sábado, 13 de agosto de 2016

Autorretrato



Eu tenho um lado melhor do que o outro. O esquerdo é ligeiramente mais baixo que o direito. Coisa pouca. Um maldito meio centímetro me dessemelha assimetricamente e me deixa com um aspecto meio por cento bizarro. Como se isto não bastasse, entre as sobrancelhas desencontradas eu tenho vincos profundos que me fazem parecer maquiavélica e pronta para matar alguém.


Tento contornar esta desarmonia, inclinando levemente a cabeça. Faço isso quando caminho em locais públicos, quando me dirijo a alguém, quando me exponho frontalmente e não me resta outra opção. Afinal, não tenho como mudar os meus ossos de lugar. Na verdade, eu já me acostumei a andar retorcida. O pescoço dói um pouco. Fora isso é bem tranquilo.

A diferença é tão evidente que nas fotos em que meu rosto está reto e estou olhando diretamente para a câmera, eu pareço duas. É sério! O formato alongado de minhas feições, o queixo pronunciado e o nariz avantajado, não me favorecem.

Pensei agora algo inusitado: seriam os emos assimétricos? A ideia do franjão não é de todo ruim. Um esconderijo perfeito!

Tendo os antigos emocores como inspiração, deixei crescer uma franja, não muito grande, somente até a metade dos olhos; mas como os meus cabelos são volumosos, rebeldes e sem um caimento macio, o resultado foi desastroso. Óculos grandes também funcionariam, se eu gostasse de óculos grandes. Um chapéu com abas generosas ajudaria tremendamente. Inclinaria um pouquinho só a cabeça, para que a aba cobrisse o meu rosto quando eu julgasse necessário. Melhor ainda seria eu usar franja, óculos grandes e chapéus generosos. E o meu nariz, o que fazer com ele? E o meu queixo saliente? Não, não me digam para usar uma burka, porque senão eu vou rir e burka não é nem um pouco engraçado.

Pois então, desta dissonância facial resultou que adquiri estima por apenas um lado meu e uma verdadeira aversão pelo lado que se perdeu. Não vivemos felizes lado a lado. Tem outra cara na minha cara e não há nada que eu possa fazer a respeito.

Quando me olham, fico prestando atenção em qual lado escolhem para fixar o olhar. Sim, porque não dá para olhar direito para os dois olhos de uma pessoa ao mesmo tempo, não é mesmo? A não ser que a pessoa fique jogando pingue-pingue de um olho a outro enquanto me olha. Ráá!! Pois foi assim que eu descobri que o meu lado torto é o menos encarado.

É natural optarem pela visão alinhada porque ela causa menos desconforto. Entre o regular e o disforme, para onde escolheriam olhar por mais tempo? Embora a bizarrice cause curiosidade, a normalidade propicia uma sensação agradável. E conforto interno é como a beleza, faz bem aos sentidos. Concordam?

A verdade é que essa constatação me fez passar a analisar meticulosamente os olhares alheios. A maioria faz assim: encara o rosto cheio, olhando com os dois olhos ao mesmo tempo, depois escolhe o lado esquerdo ou o direito e se concentra nele. Podem prestar atenção e vão se surpreender. Claro, há os que miram outros pontos do corpo e param o olhar lá por algum tempo, depois vão subindo e estacionam na retina, ou desviam para a boca, para os vãos de tecidos, enfim, cada olho segue o que lhe dá apetite, ou repulsa, ou nenhum dos dois. A verdade é que relendo este parágrafo eu noto o quanto ele é irrelevante. Portanto, relevem.

O mais dramático é que o meu lado melhor também não se enquadra em nenhum padrão de beleza em voga. Pois é, quando me dizem que devo dar minha cara à tapa, rio e respondo: “vou dar sim, quem sabe ela melhora”. O mais dramático ainda do que o mais dramático é notar que poucos captam minhas ironias. E ironizar é bem a minha cara, podem crer! Só não venham me dizer que sou mulher de duas caras porque aí o tempo fecha e metáforas sairão voando pela janela.

Enquanto eu não me acostumar com o meu lado desigual, continuarei optando por fotos de um lado só.

Tenho de reconhecer que o meu outro lado me racha a cara de vergonha.


Dizem que temos de aprender a rir de nós mesmos, não
 nos levando tão a sério, pois esta foi a inspiração que usei 
ao criar esta crônica - brincar com a minha própria aparência.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sumiu e ninguém viu. Ou viu?


