quinta-feira, 31 de março de 2016

AMAR é...



AMAR é...

fazer o que a pessoa amada gosta 

sem ela precisar pedir.






terça-feira, 15 de março de 2016

No recôndito da memória

Ilustração de David Ho



A consciência alerta ao inconsciente 
que é hora de acordar.

O inconsciente, por não ter consciência
alguma, continua dormindo.

A consciência resolve ir dormir também, 
para ver se o desperta.

O inconsciente acorda e sem ter a 
consciência por perto, dorme.

Os dois nunca se encontram, embora 
morem no mesmo lugar.






quarta-feira, 2 de março de 2016

Roteiro malpassado




1º ATO - ASCENSÃO E GLÓRIA
Ainda verde nas artimanhas do amor, acreditou nas românticas palavras daquele belo e jovem rapaz. Para alguns, nem tão belo, nem tão jovem, mas os olhos de quem ama a tudo embeleza e faz maior.

Sob doce encantamento, descobriu na pele as delícias do “amor, com amor se paga” e contou estrelas enquanto escutava toques de clarins e mariachis esfuziantes. A vida realmente não poderia ser mais bela. As flores ficaram mais perfumadas. O sorriso saía fácil, sem esforço. Estava naturalmente feliz. [...]


2º ATO - A QUEDA E A DOR
Dobrou a esquina, mas quem gemeu foi ela, de surpresa e desilusão. Seu amor era vidro e se quebrara. Não, que bobagem, o amor não se quebra. O amor é sublime, inquebrantável e grande; pequena é a certeza de quem o sente.

Entristeceu. Chorou. Praguejou. Fez poemas cheios de dor.

A vida realmente não poderia ser mais injusta. Queria se desintegrar. Sumir. Evaporar. Nunca mais iria amar! [...]


3º ATO - A LIÇÃO
Os dias passam. A vida segue. O mundo gira.

E com o coração enfaixado, seguiu respirando.[...]





♥ Boa semana, amigos ♥

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

In Sônia



— Acorda, Inácio! Acorda! — gritou, sacudindo o marido. 

— Está lá na garagem. Agora me deixa dormir, mulher! — respondeu Inácio, sem ao menos abrir os olhos.

Sônia teria dado boas risadas da confusão feita, mas não havia tempo para isso. Ahm, sempre ela a resolver os problemas da casa. Inácio? Quando mais precisava dele, se desligava do mundo e deixava tudo em suas costas. Ela provavelmente fora um carregador de pianos em outra encarnação.

Ah, os convidados chegariam dentro de algumas horas e tanta coisa ainda para fazer! "Mas que raio de homem ela arrumara!"

O cheiro de queimado vindo da cozinha tirou-a do devaneio e praticamente a fez voar até o fogão. Sônia tinha extrema habilidade para assuntos domésticos e em instantes dominou a situação. Minutos depois já estava arrumando a mesa e enfeitando-a com um belo vaso, recheado com lindas rosas, compradas na floricultura da esquina.

Olhou em volta. Deu uma conferida em cada canto e disparou para catar um par de meias sujas no chão, ao lado do sofá, perto de garrafas vazias de cerveja. "Inácio, você só me dá trabalho!"

O banheiro!!! Irão com certeza usá-lo e precisa estar impecável. Tudo deve estar limpo, arrumado, perfeito. "Ai de mim se encontrarem alguma sujeira!" Correu até o final do corredor, abriu a porta  do banheiro às pressas e munida de luvas, desinfetantes, panos e esponjas, iniciou uma faxina das boas.

Além de habilidosa, Sônia também fora agraciada com o dom da supervelocidade. Ágil, em menos de quinze minutos deixou o banheiro brilhante e perfumado. 

O almoço estava preparado. A casa em ordem. Tudo limpo e organizado. Ótimo!

Olhou o relógio, enquanto respirava fundo, recuperando o fôlego, depois do trabalho realizado. Chegariam logo, logo. E o marido ferrado no sono! Tinha que tirá-lo da cama. Ele precisava de um banho. "Ah, céus, vai sujar o banheiro limpinho!" Correu ao quarto para pegar toalhas limpas. Sacudiu o marido uma pá de vezes e nada do homem acordar. Então, lembrou-se da sobremesa esfriando em cima da mesa e em dois tempos chegou na cozinha para colocar o doce com urgência na geladeira. "Tudo sempre ela!"

"Calma, vai dar tudo certo, ainda restam alguns minutos."

Voltou ao quarto e sacudiu o marido outras tantas vezes.


*

— Acorda, acorda! — falou Inácio para a mulher.

Sônia acordou sentindo-se exausta. Fora um sonho! Um sonho! E os convidados iriam chegar em poucas horas. 

— Ohh, tenho tanta coisa pra fazer! 

Deu um pulo e voou da cama para "começar" tudo outra vez.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Alex


A infância de Alex foi marcada pela tragédia. Ainda menino, presenciou o pai ser assassinado a facadas, pelo dono do barraco onde mora­va com a mãe e seus quatro irmãos. Embora fosse um casebre miserável, tinham de pagar aluguel para viver nele. Com tristeza, viu os homens da vila jogarem o corpo do pai sobre uma carroça e levarem para longe dali.

Jamais esquecerá os gritos da mãe, correndo atrás da carroça, cha­mando pelo nome do pai. O assassino nem teve medo da polícia aparecer. Eram a escória. Ninguém se importava com suas vidas.

