segunda-feira, 20 de junho de 2016

Símbolo da razão



Um certo dia, sem nada melhor para fazer,
Pi resolve dar umas voltas pela vizinhança
Ansiando desvendar novas circunferências
E, quem sabe, transcender razoavelmente

No ímpeto de ampliar seu círculo simbólico
Desvia seu destino por diâmetros em série
Esbarrando com a gangue dos imaginários
Numa  colisão de proporções incalculáveis

Em complexidade numérica, girou um raio
Como qualquer irracional confiante demais
Excedeu-se em ousadia além do desejado
Sem  medir o valor real e a precisão exata

Arquimedes com certeza ficaria desiludido
Em ver seu ilustre pupilo em desvantagem
Mas então aparecem os racionais a tempo
Salvando  Pi  de um flagelo constrangedor



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Meninices


Eu estava com oito anos, quando conheci Jean. Minha família mudou-se para um prédio bem ao lado da casa dele. Tínhamos a mesma idade e frequentávamos a mesma escola. Diferente de mim, Jean era um menino de rosto fechado e parecia estar sempre aborrecido com alguma coisa. Como éramos vizinhos, desde o começo tentei fazer amizade, mas ele nem olhava na minha direção. Aquele jeito emburrado me intrigava. 

Fiquei amiga de outras crianças e todas me diziam para não dar bola, pois Jean nascera de mal com a vida. Porém, isso não me convencia pois eu não conseguia entender o motivo para tamanha irritação. Ele morava numa casa bonita, com uma família estruturada. Até uma bicicleta maneira ele tinha! Por que não sorria de vez em quando, pelo menos? 

Resolvi tentar "ajudá-lo", depois de passados três meses sem vê-lo sorrir uma única vez sequer. Como é possível uma pessoa não sorrir, não achar graça de nada? Nem um sorrisinho amarelo ele dava.
Eu e meus amiguinhos nos reunimos e decidimos que devíamos agir. Meu vizinho precisava de ajuda, urgente! Arquitetamos um plano infalível. Com certeza daria certo. Sempre que alguém estivesse com ele, ou perto dele, contaríamos uma piada bem engraçada. Não teria como ele resistir.  
O primeiro escalado foi Maurício. Contou uma piadinha de papagaio. Curtinha, do tipo que faz a gente trazer o riso, sem ele querer vir. Bom, ao menos conosco, porque se Jean sorriu foi por dentro. Os músculos da face nem se mexerem. Que desconcertante! Teríamos que planejar melhor. Ele realmente era duro de fazer rir.
No dia seguinte, foi a vez de Pedrinho. Assim que teve oportunidade, lascou direto a pergunta:
— Sabe a piada do Joãozinho?
— Não! - respondeu Jean, desinteressado.
— É assim, escuta só: “A professora pergunta pro Joãozinho, quanto são cinco mais cinco? Ele pensa um pouco, conta nos dedos e responde: dez. Ah, não vale contar nos dedos, diz ela. Coloca as mãos nos bolsos. Isso, agora responde, quanto são cinco mais cinco? Joãozinho conta em silêncio  e fala: onze, professora.”
— Já acabou? Então eu vou indo, porque minha mãe está me esperando - falou Jean. 
Incrível! Como não achou graça da piada? Joãozinho conta os cinco dedos de um bolso, o tiquinho no meio e os cinco dedos do outro bolso. Bobinha, é verdade, mas acho engraçadíssima. A primeira vez que me contaram tive um acesso e quase me mijei de rir. 