Eugênio despertou num certo domingo de outono, sentindo-se esquisito.

Confuso e sem entender o súbito desconforto, olhou-se no espelho. Fixou os olhos em seu rosto e sentiu um leve tremor. Um sentimento tolo de irreconhecimento o dominou. Despiu-se. Conferiu-se por inteiro, perdendo um tempo melhor em seus olhos estreitos e negros. Do fundo deles, Eugênio viu refletido um outro Eugênio. De início, ficou tenso. Depois, sentiu medo. Por fim, decidiu se rever, num esforço ingênuo e pueril de romper os indícios misteriosos e se conhecer melhor.

Suspirou e estudou-se bem de perto. Feições e trejeitos, ok! Queixo proeminente, ok! Poucos pelos no peito, ok! Excesso de peso no tronco, ok! Um membro digno de respeito, ok!  

Suspirou.

Seguiu o intento. Porém, mudou o foco e inspecionou-se por dentro.

Jovem, com sonhos envelhecidos. Introvertido e com surtos eufóricos. Curte sons de outros tempos, filmes épicos, suéter preto, mel com presunto e um bom vinho do Porto. Consegue ser dócil e ríspido em momentos idênticos. Inteligente e preguiçoso. Tímido e decidido. Ciumento e indiferente. Cínico e sisudo. Ri em momentos impróprios. Emudece por longos períodos. Sente medo de roedores e um nojo incompreensível de mosquitos. Tem horror de compromissos longos. Foge como um doido dos riscos iminentes e quer ser compreendido por isso. Seu mundo interior é um imenso deserto com flores de perfumes rústicos. Sente-se forte como um touro em certos momentos e em outros sem vigor nenhum. Em seus sonhos ele se vê engolido de um século longínquo e inserido neste ritmo enlouquecido dos tempos de hoje. Tem vezes que seu desejo é sumir, fugir, esconder-se de todos. Em outros, quer ter vínculos ternos, filhos, inclusive. Bem, tudo é possível. Como dizem, o céu é o limite. 

Preocupou-se depois de ver tudo isso nele. Julgou-se dúbio, indefinido, com os pés entre dois universos. Porém, inocentou-se no minuto seguinte, porque ninguém consegue ser cem por cento coerente o tempo todo, pensou.  

Enfim, Eugênio quer o que todo mundo quer: seguir em frente, ser feliz e ter um futuro melhor. 

Soltou outro suspiro. 

Viver é simples. Oh, porém, como é difícil!

De repente, ele entendeu o que houve. Ele mudou! Ele se renovou!

Depois de um longo tempo se vendo, percebeu que ele é hoje o mesmo Eugênio de ontem, mesmo sendo diferente. Nem melhor, nem pior. Só diferente. E reconhecer isso nele provocou um efeito que mudou o seu rumo.     

Vestiu-se.

E como se tivesse descoberto um tesouro precioso, sorriu e disse:

— Viver é isso... É sentir... É ver... É ver-se... Ver-se por inteiro!  

Depois, deixou o cômodo e levou o novo Eugênio com ele. 


 Você descobriu quem foi que sumiu? 
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Devem ter percebido, contudo, eu revelo: 

É que eu escrevi este texto inteiro sem o "a". 


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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Símbolo da razão



Um certo dia, sem nada melhor para fazer,
Pi resolve dar umas voltas pela vizinhança
Ansiando desvendar novas circunferências
E, quem sabe, transcender razoavelmente

No ímpeto de ampliar seu círculo simbólico
Desvia seu destino por diâmetros em série
Esbarrando com a gangue dos imaginários
Numa  colisão de proporções incalculáveis

Em complexidade numérica, girou um raio
Como qualquer irracional confiante demais
Excedeu-se em ousadia além do desejado
Sem  medir o valor real e a precisão exata

Arquimedes com certeza ficaria desiludido
Em ver seu ilustre pupilo em desvantagem
Mas então aparecem os racionais a tempo
Salvando  Pi  de um flagelo constrangedor



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Meninices


Eu estava com oito anos, quando conheci Jean. Minha família mudou-se para um prédio bem ao lado da casa dele. Tínhamos a mesma idade e frequentávamos a mesma escola. Diferente de mim, Jean era um menino de rosto fechado e parecia estar sempre aborrecido com alguma coisa. Como éramos vizinhos, desde o começo tentei fazer amizade, mas ele nem olhava na minha direção. Aquele jeito emburrado me intrigava. 

