quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Amar você é...


A M A R  você é...

Ter um arco-íris na alma,
um sorriso bobo na face
e o sonho de um enlace

É sentir emoções novas
com o coração disparado
pelo desejo desenfreado

São naus de incertezas
ondas de inquietações
negativas e afirmações

São odores misturados
sons e gostos afinados
numa vontade sem fim

É desejar colo e abraço
palavras sussurradas e
suas mãos assanhadas

É sentir você em mim
suspirando até gemer
pedindo pra te morder

Amar você é respirar
é te gostar sem parar
sem nunca me cansar




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

E, do nada, partiu


Soraia ficou atônita. Após trinta anos casada com Osvaldo, provava agora o gosto amargo da traição. Acuado, o marido contou tudo, pois foi flagrado no ato, com a boca na botija.

Para Soraia, a visão da traição foi pavorosa, caindo nos olhos como um raio, arranhando a confiança, rasgando o compromisso firmado, violando o pacto sagrado consagrado no altar, torrando a aliança, tirando todo o brilho da união tida por todos como uma união sólida. Jamais imaginaria um final assim para os dois, pois viviam numa harmonia cotidiana.

"Sim, nosso caso dura há dois anos, mas não significa nada pra mim", justificara Osvaldo, banalizando o ato, rindo, diminuindo a moça ao pó, só piorando ainda mais as coisas. 

Soraia não quis ouvir mais nada. Não importava os motivos. Tanto fazia falar agora qual tinha sido o culpado, o pivô do ocorrido ou a raiz da traição. Não havia como colar os cacos da confiança partida. Fim! Acabou!

Ficou indignada, furiosa, irritada, magoada, machucada, mas não havia como passar por cima daquilo. O amor compartilhado por tantos anos fora jogado fora. Todas as palavras carinhosas, românticas, apaixonadas, ditas ao longo dos últimos anos, ficavam agora bailando no ar, soltas no vazio, ao sabor da ilusão. A visão da traição jamais a abandonaria. Não tinha como continuar a vida com Osvaldo. Os filhos, os amigos, os vizinhos, a família toda... iriam culpá-la por colocá-lo para fora, assim, só com a roupa do corpo, mas assumiria o risco. Trinta anos juntos! Trinta anos arruinados.    

Parada na porta do quarto, com as mãos na cintura, Soraia assistia Osvaldo jogar todas as roupas na mala.

Todos os dias com olhos mansos, tranquilos, agora mirava Osvaldo com uma fúria irracional. As garras afiadas prontas para atacar. Prontas para mostrar toda a raiva acumulada. Com muito custo, controlou a ira. Não gritou. Tampouco chorou. Só iria chorar após Osvaldo sair da casa. Tinha sido traída, mas tinha amor-próprio sobrando para lidar com a partida do marido com as mãos limpas.

Osvaldo faria falta. Soraia sabia disso. Acostumara com o calor do corpo do marido, das suas mãos ousadas tomadas por calos, raspando nas suas como lixas, dos suspiros, dos roncos, das cafungadas no ouvido, das suas manias chatas, da gargalhada comprida, do som dos passos circulando nos cômodos, da barba arranhando sua nuca, dos abraços longos quando tava muito frio, dos banhos juntos, da mão máscula pousada com força na sua cintura... Ah! O lado da cama vazio a faria custar para dormir. 

Ia chorar por não colocar mais as roupas do marido no varal, não costurar mais o botão da sua camisa, não cozinhar mais a ambrosia do modo como Osvaldo gostava, não tomar chimarrão junto todas as manhãs, da algazarra da família unida no almoço aos domingos, das crianças disputando o colo do avô... Osvaldo assava um churrasco como poucos. Os filhos não faziam um churrasco tão bom. Sim. Osvaldo faria falta. Foram tantos anos juntos. Soraia gostava da vida a dois. Como faria agora? Dava um frio na barriga imaginar uma rotina diária com a falta do marido. Afinal, agradar Osvaldo ocupara muito das suas horas diárias. Ficar sozinha após trinta anos casada, assustava um pouco. Sobraria horas vazias como nunca sobrara. A partida do marido a fazia chorar agora, mas tinha um lado bom visto por outro ângulo. Como tudo na vida.

