
Eugênio
despertou num certo domingo de outono, sentindo-se esquisito.
Confuso
e sem entender o súbito desconforto, olhou-se no espelho. Fixou os olhos em seu
rosto e sentiu um leve tremor. Um sentimento tolo de irreconhecimento o dominou.
Despiu-se. Conferiu-se por inteiro, perdendo um tempo melhor em seus olhos
estreitos e negros. Do fundo deles, Eugênio viu refletido um outro Eugênio. De
início, ficou tenso. Depois, sentiu medo. Por fim, decidiu se rever, num esforço
ingênuo e pueril de romper os indícios misteriosos e se conhecer melhor.
Suspirou
e estudou-se bem de perto. Feições e trejeitos, ok! Queixo proeminente, ok!
Poucos pelos no peito, ok! Excesso de peso no tronco, ok! Um membro digno de respeito, ok!
Suspirou.
Seguiu
o intento. Porém, mudou o foco e inspecionou-se por dentro.
Jovem, com sonhos envelhecidos. Introvertido e com surtos eufóricos. Curte sons
de outros tempos, filmes épicos, suéter preto, mel com presunto e um bom vinho
do Porto. Consegue ser dócil e ríspido em momentos idênticos. Inteligente e
preguiçoso. Tímido e decidido. Ciumento e indiferente. Cínico e sisudo. Ri em
momentos impróprios. Emudece por longos períodos. Sente medo de roedores e um
nojo incompreensível de mosquitos. Tem horror de compromissos longos. Foge como um doido dos riscos iminentes e quer ser compreendido por isso. Seu mundo interior é um imenso deserto com flores de perfumes rústicos. Sente-se forte como um
touro em certos momentos e em outros sem vigor nenhum. Em seus sonhos ele se vê
engolido de um século longínquo e inserido neste ritmo enlouquecido dos tempos
de hoje. Tem vezes que seu desejo é sumir, fugir, esconder-se de todos. Em
outros, quer ter vínculos ternos, filhos, inclusive. Bem, tudo é possível. Como dizem, o céu é o
limite.
Preocupou-se depois de ver tudo isso nele. Julgou-se dúbio, indefinido, com os pés entre dois universos. Porém, inocentou-se no minuto seguinte, porque ninguém consegue ser cem por cento coerente o tempo todo, pensou.
Enfim, Eugênio quer o que todo mundo quer: seguir em frente, ser feliz e ter um futuro melhor.
Soltou
outro suspiro.
Viver é simples. Oh, porém, como é difícil!
Viver é simples. Oh, porém, como é difícil!
De
repente, ele entendeu o que houve. Ele mudou! Ele se renovou!
Depois
de um longo tempo se vendo, percebeu que ele é hoje o mesmo Eugênio de ontem,
mesmo sendo diferente. Nem melhor, nem pior. Só diferente. E reconhecer isso nele provocou um efeito que mudou o seu rumo.
Vestiu-se.
E
como se tivesse descoberto um tesouro precioso, sorriu e disse:
—
Viver é isso... É sentir... É ver... É ver-se... Ver-se por inteiro!
Depois, deixou o cômodo e levou o novo Eugênio com ele.

Você descobriu quem foi que sumiu?
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Devem ter percebido, contudo, eu revelo:
É que eu escrevi este texto inteiro sem o "a".
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