Fiquei amiga de outras crianças e todas me diziam para não dar bola, pois Jean nascera de mal com a vida. Porém, isso não me convencia pois eu não conseguia entender o motivo para tamanha irritação. Ele morava numa casa bonita, com uma família estruturada. Até uma bicicleta maneira ele tinha! Por que não sorria de vez em quando, pelo menos? 

Resolvi tentar "ajudá-lo", depois de passados três meses sem vê-lo sorrir uma única vez sequer. Como é possível uma pessoa não sorrir, não achar graça de nada? Nem um sorrisinho amarelo ele dava.
Eu e meus amiguinhos nos reunimos e decidimos que devíamos agir. Meu vizinho precisava de ajuda, urgente! Arquitetamos um plano infalível. Com certeza daria certo. Sempre que alguém estivesse com ele, ou perto dele, contaríamos uma piada bem engraçada. Não teria como ele resistir.  
O primeiro escalado foi Maurício. Contou uma piadinha de papagaio. Curtinha, do tipo que faz a gente trazer o riso, sem ele querer vir. Bom, ao menos conosco, porque se Jean sorriu foi por dentro. Os músculos da face nem se mexerem. Que desconcertante! Teríamos que planejar melhor. Ele realmente era duro de fazer rir.
No dia seguinte, foi a vez de Pedrinho. Assim que teve oportunidade, lascou direto a pergunta:
— Sabe a piada do Joãozinho?
— Não! - respondeu Jean, desinteressado.
— É assim, escuta só: “A professora pergunta pro Joãozinho, quanto são cinco mais cinco? Ele pensa um pouco, conta nos dedos e responde: dez. Ah, não vale contar nos dedos, diz ela. Coloca as mãos nos bolsos. Isso, agora responde, quanto são cinco mais cinco? Joãozinho conta em silêncio  e fala: onze, professora.”
— Já acabou? Então eu vou indo, porque minha mãe está me esperando - falou Jean. 
Incrível! Como não achou graça da piada? Joãozinho conta os cinco dedos de um bolso, o tiquinho no meio e os cinco dedos do outro bolso. Bobinha, é verdade, mas acho engraçadíssima. A primeira vez que me contaram tive um acesso e quase me mijei de rir. 

É, teríamos que mudar de tática, o caso dele parecia mais grave do que pensávamos. Agora tornara-se um desafio, faríamos ele rir de qualquer maneira. Nem que tivéssemos de fazer cócegas.
Bem, não seria assim tão simples, como descobrimos depois.
Durante a semana inteira nos revezamos, contando piadas, dizendo bobagens, fazendo brincadeiras do tipo   "O que é uma bolinha vermelha escondida atrás da porta?  É uma ervilha envergonhada!" Rá-rá-rá! Rimos todos, para ver se contagiávamos Jean.  Nada. Impressionante.
Combinamos fingir que cairíamos no chão, escorregando em algo imaginário. Foi hilário. Fabinho fez que escorregou em uma casca de banana inexistente e se estatelou de bunda no chão. De novo, nenhuma reação.  E olha que foi bem na frente dele. Jean era um caso de internação. Não entendíamos como a família dele não ficava preocupada, com tanta seriedade numa criança. Ele tinha apenas oito anos e não ria de nada. Já estávamos pensando em desistir de nossa intenção, pois tínhamos esgotado nossa cota de piadas, coisas engraçadas e tal. 
Um dia perguntamos: "O que te deixa alegre, feliz, satisfeito? "Não sei, não me ocorre nada agora" - respondeu  ele, bem assim, como um homem sério, sem ainda nem ter crescido para tanto.
Bom, talvez se a gente levasse ele num circo, vendo as trapalhadas dos palhaços, a gargalhada que estava presa se libertasse.

Levamos. E também não deu certo.

O fato é que fomos desanimando. Não sabíamos mais o que fazer.
Assim foi que desistimos e o deixamos em paz, pois nossa boa intenção já estava virando uma perseguição. Quem sabe, com o tempo ele aprendesse a sorrir. Afinal, o sorriso é nossa forma de expressar alegria de viver. E isso é algo que acontece naturalmente.
Algumas semanas depois, já tínhamos nos acostumado com a cara amarrada de Jean. Estávamos todos juntos na frente da casa dele, papeando. "Bah, que coceira no umbigo" - falei, de repente. 