Os poucos pertences que tinham, foram atirados sobre o solo empoeirado. E enquanto se abaixavam para catá-los, jogando sobre um lençol velho e fazendo uma trouxa, recebiam ameaças para nunca mais serem vistos por aquelas bandas.

Nessa época, Alex tinha apenas sete anos.

Vagaram pelos bairros à procura de um canto para passarem a noite. Pediam esmolas nas ruas. Mendigavam para não morrerem de fome. Mas não conseguiam ficar muito tempo no mesmo local. Ajeitavam-se em­baixo de uma marquise e em pouco tempo eram enxotados como cães sarnentos. Alex acomodava a mãe e o irmão mais novo e saía com os outros para procurarem papelão, improvisando uma cama, dura e fria.

Então, algumas semanas depois, um carro estacionou perto deles. Uma mulher bem vestida e perfumada desceu e aproximou-se. Estavam fétidos, maltrapilhos, magros e desnutridos. A mãe de Alex segurava o mais novo no colo e a criança chorava muito. Sentiam fome e sede. E apesar de todas as dificuldades, continuavam todos juntos.

A mulher ficou bastante comovida com a situação daquela família de­samparada e diante dos olhares incrédulos dos passantes, colocou todos eles em seu carro e os tirou dali. Levou a família para morar em seu sítio, localizado a alguns quilômetros da cidade. Temerosos e desconfiados, não deram um passo quando ela fez o convite e abriu a porta do carro para eles entrarem. Mas o rosto confiável da mulher, o choro da criança e o estômago vazio, falaram mais alto. Subiram no carro. Ficaram em silêncio até chegarem ao destino. Quarenta minutos depois, o veículo parou. Desceram diante de uma casa enorme. Ainda não sabiam ao certo o que ela pediria em troca e o que teriam de fazer. Só queriam um prato de comida. Um copo d’água. Um espaço para dormirem, sem serem chutados. Assim, os seis caminharam alguns metros atrás da mulher e pararam quando ela parou. “Esta é a nova casa de vocês”, falou, apontando para um chalé simples, de quatro cômodos, com banheiro e varanda. Quando entraram, nem sabiam o que fazer primeiro. Havia frutas numa travessa sobre a mesa e uma garrafa com água. Comeram. Saciaram a sede. Tomaram um banho interminável, vestindo em seguida as roupas limpas que a mulher trouxe da casa grande para eles.


A partir daquele dia, ganharam uma nova vida. Passaram a frequentar a escola. E à medida que iam crescendo, trabalhavam na horta e auxiliavam o caseiro em pequenos serviços.

E foi aos treze anos que Alex descobriu que ele não era uma pessoa normal, como sua mãe, seus irmãos e os outros.

Tinha cortado lenha para a lareira e o fogão da casa grande. E a pedido do caseiro, levou-as para dentro, empilhando-as num caixote no canto da cozinha. Foi quando escutou gritos. A mulher benfeitora, Amália, que os acolhera e lhes dera um teto para viver, salvando-lhes a vida, discutia fortemente com alguém. Alex parou o que estava fazendo e sem obede­cer ao pedido da cozinheira, que sinalizou para que ele não interferisse, caminhou na direção de onde vinham as vozes. Parou no canto da porta da saleta e reconheceu o homem. Era Estevão, o marido de Amália. Havia retratos dele pela casa. Pelo pouco que sabia, os dois continuavam casa­dos, mas viviam separados.

Bastante exaltado, Estevão esbofeteou a mulher. E quando levantou a mão para agredi-la outra vez, paralisou, imóvel. Seu braço ficou parado no ar. Seu rosto endureceu, numa expressão de quem se esforça além de seu limite ou de quem se controla ao extremo para não extrapolar. Amália deu uns passos para trás, assustada, achando que o marido enfartava. Mas quando Estevão moveu os braços e apertou fortemente as duas mãos no próprio pescoço, ela gritou pedindo ajuda.

O grito de Amália cortou a força do pensamento de Alex. E Estevão desmaiou.

Ao ver Alex parado na porta, Amália pediu para que fosse buscar so­corro urgente. Estevão ficou desacordado, gerando uma correria ao seu redor.

Quando recobrou a consciência, confuso, massageando a garganta e tossindo muito, não soube explicar porque fizera o que tinha feito.

Alex andou em direção ao chalé. Sentou-se na cadeira de balanço da varanda e fixou os olhos num ponto qualquer da paisagem. Que força era aquela? Jamais sentira nada igual. Desde quando possuía aquele poder? E por que só se manifestara agora? Conseguiria fazer alguém tirar a própria vida, se quisesse? Pensou sobre isso até sua cabeça doer. Estava se alimen­tando bem e ganhando peso, mas às vezes sentia uma fraqueza no corpo. Levantou-se e foi para dentro tomar um copo d’água. Da janela, viu um dos ajudantes do caseiro, colhendo couve num canteiro. Aproveitando que estava sozinho, pois sua mãe e irmãos correram para ajudar Amália no que fosse necessário, tentaria fazer com o colhedor de couve o que fizera com Estevão. Concentrou-se. Tentou mais de uma vez. Nada. Não seria quando ele quisesse, então — pensou. Retornou para a varanda. Analisou bem o episódio e suspeitou qual seria a resposta, mas não teria como saber com certeza, a menos que acontecesse novamente uma situ­ação idêntica. Porém, a chance daquele fato se repetir era mínima, pois ali no sítio a tranquilidade imperava e as pessoas em geral tinham um coração bom. Queria se sentir dominado por aquela adrenalina outra vez. E para isso, teria que partir. Infiltrar-se no meio da multidão. Conviver com pessoas más. Sim, mas não agora. Ainda não estava pronto.

