
Situado no ponto mais alto da terra, os templos
dourados cintilam. As construções grandiosas, erguidas quase próximas às
nuvens, abrigam os soberanos imortais do mundo.
A residência dos deuses ocupa o apogeu do Monte
Olimpo, de onde as divindades vigiam os destinos de todos os seres da terra e
do céu, sob o comando de Zeus, o deus de todos.
Caminhos reluzentes interligam todos os templos
com o Palácio do Poder Supremo, local oficial das reuniões com o conselho
divino e de onde Zeus controla tudo.
Chamo-me Hera. E é neste lugar majestoso que vivo,
desde que fui desposada por Zeus, há tempos atrás.
Embora muitas estações tenham passado, jamais
esquecerei aquele dia.
Oriunda de uma linhagem humilde, eu vivia com meus
pais e dois irmãos em Creta, numa moradia simples.
Fazíamos a refeição da tarde, quando escutamos sons
mágicos vindos do alto. Atraídos pelos acordes, saímos, e ficamos embasbacados
com o que vimos. Uma enorme nuvem desceu do céu e pousou suavemente como um pássaro.
Então, para nosso espanto, um belo jovem deslizou por sobre a nuvem e
aproximou-se de nós. Sem nada dizer, entregou um pergaminho aos meus pais. Após
lerem, mesmo sem saberem ler, entenderam e olharam-me incrédulos. Abraçaram-me.
Choraram. Comovida, chorei junto. Apontaram para a nuvem e me disseram para ir.
“Vá em paz, filha!”
Eu era tão jovem, pouco mais de uma menina. Queria
passear na nuvem!
Despedi-me de todos. Acenei. Subi naquele algodão
branco e desapareci no céu.
A viagem foi fantástica. A maciez da nuvem
causou-me sensações inacreditáveis.
Quando chegamos, eu estava com as faces coradas. E
meus olhos se encheram com as belezas do Olimpo. Em seguida, fui levada por uma
serva a um aposento, onde me banharam e trocaram minhas vestes desgastadas por
uma túnica belíssima. Depois disso, guiaram-me até um amplo salão dourado, cuja
imponência me deixou deslumbrada.
Sentado em um trono suntuoso, a fisionomia de Zeus
me pareceu mais suave do que a imagem ameaçadora e sisuda esculpida numa
estátua no portal de entrada.
Diante de meu silêncio, Zeus esclareceu
espontaneamente as minhas dúvidas. Desnecessariamente, apresentou-se. E com uma
voz rouca e vigorosa, contou que me escolhera para ser sua esposa, a rainha do
Olimpo, a guardiã e protetora dos lares, a deusa da moralidade, a mãe de seus
filhos.
“Por que eu?” — perguntei — enrubescida.
Zeus respondeu-me que viu as cores que emanam de
mim. E as cores nunca mentem.
Ao ouvir isso, não pude evitar um tremor interno.
“Ele me viu? Em que situação?”
“Não temas. Podes me recusar, se assim o desejares”
— dissera-me Zeus.
No entanto, por mais disparatada que fosse a
situação, o pedido causou um impacto tão violento em minha vaidade, que
visivelmente lisonjeada, aceitei.
Como presente de casamento, Zeus ofertou-me a
longevidade eterna. Algo que não seria extensivo a meus familiares. Entristeci,
sem deixar transparecer. Este tinha sido o primeiro sacrifício em minha nova
condição de rainha dos deuses.
Ofereceu-me ainda um desejo extra. Apenas um.
Qualquer coisa que eu quisesse mudar em mim. Demorei para responder. Eu queria
modificar tantas coisas em mim. Só um pedido? Pensei em pedir-lhe para poder
comer o que quisesse, sem contudo jamais engordar um grama. Mas lembrei-me que
os deuses não engordam. Automaticamente já havia ganho esse júbilo. Diante
disso, pedi-lhe para que jamais lesse meus pensamentos. Afinal, era o único
lugar onde eu poderia ser verdadeiramente livre.
Zeus concordou com o meu desejo. Assentiu,
comprometendo-se a não invadir minha mente para tentar desvendar o que penso,
em hipótese alguma.
Bastante tempo depois, eu soube que mesmo que ele
quisesse não conseguiria ler a mente de nenhum ser vivo. Essa fora a maldição
impingida por seu pai, Cronos, ao passar-lhe o trono a contragosto.
Assim foi o começo de minha nova vida aqui nessa
morada celestial.
*
Ah, quantos dissabores habitam a mente de
uma mulher!
Estou cercada por divindades perfeitas e não
resisto em fazer comparações. São musas graciosas, ninfas adoráveis, deusas da
beleza que atraem olhares e lançam em troca promessas de delícias inomináveis.
