quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O retorno de Izor


Nas altas montanhas da província de Valáquia, o exército romeno comandado por Velkan era dizimado nas mãos do inimigo. Exaustos, após longo trajeto percorrido, haviam descido dos cavalos para descansar, quando ouviram barulhos suspeitos. Os cavaleiros turcos os cercaram por todos os lados, empurrando-os na direção de uma íngreme encosta.

Em número reduzido, as tropas romenas avançaram para a morte, lutando contra o impossível. Elmos saltavam das cabeças decapitadas. Lanças eram arremetidas com força, atravessando as armaduras romenas. Lá embaixo, o rio Arax manchava-se em desgraça com os corpos que sucumbiam ao desnível do terreno.

Romenos e turcos disputavam territórios e glórias. Antigos desentendimentos, colhidos à custa da queda de centenas de milhares de guerreiros destemidos. Exércitos chefiados por líderes que nada temiam. Suas ordens arrebatavam os ares e eram seguidas com valentia.

À frente dos turcos, o imponente Kyfared, conhecido por seus combates sanguinários. Suas tropas recebiam treinamentos embrutecedores. Do mesmo modo, Velkan comandava os soldados romenos com mãos de ferro. Com menos da metade do contingente turco, sabia estar em desvantagem. Tinha a seu favor a grande compleição física de seus homens, comparada à baixa estatura dos oponentes. A truculência dos soldados turcos e sua fúria selvagem não assustavam os gigantes musculosos romenos.

Entre os romenos, dois irmãos lutavam para se manter vivos — Izor e Rangrof. Desde pequenos treinaram para fazer parte da legião. Orgulhavam-se em serem cavaleiros do rei. Izor era dois anos mais velho que Rangrof. Apesar disso, Rangrof é quem sempre o protegia. Havia uma ligação muito forte entre eles. Por mais de uma vez, Rangrof salvara a vida do irmão, cuja coragem o colocava com frequência em situações de risco. Sempre atento e com a mente serena, Rangrof vigiava Izor e seus intempestivos passos. Agora estavam ali, os dois, na pior das batalhas.

Em meio a gritos de ataque e carnes rasgadas, poucos pensamentos rondavam aquelas mentes guerreiras. Corpos se empilhavam por toda parte. Muitos agonizavam, com aberturas terríveis, feitas por lanças atrozes. Embora feridos, com cortes profundos, continuavam lutando. Daqueles golpes infernais, estranhos ruídos de ossos partidos ouviam-se. Mas não havia tempo para saber de onde vinham. Nem era preciso. Os turcos iam abatendo um a um, esmagando-os na direção da encosta.

Lufadas de vento secavam os respingos de sangue de outras veias, instaladas na face de Izor. Tentava, com esforço, manter-se firme, entre aquela tempestade de lâminas que riscavam os céus e já haviam lhe atingido em várias partes do corpo. De quando em quando, olhava para ver onde estava o irmão. O contínuo ataque o impedia de acompanhar com os olhos a luta de Rangrof para sair-se com vida daquela emboscada.

Cenas terríveis ocorriam em todas as direções, numa luta que parecia não ter mais fim. Sem os cavalos, os guerreiros romenos se protegiam com seus escudos, mas a chance de saírem dali vivos diminuía a cada minuto. A milícia turca parecia ter saído das sombras que se projetavam aos poucos no nevoeiro da montanha, cobrindo a paisagem como um véu de trevas.

Enquanto Velkan ordenava a seus homens que atacassem, ao mesmo tempo em que organizava outras fileiras na retaguarda para os protegerem, evitando assim maiores perdas, Kyfared avançava, fechando o cerco e massacrando-os por todas as direções.

Empenhado em salvar o maior número possível de soldados, o comandante romeno girou o corpo por instantes para ordenar uma mudança de estratégia, quando o ar lhe faltou repentinamente e o céu escureceu para sempre.

 Chegou sua hora!  exclamou Kyfared, triunfante, enterrando sua lança em Velkan, que nada disse, pois a lâmina lhe atravessara a garganta.

Restavam poucos homens em pé. Os turcos haviam derrotado os romenos e, em questão de instantes, bradariam comemorando a vitória. Ferido, com talhos profundos, Izor tentava bravamente revidar. Sem forças, girava em círculos empunhando sua espada, sem conseguir acertar mais ninguém. E antes de curvar-se vencido diante do inimigo, viu seu irmão, Rangrof, ao longe, numa situação semelhante. Caiu desfalecido no rio.

Dado como morto, Izor foi levado pela correnteza sobre centenas de cadáveres. Quando recobrou a consciência, abriu os olhos e espantou os abutres que bicavam famintos os seus ferimentos. O cheiro pútrido empesteara as águas. O ar ali tornara-se irrespirável. Com dificuldade, afastou as carnes mortas dos aliados de combate. Ergueu-se.