Os anos seguintes voaram. Alex tornou-se um homem alto, forte e resistente.

Quando completou dezenove anos, despediu-se da mãe e dos irmãos, agradecendo Amália por tudo e foi viver novamente na cidade grande. A diferença é que desta vez ele teria um lugar decente para morar. Edgar, o irmão de Amália, que administrava uma empresa de segurança, ofereceu um emprego a ele e um quarto localizado no depósito dos fundos.

Compenetrado e inteligente, Alex ganhou a confiança de Edgar, re­cebendo um aumento de salário. Desse modo, pode sair do quarto dos fundos e se mudar para um apartamento pequeno na periferia. Enfim, seu plano se concretizava.

Bastante observador, analisava os moradores do edifício, atentamente. E não demorou muito para encontrar as presas perfeitas.


Edu subiu até o telhado do prédio, sem querer subir. Viu seus pés se movendo, avançando sobre os degraus da escada, inutilmente tentando retroceder. Chegou no último andar do edifício de doze andares, abriu a porta que dava acesso ao telhado e continuou caminhando. Aterrori­zado, olhava suas pernas se moverem, contrariando sua vontade. Dois passos o separava do precipício. Respiração ofegante. Desespero. Apreen­são. Silêncio. Olhares desesperados em sua direção. Moveu os pés. Sentiu como se lâminas finas e cortantes penetrassem em seu corpo, ao lutar contra a força que o fazia andar para a frente, na direção do beiral. Não queria cair. Não queria se jogar. Então, por que continuava andando? Por quê? Tentou recuar. Ouviu vozes. A multidão lá embaixo implorava: “Não faça isso!” “Não se jogue!” Gotas de suor pingavam do rosto de Edu, prevendo a catástrofe. Andou meio passo em direção ao abismo. Gritos. Súplicas. Pânico. Apelos tardios. Em vão. Edu jogou-se. Planou no vácuo. Pode sentir o sangue escorrendo, mudando de posição. Escuridão. Luz. Escuridão. Luz. Tremores. O chão se aproximando. O ar faltando. As­fixia. Impacto. O choque contra o asfalto. Os olhos abertos para o nada. Mais gritos. Mãos na cabeça. Espanto. Assombro. Prantos.


Gabriel escutava música no quarto, quando sentiu uma vontade in­controlável de ir ao banheiro. Trancou-se. Pegou a lâmina do estojo que mantinha escondido no fundo da gaveta do balcão da pia. E viu as primei­ras gotas de sangue respingarem. Um pequeno corte no antebraço. Depois outro. E mais outro. Gostava de se automutilar. Sentia-se livre de uma forma inexplicável. E não fazia segredo disso, revelando com detalhes, em conversas no pátio do prédio com os amigos. Porém, desta vez algo estranho acontecia. Não queria se cortar mais, mas só conseguia pensar em rasgar a própria pele. Suas mãos não pareciam suas. Moviam-se, independente de sua vontade. Olhou-se no espelho. Devia parar. Queria parar. Queria gritar, pedindo socorro. A voz não saía. Deu-se outro corte. Viu seus braços retalhados. Passou a lâmina no pulso e em seguida no pescoço. Entre golfadas de sangue, ajoelhou-se no chão, enquanto ia per­dendo a vida devagar, lentamente, aos poucos.


— Que cena terrível, hein? Com este já são dois casos de suicídio neste mesmo prédio. Devemos intimar os vizinhos para prestarem depoi­mento? — perguntou um dos policiais que auxiliava no atendimento da ocorrência.

— Vamos seguir o procedimento padrão. Por Deus, suicidas me eno­jam — respondeu o policial Ulisses, enquanto acompanhava os peritos tirarem fotos do corpo de Gabriel.

Alex, acompanhava a movimentação da polícia e ambulância em frente ao edifício onde morava. Escorado na parede do outro lado da rua, fu­mava tranquilamente seu cigarro. “Dois inúteis a menos”, pensou. Edu, o sádico jogador de roleta russa, que numa das vezes matou um dos ami­gos de seu grupo. Chegou a cumprir pena e voltou para casa, retomando seus joguinhos na calada da noite. Mereceu bater com a cara no asfalto. Gabriel, o automutilador, sem amor pela vida, sem preocupação com a família, que vangloriava-se com os amigos por sua perícia na arte de cor­tar a própria pele.

Jamais descobririam o responsável pelas mortes. Nem por estas, nem pelas que estavam por vir. Ninguém se importa com quem tira a própria vida. E isso facilitava bastante as coisas para ele.


Alguns meses depois, Alex conheceu Felícia na academia que frequen­tava. E pela primeira vez, sentiu desejo real por uma garota. Mas Felícia não apenas recusou sua aproximação, como zombou dele pelo atrevi­mento. O sangue de Alex ferveu.


