segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Nanocontos circenses


O palhaço não estava em seu melhor dia. Ainda assim, vestiu-se de alegria, abotoou-se de sorrisos até o pescoço e entrou no picadeiro.

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Cresceu no circo. Mas não passou de um metro e trinta.

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Teve duas filhas com a mulher barbada e ficou torcendo para que herdassem o mesmo sucesso materno. Infelizmente, porém, elas não puxaram à mãe.

* * *

Era um circo pobre, sem lona, a céu aberto. Em compensação, junto com a ilusão, oferecia de presente a lua e as estrelas.   

* * *

Tinha sérios problemas de metabolismo e sofria com o efeito sanfona. Por conta disso, o homem-bala vivia entrando e saindo do exercício de suas funções.

* * *

Marlowa teve uma crise alérgica em plena apresentação de contorcionismo, se retorceu toda e quase tirou pedaços da pele de tanto se coçar. Curiosamente, o pessoal nem notou.

* * *

As duas motos giravam dentro do globo, quase raspando uma na outra, para tensão da plateia. Até que o pior aconteceu, fazendo jus ao nome do show.

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Justo na hora do espetáculo o leão se recusou a sentar no banquinho. O domador, que também era mágico e hipnotizador, pacificamente, contornou a situação.

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Engolia espada com a habilidade de quem sabe o que faz, quando foi acometido por uma série súbita de espirros. Sua habilidade tão notória, não predominou. Não mais.

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Querendo inovar, Dimitry inventou de pedir a mão de Svetlana em casamento em pleno salto do trapézio. A surpresa foi tão grande que a mão de Svetlana recuou. 

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Amava fazer coisas que poucos faziam. Lá do alto, via o público estupefato com seu equilíbrio e destreza, e se sentia o bambambã em matéria de equilíbrio na corda bamba.

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Dentro de Natasha ocorria uma batalha entre o medo e a tradição circense, enquanto um destreinado atirador de facas se preparava para entrar em ação. Ela, nem piscou. 

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Da cartola ele tirou um baralho, um ramo de flores, uma echarpe e um coelho... Só não tirou mais coisas porque se desconcentrou com os aplausos eufóricos da arquibancada.

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Lá pelas tantas, desmontou-se o circo. E a trupe seguiu viagem, levando uma tenda de magias para outros lugares, outros olhares.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Lições de um aprendiz


Disposto a se tornar um escritor dos bons, matriculou-se numa oficina literária, cuja promessa era ensinar técnicas para escrever contos de terror e suspense. Teria uma duração de três meses e seria ministrada por um consagrado autor nacional.   

O estacionamento ficava no subsolo do prédio. Henrique olhou em volta e escolheu uma vaga. Em seguida, caminhou até o elevador. Em instantes viu-se no décimo segundo andar. Percorreu os olhos de um lado a outro e avistou a sala. Entrou e misturou-se entre os participantes que já ocupavam alguns lugares. Acomodou-se bem no meio termo. Nem tão perto. Nem tão distante. Esperou, inquieto. Dentro de sua cabeça, palavras dançavam. Mas tão logo o professor apareceu, retirou os fones. A música cessou. Era seu primeiro dia de curso. Tratou de prestar atenção.  

As primeiras aulas foram aborrecidas. Ao invés das técnicas que ele tanto almejava, o professor ressaltava o tempo todo a importância de um texto bem escrito. "Sou sádico demais para tratar bem o português" - pensou, rindo do próprio trocadilho.    

Henrique herdara da mãe os olhos azuis, a pele sardenta e uma ansiedade que o deixava afogueado em certas situações. Do pai, herdara o nariz batatudo e um afeiçoado gosto pelos livros e histórias assombrosas.

Aprendeu muitas coisas nos dois primeiros meses. Teria aprendido mais, não fosse sua dificuldade para se concentrar. Escutava algo e logo se transportava para outra parte, de onde nem sempre conseguia retornar facilmente. A sala se transformava e um novo evento acontecia. Ele abria o caderno e escrevia todas as coisas que via. Então, os sons o traziam de volta.