É, teríamos que mudar de tática, o caso dele parecia mais grave do que pensávamos. Agora tornara-se um desafio, faríamos ele rir de qualquer maneira. Nem que tivéssemos de fazer cócegas.
Bem, não seria assim tão simples, como descobrimos depois.
Durante a semana inteira nos revezamos, contando piadas, dizendo bobagens, fazendo brincadeiras do tipo   "O que é uma bolinha vermelha escondida atrás da porta?  É uma ervilha envergonhada!" Rá-rá-rá! Rimos todos, para ver se contagiávamos Jean.  Nada. Impressionante.
Combinamos fingir que cairíamos no chão, escorregando em algo imaginário. Foi hilário. Fabinho fez que escorregou em uma casca de banana inexistente e se estatelou de bunda no chão. De novo, nenhuma reação.  E olha que foi bem na frente dele. Jean era um caso de internação. Não entendíamos como a família dele não ficava preocupada, com tanta seriedade numa criança. Ele tinha apenas oito anos e não ria de nada. Já estávamos pensando em desistir de nossa intenção, pois tínhamos esgotado nossa cota de piadas, coisas engraçadas e tal. 
Um dia perguntamos: "O que te deixa alegre, feliz, satisfeito? "Não sei, não me ocorre nada agora" - respondeu  ele, bem assim, como um homem sério, sem ainda nem ter crescido para tanto.
Bom, talvez se a gente levasse ele num circo, vendo as trapalhadas dos palhaços, a gargalhada que estava presa se libertasse.

Levamos. E também não deu certo.

O fato é que fomos desanimando. Não sabíamos mais o que fazer.
Assim foi que desistimos e o deixamos em paz, pois nossa boa intenção já estava virando uma perseguição. Quem sabe, com o tempo ele aprendesse a sorrir. Afinal, o sorriso é nossa forma de expressar alegria de viver. E isso é algo que acontece naturalmente.
Algumas semanas depois, já tínhamos nos acostumado com a cara amarrada de Jean. Estávamos todos juntos na frente da casa dele, papeando. "Bah, que coceira no umbigo" - falei, de repente. 

Para nosso espanto, Jean começou a repetir: "umbigo, umbigo, umbigo" e desatou a rir. Riu tanto que chegamos a ficar preocupados. Rimos juntos, feito um bando de crianças felizes. Como todas as crianças devem ser, não é mesmo?
Dizem que até hoje ele não pode ouvir a palavra umbigo que cai numa risada convulsiva.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Brincando com as palavras



A surpresa é uma presa que também se surpreende e nunca aprende.

O soluço só cansa de soluçar quando não encontra outra solução.

O entusiasmo esbarrou na preguiça. A preguiça não gostou e até pensou em revidar, mas se espreguiçou, espichou-se no sofá e dormiu.

Ele tinha um coração de ouro. E por conta disso, foi explorado até perder o brilho.

Se eu tenho já não quero, quando não tinha eu queria. Eu queria porque não tinha, ou queria porque queria?

Dou tanta vida aos meus personagens que eles fogem linha afora pelas páginas e preciso correr atrás para trazê-los de volta.

Minha imaginação é tão fértil que só de imaginar a planta do meu pé as sementes já começam a germinar.

Tem dias que não estou a fim de socializar mas entro na rede social assim mesmo só para ver os outros socializando - daí me sinto mais sociável.

Eu te amo sem mais nem por que, porque se tivesse por que não seria amor... seria... sei lá o que.

Nesses dias gelados, você nem faz ideia de como aquece o meu coração e o meu corpo inteiro. Nem imagina como fico quentinha perto de você. Ah, EU TE AMO, Split!



quinta-feira, 14 de abril de 2016

Momento desesperador


Sentiu os dedos gelados do terror tocando seu ombro.

Paralisado pelo medo, olhou pelo espelho retrovisor. Nada.

Desceu do carro. Olhou. Não havia ninguém no banco de trás.

Retornou para a estrada, perturbado.

Outra vez aquela sensação. Mãos pressionando. Um tapa nas costas. Voz elevada. Ele volta-se rápido. O vulto avança. Ele se defende e acerta-lhe um soco. Ambos se engalfinham e caem por cima de poltronas. Uma lanterna surge, quase atingindo sua cabeça.

O homem acorda. Percebe que está no cinema. 

E só então se dá conta - era o lanterninha tentando avisá-lo que dormira e o filme já terminara.


quinta-feira, 31 de março de 2016

AMAR é...



AMAR é...

fazer o que a pessoa amada gosta 

sem ela precisar pedir.






terça-feira, 15 de março de 2016

No recôndito da memória

Ilustração de David Ho



A consciência alerta ao inconsciente 
que é hora de acordar.

O inconsciente, por não ter consciência
alguma, continua dormindo.

A consciência resolve ir dormir também, 
para ver se o desperta.

O inconsciente acorda e sem ter a 
consciência por perto, dorme.