Felícia terminou a série de exercícios e encaminhou-se para o vestiário. A academia estava lotada, como de costume. E para variar Alex a con­vidara outra vez para sair. Rira dele. Garoto esquisito, sempre com roupa preta, sério e com aquele olhar cortante. Imagina se iria sair com alguém assim. Bonito, é verdade, mas nem carro ele tinha. Suas amigas pegariam no seu pé por meses. Não, nem pensar. Admirou-se no espelho e passou a mão no abdome definido. É, tinha um corpo invejável. Entrou no chu­veiro, ainda sorrindo da tentativa ridícula de Alex. Ah, moleque atrevido. Terminou o banho. Saiu do vestiário. Vestiu-se. Passou por um corredor espelhado e ficou se olhando enquanto caminhava. Então, sentiu uma força empurrando-a em direção aos espelhos. Pareciam mãos de aço em suas costas. Tentou virar-se. Em vão. E mesmo que conseguisse, não havia ninguém atrás dela. Mais em frente sim, outras pessoas seguiam andando nor­malmente. Felícia bateu a cabeça violentamente, diversas vezes, quebrando o espelho e cravando estilhaços em seu belo rosto. Gritou. Forçou o pescoço para trás, inutilmente. Correram para ajudá-la. Surtara, presumiram, diante da cena grotesca e incompreensível. Chorando muito e dizendo coisas desconexas, foi levada para o hospital, com cacos ainda pregados nas faces.

Alex, no final do corredor, assistiu a tudo. Saiu da academia e vagou pelas ruas. Tinha de parar com aquilo. Quem ele pensava que era para sen­tenciar as pessoas daquele modo? Passou em frente a uma Igreja e entrou. Precisava ficar em silêncio e aquele parecia o lugar perfeito. Sentou-se num dos bancos, pensativo. E levantou-se para ir embora, minutos depois.

Mudou de ideia e foi ao confessionário.

Demorou um pouco para libertar as palavras e revelar seu segredo:

— Eu matei e feri pessoas, Padre. Não as matei, nem as feri, com minhas próprias mãos. Fiz isso usando meu poder de invadir suas mentes. Não sei qual o nome atribuem. Não sei se mais alguém pode fazer o mesmo. Mas eu posso fazer as pessoas fazerem o que eu quero. E sou im­placável com elas. Estou retirando o lixo das ruas. O senhor compreende? Eu recebi este dom e não posso desperdiçar. É uma bênção e ao mesmo tempo uma maldição. Mas sob o meu ponto de vista, estou fazendo o que acho certo.

— Meu filho, você recebeu um dom divino. Por que não usa este seu poder para fazer o bem... para salvar pessoas?

— Salvar pessoas? Mas, salvar de que maneira, Padre? Como?

— Sendo um ser humano bom, como você espera que os outros se­jam.

Alex saiu da Igreja pensando nas palavras do Padre. Tentaria não usar mais seu poder para machucar pessoas, mesmo que ao seu modo de ver, elas merecessem.

Entretanto, ainda havia algo a ser feito, antes de parar de agir como um carrasco.

Precisou pegar dois ônibus para chegar ao seu destino.

A vila não era mais tão miserável, como a imagem gravada em sua memória. Depois de tantos anos, voltar ali partia seu coração em mil pedaços. Os olhos se encheram de tristeza. As lembranças ruins salpicavam.

Custou para encontrar o casebre, pois ele não existia mais. Em seu lugar construíram uma garagem, onde funcionava uma oficina. Pergun­tou ao mecânico pelo antigo dono do casebre. E deu sorte, pois ele ainda morava ali. Aguardou. E quando o homem apareceu numa cadeira de rodas, sem as duas pernas, Alex ficou surpreso. “Diabetes”, explicou o sujeito apontando para si, sem que Alex precisasse perguntar nada. Sentiu pena do homem. Inventou uma história qualquer. E foi embora, sem usar seus poderes contra o assassino de seu pai. A vida já o punira.

Ainda assim, evitou olhar para trás. Esforçou-se para não pensar no sofrimento de sua mãe, correndo atrás da carroça, onde o corpo sem vida de seu pai fora jogado. Lutou para não pensar no abandono e na fome que sentiram, porque senão...

A vida seguiu seu curso.

Aos vinte e nove anos, Alex tornou-se sócio de Edgar na empresa de segurança. Especializou-se em defesa pessoal e transporte de valores. En­quanto Edgar fica responsável pela administração e parte burocrática do negócio, Alex cuida das entregas aos clientes mais importantes.

Mudou de endereço várias vezes, até comprar seu próprio apartamen­to. Quis trazer a família para a cidade, mas preferiram continuar morando no sítio de Amália.

Tem conseguido segurar seu instinto de fazer justiça com as próprias mãos.

Tudo corre bem para ele, exceto no campo sentimental. Seus rela­cionamentos são curtos e superficiais, pois não encontrou ainda a pessoa certa e especial.

Quem sabe isso esteja perto de acontecer.

Alex conheceu uma mulher que o fez sentir algo diferente. Ela é bonita, alta como ele, tem olhos verdes radiantes e um belo sorriso. É um pouco distraída, o que a torna ainda mais charmosa. Está ansioso para vê-la novamente. Virgília. O nome dela é Virgília.

 

Este texto é parte integrante do meu romance 
O MEDO DE VIRGÍLIA (capítulo 8/20), que foi 
publicado pela Editora Selo Jovem em 2014.

É apenas um trecho para conhecerem 
melhor um dos protagonistas da trama.

Se tiverem oportunidade de ler o livro, 
verão que este poder de Alex terá um 
papel importante na história.

Saiba mais na fanpage do livro > AQUI.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Crônica de um ano inteiro

Ilustração Valeria Docampo

Tenho dias de silêncio, de poucas vozes e nenhum riso. Inesperadas manhãs, tardes e noites, perdidas em golfadas de ventos que não sopram, mas arrebentam.

Tenho dias de algumas dores que afetam meus humores. São os dentes, as veias, o crânio, os tecidos todos que me constituem, amotinados, aos brados, erguendo cartazes pelas grades da cela, em misterioso protesto.

