sábado, 1 de setembro de 2018

Caos no closet



No primeiro dia da estação mais quente do ano, os cabides, prateleiras e gavetas, subitamente começaram a se comportar de forma surreal, quebrando a monotonia do cômodo, outrora tão calmo e silencioso.

— Mas que chiffon é esse vindo lá do fundo? — quis saber uma blusa de poá vermelho e preto.

— Não sei de nada, poá. Cheguei faz poucos minutos — falou um roupão atoalhado, felpudo, macio, fofinho e com cheirinho de amaciante.

Curiosas, alinharam-se, esticando suas atenções na direção do tumulto. 

— Parece que os menos solicitados estão armando um tafetá sem caimento.

— Echarpe, não entendi nada do que disse. Como assim? O que eles querem?

— Dona Sthefany coloca no fundo do closet as peças menos usadas. E pelo ruído de rendas, veludos e paetês que chega até nós, estão por começar um motim.

— Na verdade, algumas peças estão fora de moda e sem uso faz tempo. Deviam ir para um brechó — disse devorê, entrando na conversa de modo agressivo.

— Você é um brocado metida, devorê! — reclamou musseline, fazendo um esforço com todas as fibras para não se rasgar de raiva. Não podia deixar sua leveza e transparência serem destruídas por tão pouco.

Irritadas, musseline e devorê se prepararam para o embate. Mas analisaram os estragos e em questão de segundos, recompuseram-se, e foram cada qual para seu cabide.

Porém, as reclamações continuaram.

— Faz dias que não chove. Estou cansada de ficar presa aqui — disse uma gabardine, bege de tédio.

— Você ainda tem chance de sair assim que chover. E eu que preciso esperar o inverno chegar — choramingou um casaco de pele sintética.

— Por falar em não sair pra rua... Há quanto tempo você não sai da gaveta, lurex?

— Ah, fica na sua, organza! Não tenho culpa se dona Sthefany não quer mais usar brilho metalizado. Mas já tive meus tempos de glória, viu? Ao passo que você...

— Com licencinha. Estão dando muito pano pra manga. Não sejam ásperas umas com as outras. Todas teremos nossa chance de brilhar — disse uma blusa de malha floral, querendo apaziguar os ânimos.

— Olha quem fala! Se achando "malha fina", quando na verdade não passa de uma simplória — provocou organza.

— É verdade. Sou comum e bastante popular. Mas vou a quase todos os lugares com dona Sthefany. Ontem mesmo fui ao shopping com ela.

Fez-se um silêncio angustiante. Retorceram-se por dentro de inveja. Ir ao shopping era o suprassumo dos sonhos de todos os ocupantes do closet.

Aproveitando-se do choque momentâneo, outra peça entra em ação: 

— Bom, não podem negar que eu sou a que mais passeia entre todas daqui. Já perdi a conta de quantas vezes fui ao shopping — disse uma calça jeans com pequenos rasgos, estilo destroyed. Faça chuva, faça sol. Inverno ou verão. Sou a mais versátil. Sou a queridinha da dona Sthefany. Aceitem que dói menos.

Novo silêncio se fez no closet.

Fios de ódio, inveja e tristeza, estampavam todas as texturas. 

— Quem dera eu fosse a preferida! — lamentou um vestido de linho. 

— Também, quem manda ser tão enrugada? — disse destroyed. 

— Que grossa! Não precisa ser tão antipática. Amassadas ou não, todas temos o nosso valor — falou uma blusa laranja modelo riponga, saltando da gaveta em defesa de linho.

— Tá falando como se fosse uma seda, mas não passa de uma viscose.

— Posso não ser um tecido nobre, nem o mais fashion, mas estou limpinha e bem passada. Ao contrário de umas e outras penduradas nos cabides da vida — revidou viscose, jogando a carapuça para quem quisesse vestir.

Ficaram elaborando uma resposta à altura, quando, de repente, Sthefany entra no closet. Tinha nas mãos uma roupa branca, vaporosa, esvoaçante, nunca vista naquele espaço.