Os dois nunca se encontram, embora 
morem no mesmo lugar.






quarta-feira, 2 de março de 2016

Roteiro malpassado




1º ATO - ASCENSÃO E GLÓRIA
Ainda verde nas artimanhas do amor, acreditou nas românticas palavras daquele belo e jovem rapaz. Para alguns, nem tão belo, nem tão jovem, mas os olhos de quem ama a tudo embeleza e faz maior.

Sob doce encantamento, descobriu na pele as delícias do “amor, com amor se paga” e contou estrelas enquanto escutava toques de clarins e mariachis esfuziantes. A vida realmente não poderia ser mais bela. As flores ficaram mais perfumadas. O sorriso saía fácil, sem esforço. Estava naturalmente feliz. [...]


2º ATO - A QUEDA E A DOR
Dobrou a esquina, mas quem gemeu foi ela, de surpresa e desilusão. Seu amor era vidro e se quebrara. Não, que bobagem, o amor não se quebra. O amor é sublime, inquebrantável e grande; pequena é a certeza de quem o sente.

Entristeceu. Chorou. Praguejou. Fez poemas cheios de dor.

A vida realmente não poderia ser mais injusta. Queria se desintegrar. Sumir. Evaporar. Nunca mais iria amar! [...]


3º ATO - A LIÇÃO
Os dias passam. A vida segue. O mundo gira.

E com o coração enfaixado, seguiu respirando.[...]





♥ Boa semana, amigos ♥

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

In Sônia



— Acorda, Inácio! Acorda! — gritou, sacudindo o marido. 

— Está lá na garagem. Agora me deixa dormir, mulher! — respondeu Inácio, sem ao menos abrir os olhos.

Sônia teria dado boas risadas da confusão feita, mas não havia tempo para isso. Ahm, sempre ela a resolver os problemas da casa. Inácio? Quando mais precisava dele, se desligava do mundo e deixava tudo em suas costas. Ela provavelmente fora um carregador de pianos em outra encarnação.

Ah, os convidados chegariam dentro de algumas horas e tanta coisa ainda para fazer! "Mas que raio de homem ela arrumara!"

O cheiro de queimado vindo da cozinha tirou-a do devaneio e praticamente a fez voar até o fogão. Sônia tinha extrema habilidade para assuntos domésticos e em instantes dominou a situação. Minutos depois já estava arrumando a mesa e enfeitando-a com um belo vaso, recheado com lindas rosas, compradas na floricultura da esquina.

Olhou em volta. Deu uma conferida em cada canto e disparou para catar um par de meias sujas no chão, ao lado do sofá, perto de garrafas vazias de cerveja. "Inácio, você só me dá trabalho!"

O banheiro!!! Irão com certeza usá-lo e precisa estar impecável. Tudo deve estar limpo, arrumado, perfeito. "Ai de mim se encontrarem alguma sujeira!" Correu até o final do corredor, abriu a porta  do banheiro às pressas e munida de luvas, desinfetantes, panos e esponjas, iniciou uma faxina das boas.

Além de habilidosa, Sônia também fora agraciada com o dom da supervelocidade. Ágil, em menos de quinze minutos deixou o banheiro brilhante e perfumado. 

O almoço estava preparado. A casa em ordem. Tudo limpo e organizado. Ótimo!

Olhou o relógio, enquanto respirava fundo, recuperando o fôlego, depois do trabalho realizado. Chegariam logo, logo. E o marido ferrado no sono! Tinha que tirá-lo da cama. Ele precisava de um banho. "Ah, céus, vai sujar o banheiro limpinho!" Correu ao quarto para pegar toalhas limpas. Sacudiu o marido uma pá de vezes e nada do homem acordar. Então, lembrou-se da sobremesa esfriando em cima da mesa e em dois tempos chegou na cozinha para colocar o doce com urgência na geladeira. "Tudo sempre ela!"

"Calma, vai dar tudo certo, ainda restam alguns minutos."

Voltou ao quarto e sacudiu o marido outras tantas vezes.


*

— Acorda, acorda! — falou Inácio para a mulher.

Sônia acordou sentindo-se exausta. Fora um sonho! Um sonho! E os convidados iriam chegar em poucas horas. 

— Ohh, tenho tanta coisa pra fazer! 