Lá fora chovia muito. Ruas alagadas. Casas inundadas. Trânsito caótico. Uma loucura!

Para Soraia, o dia da partida ficaria marcado como o dia do dilúvio. Um dilúvio nas ruas. Um dilúvio na sua casa. Um dilúvio na sua família. Um dilúvio na sua vida organizada. Um dilúvio na sua confiança, agora asfixiada, morta, afogada por Osvaldo. 

Assim como a chuva lava o lixo das ruas, Soraia lavaria a dor do impacto sofrido. 

Lá no fundo ainda amava o marido. 

Mas amava mais ainda a si própria. 

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Notaram?

O "e" partiu, do nada, junto com Osvaldo.

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Fiz outra prosa, ocultando o "a". Confiram AQUI.
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domingo, 25 de setembro de 2016

Minha visão psicodélica



Sou míope. Uso óculos desde a adolescência. Pois bem, tempos atrás descobri que minha miopia progredira (em diferentes graus para perto e para longe), mas nada alarmante, e por isso teria de usar óculos com lentes multifocais. Até aí, nada demais. Com a receita em mãos, passei numa ótica e mandei fazer, desta vez com tecnologias antirreflexo e fotossensível.

No dia em que fui retirar os óculos novos, fiz os ajustes necessários e já saí com ele, toda contente pelas ruas.

Poucos metros depois o chão foi sumindo, desaparecendo a cada passo que eu dava. Olhei para cima, a sensação normalizou. Respirei fundo e segui em frente.

Ora, eu sou uma pessoa determinada, não iria me render a um parzinho de graus, cuja função seria me auxiliar a ver o mundo melhor e com mais nitidez! Continuei andando, apesar da dificuldade em enxergar direito.

O calçadão da Praça da Alfândega, com aquelas pedras de desenhos sinuosos, não me ajudava muito. Melhor assim. Seria um bom exercício. Até chegar em casa eu tinha mais uns setecentos metros, em linha reta. Moleza! - pensei. A vendedora ressaltou que muitos não se adaptam com esse tipo de lente e acabam por mandar fazer dois pares de óculos, um só para perto, outro só para longe. Disse também para eu retirá-los, caso sentisse tonturas, enjoos, dores de cabeça, visão embaçada, enfim, qualquer tipo de mal-estar.

Não e não! Persistência eu tenho de sobra. No íntimo, achei aquilo desafiador. Fui em frente. Minha visão em ondas. A superfície ficava ausente e retornava. Meus pés tocavam o chão como se ele fosse areia movediça. Uma sensação estranhíssima olhar para baixo e tudo se mover, desaparecer, ressurgir, num ir e voltar incessante. Os saltos tocavam o solo e para espantar a sensação de desequilíbrio, eu olhava para o alto. Acontece que caminhar sem olhar para baixo é quase impossível. E essa visão para cima e para baixo é tão normal e involuntária que nem percebemos sua importância.

Mesinhas na calçada, como é de costume no horário do almoço, em parte daquele meu trajeto diário, só tornavam tudo ainda mais complicado.

Eu parecia grogue e fui caminhando assim até chegar no prédio.

Entrei no edifício me sentindo a tal, como se eu tivesse vencido um grande obstáculo. Fechei a porta e quando fui subir os seis degraus que dão acesso ao corredor dos elevadores o piso se enroscou, ficou todo enroladinho em espiral e os degraus simplesmente foram sugados para os confins de lugar nenhum. Que escadinha doida! Caí, quebrei os óculos novos e ainda machuquei um pouquinho o meu rosto. Ok, essas coisas acontecem.