Tenho dias de prantos repentinos, alguns motivados, outros inexplicados. Uma orquestra de sinfonias lacrimosas, entoando diversificados sons, amplificados por emoções sufocantes que me lavam por dentro e me acalmam repentinamente.

Tenho dias de apetite voraz, prazeres divididos, entusiasmados, expandidos em múltiplos suspiros, longos tremores, arrepios, calafrios, entrelaçados em suores de intensa satisfação.

Tenho dias de algazarra, folia e brincadeiras, pipoca, algodão doce, clichês desgastados, piadas batidas, conversa entre amigos, gargalhadas vibrantes, briguinhas tolas, des/entendimentos, pés descalços na areia, saudades imensas [sem mais, nem porquê], cantiguinhas nostálgicas e atitudes infantis.  

Tenho dias de loucuras, desvarios, pinos soltos, bater de portas, riscos nas paredes, versos adoidados, gritos retirados da caixinha dos guardados polidos, educados e reluzentes, insanas manias [como escutar várias vezes a mesma música], viciantes ritos, aloprantes, gotejantes, arfantes, acessos de fúria,... verdadeiro caos. Sim, tenho dias em que enlouqueço.

Tenho dias de sabedoria erudita, visionária, profética, sensitiva, catastrófica, em que antevejo [sem querer] o buraco antes da queda... E, mesmo assim, eu caio.   

Tenho um ano inteiro de pensamentos e emoções variadas, castigadas, festivas, de perdas e ganhos. Uma avalanche de dias cheios, dias rasos, dias que se arrastam, dias que se evaporam, dias que somem, dias que correm, dias gorduchos e dias esquálidos. Tenho dias proveitosos e outros que não quero ver nunca mais na minha frente.

Não sou muitas em uma só. Sou a mesma o tempo todo, com todos os sentimentos e reações a que tenho direito. E essas reações é que me fazem parecer demasiadamente mais do que realmente eu sou. 




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dora


Mirou-se no espelho da sala e viu-se tão cheia, mas tão cheia, que lá do fundo de sua autoestima abalada, emergiram suspiros redondos, que saíram feito rosquinhas de fumaça, expelidas da boca de um fumante.

Já estava na hora de trocar aquele espelho com moldura antiga de vime, por um quadro agradável de olhar, com uma bela paisagem campestre, por exemplo.

Não se reconhecia na imagem que o espelho refletia.

Deu alguns passos pesados para trás, resmungando para si mesma:

“Quem te viu e quem te vê, hein, Dora?”

Sim, parecia inacreditável, mas aquele corpo roliço já fora esbelto um dia. E fizera os homens assobiarem encantados, atiçados pela leveza e elegância de seu balanço de quadris, sua cinturinha fina, seu movimento de pernas longas e torneadas, seu empinar de seios sob o tecido macio do vestido, quando passava por eles nas ruas.

Mas hoje...o peso dos anos a empurrara para bem longe daquela figura longilínea e fininha de outrora.

Lutava contra o sono. Esforçava-se para manter-se em pé. O olhar pesa­do e as olheiras escuras, denunciavam suas três noites maldormidas. Devia ser efeito colateral dos medicamentos para emagrecer. Dietas malucas a estavam enlouquecendo. Oito meses tomando regularmente remédios controlados. E ao invés de perder peso, perdera o sono, a disposição e a força de vontade. Só não perdera o apetite.

“Como deixou isso acontecer com você?”

Sabia muito bem o responsável por sua transformação: o casamento.

Tinha apenas vinte anos quando casou-se com Raul. Nessa época, pesava exatos quarenta e nove quilos, proporcionais para sua altura de um metro e sessenta. O marido era magro e tinha um metabolismo invejável, pois embora tivesse um apetite voraz e repetisse os pratos que ela preparava, não engordava um grama.

Dora, empenhou-se em aprender o preparo de novas receitas, para agradar ao marido e vencer uma competição não declarada com sua sogra, que cozinhava bem demais. Raul vivia exaltando a comida da mãe. E após provar os pratos servidos pela esposa, comentava não estarem assim tão bons quanto os que sua mãe fazia. Isso a entristecia mais que qualquer outra coisa. Às vezes Raul avisava que iria almoçar na casa da mãe, para matar as saudades. Mas Dora sabia que na verdade o marido sentia falta era do tempero da comida da mãe. Notava a reação dele, a cada refeição servida.

Se um repórter a entrevistasse e perguntasse qual o seu maior sonho, responderia sem pestanejar: “que meu marido me diga que eu cozinho melhor do que a mãe dele”.

Assim, a vida de casada prosseguia sem grandes novidades, exceto por sua ânsia obsessiva em prender o marido pelo estômago.
Por sua vez, Raul continuava seus hábitos de solteiro, saindo com amigos e ficando até tarde no bar. Bebia demais. Chegava tarde. Algumas vezes tão bêbado que iam levá-lo em casa. Mas Dora amava o marido e tinha um coração gigantesco. Todos têm defeitos... Dos males o menor, pensava.

Caseira, dedicando-se apenas ao lar, Dora costumava usar vestidos soltos, para sentir-se mais à vontade. Afinal, estava em casa. Por isso, só percebeu o quanto engordara, quando foi comprar roupas para a festa de casamento de um dos amigos de Raul. Seu número habitual não servia mais. Despreocupada, comprou um tamanho maior e não pensou mais no assunto.