Izor era um homem de semblante enérgico, alto, vigoroso, dotado de músculos fortes. Assim mesmo sentiu-se enfraquecido, com o coração oprimido. Temia ser o único sobrevivente. Uma verdadeira tormenta agitava-lhe os pensamentos. O irmão, de sangue e de batalhas, vergara-se eternamente?

Com o sol estalando na face, andou pela margem do rio procurando algum sinal de vida. Afora o som dos pássaros que se alimentavam dos corpos, um silêncio abismal imperava. Os turcos, ao que tudo indicava, haviam levado todos os cavalos e sem montaria a viagem de volta até sua casa seria impraticável. Levaria cinco dias caminhando ou mais. Porém antes de iniciar o retorno havia algo que precisava fazer.

Entornou a margem e escalou a encosta, escolhendo um trecho menos escarpado. Parou. Apurou os ouvidos certificando-se de um possível ataque surpresa. Ao chegar ao alto da montanha, onde antes uma intensa batalha ocorrera, nada encontrou com vida. Chamou pelo irmão. Procurou por ele entre o cenário devastador. Nenhum movimento, apenas pilhas de corpos mutilados. A visão era aterradora mesmo para um soldado treinado como ele acostumado com a morte. Sentiu um gosto amargo na boca ressecada pela sede e cortada pelas bicadas dos abutres. Uma onda de cansaço e desolação o atingiu em cheio. As dores de seus ferimentos aumentaram. A respiração saía com dificuldade. Estirar-se no solo parecia o melhor a fazer e quase o fez recostar-se nos cadáveres decompostos e malcheirosos para recuperar as forças e aguardar por reforços. Em vez disso, muniu-se das poucas energias que lhe restaram e afastando com as mãos as moscas que zumbiam em seu redor decidiu partir.

Sem água. Sem cavalo. Sem comida. Estudou com atenção a montanha de corpos. Observou que não haviam sido saqueados por completo. Pegou o que lhe fosse útil e preparou-se para enfrentar o trajeto de volta para casa.

Alguns quilômetros depois desabou. Encostou-se numa árvore de folhas grandes. Não havia encontrado sobreviventes pelo caminho. Temendo deparar-se com o inimigo, escolheu seguir por atalhos desconhecidos. Cansado, Izor adormeceu e rendido por deliciosa miragem avistou Ione, sua delicada esposa. Os longos cabelos acastanhados ondulavam ao vento quando ela corria para encontrá-lo ao voltar das batalhas. Ione o esperava com o sorriso mais doce do mundo. O cheiro do pão feito por ela encheu-lhe as narinas. O aroma das frutas no pomar. As risadas dos filhos. O odor agradável da pele de Ione. Ahh, esposa, estou chegando.

E foi nesse momento delirante cujas imagens floresciam idílicas e lhe pareciam muito reais que uma densa névoa lentamente encobriu os céus de seus devaneios.

Ainda imerso em atmosfera irreal, Izor encrespou a testa, levando involuntariamente sua mão à espada, preparando-se para o mal que estava por vir.

Uma nuvem de poeira, acompanhada de um tremor que sacudiu o solo, confirmou o pressentimento de Izor. Um vulto imenso surgiu. A maior criatura que já vira. Reconheceu-a, apesar de nunca tê-la visto antes. Era o temido gigante da gruta maldita que diziam existir do outro lado das montanhas. 

Jamais vira qualquer coisa parecida, embora já tivessem lhe contado histórias a respeito. Até aquele dia julgava ser uma figura fantasiosa, inventada a mando do rei para assustar o povoado a fim de não ultrapassarem as fronteiras. No imaginário fértil de alguns, descreviam como um grande animal demoníaco, indestrutível, com uma pele tão dura quanto dezenas de armaduras sobrepostas e de cujas garras seria impossível libertar-se. Contavam que os gigantes somente atacavam os vilarejos quando outras criaturas, negras, pequenas e voadoras, invadiam sua gruta para sugar-lhe o sangue. E sempre que tal fato ocorria, o gigante se enfurecia e saía para vingar-se, atacando qualquer coisa que se mexesse.

Izor, que nada temia, sentiu-se impotente diante daquela figura colossal que avançava sobre o vilarejo, pisoteando e jogando os corpos para longe, como se fossem pequenos brinquedos de madeira. Corriam, aos gritos, sem saber em qual direção se esconder. Os arqueiros do rei, que protegiam os vilarejos, inutilmente lançavam suas flechas sobre aquele monstro hediondo. Aos poucos a imensa criatura ia triturando todos à sua frente, deixando para trás corpos irreconhecíveis.