Só não caí de cara nos degraus porque tenho uma tendência natural em proteger o meu lado direito. No mesmo instante em que senti a vertigem, inclinei instantaneamente o corpo para a esquerda, na medida em que ia procurando o chão. Não fosse isso... sei não.

Fui agir com teimosia e deu no que deu. Ainda bem que ninguém testemunhou minha queda. Quer dizer, só as câmeras do circuito interno registraram o meu voo solo.

Aprendi nesse dia uma dura lição de prudência. Na próxima troca de lentes, já estarei mais precavida, sabendo por experiência própria que do equilíbrio para o desequilíbrio é um passo, com uma tontura no meio. 

Mais tarde, descobri que o prejuízo não foi dos maiores, pois só uma das lentes sofreu avaria com o impacto e teria de ser substituída. Na verdade ela nem chegou a quebrar, só trincou de uma extremidade a outra. Se eu tivesse comprado o modelo com lentes mais resistentes (e bem mais caras!), isso não teria acontecido, disse-me a vendedora, quando fui lá explicar o ocorrido e providenciar o conserto.

Sim, o barato sai caro. Reaprendi essa velha lição também.

Tonta, segurei os óculos nas mãos com firmeza, limpei umas gotinhas de sangue de um cortezinho bobo no canto do olho esquerdo, e fui tateando até o meu apartamento.

Entrei finalmente em casa. Ah! Lar, doce lar!

Catei a localização precisa do sofá e me sentei nele. 

E fiquei pensando, pensando, em como deve ser difícil sair pelas ruas sem enxergar absolutamente nada.


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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Brincando com as palavras 2



Baliza

 Devaneio e não marco limites
cartografo sem linearidade
demarcando irrelevâncias

Nunca fui de Marco
tampouco viajei de barco
mas em teus polos mandarim

Nesta língua divago
e navego devagarinho
boiando bem de mansinho

Então me risco do mapa
depois me apago desse texto
desapareço e parto - sem dor

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autoconfutação

eu confuto e
depois refuto
me confundo e
me afundo

bem no fundo
eu me arraso e
arrasada crio
asas rasas

eu me reprovo e
depois me aprovo
me envergonho e
me envergo

bem no fundo
eu me alongo e
alongada crio
asas longas

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Negação

Tanto viram nele o que não era
que passou a crer que fosse
E acreditando nos dizeres
tornou-se o que não era

Sendo agora quem nunca foi
tratou de esconder o que viam
E negando ser o que diziam ser
tornou-se naquilo que sempre fora

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Penumbra

No lusco-fusco dos seus olhos
eu te busco e rebusco e me chamusco
Por lá fico até ao alvorecer
e me apego, me entrego e
enfim, sossego

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O primeiro Brincando com as palavras foi escrito
em outro estilo. Para conferir, clique AQUI.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Nanocontos circenses


O palhaço não estava em seu melhor dia. Ainda assim, vestiu-se de alegria, abotoou-se de sorrisos até o pescoço e entrou no picadeiro.

* * *

Cresceu no circo. Mas não passou de um metro e trinta.

* * *

Teve duas filhas com a mulher barbada e ficou torcendo para que herdassem o mesmo sucesso materno. Infelizmente, porém, elas não puxaram à mãe.

* * *

Era um circo pobre, sem lona, a céu aberto. Em compensação, junto com a ilusão, oferecia de presente a lua e as estrelas.   

* * *

Tinha sérios problemas de metabolismo e sofria com o efeito sanfona. Por conta disso, o homem-bala vivia entrando e saindo do exercício de suas funções.

* * *

Marlowa teve uma crise alérgica em plena apresentação de contorcionismo, se retorceu toda e quase tirou pedaços da pele de tanto se coçar. Curiosamente, o pessoal nem notou.

* * *

As duas motos giravam dentro do globo, quase raspando uma na outra, para tensão da plateia. Até que o pior aconteceu, fazendo jus ao nome do show.

* * *

Justo na hora do espetáculo o leão se recusou a sentar no banquinho. O domador, que também era mágico e hipnotizador, pacificamente, contornou a situação.