Todas aguardaram ansiosas para saber qual seria a novidade. Esperaram.

E só entenderam do que se tratava quando a recém chegada foi exibida por inteiro num cabide e pendurada em destaque ao lado de um grande espelho.

— Um vestido de noiva?! Dona Sthefany vai casar? — falou destroyed, a primeira a se manifestar assim que a dona saiu. — Não!!! Meus dias de glória chegaram ao fim. Não tem como concorrer com um vestido de noiva. Ele vai reinar absoluto, mesmo que seja usado somente uma única vez — dramatizou, enquanto rasgava o jeans, mais e mais.

Ninguém tentou colocar panos quentes no desespero de destroyed. Ficaram olhando para o vestido de noiva (que mais parecia um vestido de princesa) e depois recolheram-se aos seus cabides, prateleiras e gavetas, deixando destroyed destruída no chão.





Clique nos títulos abaixo para ler 
outros contos no mesmo estilo:





quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Só notou o que fez, após fazer.




Emanuel, desde bebê, teve tudo o que sempre desejou. Dono de uma beleza resplandecente, herdada de sua mãe, acostumou-se a receber total atenção sempre que chegava perto das pessoas. Capturava todos os olhares na área de recreação da creche. Com pequenos gestos, ganhava doces da babá, sem a mãe saber. No maternal, Emanuel ganhou uma coleção de colos, abraços, cafunés. Quando adolescente, arrebatou corações de quase todas as garotas, sem ter de falar uma palavra sequer. Era esperado que fosse desse modo. Emanuel nascera com o poder da atração. Um talento natural que só aumentava com o passar dos anos.

Mas ele não era só um rapaz atraente e encantador. Contava com um coração generoso também, sem contar os seus bons modos, sua sensatez, sua calma e constante preocupação com todos e uma pureza da alma tocante. Espantava a todos com a forma veloz em que processava os cálculos complexos apresentados pelos professores. Emanuel era um sonho de rapaz. Um encanto!

Aos dezenove anos, tornou-se um cara famoso no mundo todo, após seu canal no YouTube lhe colocar no topo dos melhores entre os melhores fazedores de conteúdo que usam a plataforma.

Emanuel provava o doce sabor do sucesso! Estava no auge da fama! Era adorado pelas pessoas e somente com seguranças chegava em paz a qualquer evento.

Mas faltava-lhe algo.

A garota que flechou seu coração não dava nem tchum pra ele. Emanuel, do nada, parava de falar e seus olhos cravavam num ponto qualquer, com os pensamentos voando para bem longe de onde estava. Amanda. O nome de sua amada. Emanuel passou a sofrer por Amanda.

Então, pegou papel e caneta e começou a escrever uma carta para ela.

"Cara Amanda. Você não me conhece, mas eu a amo faz tempo. Não, não se assuste. E não pare de ler, por favor. Não sou nenhum maluco, pode ter certeza. Sou um homem que deseja uma chance de mostrar o que sente por você. Nós já nos encontramos num evento. Eu sou o cara que derrubou água na sua blusa no momento em que você apertava a mão de um fã seu. Desculpe. Eu não era desastrado. Não entendo como posso ter me tornado um cara desastrado. Estou confuso. Você nem olhou nos meus olhos. E eu tenho de saber: por que só você me trata com desprezo? Me dê uma chance, Amanda! Eu sou um cara legal."

Emanuel parou de escrever. Leu. Releu. E começou a gargalhar ao notar no texto algo que lhe pareceu engraçado. Um detalhe pequeno. Uma falta que Amanda talvez nem perceba. Gargalhou outra vez ao dar-se conta que uma letra do alfabeto, bem o oposto de uma pessoa amada, pode não fazer falta alguma.



Notaram?

O texto todo está sem a letra "i".




Tenho outros textos como esse:


   


  >>> E, do nada, partiu. <<<



terça-feira, 5 de junho de 2018

Nanocontos 3 - do terror ao humor




Uniu todas as histórias de sua vida e fez um balanço. Depois, sentou-se nele.

