
Eu tenho um lado melhor do que o outro. O esquerdo é ligeiramente mais baixo que o direito. Coisa pouca. Um maldito meio
centímetro me dessemelha assimetricamente e me deixa com um aspecto meio por
cento bizarro. Como se isto não bastasse, entre as sobrancelhas desencontradas eu tenho vincos profundos que me fazem parecer maquiavélica e pronta para
matar alguém.
Tento contornar esta desarmonia, inclinando levemente a cabeça.
Faço isso quando caminho em locais públicos, quando me dirijo a alguém, quando
me exponho frontalmente e não me resta outra opção. Afinal, não tenho como
mudar os meus ossos de lugar. Na verdade, eu já me acostumei a andar retorcida.
O pescoço dói um pouco. Fora isso é bem tranquilo.
A diferença é tão evidente que nas fotos em que meu rosto está
reto e estou olhando diretamente para a câmera, eu pareço duas. É sério! O
formato alongado de minhas feições, o queixo pronunciado e o nariz avantajado,
não me favorecem.
Pensei agora algo inusitado: seriam os emos assimétricos? A ideia
do franjão não é de todo ruim. Um esconderijo perfeito!
Tendo os antigos emocores como inspiração, deixei crescer uma
franja, não muito grande, somente até a metade dos olhos; mas como os meus
cabelos são volumosos, rebeldes e sem um caimento macio, o resultado foi
desastroso. Óculos grandes também funcionariam, se eu gostasse de óculos
grandes. Um chapéu com abas generosas ajudaria tremendamente. Inclinaria um
pouquinho só a cabeça, para que a aba cobrisse o meu rosto quando eu julgasse
necessário. Melhor ainda seria eu usar franja, óculos grandes e chapéus
generosos. E o meu nariz, o que fazer com ele? E o meu queixo saliente? Não,
não me digam para usar uma burka, porque senão eu vou rir e burka não é nem um
pouco engraçado.
Pois então, desta dissonância facial resultou que adquiri estima
por apenas um lado meu e uma verdadeira aversão pelo lado que se perdeu. Não
vivemos felizes lado a lado. Tem outra cara na minha cara e não há nada que eu
possa fazer a respeito.
Quando me olham, fico prestando atenção em qual lado escolhem
para fixar o olhar. Sim, porque não dá para olhar direito para os dois olhos de
uma pessoa ao mesmo tempo, não é mesmo? A não ser que a pessoa fique jogando
pingue-pingue de um olho a outro enquanto me olha. Ráá!! Pois foi assim que eu
descobri que o meu lado torto é o menos encarado.
É natural optarem pela visão alinhada porque ela causa menos
desconforto. Entre o regular e o disforme, para onde escolheriam olhar por mais
tempo? Embora a bizarrice cause curiosidade, a normalidade propicia uma
sensação agradável. E conforto interno é como a beleza, faz bem aos sentidos.
Concordam?
A verdade é que essa constatação me fez passar a analisar
meticulosamente os olhares alheios. A maioria faz assim: encara o rosto cheio,
olhando com os dois olhos ao mesmo tempo, depois escolhe o lado esquerdo ou o
direito e se concentra nele. Podem prestar atenção e vão se surpreender. Claro,
há os que miram outros pontos do corpo e param o olhar lá por algum tempo,
depois vão subindo e estacionam na retina, ou desviam para a boca, para os vãos
de tecidos, enfim, cada olho segue o que lhe dá apetite, ou repulsa, ou nenhum
dos dois. A verdade é que relendo este parágrafo eu noto o quanto ele é
irrelevante. Portanto, relevem.
O mais dramático é que o meu lado melhor também não se enquadra em
nenhum padrão de beleza em voga. Pois é, quando me dizem que devo dar minha
cara à tapa, rio e respondo: “vou dar sim, quem sabe ela melhora”. O mais
dramático ainda do que o mais dramático é notar que poucos captam minhas ironias.
E ironizar é bem a minha cara, podem crer! Só não venham me dizer que sou
mulher de duas caras porque aí o tempo fecha e metáforas sairão voando pela
janela.
Enquanto eu não me acostumar com o meu lado desigual, continuarei
optando por fotos de um lado só.
Tenho de reconhecer que o meu outro lado me racha a cara de
vergonha.

Dizem que temos de aprender a rir de nós mesmos, não
nos levando tão a sério, pois esta foi a inspiração que usei
ao criar esta crônica - brincar com a minha própria aparência.
nos levando tão a sério, pois esta foi a inspiração que usei
ao criar esta crônica - brincar com a minha própria aparência.