Deu um pulo e voou da cama para "começar" tudo outra vez.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Alex


A infância de Alex foi marcada pela tragédia. Ainda menino, presenciou o pai ser assassinado a facadas, pelo dono do barraco onde mora­va com a mãe e seus quatro irmãos. Embora fosse um casebre miserável, tinham de pagar aluguel para viver nele. Com tristeza, viu os homens da vila jogarem o corpo do pai sobre uma carroça e levarem para longe dali.

Jamais esquecerá os gritos da mãe, correndo atrás da carroça, cha­mando pelo nome do pai. O assassino nem teve medo da polícia aparecer. Eram a escória. Ninguém se importava com suas vidas.

Os poucos pertences que tinham, foram atirados sobre o solo empoeirado. E enquanto se abaixavam para catá-los, jogando sobre um lençol velho e fazendo uma trouxa, recebiam ameaças para nunca mais serem vistos por aquelas bandas.

Nessa época, Alex tinha apenas sete anos.

Vagaram pelos bairros à procura de um canto para passarem a noite. Pediam esmolas nas ruas. Mendigavam para não morrerem de fome. Mas não conseguiam ficar muito tempo no mesmo local. Ajeitavam-se em­baixo de uma marquise e em pouco tempo eram enxotados como cães sarnentos. Alex acomodava a mãe e o irmão mais novo e saía com os outros para procurarem papelão, improvisando uma cama, dura e fria.

Então, algumas semanas depois, um carro estacionou perto deles. Uma mulher bem vestida e perfumada desceu e aproximou-se. Estavam fétidos, maltrapilhos, magros e desnutridos. A mãe de Alex segurava o mais novo no colo e a criança chorava muito. Sentiam fome e sede. E apesar de todas as dificuldades, continuavam todos juntos.

A mulher ficou bastante comovida com a situação daquela família de­samparada e diante dos olhares incrédulos dos passantes, colocou todos eles em seu carro e os tirou dali. Levou a família para morar em seu sítio, localizado a alguns quilômetros da cidade. Temerosos e desconfiados, não deram um passo quando ela fez o convite e abriu a porta do carro para eles entrarem. Mas o rosto confiável da mulher, o choro da criança e o estômago vazio, falaram mais alto. Subiram no carro. Ficaram em silêncio até chegarem ao destino. Quarenta minutos depois, o veículo parou. Desceram diante de uma casa enorme. Ainda não sabiam ao certo o que ela pediria em troca e o que teriam de fazer. Só queriam um prato de comida. Um copo d’água. Um espaço para dormirem, sem serem chutados. Assim, os seis caminharam alguns metros atrás da mulher e pararam quando ela parou. “Esta é a nova casa de vocês”, falou, apontando para um chalé simples, de quatro cômodos, com banheiro e varanda. Quando entraram, nem sabiam o que fazer primeiro. Havia frutas numa travessa sobre a mesa e uma garrafa com água. Comeram. Saciaram a sede. Tomaram um banho interminável, vestindo em seguida as roupas limpas que a mulher trouxe da casa grande para eles.


A partir daquele dia, ganharam uma nova vida. Passaram a frequentar a escola. E à medida que iam crescendo, trabalhavam na horta e auxiliavam o caseiro em pequenos serviços.

E foi aos treze anos que Alex descobriu que ele não era uma pessoa normal, como sua mãe, seus irmãos e os outros.

Tinha cortado lenha para a lareira e o fogão da casa grande. E a pedido do caseiro, levou-as para dentro, empilhando-as num caixote no canto da cozinha. Foi quando escutou gritos. A mulher benfeitora, Amália, que os acolhera e lhes dera um teto para viver, salvando-lhes a vida, discutia fortemente com alguém. Alex parou o que estava fazendo e sem obede­cer ao pedido da cozinheira, que sinalizou para que ele não interferisse, caminhou na direção de onde vinham as vozes. Parou no canto da porta da saleta e reconheceu o homem. Era Estevão, o marido de Amália. Havia retratos dele pela casa. Pelo pouco que sabia, os dois continuavam casa­dos, mas viviam separados.