— Pessoal, em nosso último mês de curso, faremos um exercício para colocarem  em prática tudo o que aprendemos. O desafio será elaborarem um miniconto por semana, cuja temática será: Visceral...

Henrique escutou a palavra visceral e se empolgou. Várias ideias começaram a se formar em sua mente, empilhando-se umas nas outras, enlouquecidas.  

Todas as sextas-feiras vocês me entregarão o texto em aula. Darei uma passada de olhos e emitirei uma opinião. Entendido? Alguma dúvida? E no final do curso eu divulgarei uma lista com os melhores minicontos, que farão parte de uma antologia aqui da oficina. Gostaram? Ah, os sortudos também ficarão em destaque no site, ganharão bolsas de estudo para novos cursos e a última obra de Stephen King!    

A turma incendiou com as novidades. Também, pudera. Um estímulo e tanto. Henrique achou o máximo. Só estava ali para aprender. Nem sabia que teria prêmios. "Caramba! Eu quero o último livro do mestre!" 

Durante a semana, esmerou-se para criar o miniconto mais visceral de todos os tempos. Dentro das suas limitações de aprendiz, naturalmente.

*  *  *

Na primeira sexta-feira do último mês de curso, Henrique apresentou seu texto.

Sexo selvagem
O cossaco de Kuban me perseguiu por toda a minha temporada na Sibéria. Parecia um lobo das estepes, esfomeado, correndo atrás de sua presa. Uivava e salivava, enquanto eu puxava a pele de morsa bem junto aos meus volumosos seios e resistia bravamente. E tudo porque dormi com ele na mesma tenda, usando apenas minha camisolinha branca rendada e nada mais. Lutei o quanto pude. E ao sentir seu enorme vigor siberiano pressionando meu corpo, gritei, arranhei, mordi, em desespero. Barbaramente ele me possuiu. Arranquei sua pequena adaga e cravei-lhe nas costas. Uma, duas, três, quatro vezes... Perdi a conta. Quanto mais ele me machucava, mais eu o cortava. Custei para afastar aquele corpo gigantesco de cima de mim. Fugi. Deixei ele estendido na tenda, entre sangues e carnes abertas. Maldita hora em que resolvi provocar o cossaco! FIM

Nada mal. Um formato ousado. Porém, fugiu um pouco ao que foi proposto.

Depois de ouvir isso do professor, Henrique saiu da sala bastante frustrado, sem entender nada, pois tinha certeza que seu texto era visceral. Mas tudo bem, pensou, iria dar seu máximo ao criar o próximo miniconto.

*  *  *

Na segunda sexta-feira, Henrique entregou seu outro miniconto. Tenso, ficou estudando as reações do professor durante a leitura.

O carniceiro fugitivo
Stanley saltou da cama, pegou suas roupas e pulou a janela numa velocidade inacreditável. Marcinha tinha jurado que o marido iria ficar fora por uns dias. E justo na melhor parte o cara aparece! Em disparada, ainda pelado, atravessou o pátio e passou feito um raio pelo corredor lateral. Parou num canto e vestiu-se rápido, torcendo para o sujeito não vir atrás dele. Entrou no carro ainda com a camisa aberta. Recuperou o fôlego, pisou fundo e vazou dali. Bem mais adiante, reduziu a marcha e encostou. A respiração voltava ao normal quando um cara surgiu do banco de trás e o atacou com uma faca. Minha nossa! Um assalto! Era só o que faltava! Na pressa para se encontrar com Marcinha ele esquecera de trancar o carro. "Calma, velho, calma! Entrega o carro, dinheiro, celular, tudo, sem reagir" - pensou Stanley. Tirou então a chave da ignição e virou-se para entregá-la, julgando tratar-se de um roubo. Stanley não sabia que o homem em seu carro era um fugitivo perigoso, condenado por vários homicídios, praticados com requintes de crueldade. O sujeito não queria seu veículo, queria era fatiá-lo, deixando sua marca registrada. Ao esticar a mão com a chave, Stanley levou a primeira facada. O golpe inesperado o fez gritar de dor. Tentou abrir a porta para fugir e recebeu outra estocada. Buzinou, tentando chamar a atenção de alguém. É, a situação não cheirava nada bem. Furioso, o assassino moveu o braço, deu uma chave de pescoço em Stanley e enfiou a lâmina na barriga com uma força incomum. Sem retirar a faca, abriu um corte profundo, de ponta a ponta. Depois sim, tirou, lambendo o sangue da lâmina. Inclinou-se e esfaqueou novamente, desta vez em diagonal, desenhando uma cruz. Stanley, a essa altura, nem se mexia, quase morto, apavorado, em choque, ferido, atônito, cagado de medo. O assassino, por conta daquela buzinada e temendo ser pego, deu-se por satisfeito. Desceu do carro e desapareceu nos becos escuros. Entre a vida e a morte, Stanley moveu os dedos em câmera lenta e apertou a buzina. Ficou segurando as entranhas que ameaçavam sair para fora. Aguardou por socorro. E que não demorasse muito, porque suas mãos já estavam morrendo, enterradas em suas tripas. FIM      