Uma expressão de surpresa inundou o rosto de Izor ao perceber que Ione fora pinçada por uma das mãos do gigante, enquanto tinha a pele dilacerada por aquelas unhas que se comprimiam ao fechar a mão em calabouço.

Que agonia sem fim era aquela que o engolia num poço de trevas?

Agitado dentro daquele pesadelo e sem conseguir proteger sua família do ataque da criatura gigante, assistiu ao massacre de todo o vilarejo. Brumas geladas o dominaram ao ver que o gigante desapareceu em direção às montanhas após ter capturado Ione. Queria lutar. Queria salvá-la. No entanto, suas pernas não se mexiam. Suas mãos estavam dormentes. Sua fronte queimava. Seu corpo exaurido vagava entre dois mundos. Parou de resistir e entregou-se ao sono profundo, enfraquecido pela dor da perda daqueles que lhe eram mais caros. Deslizou para o fundo de uma cratera escura, silenciosa, vazia de qualquer malignidade... e por lá ficou.

 Izor! Izor!

O coração de Izor disparou violentamente. Abriu os olhos com esforço. Era Rangrof que o sacudia.

 Irmão, estás vivo!  exclamou Izor, ainda confuso e entorpecido.

 Levante-se. Vou ajudá-lo a chegar a casa – falou Rangrof.

Ajudado por Rangrof, Izor continuou caminhando. E quando esmorecia, o irmão o erguia, dava-lhe um pouco de água e nacos de pão. Seguiam o trajeto. Escorado no corpo do irmão, Izor via o próprio corpo se movimentando sem acreditar inteiramente que eram seus pés que pisavam o solo.

 Vou desfalecer, irmão. Creio ter perdido todas as forças.

 Façamos um descanso naquela sombra  disse-lhe Rangrof —seguiremos depois.

Ao vislumbrar o vilarejo, Izor abriu e fechou os olhos diversas vezes, até acreditar tratar-se de uma imagem real. Respirou fundo. Agradeceu ao irmão e abraçou-o, longamente. Sem ele não teria conseguido. Sem ele ainda estaria jogado na estrada, preso entre doces quimeras.

Com os olhos embotados, avistou Ione. Mais alguns passos. Um movimento, depois outro. Os pés sangravam. Os olhos pesavam. E seu coração se abrandava. Sabia que após a derrota sofrida na batalha contra os turcos grandes mudanças ocorreriam, afetando a vida de todos. Mas agora só queria chegar a casa. 

Apenas uns metros. Em breve poderia entregar-se livremente à dor.

Podia ver Ione correndo para encontrá-lo. Sorriu, tomado de satisfação. Em poucos minutos sentiria o calor da esposa.

Virou-se, para dividir sua alegria com Rangrof, estranhando o desaparecimento repentino do irmão...

...cujo corpo fora devorado pelos abutres, na beira do rio Arax.



domingo, 30 de outubro de 2016

Aterrorizado



Madrugada gelada. A passos ligeiros, William atravessa o terreno baldio. Raramente cortava caminho por aquele trecho durante o dia, quanto mais ao fechar da noite, mas a urgência em chegar logo em casa o fez agir imprudentemente. Uma força contrária o impelia ao inóspito cenário de sombras e histórias misteriosas.

O terreno fora cercado com arame farpado, já rompido em alguns pontos, por onde abriram uma trilha num descampado de uns cento e cinquenta metros, até o outro lado da avenida, onde ele residia. A vegetação crescia abundante em meio ao lixo jogado e toda sorte de imundícies. Até mesmo um corpo em decomposição havia sido encontrado pela polícia, algum tempo atrás.

Mesmo sabendo disso, enveredou mato adentro. Levantou a gola da jaqueta, colocou as mãos nos bolsos e continuou o trajeto o mais rápido que pode. Logo estaria no calor de sua sala, em frente à lareira e junto de sua esposa Ester, por quem nutria um amor imensurável e cuja saúde frágil inspirava cuidados.

E foi mais ou menos uns cinquenta metros adiante que escutou um grito horripilante. Assustou-se de tal forma que parou no mesmo instante. Apurou os ouvidos. Nada. O vento balançava as folhas, provocando pequenos estalos. Sentiu nos ossos a presença de algo vivo aproximando-se dele, mais e mais. Sem esperar para ver do que se tratava, correu feito um desesperado.

O medo prega peças e faz uma pessoa ver coisas que não existem. Na dúvida, se existem mesmo, melhor sair em disparada.