Bastante exaltado, Estevão esbofeteou a mulher. E quando levantou a mão para agredi-la outra vez, paralisou, imóvel. Seu braço ficou parado no ar. Seu rosto endureceu, numa expressão de quem se esforça além de seu limite ou de quem se controla ao extremo para não extrapolar. Amália deu uns passos para trás, assustada, achando que o marido enfartava. Mas quando Estevão moveu os braços e apertou fortemente as duas mãos no próprio pescoço, ela gritou pedindo ajuda.

O grito de Amália cortou a força do pensamento de Alex. E Estevão desmaiou.

Ao ver Alex parado na porta, Amália pediu para que fosse buscar so­corro urgente. Estevão ficou desacordado, gerando uma correria ao seu redor.

Quando recobrou a consciência, confuso, massageando a garganta e tossindo muito, não soube explicar porque fizera o que tinha feito.

Alex andou em direção ao chalé. Sentou-se na cadeira de balanço da varanda e fixou os olhos num ponto qualquer da paisagem. Que força era aquela? Jamais sentira nada igual. Desde quando possuía aquele poder? E por que só se manifestara agora? Conseguiria fazer alguém tirar a própria vida, se quisesse? Pensou sobre isso até sua cabeça doer. Estava se alimen­tando bem e ganhando peso, mas às vezes sentia uma fraqueza no corpo. Levantou-se e foi para dentro tomar um copo d’água. Da janela, viu um dos ajudantes do caseiro, colhendo couve num canteiro. Aproveitando que estava sozinho, pois sua mãe e irmãos correram para ajudar Amália no que fosse necessário, tentaria fazer com o colhedor de couve o que fizera com Estevão. Concentrou-se. Tentou mais de uma vez. Nada. Não seria quando ele quisesse, então — pensou. Retornou para a varanda. Analisou bem o episódio e suspeitou qual seria a resposta, mas não teria como saber com certeza, a menos que acontecesse novamente uma situ­ação idêntica. Porém, a chance daquele fato se repetir era mínima, pois ali no sítio a tranquilidade imperava e as pessoas em geral tinham um coração bom. Queria se sentir dominado por aquela adrenalina outra vez. E para isso, teria que partir. Infiltrar-se no meio da multidão. Conviver com pessoas más. Sim, mas não agora. Ainda não estava pronto.

Os anos seguintes voaram. Alex tornou-se um homem alto, forte e resistente.

Quando completou dezenove anos, despediu-se da mãe e dos irmãos, agradecendo Amália por tudo e foi viver novamente na cidade grande. A diferença é que desta vez ele teria um lugar decente para morar. Edgar, o irmão de Amália, que administrava uma empresa de segurança, ofereceu um emprego a ele e um quarto localizado no depósito dos fundos.

Compenetrado e inteligente, Alex ganhou a confiança de Edgar, re­cebendo um aumento de salário. Desse modo, pode sair do quarto dos fundos e se mudar para um apartamento pequeno na periferia. Enfim, seu plano se concretizava.

Bastante observador, analisava os moradores do edifício, atentamente. E não demorou muito para encontrar as presas perfeitas.


Edu subiu até o telhado do prédio, sem querer subir. Viu seus pés se movendo, avançando sobre os degraus da escada, inutilmente tentando retroceder. Chegou no último andar do edifício de doze andares, abriu a porta que dava acesso ao telhado e continuou caminhando. Aterrori­zado, olhava suas pernas se moverem, contrariando sua vontade. Dois passos o separava do precipício. Respiração ofegante. Desespero. Apreen­são. Silêncio. Olhares desesperados em sua direção. Moveu os pés. Sentiu como se lâminas finas e cortantes penetrassem em seu corpo, ao lutar contra a força que o fazia andar para a frente, na direção do beiral. Não queria cair. Não queria se jogar. Então, por que continuava andando? Por quê? Tentou recuar. Ouviu vozes. A multidão lá embaixo implorava: “Não faça isso!” “Não se jogue!” Gotas de suor pingavam do rosto de Edu, prevendo a catástrofe. Andou meio passo em direção ao abismo. Gritos. Súplicas. Pânico. Apelos tardios. Em vão. Edu jogou-se. Planou no vácuo. Pode sentir o sangue escorrendo, mudando de posição. Escuridão. Luz. Escuridão. Luz. Tremores. O chão se aproximando. O ar faltando. As­fixia. Impacto. O choque contra o asfalto. Os olhos abertos para o nada. Mais gritos. Mãos na cabeça. Espanto. Assombro. Prantos.