* * *

Foi o primeiro a sentir o cheiro de fumaça. E o primeiro a ser engolido pelas chamas.

* * *

Caminhava tranquilo calçada afora quando foi atingido por uma placa de anúncio. Foi tudo tão inesperado que não chegou a dar um pio. Não houve tempo nem para isso.

* * *

Ninguém entendia o motivo dos pais terem dado ao filho o nome de Maligno Benfeitor. Achavam o paradoxo em pessoa. Se bem que nós humanos...

* * *

Aquela manhã fria, chuvosa e ventosa, tinha tudo para ser só mais uma manhã igual a tantas outras manhãs frias, chuvosas e ventosas. E foi.

* * *

Padecia com a perseguição de diversos animais: moscas volantes nos olhos, zumbidos de cigarras nos ouvidos, rangidos de tigres nos dentes... Ele estava bichado pelo jeito.

* * *

Stênio vivia sempre tão mal-humorado, que todos o achavam engraçado. Ele, lógico, não via graça alguma nisso.

* * *

Após uma confissão de traição, Torquato surtou, pegou uma faca e esfaqueou a esposa dezenas de vezes. Tudo em pensamentos. Depois, acalmou-se.

* * *

Sofria de falta de ar com frequência. Até se acostumou. Mas teve um dia fatídico em que o ar resolveu não dar o ar da graça.

* * *

O maior medo de Dona Ondina era passar mal na rua e ser levada ao hospital, justo quando estivesse com uma calcinha velha. Ironia do destino, foi exatamente isso que aconteceu.

* * *

Reformou a casa e fez um segundo piso com uma escada caracol bem estreita, para caber em seu orçamento apertado. Obra concluída. Só daí deu-se conta que não teria como levar a mobília para cima.

* * *

No condomínio, o volume altíssimo da televisão de um morador, quebrou o silêncio da madrugada. Incomodado, um vizinho abriu a janela e começou a berrar  ordenando que abaixassem o som. Acabou acordando o prédio inteiro.

* * *

Ofélia tinha pouca imaginação e não enxergava nenhuma figura nas nuvens. Como as pessoas conseguiam tal feito, era algo que ela não conseguia imaginar.





Confiram também as postagens anteriores:





Beijos e abraços a todos! 


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Passatempo


Olá, pessoal, todos bem? Dei uma sumida legal da blogosfera, hein? Mas como eu amo meu blog e sinto saudades de todos vocês blogueiros queridos que me acompanham há tanto tempo, voltei! =)

Ano Novo, hobby novo. Comprei meu primeiro quebra-cabeça gigante de 1.000 peças. Comecei a montar dia 17/01 e terminei dia 22/01. Cada dia fiz um pouco, sem pressa, curtindo o hobby sem me cobrar prazo para terminar. 

Mas é tão prazeroso ir preenchendo o vazio da imagem e procurando as peças que completariam os espaços, que a todo instante eu estava lá fazendo. Adorei. Vou comprar outros, com certeza. Minha mesinha é pequena e não tenho como montar quebra-cabeça maior que 1.000 peças. Mas achei um bom tamanho porque maior que este acaba cansando o corpo pois a gente tem que se inclinar na mesa para poder colocar as peças.  

Abaixo fotos do início até o final, com minha cara de satisfação ao botar a última peça. =)


Como viram, fiz toda uma logística antes de iniciar a montagem. A parte que eu achei mais difícil foi o céu. Deixei para o final. Demorei. Empaquei nele um dia inteiro, mas não desisti e consegui terminar. uhhuuuu hehe

Um excelente exercício para o corpo e mente.

Recomendo. *abraços e beijos* Feliz 2018!!!


