quinta-feira, 21 de maio de 2015

Crônica de um ano inteiro

Ilustração Valeria Docampo

Tenho dias de silêncio, de poucas vozes e nenhum riso. Inesperadas manhãs, tardes e noites, perdidas em golfadas de ventos que não sopram, mas arrebentam.

Tenho dias de algumas dores que afetam meus humores. São os dentes, as veias, o crânio, os tecidos todos que me constituem, amotinados, aos brados, erguendo cartazes pelas grades da cela, em misterioso protesto.

Tenho dias de prantos repentinos, alguns motivados, outros inexplicados. Uma orquestra de sinfonias lacrimosas, entoando diversificados sons, amplificados por emoções sufocantes que me lavam por dentro e me acalmam repentinamente.

Tenho dias de apetite voraz, prazeres divididos, entusiasmados, expandidos em múltiplos suspiros, longos tremores, arrepios, calafrios, entrelaçados em suores de intensa satisfação.

Tenho dias de algazarra, folia e brincadeiras, pipoca, algodão doce, clichês desgastados, piadas batidas, conversa entre amigos, gargalhadas vibrantes, briguinhas tolas, des/entendimentos, pés descalços na areia, saudades imensas [sem mais, nem porquê], cantiguinhas nostálgicas e atitudes infantis.  

Tenho dias de loucuras, desvarios, pinos soltos, bater de portas, riscos nas paredes, versos adoidados, gritos retirados da caixinha dos guardados polidos, educados e reluzentes, insanas manias [como escutar várias vezes a mesma música], viciantes ritos, aloprantes, gotejantes, arfantes, acessos de fúria,... verdadeiro caos. Sim, tenho dias em que enlouqueço.

Tenho dias de sabedoria erudita, visionária, profética, sensitiva, catastrófica, em que antevejo [sem querer] o buraco antes da queda... E, mesmo assim, eu caio.   

Tenho um ano inteiro de pensamentos e emoções variadas, castigadas, festivas, de perdas e ganhos. Uma avalanche de dias cheios, dias rasos, dias que se arrastam, dias que se evaporam, dias que somem, dias que correm, dias gorduchos e dias esquálidos. Tenho dias proveitosos e outros que não quero ver nunca mais na minha frente.

Não sou muitas em uma só. Sou a mesma o tempo todo, com todos os sentimentos e reações a que tenho direito. E essas reações é que me fazem parecer demasiadamente mais do que realmente eu sou. 




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dora


Mirou-se no espelho da sala e viu-se tão cheia, mas tão cheia, que lá do fundo de sua autoestima abalada, emergiram suspiros redondos, que saíram feito rosquinhas de fumaça, expelidas da boca de um fumante.

Já estava na hora de trocar aquele espelho com moldura antiga de vime, por um quadro agradável de olhar, com uma bela paisagem campestre, por exemplo.

Não se reconhecia na imagem que o espelho refletia.

Deu alguns passos pesados para trás, resmungando para si mesma:

“Quem te viu e quem te vê, hein, Dora?”

Sim, parecia inacreditável, mas aquele corpo roliço já fora esbelto um dia. E fizera os homens assobiarem encantados, atiçados pela leveza e elegância de seu balanço de quadris, sua cinturinha fina, seu movimento de pernas longas e torneadas, seu empinar de seios sob o tecido macio do vestido, quando passava por eles nas ruas.

Mas hoje...o peso dos anos a empurrara para bem longe daquela figura longilínea e fininha de outrora.

Lutava contra o sono. Esforçava-se para manter-se em pé. O olhar pesa­do e as olheiras escuras, denunciavam suas três noites maldormidas. Devia ser efeito colateral dos medicamentos para emagrecer. Dietas malucas a estavam enlouquecendo. Oito meses tomando regularmente remédios controlados. E ao invés de perder peso, perdera o sono, a disposição e a força de vontade. Só não perdera o apetite.

“Como deixou isso acontecer com você?”