Texto dinâmico, Henrique. Mas ainda não está de acordo com o tema.

Henrique ficou incomodado com aquele comentário. Chegou em casa e conferiu no dicionário. Visceral: profundo, entranhado, relativo a vísceras. Como assim não estava de acordo com o tema? Bom, talvez ele estivesse dando uma conotação errada. Ou isso, ou o professor estava tirando uma onda com a cara dele. 

*  *  *

Na terceira sexta-feira, muito nervoso, Henrique alcançou a folha ao professor. Cruzou os braços. Aguardou. 

Nem todo poço tem fundo
Por insistência da mãe, ele foi na festa de aniversário do tio Manolo. Preferia ter ficado no chat de papo com os amigos. Mas um garoto sabe desde  pequeno que não se deve contrariar uma mulher. A menos que... Bem, a menos que seja realmente necessário. Chegando lá, conheceu Pietra. E através dela, Yuri, que o apresentou ao mundo das drogas. Começou pelas mais leves. Evoluiu carreiras de pó e mergulhou no crack. Daí, desceu até o fundo. E continuou descendo. Não havia dinheiro suficiente para suprir seu vício. Roubava, na maior cara de pau. Passou a fazer programas, por uns trocados. Abandonou os amigos. Os pais bem que tentaram ajudá-lo. Em vão. Era inútil argumentar com um viciado. Ele não era mais ele. Tornara-se um farrapo, usado por qualquer um. Dois anos naquela vida. Então, na véspera de Natal, cansado de apanhar nas ruas e sentindo falta de uma cama limpa, voltou para casa. Tocou a campainha. De braços abertos e chorando muito, a mãe o recebeu. Emocionado, chorou com ela. Pediu perdão. Perguntou pelo pai. "Seu pai? Você o matou de desgosto, depois da última vez que esteve aqui." FIM

Intenso. Apesar de ainda não se enquadrar, seu miniconto não ficou ruim.

Ao escutar isso, Henrique não se aguentou mais e perguntou ao professor onde ele estava errando, afinal.

Caramba, professor, pode me dizer por que meus textos não estão de acordo com o tema?

Henrique, o tema é "Visceral, sem ser cruel". Compreendeu?

Sem ser cruel? Puxa vida! Acho que não escutei direito no dia. Desculpe.

Se ele não fosse tão afobado, teria ouvido a frase completa. Que mancada! Pagara o maior mico. Se tivesse uma britadeira por perto ele teria feito um buraco na cerâmica da sala e se enterrado ali mesmo. Vermelho de vergonha, Henrique foi embora.

*  *  *

Todo sem jeito, na semana seguinte Henrique colocou nas mãos do professor o seu último miniconto.

Aberração
A protuberância aumentava a cada dia. Virava-se de um lado e de outro e o incômodo salientava-se, obrigando o pobre sujeito a mexer-se até encontrar uma posição confortável. Aquela bostela pustulenta precisava ser extirpada. Não suportava mais. Assim fez. Na sala de cirurgia, o bisturi rasga a pele do homem 'verruguento'... E o leite jorra! FIM

Interessante, Henrique.

Obrigado, professor - disse, meio em dúvida se havia ganho um elogio.