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Perto do Fim - degustação



É um dia como outro qualquer, de um ano qualquer.
O céu apresenta algumas nuvens e uma brisa refrescante alivia o calor da estação.
Mas isso não faz nenhuma diferença para mim.
Desço do carro.
Ando alguns metros e ultrapasso o portão.
Conheço muito bem o trajeto. Tenho trilhado este mesmo caminho há um ano e meio. Já nem me dou ao trabalho de observar as pessoas que também circulam por aqui.
Ninguém, absolutamente ninguém, desvia o meu foco, porque hoje é um dia especial... Um dia sagrado para mim.
Em instantes irei encontrar-me com Lara. E os meus pensamentos es­tão inteiramente voltados para ela.
Sigo em frente, com passos seguros, embora internamente esteja trê­mulo pela emoção do encontro.
A cada vez, tento não deixar transparecer o que eu sinto, mostrando-lhe o quanto sou forte, como ela sempre me julgou ser.
Entretanto, é um esforço inútil.
À medida que meus pés avançam, meus olhos lutam contra a vontade de chorar por ela.
Todos os domingos eu a visito, pois foi num domingo que tudo acon­teceu.
Meu coração estremece de pesar ao aproximar-me de onde Lara está. Queria tê-la comigo em casa. Queria tê-la em qualquer outro lugar, menos ali e daquele modo.
Abaixo-me para entregar-lhe o pequeno buquê de tulipas brancas que trago nas mãos. São suas flores preferidas. E não são fáceis de encontrar. Algumas vezes tenho de percorrer várias floriculturas até achá-las. Mas sempre as trago. Sempre.
E precisam ser flores naturais, pois ela tinha o costume de encostar o narizinho nas tulipas à procura de um resquício qualquer de perfume.
Escoro-me na superfície fria. Cumprimento-a:
– Olá, meu anjinho, papai chegou.
Não há resposta. Jamais haverá.
Inclino-me, esticando o braço para depositar o buquê sobre o túmulo cinzento.
Fico em silêncio por alguns minutos.
E com os olhos úmidos, aliso a foto da menina de cabelos castanhos ondulados. Admiro demoradamente o seu rostinho saudoso. Mechas caem delicadamente sobre os seus ombros. Os olhos são castanhos, luminosos. O sorriso é doce e terno. Vejo-me nela, pois tem os mesmos traços. O mesmo desenho do nariz. Um pedacinho meu. Minha parte mais valiosa está enterrada aqui. Abaixo o rosto, fecho os olhos e faço uma prece.
Em seguida, ajeito as flores num vaso cimentado na cabeceira da lápi­de e retiro as tulipas antigas que deixei no domingo anterior.
Apesar das longas conversas mantidas em frente ao seu túmulo, em voz alta, ou só para mim, ainda há muito a ser dito.
O sofrimento quase me fez desistir de tudo.
Um forte sentimento de culpa me castiga, de domingo a domingo, tal qual uma sombra ameaçadora seguindo os meus passos. A sombra da morte. Ah, onde quer que eu vá, uma faca estará cravada em meu peito! E nenhum esforço farei para retirá-la. Ao contrário, eu próprio a empurrarei mais ao fundo.
– Perdão, filha. Preferia ter morrido naquele domingo. Sabe disso, não sabe? Sabe que papai a ama muito e não para de pensar um dia sequer em você? Foi um instante apenas em que desviei os olhos, anjinho. Uma fração de segundos. Como isso pôde acontecer? Era nosso primeiro pas­seio juntos, sem a mamãe. Apenas nós dois. Deixei você brincando com sua bola colorida e seu baldinho de areia. Afastei-me uns passos apenas, para comprar sorvete. Oh, as imagens não me saem da cabeça! Como pude não pressentir o perigo? O mar parecia tão calmo. Jamais imaginei que você fosse sair de onde estava, correr para a água atrás de sua bola e ser levada pelas ondas daquele jeito. Eu me joguei. Eu tentei, filha! Eu tentei! Segurei seu corpinho nos braços e chamei por socorro, quando não consegui fazer você respirar. Achei que ficaria tudo bem, mas você tinha engolido muita água. Ah, meu Deus, quando confirmaram sua mor­te, gritei desesperado! Perdi o chão. Fiquei sem ar. Não queria acreditar. Meu peito parecia que ia explodir. Você tinha apenas três anos... E eu fui incapaz de protegê-la. Não vou me perdoar nunca por ter me descuidado e tirado os olhos de você.
Respiro fundo.
Demoro para me despedir de Lara.
Ergo-me.
Desvio a atenção para o túmulo ao lado. Coloco o outro buquê de tuli­pas que trouxe. Amarelas. Belas tulipas amarelas.
Olho longamente para a foto na sepultura. E uma onda de saudades atinge o meu peito em cheio. Sylvia. Meu amor desde a universidade. Fe­cho os olhos e me transporto para tempos afortunados. Saboreio a sensa­ção dos dias perfeitos que vivemos. Revivo os nossos risos, as conversas e os silêncios que diziam tanto. Recordo o dia do nascimento de Lara e a felicidade que compartilhamos. Penso nos planos que fizemos para uma vida inteira que viveríamos juntos. E confesso a ela o quanto é difícil estar cheio de amor e não tê-la viva para amar.
Rezo em silêncio.
Depois me despeço.
Saio do cemitério somente após me acalmar o suficiente para poder dirigir de volta para casa.
Para elas a vida findou. Para mim a vida prossegue.
E não há benefício algum em ser desse modo.
Manter-me vivo, lembrando dia após dia a pior de todas as lembran­ças, será o meu castigo, a minha penitência.
Retorno ao carro.
Aperto fortemente as mãos no volante.
Preciso sentir o domínio sobre algo.
Preciso ter qualquer coisa sob o meu controle.