Gabriel escutava música no quarto, quando sentiu uma vontade in­controlável de ir ao banheiro. Trancou-se. Pegou a lâmina do estojo que mantinha escondido no fundo da gaveta do balcão da pia. E viu as primei­ras gotas de sangue respingarem. Um pequeno corte no antebraço. Depois outro. E mais outro. Gostava de se automutilar. Sentia-se livre de uma forma inexplicável. E não fazia segredo disso, revelando com detalhes, em conversas no pátio do prédio com os amigos. Porém, desta vez algo estranho acontecia. Não queria se cortar mais, mas só conseguia pensar em rasgar a própria pele. Suas mãos não pareciam suas. Moviam-se, independente de sua vontade. Olhou-se no espelho. Devia parar. Queria parar. Queria gritar, pedindo socorro. A voz não saía. Deu-se outro corte. Viu seus braços retalhados. Passou a lâmina no pulso e em seguida no pescoço. Entre golfadas de sangue, ajoelhou-se no chão, enquanto ia per­dendo a vida devagar, lentamente, aos poucos.


— Que cena terrível, hein? Com este já são dois casos de suicídio neste mesmo prédio. Devemos intimar os vizinhos para prestarem depoi­mento? — perguntou um dos policiais que auxiliava no atendimento da ocorrência.

— Vamos seguir o procedimento padrão. Por Deus, suicidas me eno­jam — respondeu o policial Ulisses, enquanto acompanhava os peritos tirarem fotos do corpo de Gabriel.

Alex, acompanhava a movimentação da polícia e ambulância em frente ao edifício onde morava. Escorado na parede do outro lado da rua, fu­mava tranquilamente seu cigarro. “Dois inúteis a menos”, pensou. Edu, o sádico jogador de roleta russa, que numa das vezes matou um dos ami­gos de seu grupo. Chegou a cumprir pena e voltou para casa, retomando seus joguinhos na calada da noite. Mereceu bater com a cara no asfalto. Gabriel, o automutilador, sem amor pela vida, sem preocupação com a família, que vangloriava-se com os amigos por sua perícia na arte de cor­tar a própria pele.

Jamais descobririam o responsável pelas mortes. Nem por estas, nem pelas que estavam por vir. Ninguém se importa com quem tira a própria vida. E isso facilitava bastante as coisas para ele.


Alguns meses depois, Alex conheceu Felícia na academia que frequen­tava. E pela primeira vez, sentiu desejo real por uma garota. Mas Felícia não apenas recusou sua aproximação, como zombou dele pelo atrevi­mento. O sangue de Alex ferveu.


Felícia terminou a série de exercícios e encaminhou-se para o vestiário. A academia estava lotada, como de costume. E para variar Alex a con­vidara outra vez para sair. Rira dele. Garoto esquisito, sempre com roupa preta, sério e com aquele olhar cortante. Imagina se iria sair com alguém assim. Bonito, é verdade, mas nem carro ele tinha. Suas amigas pegariam no seu pé por meses. Não, nem pensar. Admirou-se no espelho e passou a mão no abdome definido. É, tinha um corpo invejável. Entrou no chu­veiro, ainda sorrindo da tentativa ridícula de Alex. Ah, moleque atrevido. Terminou o banho. Saiu do vestiário. Vestiu-se. Passou por um corredor espelhado e ficou se olhando enquanto caminhava. Então, sentiu uma força empurrando-a em direção aos espelhos. Pareciam mãos de aço em suas costas. Tentou virar-se. Em vão. E mesmo que conseguisse, não havia ninguém atrás dela. Mais em frente sim, outras pessoas seguiam andando nor­malmente. Felícia bateu a cabeça violentamente, diversas vezes, quebrando o espelho e cravando estilhaços em seu belo rosto. Gritou. Forçou o pescoço para trás, inutilmente. Correram para ajudá-la. Surtara, presumiram, diante da cena grotesca e incompreensível. Chorando muito e dizendo coisas desconexas, foi levada para o hospital, com cacos ainda pregados nas faces.