Confiram a lista que será divulgada dentro de uma semana, com a relação de todos os participantes. É isso, meus caros escritores. Parabéns a todos. E até uma próxima oportunidade. Sucesso!  — despediu-se o professor.

Henrique foi embora e passou os dias seguintes na maior aflição.

Uma semana depois ele praticamente voou até o mural para ver o resultado.

Lá estava seu nome... em 14º lugar!

Chateado, afastou-se dali. 

Desceu ao estacionamento, entrou no carro e saiu cantando pneu.

Nem viu que embaixo da relação dos nomes dos autores estava escrito que os melhores 15 minicontos haviam sido selecionados.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Diálogo entre Nós


— Oi, Nó!
Oi, Nóia!
Como está?
Enrolado.
Sempre está!
Agora mais.
Que houve?
Saudades.
Também eu.
Vamos?
Onde?
Desatar nós.
Vamos.
.*.*.*.*.*.
.*.*.*.*.*.
Mão gelada.
A sua é quente.
Vem, me desata!
Desato.
Depois me ata.
Só os nós?
De nós em nós.
Assim?
Assim!!!!!!!!!!!
Só nós mesmo! [risos] 
Ahh, minha noinha!
Ahh, meu nozinho!
Te amo!
Te amo!
Presos?
Sempre.
Sou teu nozinho.
Sou tua noinha.
[suspiros]
Que será de nós?
Nós seremos nós.
  Só nós? 
Só nós.

* ♥ * ♥ *


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Nanocontos 2 - do terror ao humor



Amava os pássaros. Possuía duas cotovias, uma calopsita e quatro canarinhos. Mas não gostava de vê-los engaiolados. Então, quebrou-lhes as asas.

* * *

Juninho ficou furioso por ter sido empurrado pelos coleguinhas no parquinho da escola. Não revidou na hora. Mas no dia seguinte, discretamente, colocou uma lâmina entre uma frestinha gasta na madeira do escorregador. 

* * *

Subiu no telhado e começou a correr de uma ponta a outra, bem próximo do beiral, deixando a família apavorada. Fez isso sem nenhum motivo, apenas porque gostava de deixar as pessoas aflitas. 

* * *

Dar carona a um estranho em plena madrugada e numa estrada deserta, possuía todos os ingredientes para terminar de forma trágica e desastrosa. E terminou.

* * *

Isildinha amava cantar a plenos pulmões quando fazia faxina. Até o dia em que seu vizinho reclamou. Daí, parou de cantar. E quando o vizinho veio reclamar do mau cheiro, ela gritou a plenos pulmões: "Me deixa cantar em paz!"    

* * *

Depois de dois meses internado, Ítalo retornou do coma. Todos notaram que seu jeito de olhar não era mais o mesmo. Seus olhos tinham agora aquela estranha expressão dos que sondaram os mistérios da morte.

* * *

Ao final de todos os dias Grezelbina olhava para o alto e pedia perdão aos Céus por amaldiçoar os pais. E justificava-se: carregar Grezelbina vinte e quatro horas por dia não era tarefa fácil.

* * *

Em plena luz do dia, num importante ponto turístico de uma cidade muito visitada por viajantes do mundo inteiro, um homem abriu fogo contra a multidão, matando dezenas de pessoas. Ao contrário dos demais, ele não estava ali a passeio. 

* * *

Colhia bergamotas na bergamoteira quando foi atacada por abelhas. Por sorte não era alérgica. Mas eram tantas abelhas, tantas, que não resistiu ao ataque... e morreu.

* * *

Maribel tinha ojeriza pela palavra ojeriza. Uma repulsa tão forte que só em pensar na palavra sendo pronunciada, fazia caretas e sentia enjoos. Um caso de difícil solução, pois embora poucos falem a palavra, ela pensava em ojeriza por todos eles.

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Etelvino aprendeu a dormir de olhos abertos e achou a experiência fenomenal. Tirava longos cochilos no escritório, na sala de aula, nas reuniões do condomínio,... sem ninguém desconfiar de nada. Mas levava um baita susto quando era "acordado" no meio do sono. 

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Cansada das noites maldormidas por causa dos roncos, chiados e flatulências de Luis Adolfo, Marluce desistiu de dormir no mesmo quarto com ele e passou a trancá-lo à noite na área de serviço. O bulldog não gostou nadinha e roeu tudo ao redor, em protesto.   