Antes de ligar o motor, meus pensamentos viajam para o instante em que minha esposa soube da morte da filha.
O rosto amável de Sylvia desfigurou-se em agonia. Seus gritos ainda ecoam em meus ouvidos. “Não é verdade! Ela não pode estar morta! Por que deixou o meu bebê morrer? Prometeu que iria cuidar dela. O que você fez com a minha filha, Jeff?”
Fiquei perplexo, angustiado. Sylvia desmaiou e precisou de atendi­mento médico. Quando recobrou os sentidos, recusou meu apoio, des­cartou o meu abraço, rejeitou a minha aproximação, tanto naquele ins­tante terrível, como nos dias seguintes. Nem mesmo a nossa separação, trouxe-lhe conforto. Mudou-se para a casa dos pais. E seis meses após o falecimento de Lara, Sylvia foi encontrada sem vida em seu quarto. No chão, um frasco vazio levantou a suspeita sobre ingestão de comprimidos em excesso.
Através de autópsia, comprovaram que a causa da morte foi overdose de remédios para dormir.
Quando eu soube da morte de Sylvia, peguei o carro e saí dirigindo feito um ensandecido, pisando fundo no acelerador. Transtornado e cego pelo desatino, perdi o controle da direção, atravessei a pista e bati contra um poste de concreto. Por pouco não atingi outro carro, ou transeuntes, causando uma tragédia maior. Sofri cortes na testa, fratura na clavícula e numa das pernas, ficando quase um mês em coma por conta de um co­águlo no cérebro, causado pelo impacto. Quando abri os olhos e vi onde estava, fui invadido por uma tristeza profunda.
A vida me queria vivo, ignorando inteiramente o meu desejo de mor­rer, para que eu pudesse pagar pelos meus erros?