Raul passou a levá-la em restaurantes. Trazia lanches suculentos. Enchia a geladeira de bolos, refrigerantes e sorvetes. Dora adorava e se sentia paparicada. Do nada, o marido mudou o comportamento e passou a cumprimentá-la pelo sucesso na cozinha. Mesmo quando queimava o feijão ou tinha certeza que o ar­roz ficara uma papa, Raul elogiava. E incentivada pela satisfação do marido com suas receitas, esmerava-se para surpreendê-lo a cada dia com um prato novo.

Quanto mais Raul elogiava suas tortas, lasanhas e assados, mais se dedicava a fazer novas gostosuras, para receber dele um olhar de aprovação. Seu momento glorioso era quando Raul provava um dos pratos e dizia que jamais comera algo tão saboroso.

Um dia, finalmente, escutou o suprassumo dos cumprimentos: “nem minha mãe faz uma comida tão gostosa, Dodô”. Derreteu-se por dentro. Abriu um largo sorriso. E mesmo consciente que ganhara vários quilos por conta da saga em conseguir ganhar o maior dos maiores de todos os elogios, continuou comendo e comendo. Já não ficava mais tanto tempo na cozinha, pois Raul abastecia a geladeira com tanta fartura, que não havia necessidade de ficar em frente ao fogão.

E foi inflando, inflando... E Raul trazendo mais e mais comida para casa. Quando Dora ameaçava fechar a boca, para perder uns quilos, o marido a fazia mudar de ideia. “Você nunca esteve tão linda, minha Dodozinha”. Assim, vendo que seus quilinhos extras deixavam o marido satisfeito, ela passou a comer ainda mais. Só ela engordava. Raul continuava magro. E para sua felicidade, mais apaixonado por ela do que nunca. Dora sabia que tinha ultrapassado todos os limites do bom senso, em termos calóricos. Mas bastava se recusar a comer qualquer alimento, para o marido fazer uma expressão de decepção. Então, comia. Comia para agradá-lo. E continuava engordando. Os pés incharam tanto que nenhum calçado entrava neles. Andava descalça pela casa, vestindo uma túnica imensa.

Ficou intrigada quando um dia Raul chegou em casa com uma balança e pediu que ela se pesasse. Achou esquisitíssimo. Olhou enviesada para ele. Queria mais era distância de balanças, ora. Não! Não iria se pesar. Para que aquilo? Por acaso agora o marido iria controlar seu excesso de peso? Ele não tinha dito que ela estava ótima? Mas Raul insistiu. Então, a contragosto, ela subiu na balança. O ponteiro disparou. Não era possível! Com dificuldade, olhou para baixo. Teve de se encurvar e abrir um pouco as pernas para espiar o número. A balança marcava 151 quilos! Raul tirou uma foto. Aliás, várias fotos. Dora desceu da balança aos prantos. “Não fica assim, Dodô, a balança deve tá desregulada”. Nada resolvia. Dora estava inconsolável. Inquieto, Raul disfarçou uns minutos, depois beijou as bochechas redondas da esposa e saiu.

Horas depois, quando ela já estava deitada, escutou um barulho de motor. Não tinha mais a mesma agilidade de antes. Deitar e levantar eram atos custo­sos para ela. Achou que um dos amigos havia trazido Raul para casa, como de costume.

Se tivesse espiado pela janela, teria visto uma camioneta estacionada na porta da casa. E teria estranhado e indagado Raul, pois eles não tinham carro.

O que Dora não sabia e demorou a descobrir, foi que Raul havia feito uma aposta com um amigo. Haviam bebido além da conta, é verdade, mas no dia seguinte, já sóbrios, os dois se encontraram e reafirmaram o combinado. O amigo tentou voltar atrás, se fazendo de esquecido e argumentando ter sido apenas brincadeira, mas Raul insistiu, afirmando que trato é trato e homem que é homem não arrega na palavra empenhada.

Tudo começara com uma conversa de boteco, onde o assunto levantado por Raul era que o casamento engordava mais as mulheres do que os homens. O amigo discordou. Para ele os homens casados passam a comer melhor e o corpo atlético desaparece em poucos meses. Falou isso e apontou os dedos para a própria barriga, bem saliente, confirmando sua teoria. E ficaram citando alguns nomes, lembrando o visual deles e fazendo comentários sobre como eram quan­do solteiros e como estavam agora depois de casados. E nessas comparações de “antes e depois”, Raul enfatizou que ele era uma exceção então, pois continuava franzino como sempre fora. E Dora, frisou, mantinha o mesmo corpinho enxuto de quando a conhecera.

Cheio de cachaça na cabeça, enrolado numa acalorada discussão sobre o tema e vendo Raul gabar-se de que sua teoria era fajuta, soltou um desafio: “duvido que você faça sua esposa engordar!”. Gargalharam. Raul largou o copo. Perguntou qual seria o prêmio. “A camioneta zerinho que acabei de comprar”. Ambicioso, Raul fez o amigo repetir, por julgar não ter escutado direto. O amigo repetiu. Afirmou que sim, o prêmio seria aquele mesmo. Raul encheu o copo. Tomou a pinga num gole só. Viu ali a oportunidade de melhorar de vida. Poderia vender o carro e comprar uma casinha para eles e deixar de morar de aluguel. Enrolando a língua, quis saber os termos daquela aposta. Gargalharam outra vez. A conversa parecia surreal. O amigo pensou um pouco e respondeu: “tem que fazer sua mulher engordar 100 quilos em seis meses”. Como o amigo tinha certeza que Raul perderia a aposta, fecharam o acordo. Apertaram as mãos. Raul nem questionou sobre o que ele teria que pagar caso perdesse, pois via como fato certo a sua vitória. A camioneta estava no papo. Ele ganharia, com certeza. E ainda fez o amigo jurar que circularia o mínimo possível, para economizar o objeto da aposta.