Tenho escrito tantos contos pequerruchos como estes que estou 
pensando em publicar um livro só de nanos, micros e minicontinhos. rs

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Nanocontos - do terror ao humor



Ele caiu em si e nunca mais se levantou.

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Tinha fome de Glória! Devorou-a. Depois, sem ela, acabou morrendo de inanição.

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Apressado, cortou caminho por um beco de má fama, e não chegou do outro lado.


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Passou a ter fortes dores nas costas. Fez todo tipo de exame e não descobriu o motivo. Um dia, pode jurar ter visto no espelho um vulto sobrenatural pendurado em seus ombros. Estarrecido, compreendeu o motivo das dores nas costas.


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Anastácia tomou remédio para não roer mais as unhas. E deu certo! Alguns dias depois, uma a uma, suas belas unhas começaram a cair.


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Morava há anos numa casa assombrada, sem saber. Certa noite, acordou cercado por figuras fantasmagóricas e foi puxado pelos pés e sacudido violentamente nos ares e jogado contra as paredes e atirado de volta sobre o colchão. Então, soube. 


* * *

Isolou-se tanto para escrever um novo livro que perdeu os poucos leitores que tinha. E quando finalmente lançou sua obra, ninguém lembrava mais dele.


* * *

Era uma vez um trapezista de circo que saltava sem rede de proteção. Era uma vez um trapezista de circo.


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Ela apaixonou-se pelo carteiro e passou a escrever cartas na esperança de revê-lo. Tudo em vão. Apesar disso, continuou escrevendo. Acabou seduzindo a si mesma e vivendo o seu melhor caso de amor.  


* * *

Zibeline tinha voz de veludo, mãos macias como seda, dentes brancos como algodão, mas tinha fetiche em ser tratada como pano de chão.


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Desde o bercinho Natanael sofria de riso frouxo. Os pais fizeram de tudo para que ele aprendesse a controlar as risadas desenfreadas. Mas quando viram que não tinha mesmo jeito, desistiram, e passaram a rir com ele.


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No zoo, Hercílio viu pela primeira vez um avestruz e ficou encantado com as feições simpáticas da ave. A segunda vez foi numa visita a uma fazenda e levou um corridão tão brabo que ficou com um pé atrás. A terceira vez, folheando uma revista, tratou logo de virar a página bem depressa.


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Acidentalmente ele encontrou num livro a palavra 'muxoxo' e achou a coisa mais querida. Tentou inseri-la em suas falas diárias mas desistiu porque ninguém entendia o significado. Daí, fez um muxoxo e devolveu a palavra ao livro.


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Astrogildo tinha 20 anos quando passou a sonhar que morreria de forma trágica. Os anos foram passando, passando... Hoje com 96 anos ele nem lembra mais disso.






Espero que tenham gostado dos meus nanocontos, amigos.

Ótima semana a todos e obrigada pelas visitas ao blog!



sábado, 13 de agosto de 2016

Autorretrato



Eu tenho um lado melhor do que o outro. O esquerdo é ligeiramente mais baixo que o direito. Coisa pouca. Um maldito meio centímetro me dessemelha assimetricamente e me deixa com um aspecto meio por cento bizarro. Como se isto não bastasse, entre as sobrancelhas desencontradas eu tenho vincos profundos que me fazem parecer maquiavélica e pronta para matar alguém.


Tento contornar esta desarmonia, inclinando levemente a cabeça. Faço isso quando caminho em locais públicos, quando me dirijo a alguém, quando me exponho frontalmente e não me resta outra opção. Afinal, não tenho como mudar os meus ossos de lugar. Na verdade, eu já me acostumei a andar retorcida. O pescoço dói um pouco. Fora isso é bem tranquilo.

A diferença é tão evidente que nas fotos em que meu rosto está reto e estou olhando diretamente para a câmera, eu pareço duas. É sério! O formato alongado de minhas feições, o queixo pronunciado e o nariz avantajado, não me favorecem.