* * *

Engolia espada com a habilidade de quem sabe o que faz, quando foi acometido por uma série súbita de espirros. Sua habilidade tão notória, não predominou. Não mais.

* * *

Querendo inovar, Dimitry inventou de pedir a mão de Svetlana em casamento em pleno salto do trapézio. A surpresa foi tão grande que a mão de Svetlana recuou. 

* * *

Amava fazer coisas que poucos faziam. Lá do alto, via o público estupefato com seu equilíbrio e destreza, e se sentia o bambambã em matéria de equilíbrio na corda bamba.

* * *

Dentro de Natasha ocorria uma batalha entre o medo e a tradição circense, enquanto um destreinado atirador de facas se preparava para entrar em ação. Ela, nem piscou. 

* * *

Da cartola ele tirou um baralho, um ramo de flores, uma echarpe e um coelho... Só não tirou mais coisas porque se desconcentrou com os aplausos eufóricos da arquibancada.

* * *

Lá pelas tantas, desmontou-se o circo. E a trupe seguiu viagem, levando uma tenda de magias para outros lugares, outros olhares.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Lições de um aprendiz


Disposto a se tornar um escritor dos bons, matriculou-se numa oficina literária, cuja promessa era ensinar técnicas para escrever contos de terror e suspense. Teria uma duração de três meses e seria ministrada por um consagrado autor nacional.   

O estacionamento ficava no subsolo do prédio. Henrique olhou em volta e escolheu uma vaga. Em seguida, caminhou até o elevador. Em instantes viu-se no décimo segundo andar. Percorreu os olhos de um lado a outro e avistou a sala. Entrou e misturou-se entre os participantes que já ocupavam alguns lugares. Acomodou-se bem no meio termo. Nem tão perto. Nem tão distante. Esperou, inquieto. Dentro de sua cabeça, palavras dançavam. Mas tão logo o professor apareceu, retirou os fones. A música cessou. Era seu primeiro dia de curso. Tratou de prestar atenção.  

As primeiras aulas foram aborrecidas. Ao invés das técnicas que ele tanto almejava, o professor ressaltava o tempo todo a importância de um texto bem escrito. "Sou sádico demais para tratar bem o português" - pensou, rindo do próprio trocadilho.    

Henrique herdara da mãe os olhos azuis, a pele sardenta e uma ansiedade que o deixava afogueado em certas situações. Do pai, herdara o nariz batatudo e um afeiçoado gosto pelos livros e histórias assombrosas.

Aprendeu muitas coisas nos dois primeiros meses. Teria aprendido mais, não fosse sua dificuldade para se concentrar. Escutava algo e logo se transportava para outra parte, de onde nem sempre conseguia retornar facilmente. A sala se transformava e um novo evento acontecia. Ele abria o caderno e escrevia todas as coisas que via. Então, os sons o traziam de volta.

— Pessoal, em nosso último mês de curso, faremos um exercício para colocarem  em prática tudo o que aprendemos. O desafio será elaborarem um miniconto por semana, cuja temática será: Visceral...

Henrique escutou a palavra visceral e se empolgou. Várias ideias começaram a se formar em sua mente, empilhando-se umas nas outras, enlouquecidas.  

Todas as sextas-feiras vocês me entregarão o texto em aula. Darei uma passada de olhos e emitirei uma opinião. Entendido? Alguma dúvida? E no final do curso eu divulgarei uma lista com os melhores minicontos, que farão parte de uma antologia aqui da oficina. Gostaram? Ah, os sortudos também ficarão em destaque no site, ganharão bolsas de estudo para novos cursos e a última obra de Stephen King!    

A turma incendiou com as novidades. Também, pudera. Um estímulo e tanto. Henrique achou o máximo. Só estava ali para aprender. Nem sabia que teria prêmios. "Caramba! Eu quero o último livro do mestre!" 