No entanto, sua tentativa foi frustrada. Ao longe, no seguimento da trilha, bem na direção por onde iria passar, avistou a figura. Dois olhos cárneos, como duas luzes vermelhas, brilhando frementes, rutilantes e rubras, espreitando tenebrosas. Nenhum corpo aparente, apenas aquele par de olhos sanguinolentos aguardando por ele, bem ali, na sua frente, levitando, rodeado por névoa turvejante. Apavorado, relutou em enfrentar o vulto ou recuar. Sua hesitação durou alguns segundos, tempo suficiente para a coisa se aproximar ainda mais. Que opções ele tinha? Gritar? Quem o escutaria? E se escutassem, teriam coragem de entrar naquele território de medos? Ele não queria ser também encontrado em estado de putrefação. Pensou em continuar correndo e ignorar aquela visão. Pensou também em telefonar para a polícia, pedindo ajuda. Obviamente o tempo que levariam para chegar ali seria insuficiente para salvá-lo daquela situação sinistra. Em questão de segundos, William pensou realmente tudo isso. E ao invés de fazer o mais sensato, gritar e telefonar pedindo socorro, irracionalmente saiu da trilha e entrou no matagal.

E este foi seu grande erro.

William abandonou a trilha e embrenhou-se instintivamente para a direita. O desvio do curso afastou-o temporariamente do perigo, arremessando-o a outro, tão nefasto quanto o par de olhos devoradores.

Sem poder retornar para o atalho, continuou em frente. Os galhos das árvores o cercaram e se enredaram em suas pernas, arrastando seu corpo para um pântano de odores fétidos. Bem que tentou gritar, mas sua voz não saía. O desespero durou uma eternidade e com muito custo desvencilhou-se daquelas garras ensandecidas e afastou-se do lamaçal movediço. Lanhado pelos espinhos e pontas de madeira, arrastou-se para o mais longe que pode. Suas roupas ficaram imundas e o sangue escorria por todas as partes de seu corpo machucado. Encolheu-se num canto menos povoado de lama e arbustos, a fim de recuperar o fôlego. Em vão, procurava uma explicação lógica para tudo aquilo.

Amparado de encontro a uma encosta de terra mais seca, sentiu uma túrbida aguilhoada intercostal e no instante em que se contorcia de dor, algo cravou em suas costas. Tomado pelo pânico, não tinha coragem de se virar e descobrir quem ou o quê o atacava impiedosamente. Ficou parado, quieto, sem se mover e quando o fato se repetiu, berrou de dor e pavor. No desespero de se livrar de seu agressor, fosse lá o que fosse, pegou uma pedra e bateu, bateu, bateu, continuou apedrejando em todas as direções, como um louco varrido, possuído, dominado, fora de si. E foi em meio a esse acesso brutal que tudo começou a girar e num ápice perdeu os sentidos.

*   

Quando recobrou a consciência, a noite já se fora e o sol raiava em mais um dia de aparente normalidade. Ainda assustado, percorreu os olhos em torno, como quem procura um fantasma no canto da sala. Preocupado, colocou a mão no bolso e respirou aliviado - o remédio de Ester - estava intacto! O celular no chão, entre folhas e gravetos, despedaçado. Ajeitou o melhor que pode suas roupas esfarrapadas, sujas de lama e sangue, enquanto com muito esforço levantou-se do chão. Voltou para a trilha e capengou até a saída.

Entrou em casa. Fechou a porta e com o coração sobressaltado, cheio de sustos, chamou por Ester.

- Meu amor, desculpe a demora, tive uns probleminhas, mas está tudo bem agora. Trouxe seu remédio.

A casa permanecia em silêncio. Intrigado, procurou a mulher por todos os cômodos. Teria ela passado mal com a falta do remédio e chamado um táxi para ir ao hospital? Que estranho! Que noite inacreditável! Iria até o hospital à procura de Ester. Tomara que ela estivesse bem. Jamais se perdoaria se algo acontecesse a ela por causa de sua demora.

Ligou o chuveiro e deixou a água escorrer sobre sua pele castigada.

Terminou de se vestir e preparava-se para ir ao hospital, quando tocaram a campainha.

Abriu a porta e deparou-se com o oficial Ramirez, da polícia local.

- Sim? Em que posso ajudá-lo? - perguntou, pressentindo más notícias.

- Estava na viatura, do outro lado da rua e o vi chegando em casa, com as roupas ensanguentadas. Está tudo bem? Precisa de alguma coisa, senhor?

- Não. Obrigado. Eu tive uma noite ruim, apenas isso. Está tudo certo. Saí para comprar o remédio de Ester e sofri uns contratempos.

- Senhor, sua esposa Ester morreu no ano passado.

- Não!! Olhe, aqui está o remédio dela! Veja!!!

- Mas este remédio é para alucinações. Esta é uma cidade pequena e muitos sabem de sua internação e tratamento após o assassinato de sua esposa por um andarilho, quando ela atravessava o terreno aqui perto.

- Não!!!! Ester está viva, olhe as fotos dela pela casa, as roupas no armário, as coisinhas que ela mais gostava!... Entre e olhe no quarto o chinelinho dela, está bem ao lado da cama. Ela só está adoentada! Ela não morreu!! Eu não saberia viver sem ela!...