Não sou feia. Mas também estou longe de ser uma
deusa da beleza. Minha pele é muito branca. Tenho olhos verdes, levemente
puxados, como se quisessem fugir do rosto. Uso túnicas largas para disfarçar a
cintura reta. Não bastasse isso, depois de dar à luz a meu filho Ares, fiquei
com ancas largas, cujas vestes me fazem parecer mais encorpada do que realmente
sou. Ao menos sou magra. O que já é um consolo. Sim. Serei eternamente jovem e
magra.
Meus cabelos são claros, longos e terrivelmente
lisos, ornados com uma coroa cravejada de ouro e pedras brilhantes. A textura
fina dos fios, obriga-me a ajeitá-la constantemente. Levo as mãos à cabeça
tantas vezes, que ao final do dia o meu ombro lateja.
Oh,
como eu queria ter os cabelos cacheados de Afrodite! Os anéis em cascata lhe
caem sedutores pelos ombros. Já os meus... de tão lisos, não caem, despencam!
Certa
vez, passei em todos os fios uma substância feita de ervas, para alterar a
coloração e surpreender meu rei. Tão logo minhas servas banharam minha cabeça
retirando os excessos da tinta misteriosa, corri para a nascente sagrada e
estonteada observei nos reflexos da água um tom carmim radiante. Aprovei a
mudança. Bati palmas para mim pela iniciativa e aguardei ansiosa para me exibir
a Zeus.
Meu
rei, ao me ver, arregalou os olhos, levou as mãos à cabeça e emitiu um grito
que acordaria qualquer criatura em sono profundo, afastada a qualquer distância
impossível de se prever.
Não.
Ele não fez nada disso. Antes tivesse tido tal reação. Ao contrário. Ele não
fez coisa alguma. Olhou-me com os mesmos olhos neutros de todas as vezes.
Cabisbaixa,
retirei-me. Removi a novidade e voltei a ficar como sempre fui.
*
Intimamente
eu sonhava em ter um amor fiel. Embora nunca tivesse conversado sobre isso com
meu esposo, ansiava por um abraço, um beijo, um afago, uma manifestação de
carinho, na cama e fora dela. O que tínhamos estava bem longe disso. Nossa
relação me desgostava.
Zeus
se ausentava cada vez com mais frequência. De início, usou de artimanhas para
ocultar suas aventuras, depois, expunha-se afrontosamente, causando-me
constrangimentos.
As
festas se prolongavam por dias e noites. Ao longe, eu podia escutar os sons da lira,
os cânticos, as vozes de homens e mulheres, embevecidos pela luxúria e pelo
vinho.
Assim
como ocorria em épocas de torneios e reuniões do conselho, eu estava
expressamente proibida de participar de toda e qualquer festividade libertina.
Não condizia com minha figura de deusa da moralidade.
Oh,
mas como eu gostaria de saber o que Zeus estava fazendo!
Numa
das noites, escutei algo que me fez chorar pela primeira vez desde que chegara
naquele paraíso.
Em
meio aos sons dos cânticos e gritinhos femininos, escutei um riso de Zeus. Um
riso! Aquilo me feriu mais do que todas as infidelidades sofridas nos últimos
tempos.
Corri
em direção ao jardim dos lírios, meu lugar preferido, meu refúgio particular.
Deixei as lágrimas caírem e se misturarem com as lágrimas da chuva que também
caía, muito mansa, muito fina.
E
quando cansei de chorar, comecei a rir descontroladamente, cada vez mais alto.
Girei em círculos, cada vez mais rápido. Senti uma tontura deliciosa. Queria
sentir meu corpo. Queria sentir minha própria presença.
Estirei-me
sobre o solo e fiquei contemplando uma nuvem. Estiquei o braço e quase a
toquei. A nuvem, percebendo meu interesse por ela, aproximou-se e roçou meus
dedos. Chorei novamente. Até que enfim, um toque, uma carícia! Eu precisava tanto
disso.
Voltei para os meus aposentos e tomei uma decisão.
Dali em diante viveríamos em templos separados.
E em pensamentos, eu seria amada, do modo como
sempre quis ser.
*
Os dias e noites prosseguiam.
Zeus aceitou pacificamente morarmos em templos
separados. Mudou-se definitivamente para o Palácio do Poder Supremo e adotou
uma vida distinta da minha. Em contrapartida, passou a tratar nosso filho com
indiferença e até um certo desprezo.
Pobre Ares, não merecia tal sorte.
Tentando acalmar os ânimos, enchi-me de coragem e
marquei uma audiência com Zeus. Disse a ele tudo que estava preso em minha
garganta. Falei das minhas carências, do meu ciúme, da minha solidão, da minha
revolta pelo seu comportamento libertino; mas também falei do meu respeito e
admiração por ele. Continuei falando, apesar do olhar frio que ele me lançava.