Para nosso espanto, Jean começou a repetir: "umbigo, umbigo, umbigo" e desatou a rir. Riu tanto que chegamos a ficar preocupados. Rimos juntos, feito um bando de crianças felizes. Como todas as crianças devem ser, não é mesmo?
Dizem que até hoje ele não pode ouvir a palavra umbigo que cai numa risada convulsiva.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Brincando com as palavras



A surpresa é uma presa que também se surpreende e nunca aprende.

O soluço só cansa de soluçar quando não encontra outra solução.

O entusiasmo esbarrou na preguiça. A preguiça não gostou e até pensou em revidar, mas se espreguiçou, espichou-se no sofá e dormiu.

Ele tinha um coração de ouro. E por conta disso, foi explorado até perder o brilho.

Se eu tenho já não quero, quando não tinha eu queria. Eu queria porque não tinha, ou queria porque queria?

Dou tanta vida aos meus personagens que eles fogem linha afora pelas páginas e preciso correr atrás para trazê-los de volta.

Minha imaginação é tão fértil que só de imaginar a planta do meu pé as sementes já começam a germinar.

Tem dias que não estou a fim de socializar mas entro na rede social assim mesmo só para ver os outros socializando - daí me sinto mais sociável.

Eu te amo sem mais nem por que, porque se tivesse por que não seria amor... seria... sei lá o que.

Nesses dias gelados, você nem faz ideia de como aquece o meu coração e o meu corpo inteiro. Nem imagina como fico quentinha perto de você. Ah, EU TE AMO, Split!



quinta-feira, 14 de abril de 2016

Momento desesperador


Sentiu os dedos gelados do terror tocando seu ombro.

Paralisado pelo medo, olhou pelo espelho retrovisor. Nada.

Desceu do carro. Olhou. Não havia ninguém no banco de trás.

Retornou para a estrada, perturbado.

Outra vez aquela sensação. Mãos pressionando. Um tapa nas costas. Voz elevada. Ele volta-se rápido. O vulto avança. Ele se defende e acerta-lhe um soco. Ambos se engalfinham e caem por cima de poltronas. Uma lanterna surge, quase atingindo sua cabeça.

O homem acorda. Percebe que está no cinema. 

E só então se dá conta - era o lanterninha tentando avisá-lo que dormira e o filme já terminara.


quinta-feira, 31 de março de 2016

AMAR é...



AMAR é...

fazer o que a pessoa amada gosta 

sem ela precisar pedir.






terça-feira, 15 de março de 2016

No recôndito da memória

Ilustração de David Ho



A consciência alerta ao inconsciente 
que é hora de acordar.

O inconsciente, por não ter consciência
alguma, continua dormindo.

A consciência resolve ir dormir também, 
para ver se o desperta.

O inconsciente acorda e sem ter a 
consciência por perto, dorme.

Os dois nunca se encontram, embora 
morem no mesmo lugar.






quarta-feira, 2 de março de 2016

Roteiro malpassado




1º ATO - ASCENSÃO E GLÓRIA
Ainda verde nas artimanhas do amor, acreditou nas românticas palavras daquele belo e jovem rapaz. Para alguns, nem tão belo, nem tão jovem, mas os olhos de quem ama a tudo embeleza e faz maior.

Sob doce encantamento, descobriu na pele as delícias do “amor, com amor se paga” e contou estrelas enquanto escutava toques de clarins e mariachis esfuziantes. A vida realmente não poderia ser mais bela. As flores ficaram mais perfumadas. O sorriso saía fácil, sem esforço. Estava naturalmente feliz. [...]


2º ATO - A QUEDA E A DOR
Dobrou a esquina, mas quem gemeu foi ela, de surpresa e desilusão. Seu amor era vidro e se quebrara. Não, que bobagem, o amor não se quebra. O amor é sublime, inquebrantável e grande; pequena é a certeza de quem o sente.

Entristeceu. Chorou. Praguejou. Fez poemas cheios de dor.

A vida realmente não poderia ser mais injusta. Queria se desintegrar. Sumir. Evaporar. Nunca mais iria amar! [...]


3º ATO - A LIÇÃO
Os dias passam. A vida segue. O mundo gira.

E com o coração enfaixado, seguiu respirando.[...]





♥ Boa semana, amigos ♥