Durante a semana, esmerou-se para criar o miniconto mais visceral de todos os tempos. Dentro das suas limitações de aprendiz, naturalmente.

*  *  *

Na primeira sexta-feira do último mês de curso, Henrique apresentou seu texto.

Sexo selvagem
O cossaco de Kuban me perseguiu por toda a minha temporada na Sibéria. Parecia um lobo das estepes, esfomeado, correndo atrás de sua presa. Uivava e salivava, enquanto eu puxava a pele de morsa bem junto aos meus volumosos seios e resistia bravamente. E tudo porque dormi com ele na mesma tenda, usando apenas minha camisolinha branca rendada e nada mais. Lutei o quanto pude. E ao sentir seu enorme vigor siberiano pressionando meu corpo, gritei, arranhei, mordi, em desespero. Barbaramente ele me possuiu. Arranquei sua pequena adaga e cravei-lhe nas costas. Uma, duas, três, quatro vezes... Perdi a conta. Quanto mais ele me machucava, mais eu o cortava. Custei para afastar aquele corpo gigantesco de cima de mim. Fugi. Deixei ele estendido na tenda, entre sangues e carnes abertas. Maldita hora em que resolvi provocar o cossaco! FIM

Nada mal. Um formato ousado. Porém, fugiu um pouco ao que foi proposto.

Depois de ouvir isso do professor, Henrique saiu da sala bastante frustrado, sem entender nada, pois tinha certeza que seu texto era visceral. Mas tudo bem, pensou, iria dar seu máximo ao criar o próximo miniconto.

*  *  *

Na segunda sexta-feira, Henrique entregou seu outro miniconto. Tenso, ficou estudando as reações do professor durante a leitura.

O carniceiro fugitivo
Stanley saltou da cama, pegou suas roupas e pulou a janela numa velocidade inacreditável. Marcinha tinha jurado que o marido iria ficar fora por uns dias. E justo na melhor parte o cara aparece! Em disparada, ainda pelado, atravessou o pátio e passou feito um raio pelo corredor lateral. Parou num canto e vestiu-se rápido, torcendo para o sujeito não vir atrás dele. Entrou no carro ainda com a camisa aberta. Recuperou o fôlego, pisou fundo e vazou dali. Bem mais adiante, reduziu a marcha e encostou. A respiração voltava ao normal quando um cara surgiu do banco de trás e o atacou com uma faca. Minha nossa! Um assalto! Era só o que faltava! Na pressa para se encontrar com Marcinha ele esquecera de trancar o carro. "Calma, velho, calma! Entrega o carro, dinheiro, celular, tudo, sem reagir" - pensou Stanley. Tirou então a chave da ignição e virou-se para entregá-la, julgando tratar-se de um roubo. Stanley não sabia que o homem em seu carro era um fugitivo perigoso, condenado por vários homicídios, praticados com requintes de crueldade. O sujeito não queria seu veículo, queria era fatiá-lo, deixando sua marca registrada. Ao esticar a mão com a chave, Stanley levou a primeira facada. O golpe inesperado o fez gritar de dor. Tentou abrir a porta para fugir e recebeu outra estocada. Buzinou, tentando chamar a atenção de alguém. É, a situação não cheirava nada bem. Furioso, o assassino moveu o braço, deu uma chave de pescoço em Stanley e enfiou a lâmina na barriga com uma força incomum. Sem retirar a faca, abriu um corte profundo, de ponta a ponta. Depois sim, tirou, lambendo o sangue da lâmina. Inclinou-se e esfaqueou novamente, desta vez em diagonal, desenhando uma cruz. Stanley, a essa altura, nem se mexia, quase morto, apavorado, em choque, ferido, atônito, cagado de medo. O assassino, por conta daquela buzinada e temendo ser pego, deu-se por satisfeito. Desceu do carro e desapareceu nos becos escuros. Entre a vida e a morte, Stanley moveu os dedos em câmera lenta e apertou a buzina. Ficou segurando as entranhas que ameaçavam sair para fora. Aguardou por socorro. E que não demorasse muito, porque suas mãos já estavam morrendo, enterradas em suas tripas. FIM      

Texto dinâmico, Henrique. Mas ainda não está de acordo com o tema.