Reclamei da forma opressora com que eu era tratada, das humilhações, do desrespeito.
Enfim, desafoguei meu peito. Disse a ele que nós dois tínhamos que ter uma
relação de igualdade, pois tínhamos a mesma importância e que ele deveria
compartilhar comigo as alegrias, as dores, os júbilos, os temores e o poder. E
o mais importante: tínhamos que rir juntos.
A audiência aconteceu realmente, mas apenas em meus
pensamentos.
Cada vez mais eu vivia para dentro. Cheguei a tal
ponto de atrevimento mental, que lancei uma maldição em Zeus. Acorrentei-o
enquanto dormia. Coloquei nele vestes de prata, abotoadas diretamente no osso,
para que ele nunca mais pudesse me trair.
Planejei também, com extremo refinamento, uma
conspiração solitária, para destroná-lo, assumindo o poder em seu lugar. Eu me
tornaria a primeira deusa mulher a governar os céus e a terra.
Como o mundo inferior dos mortais aceitaria uma
novidade dessa magnitude?
Pensei em fazer tudo isso. Entretanto, se o fizesse,
jamais o teria outra vez.
Respirei fundo, bem fundo mesmo. E lá das profundezas
obscuras do meu interior, fiz emergir o maior de todos os suspiros.
Ohh! Como é atroz a dor da rejeição!
*
Diante da falta de interesse de Zeus e das viagens
demoradas que mantinham meu filho Ares distante por longos períodos, passei a
ocupar-me de afazeres inerentes ao cargo de protetora dos lares. Quando isso
também me entediava, solicitava permissão para sair. Seguidamente ultrapassava
os portões, subia na nuvem mágica e descia até o mundo terreno.
Transfigurava-me em uma camponesa e revivia os tempos de outrora. Para minha
proteção, Zeus ordenava que um de meus servos me acompanhasse.
Curiosamente, percebi que a menina que fui um dia
permanecia intacta em mim.
Saudosa,
dispensei serviçais e passeei sozinha até o lugar onde morei. Não existia mais
a casa onde cresci. Em seu lugar, havia um apiário e mais adiante um pequeno
casebre, provavelmente para organizar o envasilhamento em ânforas e posterior
transporte do mel.
Movida pela curiosidade, observei à distância. E fui
andando com cautela até bem próximo dos cilindros de barro.
Fiquei por um tempo admirando as colmeias e
respirando aquele ar limpo e fresco.
Tão absorta estava, que demorei a perceber um vulto
se movendo ao longe. O homem entrou e saiu algumas vezes do casebre. Parecia
compenetrado em seus afazeres.
Recuei vagarosamente, temendo que ele notasse a minha
presença. Mas quando dei alguns passos, escutei um chamado.
Virei-me, pois seria bastante suspeito se eu o
ignorasse.
— Olá — saudou-me o homem, vindo em minha direção.
— Olá — respondi-lhe, de modo tímido.
— Vens à procura de mel, certamente.
— S-sim.
— Temos potes de tamanhos variados. Qual deseja?
— Q-qual? Ahh, o menor pote que me possibilite
carregá-lo.
— Buscarei. Com sua licença.
Enquanto o homem se afastava, critiquei-me duramente
por tamanha imprudência. O que eu estava fazendo ali? Por que permitira que
um mortal se aproximasse a ponto de trocar palavras comigo? Além do mais,
tratava-se de um estranho.
Um medo inexplicável gelou-me por inteiro.
Não me restava outra escolha, a não ser
aguardar.
Durante o tempo de espera, analisei com atenção os
arredores. Árvores frondosas à direita. Inúmeras colmeias à esquerda. O casebre
à frente, circundado por vegetação rasteira e um jardim florido e bem cuidado.
Na outra ponta, um caminho de pedras lisas, intermediado por flores de variados
tipos. Algumas abelhas passeavam livremente pelos ares. E borboletas. Muitas
borboletas.
Sem querer, fixei o olhar no casebre, ansiando
avistar o apicultor. Com os olhos atentos, suspirei agoniada pela demora.
Quando o homem saiu, deu com meus olhos cravados nos
dele. Mantive meu olhar firme, apesar de sentir meu rosto enrubescer. Aqueles
olhos me aprisionaram por instantes. Só então reparei o quanto eram profundos e
carregados de mistério.
Sem desviar o olhar, ele veio até onde eu estava. Um
calafrio inesperado me fez estremecer e cheguei a mudar os pés de posição,
dando alguns passos a esmo.
— Eis aqui, seu pequeno pote de mel.