- Acalme-se. Foi um acontecimento trágico, todos nós entendemos seu desespero. Precisa aceitar o que houve e continuar o tratamento. Agora, diga-me, o que fazia no terreno? De quem era o sangue na sua roupa? O que houve?

- Eu fui perseguido por uma criatura do mal, enquanto tentava trazer o remédio de Ester. Tudo que eu queria era chegar logo em casa para ela ficar bem! 

- Senhor, venha comigo, leve-me até o local.

Calmamente, William entrou na viatura e acompanhou o policial.

Quando chegaram, apontou o canto onde ficou escondido, enquanto narrava sua versão dos fatos. Descreveu a criatura maligna dos olhos de sangue e falou dos galhos que o puxaram para dentro do pântano e do golpe que o atingira e do grito espantoso que escutara e da dor lancinante e dos horrores que sentiu durante a noite naquele terreno abandonado.

O policial escutou em silêncio, olhando ao redor. Tudo que via era uma coruja despedaçada no chão, em uma poça de sangue. 




sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O medo de Virgília - 2ª edição


Amigos queridos, trago duas novidades maravilhosas pra vocês: 

Meu romance O MEDO DE VIRGÍLIA ganhou 
uma segunda edição e com capa nova! 

A Editora Selo Jovem arrasou no design e 
o livro já está disponível p/venda no site. 

   Maiores informações >>> AQUI <<<


SINOPSE

Cercada por pessoas desajustadas (psicopatas, neuróticas, depressivas, insanas, obsessivas, fóbicas e inescrupulosas), Virgília luta para manter sua sanidade mental.

Dividida entre cuidar da própria vida e ajudar seus familiares que precisam dela financeiramente, muda-se de Cristal (pequena cidade gaúcha) e vai morar sozinha em Porto Alegre, num apartamento herdado pela mãe. Assim, poderá ficar mais perto de Marília, sua irmã mais nova, internada numa clínica depois de tentar matá-la, após sofrer um surto psicótico.  

Virgília começa a trabalhar como gerente de uma joalheria. Lá, conhece Alex, o entregador de joias. Os dois se apaixonam. E em pouco tempo, serão envolvidos por um laço de amor que os manterá unidos contra todas as adversidades.

Além de ser um homem apaixonante, Alex possui um dom incomum que o torna capaz de tirar vidas, ou salvá-las. E este seu dom, terá um papel importante para os rumos desta história.

Uma trama onde o grande mistério é descobrir como Virgília conseguirá lidar com tantas situações difíceis que a cercam, sem enlouquecer.

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 Fanpage: http://www.facebook.com/OMedodeVirgilia
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Para ler o primeiro capítulo, clique AQUI.
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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Desabafos do além


Eis-me, debruçada sobre a mesa, cuja madeira escura encontra-se áspera e fria. Carrego a sina de ser uma porta aberta para espíritos mergulhados em penumbra indócil e martírios infindos. Se tenho medo? Não. Há muito deixei de resistir e temer. Eles chegam e partem. Não são perversos. Encontram uma abertura e choram suas dores. Eu os escuto. Por que os rejeitaria? Sou útil para eles. E o que pode ser mais gratificante que ter serventia a outros, nesta vida, ou além dela?

Encontrava-me absorvida entre dois mundos quando senti uma aproximação hesitante. Serenamente esperei por alguns minutos, ciente da presença de um espírito profundamente angustiado e necessitando fazer contato.

Após um tempo de espera, um leve roçar de dedos em meu ombro ganhou minha inteira concentração. Coloquei as mãos sobre a mesa. Peguei a caneta. Ajeitei as folhas. Fechei os olhos. Aguardei.

Estremeci inteira ao ser invadida. Inexplicável. Algum dia, iria me acostumar em deixar de ser eu? Talvez esta fosse a melhor parte, sentir verdadeiramente o que os outros sentem, por mais doloroso que isso pudesse ser para mim.

Parei de pensar. O espírito tomou posse e começou a escrever através das minhas mãos,  dominando-as, como se dele fosse.



Ah, minh'alma inteira soluça, infestada de suores e delírios, tomada por roedores carnívoros, que me despedaçam aos poucos, numa tortura sem trégua. Meus pensamentos são um fosso turvo, onde despenco e não encontro proteção. Todos os medos sugam a alegria que tenho e meus gritos não são ouvidos por ninguém. Estou isolada e sem forças para seguir.

Não, não é culpa de ninguém se não me encaixo nesse universo de verdades invertidas. Minha voz silenciou e o pranto coagula em mim. Oh, se eu soubesse que a morte me traria descanso, acabaria com esse tormento de uma vez por todas. Ao que parece, será este meu fado.