Sabia muito bem o responsável por sua transformação: o casamento.

Tinha apenas vinte anos quando casou-se com Raul. Nessa época, pesava exatos quarenta e nove quilos, proporcionais para sua altura de um metro e sessenta. O marido era magro e tinha um metabolismo invejável, pois embora tivesse um apetite voraz e repetisse os pratos que ela preparava, não engordava um grama.

Dora, empenhou-se em aprender o preparo de novas receitas, para agradar ao marido e vencer uma competição não declarada com sua sogra, que cozinhava bem demais. Raul vivia exaltando a comida da mãe. E após provar os pratos servidos pela esposa, comentava não estarem assim tão bons quanto os que sua mãe fazia. Isso a entristecia mais que qualquer outra coisa. Às vezes Raul avisava que iria almoçar na casa da mãe, para matar as saudades. Mas Dora sabia que na verdade o marido sentia falta era do tempero da comida da mãe. Notava a reação dele, a cada refeição servida.

Se um repórter a entrevistasse e perguntasse qual o seu maior sonho, responderia sem pestanejar: “que meu marido me diga que eu cozinho melhor do que a mãe dele”.

Assim, a vida de casada prosseguia sem grandes novidades, exceto por sua ânsia obsessiva em prender o marido pelo estômago.
Por sua vez, Raul continuava seus hábitos de solteiro, saindo com amigos e ficando até tarde no bar. Bebia demais. Chegava tarde. Algumas vezes tão bêbado que iam levá-lo em casa. Mas Dora amava o marido e tinha um coração gigantesco. Todos têm defeitos... Dos males o menor, pensava.

Caseira, dedicando-se apenas ao lar, Dora costumava usar vestidos soltos, para sentir-se mais à vontade. Afinal, estava em casa. Por isso, só percebeu o quanto engordara, quando foi comprar roupas para a festa de casamento de um dos amigos de Raul. Seu número habitual não servia mais. Despreocupada, comprou um tamanho maior e não pensou mais no assunto.

Raul passou a levá-la em restaurantes. Trazia lanches suculentos. Enchia a geladeira de bolos, refrigerantes e sorvetes. Dora adorava e se sentia paparicada. Do nada, o marido mudou o comportamento e passou a cumprimentá-la pelo sucesso na cozinha. Mesmo quando queimava o feijão ou tinha certeza que o ar­roz ficara uma papa, Raul elogiava. E incentivada pela satisfação do marido com suas receitas, esmerava-se para surpreendê-lo a cada dia com um prato novo.

Quanto mais Raul elogiava suas tortas, lasanhas e assados, mais se dedicava a fazer novas gostosuras, para receber dele um olhar de aprovação. Seu momento glorioso era quando Raul provava um dos pratos e dizia que jamais comera algo tão saboroso.

Um dia, finalmente, escutou o suprassumo dos cumprimentos: “nem minha mãe faz uma comida tão gostosa, Dodô”. Derreteu-se por dentro. Abriu um largo sorriso. E mesmo consciente que ganhara vários quilos por conta da saga em conseguir ganhar o maior dos maiores de todos os elogios, continuou comendo e comendo. Já não ficava mais tanto tempo na cozinha, pois Raul abastecia a geladeira com tanta fartura, que não havia necessidade de ficar em frente ao fogão.

E foi inflando, inflando... E Raul trazendo mais e mais comida para casa. Quando Dora ameaçava fechar a boca, para perder uns quilos, o marido a fazia mudar de ideia. “Você nunca esteve tão linda, minha Dodozinha”. Assim, vendo que seus quilinhos extras deixavam o marido satisfeito, ela passou a comer ainda mais. Só ela engordava. Raul continuava magro. E para sua felicidade, mais apaixonado por ela do que nunca. Dora sabia que tinha ultrapassado todos os limites do bom senso, em termos calóricos. Mas bastava se recusar a comer qualquer alimento, para o marido fazer uma expressão de decepção. Então, comia. Comia para agradá-lo. E continuava engordando. Os pés incharam tanto que nenhum calçado entrava neles. Andava descalça pela casa, vestindo uma túnica imensa.

