
     
Certas coisas, Agnes ainda não conseguia entender.

*

Finalmente, o momento tão esperado chegara.
     
Um sorriso iluminou seu rostinho ao recordar as palavras da mãe, no dia anterior: “Amanhã você poderá fazer o que quiser, filha. É um dia especial.”
     
E naquela noite ficou acordando a todo instante, olhando para Bel, para ver se ela estava se mexendo.
     
Vencida pelo sono, cochilou abraçada em sua boneca.
     
Pouco depois, acordou, sendo sacudida por Bel, com aqueles olhos funestos.
     
Ainda estava escuro lá fora.
     
Agnes sabia exatamente o que iria fazer. Pensara durante o ano todo.
     
— Vamos, hora de brincar! – falou Agnes, com uma voz de dar medo.
     
Abriu a janela. Subiu na vassoura com Bel e saíram às escondidas.
     
Sobrevoou o quarteirão, procurando algo. Logo avistou a suntuosa mansão cor de pêssego. Ali morava um esnobe e odioso menino chamado Tony.
     
Não conseguia varrer de sua memória as palavras dele, no dia em que o encontrou no setor de guloseimas, quando entediada fazia compras com a mãe: “Vai ficar redondinha. Cuidado, hein, Agnezinha!”
     
“Ah, que ódio! Que ódio!”
     
Fez a volta até encontrar uma janela aberta. Entrou em uma pequena saleta. Escutou roncos em aposentos próximos. Ótimo! Poderia ser dele. Poderia ser do pai dele. Teria que arriscar.
     
Falou baixinho no ouvido de Bel, descrevendo Tony e o que ela deveria fazer.
     
Bel saiu da saleta e seguiu pelo corredor, entrando na segunda porta à esquerda. Aberta, para sua sorte. Tinha bom faro para achar pessoas.
     
Do bolsinho do vestido, Bel tirou um vidrinho com ácido e respingou algumas gotas em cima dos pés de Tony. O menino gritou desesperado, dando pulos, sem saber como e nem porquê e nem de onde tinha surgido aquele líquido destruidor.
     
Bel retornou depressa para a saleta. Subiram na vassoura e desapareceram as duas no meio da noite enluarada.
     
Num dos dias em que ficou esperando pela mãe, Agnes pediu para ir ao banheiro e, antes de retornar para a sala da diretora, atravessou o pátio e entrou no laboratório da escola, onde as turmas de outras séries faziam experiências. Foi onde pegou o vidrinho com ácido. Ninguém viu, nem suspeitou de nada. 


*
     
Dois dias depois, durante o café da manhã, a mãe de Agnes lê estarrecida a notícia no jornal. O filho de um empresário conhecido da cidade, havia sofrido um acidente misterioso em casa e encontrava-se hospitalizado, mas fora de perigo.
     
— Que horror! Pobre menino! — disse a mãe. 
     
Agnes, com seus olhinhos pequenos e frios, nada falou.
     
— Querida, onde está sua boneca? Andam sempre juntas.
     
— Ela é muito malvada, mamãe. Deixei de castigo atrás da porta.
     
— Filha, você anda tão estranha ultimamente. E de agora em diante, não vai mais sair sozinha para lugar nenhum, ouviu bem? A cidade está ficando muito perigosa. E se você não me obedecer, ficará de castigo sem a sua boneca!  
     
O rostinho de Agnes se fechou. Ficar sem Bel seria a pior coisa do mundo. Não suportaria.
     
Assim que a mãe se afastou, Agnes falou baixinho:
     
— Se ela me tirar Bel..., já sei do que eu vou brincar no ano que vem. 



 *F *I *M

[o que Agnes fará no ano seguinte é 
um mistério e deixo em aberto... 
na imaginação de cada um]



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