Rastros diabólicos circulam em minhas veias, necrosando todos os risos de outrora, empurrando-me para ínvios caminhos, estreitos como um claustrofóbico corredor. Infectada de angústias ocultas, me desespero e esmago o ornamento da mesa. Deixo murcho - assim como eu.

Alguém, por favor, ajude-me! Tenho lançado meus lamentos - em vão. Não percebem? Estou doente! Minhas palavras são o que sinto. Enquanto sorvem minhas linhas poéticas, eu definho e desapareço um pouco em cada verso.

Não sou mais o que eu era, podem me jogar ao vento!... Sou cinza! Sou pó! Sou nuvem! Tampouco sei o que sobrou. Meus olhos estão cansados. Minhas vontades ressecadas. Nas profundezas de minha mente aturdida, demônios e dragões fizeram morada.

Como podem não enxergar tantos monstros me devorando?

Tenho medo, pois não sei mais diferenciar nocivo de inócuo. Há muito sucumbi a desvarios tortuosos. Atormenta-me uma tristeza bestial, advinda de todas as saliências falidas e reles. 

Sim! Por todos os lados, línguas púrpuras de fogo crispam e roçam sinuosas em meu pescoço, girando e girando, maltratando minha carne, cruelmente ferindo, tal qual arame farpado.

É um íngreme combate, travado sem travas. Uma áspera luta que irrompe sem romper e com unhas pontiagudas dilaceram meu dorso, descerrando enigmas em calabouço.

Meu corpo cai num abismo insondável, um despenhadeiro de eternas miragens. Posso sentir minhas artérias ungidas em bálsamo quente, como lavas incandescentes, desolando-me em rios de aflições intermináveis.

Ah! Dentro de mim, a tristeza me consome. Um mundo de trevas sufoca minh’alma, que grita e geme como o som de harpas frias. E eu vejo meu sangue escorrendo pelas cordas, velando o fim de uma vida miserável.

Perdoai-me, todos vós! Insuportável angústia me leva a beber poções e ingerir cápsulas de exacerbadas melancolias.

As lágrimas agora escorrem livres. Fecho os olhos e espero o final. Estou pronta. Despeço-me deste mundo que nunca foi meu. A morte me chama e eu a seguirei em busca de alívio. 

Enquanto ela não chega, sinto o medo correndo entre meus labirintos, com sua cauda gigantesca e destrutiva, contaminando minha corrente sanguínea.

A agonia está perto de acabar.

Vou descendo mais e mais no vazio, num poço de lama pegajosa e escura, que salta esfomeada sobre as parcas sobras de luz que restaram em mim.

E o medo segue, passeando inexorável, rastejando-se pelo breu de minh’alma agonizante, até o instante em que não sinto mais nada.

Ouço ao longe o meu próprio suspiro fatídico. Encerro minhas dores, meus amores, meus pedidos de socorro não ouvidos.

Ainda há tempo de segurar minha mão! Alguém, por favor, ajudai-me!!!

Mas tudo o que ouço é o silêncio. Ninguém aparece. Ninguém me salva. Por quê? Por que não me resgataram?

O cerco agora se fecha. O ar se esgota. E em meu rosto desce a última lágrima.

* * *

Exausta, desfaleço. Quando retorno, vejo-me estendida ao chão. Sento-me e recupero o fôlego. O espírito se foi.

Noto as folhas inteiramente preenchidas de palavras vertiginosamente discorridas.

E embaixo do texto, a assinatura do espírito — Florbela Espanca.

Demoro para compreender o que houve. Custo a crer quem de fato esteve em mim e desafogou suas dores.

Passo minhas mãos sobre aquele desabafo e choro convulsivamente.

A mesa agora está morna e plácida, como eu.



*  *  *

Amar! [...]
E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar

Florbela Espanca [1894-1930]



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Amar você é...


A M A R  você é...

Ter um arco-íris na alma,
um sorriso bobo na face
e o sonho de um enlace

É sentir emoções novas
com o coração disparado
pelo desejo desenfreado

São naus de incertezas
ondas de inquietações
negativas e afirmações

São odores misturados
sons e gostos afinados
numa vontade sem fim

É desejar colo e abraço
palavras sussurradas e
suas mãos assanhadas

É sentir você em mim
suspirando até gemer
pedindo pra te morder

Amar você é respirar
é te gostar sem parar
sem nunca me cansar




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

E, do nada, partiu


Soraia ficou atônita. Após trinta anos casada com Osvaldo, provava agora o gosto amargo da traição. Acuado, o marido contou tudo, pois foi flagrado no ato, com a boca na botija.

Para Soraia, a visão da traição foi pavorosa, caindo nos olhos como um raio, arranhando a confiança, rasgando o compromisso firmado, violando o pacto sagrado consagrado no altar, torrando a aliança, tirando todo o brilho da união tida por todos como uma união sólida. Jamais imaginaria um final assim para os dois, pois viviam numa harmonia cotidiana.