Paro de pensar nos fatos do passado. Passo as mãos no rosto e me olho no espelho do carro. Estou mudado. Onde está aquele Jeff que já fui um dia? O homem que me encara no reflexo tem um aspecto abatido. É jovem, pois tem apenas trinta e dois anos, mas apresenta um semblante amargurado e sofrido.
Há poucas esperanças para mim, penso, olhando a figura refletida. Mas estarei aqui, com buquês de tulipas, no próximo domingo. Eu não as abandonarei mais. Tampouco virarei as costas para Lara outra vez. E se o que me falta é um sentido para continuar vivendo, este me parece grandioso o suficiente.
Ligo a ignição e me encaminho para casa.
Quinze minutos depois, passo pela portaria e entro no condomínio.
Trata-se de um residencial fechado, de alto padrão, com jardim, praça, passeios arborizados, um lago artificial, bosque de araucárias, trilhas e área verde preservada.
O ar puro do lugar, sua tranquilidade, segurança e espaços de lazer em abundância, foram determinantes na hora de escolher um lugar para morar com a família. Todas as construções são de dois pisos, com peças espaçosas, ensolaradas, sendo as fachadas revestidas em tijolos aparentes brancos, em estilo normando, com os telhados inclinados.
É nesta casa tomada por lembranças que eu resido.
Estaciono. E não guardo o carro na garagem, pois pretendo sair nova­mente quando a noite cair.
Aos domingos, após visitar Lara e Sylvia, costumo jantar numa canti­na no centro da cidade. O proprietário é um amigo antigo e leal. Ângelo. E sem que eu precise avisá-lo, ele garante a reserva da mesa. É um hábito que mantenho regularmente. Faz-me bem o movimento do ambiente. O som dos talheres. O cheiro dos molhos. As vozes animadas. Os rostos corados pelo consumo de vinho e pelo calor humano.
Costumo sentar sozinho num canto afastado, tendo uma boa visão das mesas. Enquanto janto, fico observando as pessoas. Gosto de me alimen­tar da energia vibrante que emana delas. Isso me revigora.
De algum modo, assistir outras vidas vivendo suas vidas, me ajuda a seguir adiante com a minha.
Assim que entro em casa, vou direto para a cozinha.
Pego um copo, encaixo no dispenser da porta do refrigerador e sacio a sede com a água gelada.
Olho pela janela e avisto a edícula ao fundo, onde mora Adélia e seu marido Joel.
Adélia é a cozinheira e ajudante nos serviços da casa. Joel cuida do jardim, faz pequenos reparos e auxilia a esposa com as compras no su­permercado.
Aos domingos, eu os libero para aproveitarem uma folga merecida. Sem filhos, com familiares morando próximos daqui, eles costumam sair para visitar os parentes ou fazerem passeios, retornando somente ao anoi­tecer. Adélia deixa o almoço pronto para mim, bastando apenas colocá-lo no micro-ondas.
Ainda é cedo.
Tomarei uma ducha e descansarei um pouco.
Só mais tarde sairei para jantar.
Subo em direção ao segundo piso. E quando passo em frente ao quar­to de Lara, paro. Passo a mão na madeira da porta, como se fizesse um carinho em minha filha. Não há mais nada ali. O cômodo foi esvaziado. Liguei para uma instituição de caridade e doei a mobília e todos os brin­quedos.
Exceto por um porta-retratos, acomodado no aparador da sala de jan­tar, em que estamos os três juntos felizes, não existe nenhum sinal de Syl­via e Lara por toda a casa. Cada objeto pertencente a elas foi removido. Mantê-los, seria um tormento.
E de tormentos, a minha mente já está repleta o suficiente.
O quarto do final do corredor, onde vivi com Sylvia os meus momen­tos mais intensos e prazerosos, encontra-se remodelado.
A decoração anterior misturava o branco e o laranja, em cores vibran­tes, bem ao gosto de Sylvia. Agora, predominam o preto e o cinza, cujos tons são fechados e frios, como eu.
Tomo banho. Puxo da gaveta do closet uma bermuda jeans e uma ca­miseta branca de mangas curtas. Visto-as.
Nesse instante, o celular toca. Olho a identificação da chamada e o nome no visor não me faz ter vontade de atender. Milton Weber. Deixo tocar. Outra hora falarei com meu pai. Ele sabe que aos domingos não me disponho a falar com ninguém.
Guardo o celular no bolso. Sento-me na poltrona do quarto, pensa­tivo. E se o assunto for importante? Sou vice-presidente na seguradora da família. E meu pai administra os negócios, sem ligar para os dias da semana.
Seja como for, hoje é um dia para ser respeitado. Já o alertei sobre isso. Amanhã nos veremos no escritório, então eu...
Nisso, uma rajada de vento faz abrir a porta-janela da sacada, que de­veria estar mal fechada, fazendo a cortina flutuar e enrolar-se num vaso de plantas próximo.
Preparo-me para ajeitar a situação e surpreendo-me com a mudança no tempo.
O céu escureceu de repente.
Parece noite lá fora. E são apenas dezoito horas.
A brisa de antes, deu lugar a ventos fortes. Irá chover em breve, ao que tudo indica.
Um relâmpago corta o céu, seguido de um trovão.
E no mesmo instante, escuto um grito. Fico em dúvida se foi isso mes­mo, por conta da trovoada. Olho para fora e não vejo nada de estranho. As ruas do condomínio estão desertas.