Pensei agora algo inusitado: seriam os emos assimétricos? A ideia do franjão não é de todo ruim. Um esconderijo perfeito!

Tendo os antigos emocores como inspiração, deixei crescer uma franja, não muito grande, somente até a metade dos olhos; mas como os meus cabelos são volumosos, rebeldes e sem um caimento macio, o resultado foi desastroso. Óculos grandes também funcionariam, se eu gostasse de óculos grandes. Um chapéu com abas generosas ajudaria tremendamente. Inclinaria um pouquinho só a cabeça, para que a aba cobrisse o meu rosto quando eu julgasse necessário. Melhor ainda seria eu usar franja, óculos grandes e chapéus generosos. E o meu nariz, o que fazer com ele? E o meu queixo saliente? Não, não me digam para usar uma burka, porque senão eu vou rir e burka não é nem um pouco engraçado.

Pois então, desta dissonância facial resultou que adquiri estima por apenas um lado meu e uma verdadeira aversão pelo lado que se perdeu. Não vivemos felizes lado a lado. Tem outra cara na minha cara e não há nada que eu possa fazer a respeito.

Quando me olham, fico prestando atenção em qual lado escolhem para fixar o olhar. Sim, porque não dá para olhar direito para os dois olhos de uma pessoa ao mesmo tempo, não é mesmo? A não ser que a pessoa fique jogando pingue-pingue de um olho a outro enquanto me olha. Ráá!! Pois foi assim que eu descobri que o meu lado torto é o menos encarado.

É natural optarem pela visão alinhada porque ela causa menos desconforto. Entre o regular e o disforme, para onde escolheriam olhar por mais tempo? Embora a bizarrice cause curiosidade, a normalidade propicia uma sensação agradável. E conforto interno é como a beleza, faz bem aos sentidos. Concordam?

A verdade é que essa constatação me fez passar a analisar meticulosamente os olhares alheios. A maioria faz assim: encara o rosto cheio, olhando com os dois olhos ao mesmo tempo, depois escolhe o lado esquerdo ou o direito e se concentra nele. Podem prestar atenção e vão se surpreender. Claro, há os que miram outros pontos do corpo e param o olhar lá por algum tempo, depois vão subindo e estacionam na retina, ou desviam para a boca, para os vãos de tecidos, enfim, cada olho segue o que lhe dá apetite, ou repulsa, ou nenhum dos dois. A verdade é que relendo este parágrafo eu noto o quanto ele é irrelevante. Portanto, relevem.

O mais dramático é que o meu lado melhor também não se enquadra em nenhum padrão de beleza em voga. Pois é, quando me dizem que devo dar minha cara à tapa, rio e respondo: “vou dar sim, quem sabe ela melhora”. O mais dramático ainda do que o mais dramático é notar que poucos captam minhas ironias. E ironizar é bem a minha cara, podem crer! Só não venham me dizer que sou mulher de duas caras porque aí o tempo fecha e metáforas sairão voando pela janela.

Enquanto eu não me acostumar com o meu lado desigual, continuarei optando por fotos de um lado só.

Tenho de reconhecer que o meu outro lado me racha a cara de vergonha.


Dizem que temos de aprender a rir de nós mesmos, não
 nos levando tão a sério, pois esta foi a inspiração que usei 
ao criar esta crônica - brincar com a minha própria aparência.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sumiu e ninguém viu. Ou viu?


Eugênio despertou num certo domingo de outono, sentindo-se esquisito.

Confuso e sem entender o súbito desconforto, olhou-se no espelho. Fixou os olhos em seu rosto e sentiu um leve tremor. Um sentimento tolo de irreconhecimento o dominou. Despiu-se. Conferiu-se por inteiro, perdendo um tempo melhor em seus olhos estreitos e negros. Do fundo deles, Eugênio viu refletido um outro Eugênio. De início, ficou tenso. Depois, sentiu medo. Por fim, decidiu se rever, num esforço ingênuo e pueril de romper os indícios misteriosos e se conhecer melhor.

Suspirou e estudou-se bem de perto. Feições e trejeitos, ok! Queixo proeminente, ok! Poucos pelos no peito, ok! Excesso de peso no tronco, ok! Um membro digno de respeito, ok!  