A separação foi um golpe inesperado para ela. Raul fez as malas e foi embora naquela mesma noite. O motivo? “Você tá uma baleia, não sinto mais desejo por você”.

Dora ficou chocada. Passou mal. Chamou os vizinhos. Teve de ser internada. Não podia acreditar no que escutara. As palavras de Raul ecoavam em seus ouvidos de uma forma torturante. A mãe de Dora a levou de volta para casa. E durante anos viu a filha entrando e saindo de clínicas, tentando perder peso, sem sucesso. Os móveis do apartamento tiveram de ser adaptados, para suportar o peso de Dora. Ao invés de um colchão de molas, colocaram em seu quarto um colchão de ar, bem resistente.

E quando a mãe de Dora faleceu, a filha ficou no apartamento, reclusa.
[...]

[este texto é parte integrante do romance O medo de Virgília
{Dora é vizinha de Virgília e tornam-se amigas}

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sábado, 17 de janeiro de 2015

O carniceiro fugitivo


Stanley saltou da cama, pegou suas roupas e pulou a janela numa velocidade inacreditável. Marcinha tinha jurado que o marido iria ficar fora por uns dias. E na melhor parte, o cara aparece! Em disparada, atravessou o pátio, pelado. Passou feito um raio pelo corredor lateral. Parou num canto. Vestiu-se rápido. Torceu para o sujeito não vir atrás dele. Entrou no carro, ainda com a camisa aberta. Recuperou o fôlego. Pisou fundo e vazou dali. 

Bem mais adiante, reduziu a marcha e encostou.


A respiração voltava ao normal, quando um cara surgiu do banco de trás e o atacou com uma faca. Um assalto!... Era só o que faltava. Droga! Na pressa para se encontrar com Marcinha, esquecera de trancar o carro. "Calma, velho, calma! Entrega o carro, dinheiro, celular, tudo, sem reagir" - pensou Stanley.

Tirou a chave da ignição e virou-se para entregar, julgando tratar-se de um roubo.

Stanley não sabia que o homem em seu carro era um fugitivo perigoso, condenado por vários homicídios, praticados com requintes de crueldade. O sujeito não queria seu veículo. Queria fatiá-lo, deixando sua marca registrada.

Ao esticar a mão com a chave, levou a primeira facada. O golpe inesperado o fez gritar de dor. Tentou abrir a porta para fugir e recebeu outra estocada. Buzinou, tentando chamar a atenção de alguém.

A situação não cheirava nada bem.

Furioso, o assassino moveu o braço, deu uma chave de pescoço em Stanley e enfiou a lâmina na barriga, com uma força incomum. Sem retirar a faca, abriu um corte profundo, de ponta a ponta. Depois sim, tirou, lambendo o sangue da lâmina. Inclinou-se e esfaqueou novamente, desta vez em diagonal, desenhando uma cruz.

Stanley, a essa altura, nem se mexia, quase morto, apavorado, cagado de medo.

O assassino, por conta daquela buzinada e temendo ser pego, deu-se por satisfeito. Desceu do carro e desapareceu nos becos escuros.

Entre a vida e a morte, Stanley moveu os dedos em câmera lenta e apertou a buzina. Ficou segurando as entranhas que ameaçavam sair para fora.

Aguardou por socorro.

E que não demorasse muito, porque suas mãos já estavam morrendo, enterradas em suas tripas.      

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Linha divisória



Ylana abriu a porta e vislumbrou a brancura gelada, que se estendia até onde seus olhos alcançavam. Respirou fundo. Sentiu os açoites do frio e do vento gélidos, atravessarem seu corpo, como alfinetes espetados bruscamente em uma almofada.

Afogada pela claridade da paisagem, desviou a atenção para o homem deitado no sofá em frente à lareira. Dimitri. Uma ebulição de pensamentos ferveu-lhe o cérebro, ao recordar os últimos acontecimentos. Cruzou os braços rente ao corpo, em busca de algum calor e conforto.  

“Por que alguns são mais fortes e outros são mais fracos?”

*  *  *

Conheceu Dimitri em uma galeria de arte em São Paulo. Hipnotizada por uma tela impressionista, perdeu-se em pensamentos longínquos.

Distraída, inclinou-se levemente para conferir o folheto da exposição e ao erguer os olhos deparou-se com ele. Apaixonou-se. E o quis. Simples assim.

Ylana sempre conseguia o que queria. E conseguiu. Cativou Dimitri com seus inúmeros encantos. Depois daquele dia, não se desgrudaram mais.

Quando ele a convidou para conhecer a família que morava distante, Ylana ficou radiante e aceitou prontamente.

Tão logo soube o destino, pulou de alegria. “Sibéria?! Ah, sim, vamos!”

Com ele, iria ao inferno, se preciso fosse.

“E que ele jamais saiba que o inferno sou eu” - rogou a si mesma.

Pela primeira vez Ylana sentia algo bonito por alguém. Mais do que uma necessidade, seu sentimento por Dimitri se intensificava, enchendo-a de esperanças.

“Quem sabe, esse amor me salve desse castigo a que estou condenada” - pediu Ylana em seus pensamentos.

*  *  *

Uma semana depois de chegarem, as coisas começaram a sair dos eixos.

