sexta-feira, 13 de março de 2020

A passageira




Entrei no ônibus intermunicipal que me levaria a uma cidade interiorana. Sentei e me preparei para uma viagem de muitas horas. Era um dia de inverno tipicamente gaúcho e fazia um frio de gelar os ossos. No entanto, a temperatura interna estava agradável.

Tirei da bolsa um livro de suspense, para me fazer companhia e também para enganar o tempo, fazendo o trajeto ficar mais curto.

Os passageiros foram se acomodando e ninguém apareceu para sentar na poltrona ao meu lado. Tanto melhor, faria minha leitura sossegada, sem distrações.

Eu já sorria satisfeita por ver que viajaria sozinha sem ninguém na poltrona ao lado, quando escutei sons arrastados no corredor. Fiquei torcendo para que a pessoa passasse reto pelo meu lugar, mas o retardatário sentou-se ao meu lado. Suspirei. Educadamente olhei para cumprimentar e senti na hora um inexplicável arrepio. Uma mulher. Uma jovem senhora, dona de um semblante sombrio e ao mesmo tempo sereno. Ela retribuiu meu cumprimento com uma inclinação de cabeça e o esforço de uma tentativa de sorriso. Reparei em suas mãos vazias. Achei estranho ela não ter nenhuma bolsa, nem mesmo uma mala pequena. Talvez já tivesse colocado tudo no bagageiro, concluí. Existem pessoas esquisitas no mundo, pensei na hora. Eu também tinha as minhas esquisitices.  

— O lugar 27 é meu — disse ela com firmeza, apontando para a poltrona da janela onde eu me encontrava.

Seu tom de voz e seu modo seguro de falar me fizeram levantar e ceder-lhe o lugar. Eu tinha certeza que o assento era meu. Bastava pegar meu comprovante e mostrar-lhe. Mas resolvi não criar caso. Assim, sem dizer nada, levantei e deixei que ela sentasse na janela.

Enquanto recolocava meu cinto de segurança, reparei que a mulher tinha uma pele muito clara, como se nunca tivesse ficado ao sol. Usava brincos e colar de pérolas. Trajava uma roupa escura e tinha um semblante triste. Um rosto difícil de esquecer, sem dúvida.

Peguei meu livro, recostei-me bem e preparei-me para uma viagem sem maiores surpresas. A jovem senhora fechou os olhos e dormiu todo o trajeto até o local onde faríamos uma parada de meia hora, como se estivesse muito cansada. Depois disso, novamente em curso, ela começou a conversar comigo. No início não demonstrei muito interesse em ouvi-la, mas alguma coisa nela fez com que eu desistisse da leitura e ficasse atenta a tudo o que me dizia. Fez um relato de sua vida, detalhando muitas tristezas e sofrimentos, conseguindo a cada palavra minha total atenção.

Ela me disse que fugira de casa com seu grande amor, há dez anos, numa viagem num ônibus como aquele, levando muita dor no coração por ter deixado sua família. Seus pais não aceitavam seu romance por ele ser bem mais jovem que ela. Então, nada mais lhe restara fazer, a não ser ir embora. Sua vida não seria fácil, porém, tomara uma decisão sem volta. Partiu sem levar bagagem, somente com a roupa do corpo.

De vez em quando eu olhava para a mulher em sinal de solidariedade. Mas nada falei.

— Não sinto as minhas mãos — ela disse — esfregando os dedos longos uns nos outros.

A mulher devia ser friorenta, pois estava até quentinho dentro do ônibus.

Abri a boca para dizer-lhe isso e comentar algo a respeito, quando finalmente chegamos.

Levantei e puxei minha mochila do compartimento superior de bagagem. E, então, algo espantoso aconteceu. A mulher desaparecera! Não estava mais na poltrona! Sumira! Senti um calafrio na espinha, sem entender como aquilo seria possível. Eu tinha ficado em pé, na frente da poltrona, para pegar a mochila, não havia como ela ter saído sem esbarrar em mim. Impossível! Olhei para os lados, observando as pessoas se levantando e pegando seus objetos, sem compreender como a mulher tinha saído de forma tão repentina. 

Impactada, mas ainda achando que a mulher estivesse dentro do ônibus, desci e fiquei esperando todos saírem para me despedir da jovem senhora. Mas ela não desceu.

Aquilo era esquisito demais. Ela não poderia ter descido sem eu ter visto. Uma sensação incômoda tomou conta de mim.

Perguntei a duas pessoas de poltronas próximas se tinham visto a mulher sentada ao meu lado e fiquei ainda mais cismada ao me olharem como se eu perguntasse algo insano. Disseram que não tinham visto ninguém comigo, pois eu viajara sozinha.

Como assim, sozinha? E a senhora sentada ao meu lado durante toda a viagem? Fiquei atônita e fui perguntando aos passageiros que ainda estavam por ali se tinham visto e ninguém sabia dizer nada. Nem mesmo o motorista lembrava de uma passageira ter chegado atrasada. Falei de suas características físicas e... nada. Não tinha visto. 

Deixei a rodoviária sem entender nada, pensando em tudo o que ela me contara. Dei-me conta que sequer sabia seu nome. Nunca acreditei em fantasmas, almas que assombram ou coisa do tipo, mas para meu próprio bem-estar eu precisava descobrir quem era aquela pessoa que viajara ao meu lado e depois desaparecera.

Fui pesquisar na internet e para meu espanto descobri que ocorrera um grave acidente de ônibus, há dez anos, vitimando todos os passageiros ao cair de uma ponte, sendo a morte de dois deles a mais trágica, pois seus corpos foram partidos ao meio e suas mãos decepadas do corpo, encontradas distante do local, entrelaçadas. Havia uma foto da mulher e do homem ... e ela era a mesma pessoa que viajara comigo.

Tremendo por dentro, decidi que nunca mais viajaria na poltrona 27.                    




sábado, 7 de março de 2020

Quebrando a cabeça


Olá, blogueiros! De vez em quando eu me ausento por um tempo prolongado, mas como sou apegada a este espaço tão querido pra mim (e sinto saudades de todos vocês), sempre retorno. Ainda assim, desculpe pelo sumiço.

Em janeiro/2018 montei meu primeiro quebra-cabeça (Paris, 1000 peças). Gostei tanto que não parei desde então. Já tenho até o momento 46 (nacionais e importados) e ainda não enjoei, como pensei que aconteceria. A cada um que eu compro digo que será o último. Mas, que nada! E lá vou eu comprar outro, depois outro e aiai...já estou com a estante lotada, de livros e puzzles, minhas duas paixões.





Criei uma fanpage AmoPuzzles, onde mostro meus quebra-cabeças.

Sigo escrevendo e preparando novos livros para lançamento. 
O importante é não deixar o cérebro mofar, não é mesmo? rs

Beijos e abraços!

♥Espero que estejam todos bem, assim como eu♥