segunda-feira, 11 de maio de 2020

Somos todos vulneráveis




E, de repente, nos vimos todos em meio a uma pandemia de proporções incalculáveis, embora façam muitas projeções. Covid-19 está assustando o mundo inteiro porque se dissemina rapidamente, atacando as vias respiratórias das pessoas infectadas, causando mortes em alguns casos, alastrando o medo em cada um e provocando muitas incertezas sobre o retorno da normalidade.

Achei que 2019 tinha sido um ano tenebroso, com toda aquela rivalidade por conta de escolhas políticas, dividindo as pessoas em lado direito e esquerdo. Alguns amigos e familiares se desentenderam e até deixaram de se falar.  

Ledo engano. Este ano de 2020 ficará marcado na história e em nossas lembranças, não apenas ao mexer com a rotina de todos de forma impactante, mas por ter nos forçado a enfrentar um mal invisível. "Fique em casa!" "Lave bem as mãos." "Saiam somente se for necessário." Recomendações novas.

Não estranhei o isolamento social. Estou acostumada a voltar para uma casa vazia. Moro sozinha e longe da família, num apartamento pequeno em Porto Alegre. Porém, embora estar só não seja um problema para mim (em tempos de pandemia e/ou em qualquer época), uma quarentena afeta o dia a dia de todos, inclusive o meu. Tento seguir mantendo meus hábitos de sempre (lendo, fazendo exercícios, montando quebra-cabeças, escrevendo, escutando música, vendo séries e assistindo noticiários só o suficiente para me manter informada.

Incluí agora um novo costume: manusear o rosto o mínimo possível. Faço exercícios para coçar o rosto com as costas das mãos, somente. Difícil resistir! Quando me dou conta já estou esfregando os olhos, passando a mão na boca, no nariz. Um perigo! Tenho de intensificar o exercício, senão... 

Não possuo uma varanda para pegar sol diariamente. Ah, como eu queria ter uma varanda! Mas não tenho. E o que eu tenho nesse meu espaço reduzido? Uma nesga de sol que bate na cozinha, num momento curto do dia. Coloco uma cadeira ali, abro bem a janela, e fico sentada por quinze minutos, com roupas leves, braços e pernas desnudos, sem protetor solar. Dizem que é o tempo e modo necessários que nosso corpo precisa para produzir vitamina D (tão importante para termos imunidade contra as doenças). Vou arrastando a cadeira, aproveitando até o último pedacinho de luz natural. Quando o sol se vai, respiro fundo e agradeço: "obrigada, universo!".

Depois de duas semanas "presa" em casa, saí para colocar o lixo no container do outro lado da rua. Foi bem esquisito. Eu me peguei cheia de medos novos. Abri a porta do elevador com desconfiança. Apertei o botão para descer. E tudo que eu ia tocando, de repente, passou a representar uma ameaça possível.

Na volta encontrei uma vizinha e tentei mostrar normalidade. Mas por dentro eu queria mesmo era voltar correndo para a segurança do meu lar-doce-lar e lavar bem as mãos com sabonete por 30 segundos.

O preocupante é saber (ou imaginar, ou supor, ou especular) que existem muitas formas de sermos infectados e por mais cuidados que tenhamos, ele (o vírus) pode nos pegar. Ainda assim, prevenção é a medida mais acertada.

Fiz compras no supermercado online porque o mais próximo aqui está a 600 metros. Daí, fui colocando "no carrinho" tudo que eu precisava. Bem prático.

Dois dias depois minhas compras chegaram. Levei um susto com o som do interfone. E eu sabia que ele iria tocar! Imagine o grau de tensão que uma quarentena provoca numa pessoa. Pois é. Ando tensa. Impossível não ficar.

Desci. Não encontrei ninguém no caminho. Abri a porta para um rapaz com máscara de proteção. Ele colocou as sacolas num canto, mantendo uma distância recomendável. Foi estranhíssimo. O rapaz com medo de mim. Eu com medo do rapaz. Naquele momento, representávamos uma ameaça um para o outro. Nunca pensei passar por algo assim. Só o medo de assaltos me fazia antes ter esse tipo de reação. Coisas que só uma pandemia batendo na nossa porta nos faz passar.

Vamos superar essa fase nebulosa. E talvez cada um passe a se cuidar melhor depois que nossas vidas voltarem ao normal. Porque até criarem uma vacina para o Covid-19, temos de ter em mente que somos todos vulneráveis. Então, será inteligente de nossa parte se continuarmos nos cuidando como agora.

Cuidem-se bem. Um abraço caloroso a todos.


*   *   *

Obs.: Esta crônica foi escrita dia 02/04. 
A tensão reduziu. Os cuidados e o isolamento 
continuam, porém mais leves. A vida segue. 






5 comentários:

  1. Boa tarde de fé e esperança, querida amiga Rosa!
    Uma crônica muito boa e que descreve muito bem o que todos estamos passando. Uma verdadeira agonia. 3h eu gasto para higienizar tudo para 15 dias...
    Também tenho medo de quem vem trazer as entregas e por delivery também... Nem olho para o rosto. Álcool gel, na mesa que ele põe a máquina, na minha mão antes de pegar a máquina e depois... Sacolas não passam da porta mesmo...
    E, ainda assim, só mesmo como contando com a Graça de Deus que nunca nos falta.
    Vamos seguir a caminhada até o fim.
    Tenha dias abençoados!
    Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

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  2. Macau tem agora três doentes internados.
    A terem alta brevemente.
    Devagarinho, com calma, sensatez, vamos ultrapassar esta fase e acordar do pesadelo.
    Bjs

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  3. Rosa, me identifiquei com cada letra, com cada palavra e, enfim, com todos os parágrafos que você relatou aqui...
    E como você escreve divinamente... Não é a toa que seus livros são um sucesso, um primor da nossa literatura, pois você tem o dom de nos transportar para outro mundo em suas palavras...
    Você mencionou sobre o medo, a ansiedade... Sim, eles me tomaram de assalto e nunca senti tanta taquicardia e ataques de pânico como agora.. Estou com muitas dificuldades de lidar com tudo isso e creio eu, que será quase impossível voltar ao normal, depois que tudo isso passar, e tomara que passe...
    Éramos felizes e não sabíamos...
    Um grande beijo querida e se cuida muito!!!

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  4. Vamos vencer essa pandamia juntos
    abraço

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  5. Oi Rosa
    Estamos vivendo uma era atípica. E cada um de nós com os seus receios.
    Mas é preciso manter o equilíbrio emocional para vencermos essa pandemia que em breve há de passar. Voltar à normalidade acho bem difícil. Penso que teremos uma outra visão do mundo e de como teremos de frente ás mudanças impostas por esse vírus
    Beijinhos e sorrisos minha amiga

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