Devidamente instalados em uma confortável pousada, Ylana convenceu Dimitri a aguardarem mais uns dias, pois o clima a golpeara de tal forma, que não se via pronta para o encontro com a família dele.

O oceano branco, além de afetar seu estado de espírito, atingira também seu metabolismo. Inchou e ficou roliça como uma foca.

Tinha receio de sair, escorregar na neve e rolar em avalanche, indo parar numa toca de marmotas.

Sua aparência estava grotesca. Antes, eufórica pela aventura romântica do passeio, agora, absurdamente incomodada. Em hipótese alguma aceitaria ser vista naquele estado lastimável. Queria causar a melhor impressão possível.

Dimitri achava graça e tentava tranquilizá-la de todas as formas. Sem sucesso.

— Ei, você está linda! Com tantas roupas, eu mal consigo ver seu corpo direito. Meus pais não perceberão nada. Relaxa, amor. 

— Linda? Pois eu me sinto horrível! – retrucava Ylana.

A reação despreocupada de Dimitri, diante daquela situação insólita, encheram-na de preocupação. Estava conhecendo um outro Dimitri, sarcástico e zombeteiro. E isso não lhe parecia nada bom.

“Não! Não faça pouco caso de mim. Ele pode acordar....e eu não serei mais dona de meus atos” - implorou Ylana, internamente.

Para seu desespero, continuou inchando, dia após dia.

Alheio ao perigo, Dimitri rolava de rir daquilo tudo.

Por sua vez, Ylana não era mais a mesma. Seu entusiasmo congelara. E todos os sintomas se pronunciavam contundentes, numa sequência de fatos que não mais conseguiria interromper.

Uma vez desencadeado o monstro da jaula, nada poderia ser feito para impedi-lo de agir. Só um milagre!... Mas Ylana não acreditava mais em milagres.  

No correr do tempo, sensações boas e ruins se debatiam dentro dela. E os remédios nessas horas não surtiam mais efeito. O pior acontecera.

Olhou novamente para o corpo inerte sobre o sofá.

Não estava mais no controle. O sangue em suas mãos eram prova disso. 

Teria sido diferente, se Dimitri soubesse dizer a coisa certa, na hora certa. Mas não!... Estragara tudo! Ele era o culpado por não saber lidar com os instintos mundanos que dormiam nela. Novamente o fato se repetira. Pela quarta vez vira soltar-se da jaula, a fera de garras afiadas, cujos remédios mantinham sob inofensiva calma. Uma palavra errada. Um gesto equivocado. Um olhar acusador. Uma atitude suspeita. Um comentário sarcástico. Um sorriso cínico. E pronto! O cadeado se rompia. E o alívio só viria quando o autor da afronta fosse eliminado. 

Antes da tragédia acontecer, tentara avisar Dimitri, pois não queria assustá-lo e nem feri-lo. Porém, ao invés de compreensão, ganhara uma risada irônica como resposta e frases do tipo "todos temos nossos monstros, escondidos em labirintos escuros.”

— Diz isso porque não sabe do que Self é capaz – alertou, assustada.

— Self? Quer dizer que seu bicho papão de estimação tem nome? – debochou ele, rindo alto.

Enquanto Dimitri gargalhava, Ylana pode sentir o cadeado sendo forçado e bem perto de ser rompido. Self escutara! Devia estar enfurecido com aquela provocação. O tratamento, as internações, os remédios para mantê-lo inofensivo nunca eram o suficiente. Nunca!

Quando algo assim acontecia, ela utilizava a técnica aprendida com seu antigo terapeuta - contar de um a cem - e  de cem a duzentos, em casos extremos. Enquanto contava, sua respiração se normalizava, empurrando-o de volta para o fundo.

Mas Self era muito esperto e conhecia o truque de contagem de Ylana. Com sua força redobrada pela fúria, sacudiu a jaula, batendo o cadeado contra as vértebras de Ylana e com mãos vorazes abriu a cela e escalou velozmente até a saída.

Uma vez solto, nada o impediria de silenciar o inimigo: Dimitri.

Indiferente ao terror interno que Ylana vivia, Dimitri, com seu jeito calmo e alegre, continuava rindo, sem acreditar em nada do que ela lhe contava. 

E foi num momento de descuido, que a faca ganhou terreno, perfurando-o no instante exato em que tentara pegar uma xícara de café. Atacado de surpresa, cambaleou. Recuou alguns passos, com as mãos no peito e desabou no sofá.

Ylana afastou-se. Olhou atônita para o corpo sem vida. Abriu a porta, ainda com a faca nas mãos, assimilando lentamente o que acontecera.

Self acompanhara de perto. Assim como ocorrera das outras vezes, resolveria tudo e não deixaria vestígios incriminadores para ambos.

No entanto, dessa vez algo diferente precisaria ser feito. Ylana deixara de ser uma boa hospedeira.   

Em choque, ao ver o corpo de Dimitri, demorou para voltar à realidade.

O telefone tocava insistentemente. “Serão os pais de Dimitri?”

Ao girar o corpo para atender a ligação, Ylana recebeu o primeiro golpe. Tombou sobre o tapete da sala. Um filete de sangue escorreu de sua nuca.

Virou-se, com as últimas energias que lhe restara e encarou seu algoz.

Por quêê??? - perguntou, com voz entrecortada.

Porque eu me tornei mais forte que você - respondeu, Self - golpeando-a novamente.

Algumas horas mais tarde, os corpos de ambos foram encontrados pelos familiares de Dimitri. Assim como, misteriosas pegadas na neve, em direção da região central da cidade.