"Sim, nosso caso dura há dois anos, mas não significa nada pra mim", justificara Osvaldo, banalizando o ato, rindo, diminuindo a moça ao pó, só piorando ainda mais as coisas. 

Soraia não quis ouvir mais nada. Não importava os motivos. Tanto fazia falar agora qual tinha sido o culpado, o pivô do ocorrido ou a raiz da traição. Não havia como colar os cacos da confiança partida. Fim! Acabou!

Ficou indignada, furiosa, irritada, magoada, machucada, mas não havia como passar por cima daquilo. O amor compartilhado por tantos anos fora jogado fora. Todas as palavras carinhosas, românticas, apaixonadas, ditas ao longo dos últimos anos, ficavam agora bailando no ar, soltas no vazio, ao sabor da ilusão. A visão da traição jamais a abandonaria. Não tinha como continuar a vida com Osvaldo. Os filhos, os amigos, os vizinhos, a família toda... iriam culpá-la por colocá-lo para fora, assim, só com a roupa do corpo, mas assumiria o risco. Trinta anos juntos! Trinta anos arruinados.    

Parada na porta do quarto, com as mãos na cintura, Soraia assistia Osvaldo jogar todas as roupas na mala.

Todos os dias com olhos mansos, tranquilos, agora mirava Osvaldo com uma fúria irracional. As garras afiadas prontas para atacar. Prontas para mostrar toda a raiva acumulada. Com muito custo, controlou a ira. Não gritou. Tampouco chorou. Só iria chorar após Osvaldo sair da casa. Tinha sido traída, mas tinha amor-próprio sobrando para lidar com a partida do marido com as mãos limpas.

Osvaldo faria falta. Soraia sabia disso. Acostumara com o calor do corpo do marido, das suas mãos ousadas tomadas por calos, raspando nas suas como lixas, dos suspiros, dos roncos, das cafungadas no ouvido, das suas manias chatas, da gargalhada comprida, do som dos passos circulando nos cômodos, da barba arranhando sua nuca, dos abraços longos quando tava muito frio, dos banhos juntos, da mão máscula pousada com força na sua cintura... Ah! O lado da cama vazio a faria custar para dormir. 

Ia chorar por não colocar mais as roupas do marido no varal, não costurar mais o botão da sua camisa, não cozinhar mais a ambrosia do modo como Osvaldo gostava, não tomar chimarrão junto todas as manhãs, da algazarra da família unida no almoço aos domingos, das crianças disputando o colo do avô... Osvaldo assava um churrasco como poucos. Os filhos não faziam um churrasco tão bom. Sim. Osvaldo faria falta. Foram tantos anos juntos. Soraia gostava da vida a dois. Como faria agora? Dava um frio na barriga imaginar uma rotina diária com a falta do marido. Afinal, agradar Osvaldo ocupara muito das suas horas diárias. Ficar sozinha após trinta anos casada, assustava um pouco. Sobraria horas vazias como nunca sobrara. A partida do marido a fazia chorar agora, mas tinha um lado bom visto por outro ângulo. Como tudo na vida.

Lá fora chovia muito. Ruas alagadas. Casas inundadas. Trânsito caótico. Uma loucura!

Para Soraia, o dia da partida ficaria marcado como o dia do dilúvio. Um dilúvio nas ruas. Um dilúvio na sua casa. Um dilúvio na sua família. Um dilúvio na sua vida organizada. Um dilúvio na sua confiança, agora asfixiada, morta, afogada por Osvaldo. 

Assim como a chuva lava o lixo das ruas, Soraia lavaria a dor do impacto sofrido. 

Lá no fundo ainda amava o marido. 

Mas amava mais ainda a si própria. 

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Notaram?

O "e" partiu, do nada, junto com Osvaldo.

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Fiz outra prosa, ocultando o "a". Confiram AQUI.
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domingo, 25 de setembro de 2016

Minha visão psicodélica



Sou míope. Uso óculos desde a adolescência. Pois bem, tempos atrás descobri que minha miopia progredira (em diferentes graus para perto e para longe), mas nada alarmante, e por isso teria de usar óculos com lentes multifocais. Até aí, nada demais. Com a receita em mãos, passei numa ótica e mandei fazer, desta vez com tecnologias antirreflexo e fotossensível.

No dia em que fui retirar os óculos novos, fiz os ajustes necessários e já saí com ele, toda contente pelas ruas.

Poucos metros depois o chão foi sumindo, desaparecendo a cada passo que eu dava. Olhei para cima, a sensação normalizou. Respirei fundo e segui em frente.