Henrique ficou incomodado com aquele comentário. Chegou em casa e conferiu no dicionário. Visceral: profundo, entranhado, relativo a vísceras. Como assim não estava de acordo com o tema? Bom, talvez ele estivesse dando uma conotação errada. Ou isso, ou o professor estava tirando uma onda com a cara dele. 

*  *  *

Na terceira sexta-feira, muito nervoso, Henrique alcançou a folha ao professor. Cruzou os braços. Aguardou. 

Nem todo poço tem fundo
Por insistência da mãe, ele foi na festa de aniversário do tio Manolo. Preferia ter ficado no chat de papo com os amigos. Mas um garoto sabe desde  pequeno que não se deve contrariar uma mulher. A menos que... Bem, a menos que seja realmente necessário. Chegando lá, conheceu Pietra. E através dela, Yuri, que o apresentou ao mundo das drogas. Começou pelas mais leves. Evoluiu carreiras de pó e mergulhou no crack. Daí, desceu até o fundo. E continuou descendo. Não havia dinheiro suficiente para suprir seu vício. Roubava, na maior cara de pau. Passou a fazer programas, por uns trocados. Abandonou os amigos. Os pais bem que tentaram ajudá-lo. Em vão. Era inútil argumentar com um viciado. Ele não era mais ele. Tornara-se um farrapo, usado por qualquer um. Dois anos naquela vida. Então, na véspera de Natal, cansado de apanhar nas ruas e sentindo falta de uma cama limpa, voltou para casa. Tocou a campainha. De braços abertos e chorando muito, a mãe o recebeu. Emocionado, chorou com ela. Pediu perdão. Perguntou pelo pai. "Seu pai? Você o matou de desgosto, depois da última vez que esteve aqui." FIM

Intenso. Apesar de ainda não se enquadrar, seu miniconto não ficou ruim.

Ao escutar isso, Henrique não se aguentou mais e perguntou ao professor onde ele estava errando, afinal.

Caramba, professor, pode me dizer por que meus textos não estão de acordo com o tema?

Henrique, o tema é "Visceral, sem ser cruel". Compreendeu?

Sem ser cruel? Puxa vida! Acho que não escutei direito no dia. Desculpe.

Se ele não fosse tão afobado, teria ouvido a frase completa. Que mancada! Pagara o maior mico. Se tivesse uma britadeira por perto ele teria feito um buraco na cerâmica da sala e se enterrado ali mesmo. Vermelho de vergonha, Henrique foi embora.

*  *  *

Todo sem jeito, na semana seguinte Henrique colocou nas mãos do professor o seu último miniconto.

Aberração
A protuberância aumentava a cada dia. Virava-se de um lado e de outro e o incômodo salientava-se, obrigando o pobre sujeito a mexer-se até encontrar uma posição confortável. Aquela bostela pustulenta precisava ser extirpada. Não suportava mais. Assim fez. Na sala de cirurgia, o bisturi rasga a pele do homem 'verruguento'... E o leite jorra! FIM

Interessante, Henrique.

Obrigado, professor - disse, meio em dúvida se havia ganho um elogio.

Confiram a lista que será divulgada dentro de uma semana, com a relação de todos os participantes. É isso, meus caros escritores. Parabéns a todos. E até uma próxima oportunidade. Sucesso!  — despediu-se o professor.

Henrique foi embora e passou os dias seguintes na maior aflição.

Uma semana depois ele praticamente voou até o mural para ver o resultado.

Lá estava seu nome... em 14º lugar!

Chateado, afastou-se dali. 

Desceu ao estacionamento, entrou no carro e saiu cantando pneu.