Assim, julgando tratar-se de um engano, levo as mãos para empurrar a porta, quando um som agudo rasga os ares e me faz ter certeza de ter ouvido corretamente.
Outro grito.
Sim. Desta vez escuto nitidamente.
É alguém pedindo socorro. E é uma voz de mulher.
Minha impressão é de que o som veio do bosque, localizado no outro lado do lago artificial.
Num impulso, saio para acudir quem está pedindo ajuda.
Descalço, sem pensar em nada, desço a escada correndo.

Chego na rua e disparo pelo caminho de pedras, em direção aos arvo­redos.

[...]

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TÍTULO: Perto do Fim - AUTORA: Rosa Mattos
EDITORA: Selo Jovem - PUBLICADO EM: 2017
 PÁGINAS: 246  - CAPÍTULOS: 30
CATEGORIA: Romance, drama, suspense
OBS.: Entregas somente no Brasil.

O livro está na BIENAL do Rio, Pavilhão Verde, Rua N, Stand 10, 
Editora Selo Jovem. Perto do Fim e O medo de Virgília. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Descobertas


Vitória arregalou os olhos, não cabendo em si de contentamento. E se coubesse, a alegria nem caberia na alegria e subiria faceira, indo fazer rir as nuvens.


O jardim da casa nova era uma novidade nunca vista antes por ela. O apartamento pequeno, com vista para outros prédios, a fizera pensar que pessoas nascessem em blocos, flores só crescessem em vasos, pássaros vivessem apenas em gaiolas, gatos e cachorros morassem em sofás e tapetes e, eventualmente, em sua cama.


Na pracinha onde costumava brincar, as flores viviam em grandes vasos de cimento. Agora, com as mãozinhas na boca de puro espanto, descobria que elas também nasciam do chão, direto da terra e cercada pela grama verdinha e fofa.


Os pais, zelosos com a saúde da filha, resolveram comprar uma casa, pois queriam que ela tivesse contato com a natureza. Vitória apresentara sintomas alérgicos e o ar fresco iria lhe fazer bem - recomendações médicas - que trataram de seguir.


Dando pulinhos, a menina explorou o terreno, gritando o tempo todo "olha! olha!". Com os pezinhos descalços, correu pela grama, tocando nas plantas e exclamando para os pais "como o pátio novo tinha um cheirinho bom".


Para completar a alegria da filha, os pais montaram uma pequena barraca no jardim, para que Vitória pudesse brincar e se proteger do sol. Cansada com tantas novidades, a menina deitou e dormiu em seguida, com o rostinho corado e feliz. Então, sentiu algo subindo pelo braço, causando-lhe cócegas. Abriu os olhos e viu uma joaninha. A coisa mais linda que já vira. Que bichinho seria aquele? Não sentiu medinho. Amou a criaturinha. Colocou-a nas mãos. Alisou. Contou-lhe historinhas. Conversou bastante com a pequenina visitante, revelando-lhe todas as lembranças que seus três anos de memória foram capazes. Exausta, adormeceu, esquecendo a joaninha, que ficou passeando dentro da barraca.