— Sou-lhe grata. Mas... lembrei-me que não tenho como
pagá-lo, senhor.
— Pois aceite-o, como um presente meu.
— Não sei se devo.
— Deve. A oferta é sincera, creia-me.
— Está bem. Agradeço imensamente.
Sem mais ter o que dizer, despedi-me.
— Espere!... Nem sei o seu nome.
— M-meu nome?
Rapidamente me veio à cabeça vários nomes, porém,
nenhum deles parecia apropriado. Aturdida, olhei para o pote de mel e busquei
nele um nome com a máxima urgência.
—
Melisa.
— Melisa? É um belo nome. Mel... Melisa. De fato, um
nome agradável.
Visivelmente constrangida e no afã de mudar o rumo da
conversa, perguntei a ele como se chamava.
— Sou Arcan, filho de Aristeu, que ensinou-me o
ofício e deixou-me essas terras. Como podes ver, tenho feito um bom
trabalho.
— Arcan... Sim. Bem, então... adeus! — repeti, desta
vez de um modo solene.
— Adeus...Melisa.
Com aqueles olhos penetrantes segurando os meus, não
consegui dizer mais nada e virei-me para sair rapidamente dali.
Segui andando pelo caminho de pedras, sem olhar para
trás.
Por fim, alguns passos adiante, não resisti e
tornei a olhar. Para meu alívio, Arcan não estava mais lá. Retornara ao seu
ofício, por certo. Tanto melhor, pois os serviçais me aguardavam do outro lado
dos arvoredos. Apressei-me. Encontrei-os. E voltei para a cúpula celeste.
*
Em segredo, revivi minha visita ao apiário por tantas
vezes quantas me foi possível. Relembrei meus temores por conversar com um
homem desconhecido. A mentirinha do nome. O leve esboço de um sorriso, por parte
de Arcan, ao repeti-lo, enfatizando a palavra “mel”. Os olhos muito vivos e
seguros. A satisfação ao falar-me de seu ofício. A suavidade em seu rosto,
contrastando com uma expressão de firmeza. O formato de suas mãos. O quase
roçar de seus dedos nos meus ao entregar-me o pote com mel.
Ai de mim, é pequeno o espaço que tenho para guardar
tantas emoções novas.
*
Alguns dias depois.
Incomodada com os sons estridentes e lascivos vindos
do palácio de Zeus, afastei-me dos séquitos que me rodeavam e dirigi-me ao
jardim dos lírios.
O que estava acontecendo comigo? O som da lira que antes me
aprazia, agora me irritava. A lua pendurada no céu que antes me fascinava,
agora me era indiferente. Até mesmo a fragrância das flores que antes me
inebriava, agora causava-me um pouco de náusea.
Sentei-me num dos bancos do jardim. Alarguei os olhos
e contemplei aquele paraíso magnífico de cores, cheiros e beleza. Uma lágrima
desceu solitária de meu olho esquerdo. O direito se comoveu também, mas ficou
apenas um pouquinho úmido. Era-me difícil admitir que algo em mim se
modificara.
Mas tenho toda a eternidade para descobrir um modo de
voltar a ser feliz, como fui um dia, quando criança — pensei.
Ah, aqueles dias memoráveis, que eu nem sabia a
raridade dos momentos que vivia!
Completamente voltada para os meus próprios
pensamentos, custei a perceber o zumbido de um bichinho por sobre as flores.
Apurei o olhar sobre um dos lírios e arregalei os olhos de estupefação — uma
abelha! De onde viera? Como chegara até meu jardim? Seria possível que... não,
não poderia ser uma das abelhas de Arcan. Ou poderia? Se fosse, então eu a
teria trazido sem saber. Mas que abelhinha esperta e aventureira!
Imediatamente, identifiquei-me com ela.
Subitamente, minha tristeza desapareceu. O ziguezaguear
e o bater de asinhas da abelha me encantaram. Exibida, ela voava em rodopios
arriscados. Sorri. Esqueci tudo ao redor. Éramos apenas eu, os lírios e a
pequena criaturinha.
*
No primeiro fulgor de uma nova manhã, coloquei os
pés no chão, disposta a seguir meus instintos. Banhei-me demoradamente. Em
seguida, refestelei-me numa deliciosa refeição. O pão quentinho, encharcado de
mel, foi degustado sem pressa.
Devidamente saciada, peguei o pequeno pote vazio e
coloquei a abelhinha dentro. Iria entregá-la pessoalmente ao seu dono. Seria
minha forma de retribuição, diante de seu presente. Uma troca ironicamente
singela. Uma abelha, por um pote de mel.