Nem viu que embaixo da relação dos nomes dos autores estava escrito que os melhores 15 minicontos haviam sido selecionados.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Diálogo entre Nós


— Oi, Nó!
Oi, Nóia!
Como está?
Enrolado.
Sempre está!
Agora mais.
Que houve?
Saudades.
Também eu.
Vamos?
Onde?
Desatar nós.
Vamos.
.*.*.*.*.*.
.*.*.*.*.*.
Mão gelada.
A sua é quente.
Vem, me desata!
Desato.
Depois me ata.
Só os nós?
De nós em nós.
Assim?
Assim!!!!!!!!!!!
Só nós mesmo! [risos] 
Ahh, minha noinha!
Ahh, meu nozinho!
Te amo!
Te amo!
Presos?
Sempre.
Sou teu nozinho.
Sou tua noinha.
[suspiros]
Que será de nós?
Nós seremos nós.
  Só nós? 
Só nós.

* ♥ * ♥ *


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Nanocontos 2 - do terror ao humor



Amava os pássaros. Possuía duas cotovias, uma calopsita e quatro canarinhos. Mas não gostava de vê-los engaiolados. Então, quebrou-lhes as asas.

* * *

Juninho ficou furioso por ter sido empurrado pelos coleguinhas no parquinho da escola. Não revidou na hora. Mas no dia seguinte, discretamente, colocou uma lâmina entre uma frestinha gasta na madeira do escorregador. 

* * *

Subiu no telhado e começou a correr de uma ponta a outra, bem próximo do beiral, deixando a família apavorada. Fez isso sem nenhum motivo, apenas porque gostava de deixar as pessoas aflitas. 

* * *

Dar carona a um estranho em plena madrugada e numa estrada deserta, possuía todos os ingredientes para terminar de forma trágica e desastrosa. E terminou.

* * *

Isildinha amava cantar a plenos pulmões quando fazia faxina. Até o dia em que seu vizinho reclamou. Daí, parou de cantar. E quando o vizinho veio reclamar do mau cheiro, ela gritou a plenos pulmões: "Me deixa cantar em paz!"    

* * *

Depois de dois meses internado, Ítalo retornou do coma. Todos notaram que seu jeito de olhar não era mais o mesmo. Seus olhos tinham agora aquela estranha expressão dos que sondaram os mistérios da morte.

* * *

Ao final de todos os dias Grezelbina olhava para o alto e pedia perdão aos Céus por amaldiçoar os pais. E justificava-se: carregar Grezelbina vinte e quatro horas por dia não era tarefa fácil.

* * *

Em plena luz do dia, num importante ponto turístico de uma cidade muito visitada por viajantes do mundo inteiro, um homem abriu fogo contra a multidão, matando dezenas de pessoas. Ao contrário dos demais, ele não estava ali a passeio. 

* * *

Colhia bergamotas na bergamoteira quando foi atacada por abelhas. Por sorte não era alérgica. Mas eram tantas abelhas, tantas, que não resistiu ao ataque... e morreu.

* * *

Maribel tinha ojeriza pela palavra ojeriza. Uma repulsa tão forte que só em pensar na palavra sendo pronunciada, fazia caretas e sentia enjoos. Um caso de difícil solução, pois embora poucos falem a palavra, ela pensava em ojeriza por todos eles.

* * *

Etelvino aprendeu a dormir de olhos abertos e achou a experiência fenomenal. Tirava longos cochilos no escritório, na sala de aula, nas reuniões do condomínio,... sem ninguém desconfiar de nada. Mas levava um baita susto quando era "acordado" no meio do sono. 

* * *

Cansada das noites maldormidas por causa dos roncos, chiados e flatulências de Luis Adolfo, Marluce desistiu de dormir no mesmo quarto com ele e passou a trancá-lo à noite na área de serviço. O bulldog não gostou nadinha e roeu tudo ao redor, em protesto.   




Tenho escrito tantos contos pequerruchos como estes que estou 
pensando em publicar um livro só de nanos, micros e minicontinhos. rs