Ficou intrigada quando um dia Raul chegou em casa com uma balança e pediu que ela se pesasse. Achou esquisitíssimo. Olhou enviesada para ele. Queria mais era distância de balanças, ora. Não! Não iria se pesar. Para que aquilo? Por acaso agora o marido iria controlar seu excesso de peso? Ele não tinha dito que ela estava ótima? Mas Raul insistiu. Então, a contragosto, ela subiu na balança. O ponteiro disparou. Não era possível! Com dificuldade, olhou para baixo. Teve de se encurvar e abrir um pouco as pernas para espiar o número. A balança marcava 151 quilos! Raul tirou uma foto. Aliás, várias fotos. Dora desceu da balança aos prantos. “Não fica assim, Dodô, a balança deve tá desregulada”. Nada resolvia. Dora estava inconsolável. Inquieto, Raul disfarçou uns minutos, depois beijou as bochechas redondas da esposa e saiu.

Horas depois, quando ela já estava deitada, escutou um barulho de motor. Não tinha mais a mesma agilidade de antes. Deitar e levantar eram atos custo­sos para ela. Achou que um dos amigos havia trazido Raul para casa, como de costume.

Se tivesse espiado pela janela, teria visto uma camioneta estacionada na porta da casa. E teria estranhado e indagado Raul, pois eles não tinham carro.

O que Dora não sabia e demorou a descobrir, foi que Raul havia feito uma aposta com um amigo. Haviam bebido além da conta, é verdade, mas no dia seguinte, já sóbrios, os dois se encontraram e reafirmaram o combinado. O amigo tentou voltar atrás, se fazendo de esquecido e argumentando ter sido apenas brincadeira, mas Raul insistiu, afirmando que trato é trato e homem que é homem não arrega na palavra empenhada.

Tudo começara com uma conversa de boteco, onde o assunto levantado por Raul era que o casamento engordava mais as mulheres do que os homens. O amigo discordou. Para ele os homens casados passam a comer melhor e o corpo atlético desaparece em poucos meses. Falou isso e apontou os dedos para a própria barriga, bem saliente, confirmando sua teoria. E ficaram citando alguns nomes, lembrando o visual deles e fazendo comentários sobre como eram quan­do solteiros e como estavam agora depois de casados. E nessas comparações de “antes e depois”, Raul enfatizou que ele era uma exceção então, pois continuava franzino como sempre fora. E Dora, frisou, mantinha o mesmo corpinho enxuto de quando a conhecera.

Cheio de cachaça na cabeça, enrolado numa acalorada discussão sobre o tema e vendo Raul gabar-se de que sua teoria era fajuta, soltou um desafio: “duvido que você faça sua esposa engordar!”. Gargalharam. Raul largou o copo. Perguntou qual seria o prêmio. “A camioneta zerinho que acabei de comprar”. Ambicioso, Raul fez o amigo repetir, por julgar não ter escutado direto. O amigo repetiu. Afirmou que sim, o prêmio seria aquele mesmo. Raul encheu o copo. Tomou a pinga num gole só. Viu ali a oportunidade de melhorar de vida. Poderia vender o carro e comprar uma casinha para eles e deixar de morar de aluguel. Enrolando a língua, quis saber os termos daquela aposta. Gargalharam outra vez. A conversa parecia surreal. O amigo pensou um pouco e respondeu: “tem que fazer sua mulher engordar 100 quilos em seis meses”. Como o amigo tinha certeza que Raul perderia a aposta, fecharam o acordo. Apertaram as mãos. Raul nem questionou sobre o que ele teria que pagar caso perdesse, pois via como fato certo a sua vitória. A camioneta estava no papo. Ele ganharia, com certeza. E ainda fez o amigo jurar que circularia o mínimo possível, para economizar o objeto da aposta.