Para descer até o mundo terreno eu precisava de
autorização. E já esgotara minha cota naquele período lunar, bem o sabia. Assim
mesmo, enviei através de um mensageiro um pedido formal a Zeus.
Num instante brevíssimo, o mensageiro retornou com
a permissão concedida.
Que estranho Zeus concordar tão prontamente!
Nem ocupei-me a refletir sobre a bondade repentina
de Zeus, pois meu coração ansiava em retornar ao local, para rever o homem que
o fizera bater descompassado.
Exatamente como da outra vez, transfigurei-me tal
qual uma camponesa, deixando a nuvem mágica oculta num lugar secreto e
protegido.
Segui pelo trecho de pedras, segurando o pequeno
pote. Meus cabelos muito lisos, teimavam em fugir do adorno simples de flores
silvestres que eu mesma fizera. A cada passo eu ajeitava um pouquinho os fios,
para não chegar ao apiário com os cabelos em desalinho.
Assim que o vi, parei e esperei para ver qual seria
a sua reação.
E se ele não lembrasse mais de mim? E se ele
me perguntasse coisas que eu não pudesse responder? E se eu tivesse que
inventar mais mentiras? E se...?
Ele lavou as mãos num jarro do lado de fora do
casebre. Ajeitou os cabelos. Olhou-me. E sorriu.
Fiquei imóvel, esperando por ele. E apertei tanto o
pote, que por pouco não coloquei a pobre abelhinha em perigo.
— Melisa... viestes!
— Ah! — exclamei, a voz quase sumida.
— Tenho sonhado com estes teus olhos oblíquos.
— Meus olhos? Eu os detesto. São tão esquisitos.
— São lindos.
— Eu nem sei porque retornei. Nem sei o que dizer.
Eu...
— Tenho pensado na doçura do teu sorriso.
— Arcan, não pense que.... bem... só vim para
devolver-lhe algo.
— Devolver-me?
— Uma de suas abelhas me seguiu.
Arcan me olhou, sem entender. Então, entreguei-lhe o
pote.
Ao abri-lo, ele libertou a abelha, que voou em
direção à colmeia.
— Não tenho certeza se é uma das minhas — disse
Arcan, muito sério.
Ficamos os dois em silêncio pensando no assunto.
E então começamos a rir desvairadamente. Rimos
juntos. Rimos tanto, tanto, que eu me quebrei em pranto. Coloquei as mãos no
rosto, numa tentativa inútil de esconder do universo o real estado de
fragilidade que eu me encontrava. Emocionada, chorei copiosamente.
Arcan, colocou o braço sobre os meus ombros e
pressionou os dedos suavemente, consolando-me. Não falou nada. E não fez
nenhuma pergunta.
Um misto de desejo e hesitação embaçaram os meus
sentidos. Queria me jogar nos braços de Arcan e ser confortada por aquele homem
envolvente. Ao mesmo tempo, nuvens espessas encharcavam a minha mente de
dúvidas. Eu queria ser verdadeira com os meus sentimentos, mas para isso
deveria ser verdadeira com Arcan.
Minha cabeça estava cheia de vontades que o meu corpo
não deveria saciar.
Somando a tudo isso a pressão dos últimos tempos, em
meio as agruras de minha união com Zeus, o deus imoral, restou que derramei um
céu de lágrimas sem fim.
Arcan puxou-me. Aninhou-me em seu peito. Acariciou os
meus cabelos. Beijou minha testa. E aos poucos, aquietei-me, colada de encontro
ao coração dele.
— Venha, um copo d’água lhe fará bem.
— Sim.
Abraçados, caminhamos até o pequeno casebre.
O interior me pareceu bem maior do que supunha. E
tudo era muito limpo.
Tomei a água oferecida. Recompus-me o melhor que
pude. Ordenei meus pensamentos. Agradeci. Desculpei-me. E avisei que precisava
partir.
Entontecida com aquela proximidade, movi os pés para
sair.
— Fique — pediu-me Arcan, com uma voz deliciosa.
— Oh, não posso. Se eu ficar terei que revelar-te
que...
— Sem revelações. Apenas, fique!
Frestas de luz invadiam o cômodo, irradiando feixes
de fulgores extasiantes.
Atraídos um pelo outro, ficamos nos olhando.
Quanta beleza se esconde no mistério — pensei,
desejando ardentemente me perder naqueles olhos fascinantes.
Arcan estendeu sua mão e com doçura me levou até
ele. Deixei-me ir. Abandonei os pudores, os recatos, os conflitos internos e
encostei meus lábios nos dele. Beijamo-nos. Mutuamente nos tocamos, nos
exploramos, nos descobrimos. As mãos quentes e macias de Arcan me tiraram do
chão. Sua boca, sua língua, seus suspiros, me fizeram sair do invólucro.