Quando acordou, já estava de pijama, deitada em sua cama. Era uma daquelas mágicas que amava mais que tudo. Quando dormia estava num lugar, quando acordava estava em outro. E os pais sempre por perto.


No dia seguinte, foi para o jardim brincar. Esperou pela joaninha, que naquele dia não apareceu. Contou para a mãe sobre o bichinho que parecia uma bolinha. A mãe riu muito e explicou para Vitória tudo o que sabia sobre joaninhas.


Os dias correram. A menina cresceu. E como é próprio da vida, os momentos vividos vão ficando para trás, mas sem saírem de dentro.


Tornou-se uma linda jovem e bióloga dedicada. Adquiriu um gosto inexplicável por joaninhas. Não sabe dizer a origem de sua afeição, mas sempre que encontra algum objeto com formato do bichinho, fica admirando, fascinada. Já comprou adesivos para seu notebook, mouse, pen drive, agendas, estojos, mochilas, cadernos e vários utensílios com o tema. Seu atual sonho de consumo é um celular com o formato de uma joaninha.


E quando, por curiosidade, perguntam a ela o motivo desta sua preferência, ela encolhe os ombros e responde:


- Sei lá! Gosto é gosto.



EXTRA! EXTRA! Meus romances 
PERTO DO FIMO MEDO DE VIRGÍLIA 
estarão na BIENAL Internacional do RIO! 
Pavilhão verde, Rua N, estande 10, 
Editora Selo Jovem.

Infelizmente não vou poder ir, mas 
os meus livros estarão lá a venda.

* obrigada pelas visitas e comentários *


terça-feira, 4 de abril de 2017

Pânico na escola



Redação: “Cachorrinhos”. Os alunos pensaram por um instante e começaram a redigir. Exceto um deles, que permaneceu imóvel, pensativo. Não tinha cachorros. Nem gostava muito deles. As ideias não vinham. As mãos tremiam. O papel mordia. A caneta fugia. Sua mente vazia.
O tempo passando. 
Mirava a folha, esperando um milagre. Então viu os filhotes. Vieram da última linha e foram subindo, saltando e latindo sem parar. Espantado, olhou para os lados. Silêncio na sala. Ninguém parecia notar o alarido. Todos concentrados. 
Confuso, desenhou uma vasilha e encheu de bolinhas. Quem sabe se vissem a ração parassem com aquela correria e o deixassem pensar. "Malditos cães!" 



  
Os minutos disparavam.
Os cãezinhos, deitando e rolando. Fez um pote com água. Eles beberam um pouco e continuaram a baderna. Como iria se concentrar com tanta algazarra? Talvez precisassem beber direto da fonte. Ao lado das vasilhas, desenhou uma cachorra, deitada, com suas tetas salientes, cheias de leite. Deu certo! Os danadinhos mamaram felizes. Ainda bem que sabia desenhar!
Tic-tac. Apenas mais 15 minutos.
Ao contrário de sua inspiração, o suor brotava, escorria de sua testa, pingando no chão da sala, onde todos escreviam, menos ele. 
Os minutos cruelmente voando. Os bichanos ainda estavam lá. Agora pulavam em cima da barriga da mãe. "Que bagunça! Saiam da minha folha!" Alimentados, brincavam de um lado a outro, correndo e latindo mais alto do que antes.
Precisava urgente escrever qualquer coisa. Não estava nada bem naquela matéria.
O pavor agora tomara conta do pavor e se espalhara por seus medos, encrespando sua testa, escurecendo suas unhas, arroxeando seus lábios, gelando suas mãos e o tornando um homicida em potencial. Só restara uma coisa a fazer e ele o faria: eliminar os invasores de sua folha! 
Tic-tac. Dois minutos.
Pegou a borracha e preparou-se para matar todos os desenhos, no exato instante em que os cachorrinhos começaram a morder e mastigar, destruindo por completo a folha de papel.