A separação foi um golpe inesperado para ela. Raul fez as malas e foi embora naquela mesma noite. O motivo? “Você tá uma baleia, não sinto mais desejo por você”.

Dora ficou chocada. Passou mal. Chamou os vizinhos. Teve de ser internada. Não podia acreditar no que escutara. As palavras de Raul ecoavam em seus ouvidos de uma forma torturante. A mãe de Dora a levou de volta para casa. E durante anos viu a filha entrando e saindo de clínicas, tentando perder peso, sem sucesso. Os móveis do apartamento tiveram de ser adaptados, para suportar o peso de Dora. Ao invés de um colchão de molas, colocaram em seu quarto um colchão de ar, bem resistente.

E quando a mãe de Dora faleceu, a filha ficou no apartamento, reclusa.
[...]

[este texto é parte integrante do romance O medo de Virgília
{Dora é vizinha de Virgília e tornam-se amigas}

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sábado, 17 de janeiro de 2015

O carniceiro fugitivo


Stanley saltou da cama, pegou suas roupas e pulou a janela numa velocidade inacreditável. Marcinha tinha jurado que o marido iria ficar fora por uns dias. E na melhor parte, o cara aparece! Em disparada, atravessou o pátio, pelado. Passou feito um raio pelo corredor lateral. Parou num canto. Vestiu-se rápido. Torceu para o sujeito não vir atrás dele. Entrou no carro, ainda com a camisa aberta. Recuperou o fôlego. Pisou fundo e vazou dali. 

Bem mais adiante, reduziu a marcha e encostou.


A respiração voltava ao normal, quando um cara surgiu do banco de trás e o atacou com uma faca. Um assalto!... Era só o que faltava. Droga! Na pressa para se encontrar com Marcinha, esquecera de trancar o carro. "Calma, velho, calma! Entrega o carro, dinheiro, celular, tudo, sem reagir" - pensou Stanley.

Tirou a chave da ignição e virou-se para entregar, julgando tratar-se de um roubo.

Stanley não sabia que o homem em seu carro era um fugitivo perigoso, condenado por vários homicídios, praticados com requintes de crueldade. O sujeito não queria seu veículo. Queria fatiá-lo, deixando sua marca registrada.

Ao esticar a mão com a chave, levou a primeira facada. O golpe inesperado o fez gritar de dor. Tentou abrir a porta para fugir e recebeu outra estocada. Buzinou, tentando chamar a atenção de alguém.

A situação não cheirava nada bem.

Furioso, o assassino moveu o braço, deu uma chave de pescoço em Stanley e enfiou a lâmina na barriga, com uma força incomum. Sem retirar a faca, abriu um corte profundo, de ponta a ponta. Depois sim, tirou, lambendo o sangue da lâmina. Inclinou-se e esfaqueou novamente, desta vez em diagonal, desenhando uma cruz.

Stanley, a essa altura, nem se mexia, quase morto, apavorado, cagado de medo.

O assassino, por conta daquela buzinada e temendo ser pego, deu-se por satisfeito. Desceu do carro e desapareceu nos becos escuros.

Entre a vida e a morte, Stanley moveu os dedos em câmera lenta e apertou a buzina. Ficou segurando as entranhas que ameaçavam sair para fora.

Aguardou por socorro.

E que não demorasse muito, porque suas mãos já estavam morrendo, enterradas em suas tripas.      

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Linha divisória



Ylana abriu a porta e vislumbrou a brancura gelada, que se estendia até onde seus olhos alcançavam. Respirou fundo. Sentiu os açoites do frio e do vento gélidos, atravessarem seu corpo, como alfinetes espetados bruscamente em uma almofada.

Afogada pela claridade da paisagem, desviou a atenção para o homem deitado no sofá em frente à lareira. Dimitri. Uma ebulição de pensamentos ferveu-lhe o cérebro, ao recordar os últimos acontecimentos. Cruzou os braços rente ao corpo, em busca de algum calor e conforto.  

“Por que alguns são mais fortes e outros são mais fracos?”