Embebida de carícias, retribuí e entreguei-me. Deitamos no chão. Retiramos
nossas vestes. Aceleramos os carinhos. Paramos. Admiramos nossos corpos.
Beijamo-nos novamente. E quando parecia que iríamos explodir, recomeçamos os
carinhos e os beijos, entre gemidos, suspiros e respirações ofegantes. Então,
Arcan afastou minhas pernas, entrou em mim e lentamente foi me levando para o
céu.
De início, suaves acordes esquentaram as cordas do
meu coração. Aos poucos, os sons se propagaram e se esvaíram por todas as
frestas. Por fim, uma vibrante sinfonia formou uma composição das mais
formosas. Borboleteei à flor da pele.
Tão logo nossa respiração se normalizou,
recomeçamos os beijos, os olhares febris, os carinhos, os gemidos,...
Extasiada, encostei-me no peito de Arcan, enquanto
sentia o confortável calor de sua pele.
Como eu pude viver tanto tempo sem ter
experimentado tamanha satisfação?
Uma quietude morna envolveu os ares do pequeno
casebre.
Arcan estava tão quieto que escorei-me frontalmente
para verificar se adormecera.
O que vi foi um rosto muito sério e um olhar aberto e
perdido nos vãos do mundo.
E naquele momento eu soube. Eu soube!
Levantei-me. Vesti a túnica e arrumei os cabelos.
Tudo sob o olhar atento de Arcan.
Tão logo fiquei pronta, Arcan colocou as vestes e
levantou-se também.
— Preciso ir — falei.
— Poderia ficar aqui, se quisesse.
— Sim, mas realmente não posso.
— Vou acompanhá-la.
— N-Não! Eu... prefiro ir só.
— Está bem. Mas quero vê-la novamente.
— Quer? Quer mesmo?
— Sim, meu docinho, quero muito.
— Vamos guardar este momento para sempre.
— Mesmo que eu quisesse, meu doce, jamais esqueceria.
— Adeus, Arcan.
— Adeus, meu amor. Irei esperá-la. Estarei aqui.
*
De volta ao templo, chamei uma das servas para providenciar-me
um banho. Deixei a água escorrer, retirando vestígios exteriores. Internamente
eu me sentia marcada perpetuamente.
Guardaria por toda a eternidade, aqueles momentos
sublimes. E por terem sido tão valiosos, não seriam mais repetidos.
Coloquei vestes limpas. Tentei dormir, mas nem
mesmo o negrume da noite me convidava ao sono.
Agitada, fiquei andando de um lado a outro.
Pensando... Pensando...
Enquanto isso, lá fora, o céu estrelado anunciava
mais uma noite gloriosa aos deuses do Olimpo.
*
Assisti ao nascer de um novo dia, com a certeza do
que deveria ser feito.
Mandei chamarem Atena, a deusa da sabedoria. E
tivemos uma conversa esclarecedora. Sem entrar em detalhes sobre as reais
motivações daquele inusitado pedido, solicitei-lhe informações sobre os meus
direitos e deveres como esposa de Zeus e deusa dos deuses. Embora surpresa,
Atena prontamente elucidou todas as minhas dúvidas.
Assim feito, voltei aos meus aposentos. Deitei-me.
E adormeci profundamente, com um sorriso sagaz no canto da boca.
*
Os dias seguintes transcorreram mansamente. Retomei
minhas atribuições de sempre. E mantive-me ocupada, exemplarmente. Em breve
estaria pronta e fortalecida para o confronto.
Alguns dias demoravam mais a passar do que outros.
Um vagar torturante, pois meus pensamentos me bombardeavam sem trégua.
Ah, como o tempo anda devagar, quando se
deseja que ele voe!
Certa manhã, acordei tão bem disposta que resolvi
fazer algo que sempre quisera fazer. Cortei partes dos fios próximos aos olhos,
de forma a dispensar definitivamente os artifícios para mantê-los comportados.
Não sei se o resultado foi satisfatório aos olhos alheios, tampouco me
interessei em saber. Finalmente os fios haviam deixado de me importunar. E isso
era-me suficiente.
Incontáveis luas haviam girado no céu, desde o
encontro no apiário. Muitos suspiros se refugiaram em mim, a partir daquele
momento inesquecível até hoje. Mas o tempo segue, apesar de qualquer desejo
contrário.
Nunca mais fui até o portal, nem solicitei
permissão para sair.
*
Encontrava-me admirando os lírios novos que haviam
florescido, quando nuvens negras fecharam o céu por inteiro. Raios e trovões
sacudiram o Olimpo.
Era chegada a hora. A ira de Zeus se manifestara,
como eu previra.