Suspirou.

Seguiu o intento. Porém, mudou o foco e inspecionou-se por dentro.

Jovem, com sonhos envelhecidos. Introvertido e com surtos eufóricos. Curte sons de outros tempos, filmes épicos, suéter preto, mel com presunto e um bom vinho do Porto. Consegue ser dócil e ríspido em momentos idênticos. Inteligente e preguiçoso. Tímido e decidido. Ciumento e indiferente. Cínico e sisudo. Ri em momentos impróprios. Emudece por longos períodos. Sente medo de roedores e um nojo incompreensível de mosquitos. Tem horror de compromissos longos. Foge como um doido dos riscos iminentes e quer ser compreendido por isso. Seu mundo interior é um imenso deserto com flores de perfumes rústicos. Sente-se forte como um touro em certos momentos e em outros sem vigor nenhum. Em seus sonhos ele se vê engolido de um século longínquo e inserido neste ritmo enlouquecido dos tempos de hoje. Tem vezes que seu desejo é sumir, fugir, esconder-se de todos. Em outros, quer ter vínculos ternos, filhos, inclusive. Bem, tudo é possível. Como dizem, o céu é o limite. 

Preocupou-se depois de ver tudo isso nele. Julgou-se dúbio, indefinido, com os pés entre dois universos. Porém, inocentou-se no minuto seguinte, porque ninguém consegue ser cem por cento coerente o tempo todo, pensou.  

Enfim, Eugênio quer o que todo mundo quer: seguir em frente, ser feliz e ter um futuro melhor. 

Soltou outro suspiro. 

Viver é simples. Oh, porém, como é difícil!

De repente, ele entendeu o que houve. Ele mudou! Ele se renovou!

Depois de um longo tempo se vendo, percebeu que ele é hoje o mesmo Eugênio de ontem, mesmo sendo diferente. Nem melhor, nem pior. Só diferente. E reconhecer isso nele provocou um efeito que mudou o seu rumo.     

Vestiu-se.

E como se tivesse descoberto um tesouro precioso, sorriu e disse:

— Viver é isso... É sentir... É ver... É ver-se... Ver-se por inteiro!  

Depois, deixou o cômodo e levou o novo Eugênio com ele. 


 Você descobriu quem foi que sumiu? 
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Devem ter percebido, contudo, eu revelo: 

É que eu escrevi este texto inteiro sem o "a". 


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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Símbolo da razão



Um certo dia, sem nada melhor para fazer,
Pi resolve dar umas voltas pela vizinhança
Ansiando desvendar novas circunferências
E, quem sabe, transcender razoavelmente

No ímpeto de ampliar seu círculo simbólico
Desvia seu destino por diâmetros em série
Esbarrando com a gangue dos imaginários
Numa  colisão de proporções incalculáveis

Em complexidade numérica, girou um raio
Como qualquer irracional confiante demais
Excedeu-se em ousadia além do desejado
Sem  medir o valor real e a precisão exata

Arquimedes com certeza ficaria desiludido
Em ver seu ilustre pupilo em desvantagem
Mas então aparecem os racionais a tempo
Salvando  Pi  de um flagelo constrangedor



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Meninices


Eu estava com oito anos, quando conheci Jean. Minha família mudou-se para um prédio bem ao lado da casa dele. Tínhamos a mesma idade e frequentávamos a mesma escola. Diferente de mim, Jean era um menino de rosto fechado e parecia estar sempre aborrecido com alguma coisa. Como éramos vizinhos, desde o começo tentei fazer amizade, mas ele nem olhava na minha direção. Aquele jeito emburrado me intrigava. 

Fiquei amiga de outras crianças e todas me diziam para não dar bola, pois Jean nascera de mal com a vida. Porém, isso não me convencia pois eu não conseguia entender o motivo para tamanha irritação. Ele morava numa casa bonita, com uma família estruturada. Até uma bicicleta maneira ele tinha! Por que não sorria de vez em quando, pelo menos? 