Alex, no final do corredor, assistiu a tudo. Saiu da academia e vagou pelas ruas. Tinha de parar com aquilo. Quem ele pensava que era para sen­tenciar as pessoas daquele modo? Passou em frente a uma Igreja e entrou. Precisava ficar em silêncio e aquele parecia o lugar perfeito. Sentou-se num dos bancos, pensativo. E levantou-se para ir embora, minutos depois.

Mudou de ideia e foi ao confessionário.

Demorou um pouco para libertar as palavras e revelar seu segredo:

— Eu matei e feri pessoas, Padre. Não as matei, nem as feri, com minhas próprias mãos. Fiz isso usando meu poder de invadir suas mentes. Não sei qual o nome atribuem. Não sei se mais alguém pode fazer o mesmo. Mas eu posso fazer as pessoas fazerem o que eu quero. E sou im­placável com elas. Estou retirando o lixo das ruas. O senhor compreende? Eu recebi este dom e não posso desperdiçar. É uma bênção e ao mesmo tempo uma maldição. Mas sob o meu ponto de vista, estou fazendo o que acho certo.

— Meu filho, você recebeu um dom divino. Por que não usa este seu poder para fazer o bem... para salvar pessoas?

— Salvar pessoas? Mas, salvar de que maneira, Padre? Como?

— Sendo um ser humano bom, como você espera que os outros se­jam.

Alex saiu da Igreja pensando nas palavras do Padre. Tentaria não usar mais seu poder para machucar pessoas, mesmo que ao seu modo de ver, elas merecessem.

Entretanto, ainda havia algo a ser feito, antes de parar de agir como um carrasco.

Precisou pegar dois ônibus para chegar ao seu destino.

A vila não era mais tão miserável, como a imagem gravada em sua memória. Depois de tantos anos, voltar ali partia seu coração em mil pedaços. Os olhos se encheram de tristeza. As lembranças ruins salpicavam.

Custou para encontrar o casebre, pois ele não existia mais. Em seu lugar construíram uma garagem, onde funcionava uma oficina. Pergun­tou ao mecânico pelo antigo dono do casebre. E deu sorte, pois ele ainda morava ali. Aguardou. E quando o homem apareceu numa cadeira de rodas, sem as duas pernas, Alex ficou surpreso. “Diabetes”, explicou o sujeito apontando para si, sem que Alex precisasse perguntar nada. Sentiu pena do homem. Inventou uma história qualquer. E foi embora, sem usar seus poderes contra o assassino de seu pai. A vida já o punira.

Ainda assim, evitou olhar para trás. Esforçou-se para não pensar no sofrimento de sua mãe, correndo atrás da carroça, onde o corpo sem vida de seu pai fora jogado. Lutou para não pensar no abandono e na fome que sentiram, porque senão...

A vida seguiu seu curso.

Aos vinte e nove anos, Alex tornou-se sócio de Edgar na empresa de segurança. Especializou-se em defesa pessoal e transporte de valores. En­quanto Edgar fica responsável pela administração e parte burocrática do negócio, Alex cuida das entregas aos clientes mais importantes.

Mudou de endereço várias vezes, até comprar seu próprio apartamen­to. Quis trazer a família para a cidade, mas preferiram continuar morando no sítio de Amália.

Tem conseguido segurar seu instinto de fazer justiça com as próprias mãos.

Tudo corre bem para ele, exceto no campo sentimental. Seus rela­cionamentos são curtos e superficiais, pois não encontrou ainda a pessoa certa e especial.

Quem sabe isso esteja perto de acontecer.

Alex conheceu uma mulher que o fez sentir algo diferente. Ela é bonita, alta como ele, tem olhos verdes radiantes e um belo sorriso. É um pouco distraída, o que a torna ainda mais charmosa. Está ansioso para vê-la novamente. Virgília. O nome dela é Virgília.

 

Este texto é parte integrante do meu romance 
O MEDO DE VIRGÍLIA (capítulo 8/20), que foi 
publicado pela Editora Selo Jovem em 2014.

É apenas um trecho para conhecerem 
melhor um dos protagonistas da trama.

Se tiverem oportunidade de ler o livro, 
verão que este poder de Alex terá um 
papel importante na história.

Saiba mais na fanpage do livro > AQUI.