Preparei-me para ir ao Palácio do Poder Supremo, no
exato instante em que um mensageiro trouxe-me a convocação extraordinária.
Calmamente, atravessei a alameda dourada, entre
riscos de fogo que cortavam o firmamento em pedaços.
Como eu supunha, Zeus estava furioso. E isso não me
provocou medo algum.
— Eis-me. Aqui estou em sua presença, Senhor.
— Como ousas desobedecer minhas ordens?
— Quais ordens, Senhor?
— QUAIS ORDENS?
— Sim. Quais? Não sei a que ordens se refere.
— Pois bem, irei refrescar-lhe a memória: por TRÊS
vezes enviei um mensageiro liberando-a para que fosse até o mundo terreno. E
nas três vezes ele retornou, sem resposta alguma — gritou Zeus, batendo com a
palma da mão no trono.
— Senhor, não fui e não irei mais ao mundo terreno.
— Vês? Não sabes que minhas ordens devem SEMPRE
serem cumpridas?
— Nem sempre. Tenho os meus deveres, mas também
tenho os meus direitos. E não sou obrigada a ir onde não quero ir.
— Direitos? Deveres? — bravejou. — Saiam todos!
Deixem-me a sós com Hera.
Assim que todos os séquitos saíram, Zeus abaixou a
cabeça e respirou fundo diversas vezes. Quando ergueu os olhos, a tempestade lá
fora cessou, as nuvens negras sumiram do céu e os raios e trovões se apagaram.
— Diga-me, o que há? Porque me olhas desse modo
sereno, quando estou aqui aos gritos e ameaças? — perguntou Zeus, confuso,
franzindo a testa.
— Meus olhos oblíquos estavam cegos pela veneração.
Não estão mais.
— Olhos oblíquos? Mas então... então... sabias? Mas
como?!
— Tens os teus poderes, eu tenho os meus.
— Perdoa-me, meu docinho. Vamos conversar. Eu não
paro de pensar em...
— Esqueça! Isso é passado. Vim apenas para lhe
dizer que muitas coisas mudarão de agora em diante. Queira ou não, participarei
dos torneios e das reuniões. Eu conheço os meus direitos e farei uso de todos
eles. De resto, tudo ficará como antes. Continuaremos em templos separados. E
eu jamais o perdoarei por todas as traições. E, principalmente, jamais o
perdoarei por ter me traído comigo mesma, como fizestes.
— Espere! Deixe-me explicar... Eu....
— Zeus?
— Sim, meu doce?...
— Vá ver se estou no jardim dos lírios!
Dei-lhe às costas. Porque se ficasse mais tempo,
olhando aqueles olhos magníficos, não sei se resistiria. Não sei.
*
"Tenho
a vida inteira para
encontrar um jeito de ficarmos juntos outra vez" — pensou Zeus, enquanto observava
a esposa se afastando.

Queridos amigos e leitores, queiram me desculpar pelo texto longo.
ResponderExcluirPensei inicialmente em dividir o conto em duas ou três partes, mas a leitura seria prejudicada pela quebra do ritmo e resolvi postar a história completa.
Grata a todos que se dispuserem a ler até o final. *abraços e beijos*
Rosa, ainda bem que foi sensata e nos presenteou com a história completa em toda a sua perfeição!
ResponderExcluirAdorei ler cada parágrafo e quando a leitura é sadia, corre de uma maneira tão leve que nem percebemos se é longa ou não.
Que inquietante foi descobrir o ressurgimento de Hera e como ela cresceu aos poucos, ficando cada vez mais consciente de seus direitos... E tudo contado sob uma forma sutil e muito romântica!
Você está de parabéns, que linda história dos deuses de Olimpo.
A começar pelo título, um tanto sugestivo e contemporâneo : Daí já vi que sairia algo inédito!!
Ficou tão singelo, romântico, íntegro!
Impossível fazer-lhe um elogio à altura!
Obra maravilhosa!!
Vou compartilhar para que mais possam saborear essa leitura!
Obrigada, mais uma vez!!
Maravilhoso restante de semana querida!!
Hera era e é uma mulher, em toda sua complexidade, seu crescimento e amadurecimento, suas fantasias e sua força interior num viés histórico de conquistas femininas. Há uma Hera em todas nós. Parabéns pelo seu talento e sensibilidade.
ResponderExcluirUm abraço
Olá, Rosa... Hera fez a escolha perfeita>nossos pensamentos , o único lugar onde podemos ser verdadeiramente livre.