Resolvi tentar "ajudá-lo", depois de passados três meses sem vê-lo sorrir uma única vez sequer. Como é possível uma pessoa não sorrir, não achar graça de nada? Nem um sorrisinho amarelo ele dava.
Eu e meus amiguinhos nos reunimos e decidimos que devíamos agir. Meu vizinho precisava de ajuda, urgente! Arquitetamos um plano infalível. Com certeza daria certo. Sempre que alguém estivesse com ele, ou perto dele, contaríamos uma piada bem engraçada. Não teria como ele resistir.  
O primeiro escalado foi Maurício. Contou uma piadinha de papagaio. Curtinha, do tipo que faz a gente trazer o riso, sem ele querer vir. Bom, ao menos conosco, porque se Jean sorriu foi por dentro. Os músculos da face nem se mexerem. Que desconcertante! Teríamos que planejar melhor. Ele realmente era duro de fazer rir.
No dia seguinte, foi a vez de Pedrinho. Assim que teve oportunidade, lascou direto a pergunta:
— Sabe a piada do Joãozinho?
— Não! - respondeu Jean, desinteressado.
— É assim, escuta só: “A professora pergunta pro Joãozinho, quanto são cinco mais cinco? Ele pensa um pouco, conta nos dedos e responde: dez. Ah, não vale contar nos dedos, diz ela. Coloca as mãos nos bolsos. Isso, agora responde, quanto são cinco mais cinco? Joãozinho conta em silêncio  e fala: onze, professora.”
— Já acabou? Então eu vou indo, porque minha mãe está me esperando - falou Jean. 
Incrível! Como não achou graça da piada? Joãozinho conta os cinco dedos de um bolso, o tiquinho no meio e os cinco dedos do outro bolso. Bobinha, é verdade, mas acho engraçadíssima. A primeira vez que me contaram tive um acesso e quase me mijei de rir. 

É, teríamos que mudar de tática, o caso dele parecia mais grave do que pensávamos. Agora tornara-se um desafio, faríamos ele rir de qualquer maneira. Nem que tivéssemos de fazer cócegas.
Bem, não seria assim tão simples, como descobrimos depois.
Durante a semana inteira nos revezamos, contando piadas, dizendo bobagens, fazendo brincadeiras do tipo   "O que é uma bolinha vermelha escondida atrás da porta?  É uma ervilha envergonhada!" Rá-rá-rá! Rimos todos, para ver se contagiávamos Jean.  Nada. Impressionante.
Combinamos fingir que cairíamos no chão, escorregando em algo imaginário. Foi hilário. Fabinho fez que escorregou em uma casca de banana inexistente e se estatelou de bunda no chão. De novo, nenhuma reação.  E olha que foi bem na frente dele. Jean era um caso de internação. Não entendíamos como a família dele não ficava preocupada, com tanta seriedade numa criança. Ele tinha apenas oito anos e não ria de nada. Já estávamos pensando em desistir de nossa intenção, pois tínhamos esgotado nossa cota de piadas, coisas engraçadas e tal. 
Um dia perguntamos: "O que te deixa alegre, feliz, satisfeito? "Não sei, não me ocorre nada agora" - respondeu  ele, bem assim, como um homem sério, sem ainda nem ter crescido para tanto.
Bom, talvez se a gente levasse ele num circo, vendo as trapalhadas dos palhaços, a gargalhada que estava presa se libertasse.

Levamos. E também não deu certo.

O fato é que fomos desanimando. Não sabíamos mais o que fazer.
Assim foi que desistimos e o deixamos em paz, pois nossa boa intenção já estava virando uma perseguição. Quem sabe, com o tempo ele aprendesse a sorrir. Afinal, o sorriso é nossa forma de expressar alegria de viver. E isso é algo que acontece naturalmente.
Algumas semanas depois, já tínhamos nos acostumado com a cara amarrada de Jean. Estávamos todos juntos na frente da casa dele, papeando. "Bah, que coceira no umbigo" - falei, de repente. 

Para nosso espanto, Jean começou a repetir: "umbigo, umbigo, umbigo" e desatou a rir. Riu tanto que chegamos a ficar preocupados. Rimos juntos, feito um bando de crianças felizes. Como todas as crianças devem ser, não é mesmo?
Dizem que até hoje ele não pode ouvir a palavra umbigo que cai numa risada convulsiva.