Ora, eu sou uma pessoa determinada, não iria me render a um parzinho de graus, cuja função seria me auxiliar a ver o mundo melhor e com mais nitidez! Continuei andando, apesar da dificuldade em enxergar direito.

O calçadão da Praça da Alfândega, com aquelas pedras de desenhos sinuosos, não me ajudava muito. Melhor assim. Seria um bom exercício. Até chegar em casa eu tinha mais uns setecentos metros, em linha reta. Moleza! - pensei. A vendedora ressaltou que muitos não se adaptam com esse tipo de lente e acabam por mandar fazer dois pares de óculos, um só para perto, outro só para longe. Disse também para eu retirá-los, caso sentisse tonturas, enjoos, dores de cabeça, visão embaçada, enfim, qualquer tipo de mal-estar.

Não e não! Persistência eu tenho de sobra. No íntimo, achei aquilo desafiador. Fui em frente. Minha visão em ondas. A superfície ficava ausente e retornava. Meus pés tocavam o chão como se ele fosse areia movediça. Uma sensação estranhíssima olhar para baixo e tudo se mover, desaparecer, ressurgir, num ir e voltar incessante. Os saltos tocavam o solo e para espantar a sensação de desequilíbrio, eu olhava para o alto. Acontece que caminhar sem olhar para baixo é quase impossível. E essa visão para cima e para baixo é tão normal e involuntária que nem percebemos sua importância.

Mesinhas na calçada, como é de costume no horário do almoço, em parte daquele meu trajeto diário, só tornavam tudo ainda mais complicado.

Eu parecia grogue e fui caminhando assim até chegar no prédio.

Entrei no edifício me sentindo a tal, como se eu tivesse vencido um grande obstáculo. Fechei a porta e quando fui subir os seis degraus que dão acesso ao corredor dos elevadores o piso se enroscou, ficou todo enroladinho em espiral e os degraus simplesmente foram sugados para os confins de lugar nenhum. Que escadinha doida! Caí, quebrei os óculos novos e ainda machuquei um pouquinho o meu rosto. Ok, essas coisas acontecem.

Só não caí de cara nos degraus porque tenho uma tendência natural em proteger o meu lado direito. No mesmo instante em que senti a vertigem, inclinei instantaneamente o corpo para a esquerda, na medida em que ia procurando o chão. Não fosse isso... sei não.

Fui agir com teimosia e deu no que deu. Ainda bem que ninguém testemunhou minha queda. Quer dizer, só as câmeras do circuito interno registraram o meu voo solo.

Aprendi nesse dia uma dura lição de prudência. Na próxima troca de lentes, já estarei mais precavida, sabendo por experiência própria que do equilíbrio para o desequilíbrio é um passo, com uma tontura no meio. 

Mais tarde, descobri que o prejuízo não foi dos maiores, pois só uma das lentes sofreu avaria com o impacto e teria de ser substituída. Na verdade ela nem chegou a quebrar, só trincou de uma extremidade a outra. Se eu tivesse comprado o modelo com lentes mais resistentes (e bem mais caras!), isso não teria acontecido, disse-me a vendedora, quando fui lá explicar o ocorrido e providenciar o conserto.

Sim, o barato sai caro. Reaprendi essa velha lição também.

Tonta, segurei os óculos nas mãos com firmeza, limpei umas gotinhas de sangue de um cortezinho bobo no canto do olho esquerdo, e fui tateando até o meu apartamento.

Entrei finalmente em casa. Ah! Lar, doce lar!

Catei a localização precisa do sofá e me sentei nele. 

E fiquei pensando, pensando, em como deve ser difícil sair pelas ruas sem enxergar absolutamente nada.


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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Brincando com as palavras 2



Baliza

 Devaneio e não marco limites
cartografo sem linearidade
demarcando irrelevâncias

Nunca fui de Marco
tampouco viajei de barco
mas em teus polos mandarim

Nesta língua divago
e navego devagarinho
boiando bem de mansinho

Então me risco do mapa
depois me apago desse texto
desapareço e parto - sem dor

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autoconfutação

eu confuto e
depois refuto
me confundo e
me afundo

bem no fundo
eu me arraso e
arrasada crio
asas rasas

eu me reprovo e
depois me aprovo
me envergonho e
me envergo

bem no fundo
eu me alongo e
alongada crio
asas longas

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Negação

Tanto viram nele o que não era
que passou a crer que fosse
E acreditando nos dizeres
tornou-se o que não era

Sendo agora quem nunca foi
tratou de esconder o que viam
E negando ser o que diziam ser
tornou-se naquilo que sempre fora

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Penumbra

No lusco-fusco dos seus olhos
eu te busco e rebusco e me chamusco
Por lá fico até ao alvorecer
e me apego, me entrego e
enfim, sossego

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O primeiro Brincando com as palavras foi escrito
em outro estilo. Para conferir, clique AQUI.
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