ResponderExcluirUma nova Era para as novas Heras> antes, as mulheres tinham papéis específicos na sociedade , mas hoje passou a buscar a igualdade de gêneros , conhece seus direitos e a conquistar seu espaço , participando de torneios/reuniões,até morando em casas separadas, se for o melhor para ela. Claro que continua vaidosa e não vejo mal nisso, precisa cuidar da saúde e da aparência. Algumas até se comparam com outras, somente precisam se policiar para não extrapolar em seu sentimento de vaidade. Traição, nem naquele tempo e nem agora!Portanto,a Hera como aquela mulher que preza pelo casamento saudável , compromissos e funções afins e que tenha ciúmes do parceiro de maneira saudável!
Belos dias,abraços!
A sua imaginação não conhece mesmo limites.
ResponderExcluirSublime!
Olá, Rosa...
ResponderExcluirDesejo mais e mais inspirações... Escrever é expressar a alma... Sucesso sempre!
Obrigada por comentar por lá... Bj
Que leitura agradável, Rosa.
ResponderExcluirMais uma vez me deixou encantada com sua história.
Amei a história de Hera.
Com certeza é uma mulher de muita personalidade.
Sempre aprendo muito com o que leio o que você escreve.
Que bom que você não dividiu o conto.
Abrç
✿Blog: Autora Marcia Pimentel✿▕ ✿Instagram✿▕ ✿Twitter✿
Os direitos da Mulher já vêm de longe... rsrs... gostei da revolta final, os homens, mesmo os deuses, podem ser postos nos seu devido lugar...
ResponderExcluirFez bem em não dividir o texto. Leva algum tempo a lê-lo, mas vale a pena.
É brilhante a forma como, a partir de elementos conhecidos da mitologia grega, consegue construir uma história consistente numa narrativa tão agradável.
O resultado é um conto brilhante, gostei imenso.
Tem um bom fim de semana, querida amiga Rosa.
Beijo.
Incrível trabalho, Rosa!...
ResponderExcluirE afinal... também não haverá mesmo paraísos perfeitos... nem na terra, nem no Olimpo...
Talvez por isso... haja qualquer coisa de Deus em nós... pois tal como os Deuses... viver resulta de uma sucessão contínua de confrontos, incertezas e desentendimentos...
Brilhante trabalho, de que resultou uma narrativa, de leitura imparável!
E porque hoje estou com meu tempo um pouquinho limitado, virei noutro dia, apreciar os demais posts, que me escaparam por aqui, nos últimos dias...
Um beijo imenso, Rosa! Desejando-lhe um óptimo fim de semana...
Ana
Ei Bom dia de Domingo.
ResponderExcluirEstou chegando aqui em seu
blog, já seguindo
a aguardo lá no
Espelhando.
Vou ler por aqui
e volto para comentar de fato.
Bjins
CatiahoAlc.
Um Conto completo, perfeito, lindo. É um Dom que nasce connosco que deve ser elevado e premiado.
ResponderExcluirBeijo
SOL
Um conto excelente, que evidência a sua criatividade e
ResponderExcluiradmirável narrativa, muito envolvente!...
Apreciei muito a leitura, Rosa.
Uma semana alto astral!
Bjs.
Oi Rosa,
ResponderExcluirNão vou mentir a você. Não li o conto, pois não estou bem, logo que melhorar faço-lhe um comentário a sua altura
Mil perdões
Beijos
Lua Singular
Olá Rosa, td bem?
ResponderExcluirEstou passando para te desejar uma excelente semana! Assim que tiver mais tempo volto para ler o seu conto que com certeza é ótimo.
Beijos.
Oi, Rosa, mas claro que não dava para separar o conto! Agora que consegui paz no telefone, retomei todo novamente. Por ser extenso e repleto de mitologia, é que tem de ser lido todo, de uma vez.
ResponderExcluirMuito interessante e quando vamos nos afastando do início, a leitura vai aguçando mais a curiosidade. Realmente você é detalhista, criou uma pobre abelinha para dar motivo sutil e terno à Hera de voltar... Também gostei do presente, a tal de longevidade eterna! Era tudo o que eu almejaria. Só que não levou a não leitura de seus pensamentos, seria demais, amiga! Apesar de ser a única maneira que seria livre, verdadeiramente.
Mas o final jamais daria para desconfiar, surpreendente!!! Só você com essa capacidade criativa...Lógico que não vou contar aqui...
Quantas vezes posso te dar parabéns por essa criação? Contado com elegância do começo ao fim.
Beijo, querida amiga.
corrigindo:tempo à Hera de voltar.
Excluirbeijo.
Oi Rosa,
ResponderExcluirFaço muito disso apenas para quem me lê no blog. Mas tenho rascunhos de contos sem desenhos. Adoro escrever contos grandes, mas não da para por no blog, pois ninguém gosta de ler textos muitos grandes.
Beijos
Que Deus a abençoe
Minicontista2