*  *  *

Conheceu Dimitri em uma galeria de arte em São Paulo. Hipnotizada por uma tela impressionista, perdeu-se em pensamentos longínquos.

Distraída, inclinou-se levemente para conferir o folheto da exposição e ao erguer os olhos deparou-se com ele. Apaixonou-se. E o quis. Simples assim.

Ylana sempre conseguia o que queria. E conseguiu. Cativou Dimitri com seus inúmeros encantos. Depois daquele dia, não se desgrudaram mais.

Quando ele a convidou para conhecer a família que morava distante, Ylana ficou radiante e aceitou prontamente.

Tão logo soube o destino, pulou de alegria. “Sibéria?! Ah, sim, vamos!”

Com ele, iria ao inferno, se preciso fosse.

“E que ele jamais saiba que o inferno sou eu” - rogou a si mesma.

Pela primeira vez Ylana sentia algo bonito por alguém. Mais do que uma necessidade, seu sentimento por Dimitri se intensificava, enchendo-a de esperanças.

“Quem sabe, esse amor me salve desse castigo a que estou condenada” - pediu Ylana em seus pensamentos.

*  *  *

Uma semana depois de chegarem, as coisas começaram a sair dos eixos.

Devidamente instalados em uma confortável pousada, Ylana convenceu Dimitri a aguardarem mais uns dias, pois o clima a golpeara de tal forma, que não se via pronta para o encontro com a família dele.

O oceano branco, além de afetar seu estado de espírito, atingira também seu metabolismo. Inchou e ficou roliça como uma foca.

Tinha receio de sair, escorregar na neve e rolar em avalanche, indo parar numa toca de marmotas.

Sua aparência estava grotesca. Antes, eufórica pela aventura romântica do passeio, agora, absurdamente incomodada. Em hipótese alguma aceitaria ser vista naquele estado lastimável. Queria causar a melhor impressão possível.

Dimitri achava graça e tentava tranquilizá-la de todas as formas. Sem sucesso.

— Ei, você está linda! Com tantas roupas, eu mal consigo ver seu corpo direito. Meus pais não perceberão nada. Relaxa, amor. 

— Linda? Pois eu me sinto horrível! – retrucava Ylana.

A reação despreocupada de Dimitri, diante daquela situação insólita, encheram-na de preocupação. Estava conhecendo um outro Dimitri, sarcástico e zombeteiro. E isso não lhe parecia nada bom.

“Não! Não faça pouco caso de mim. Ele pode acordar....e eu não serei mais dona de meus atos” - implorou Ylana, internamente.

Para seu desespero, continuou inchando, dia após dia.

Alheio ao perigo, Dimitri rolava de rir daquilo tudo.

Por sua vez, Ylana não era mais a mesma. Seu entusiasmo congelara. E todos os sintomas se pronunciavam contundentes, numa sequência de fatos que não mais conseguiria interromper.

Uma vez desencadeado o monstro da jaula, nada poderia ser feito para impedi-lo de agir. Só um milagre!... Mas Ylana não acreditava mais em milagres.  

No correr do tempo, sensações boas e ruins se debatiam dentro dela. E os remédios nessas horas não surtiam mais efeito. O pior acontecera.

Olhou novamente para o corpo inerte sobre o sofá.

Não estava mais no controle. O sangue em suas mãos eram prova disso. 

Teria sido diferente, se Dimitri soubesse dizer a coisa certa, na hora certa. Mas não!... Estragara tudo! Ele era o culpado por não saber lidar com os instintos mundanos que dormiam nela. Novamente o fato se repetira. Pela quarta vez vira soltar-se da jaula, a fera de garras afiadas, cujos remédios mantinham sob inofensiva calma. Uma palavra errada. Um gesto equivocado. Um olhar acusador. Uma atitude suspeita. Um comentário sarcástico. Um sorriso cínico. E pronto! O cadeado se rompia. E o alívio só viria quando o autor da afronta fosse eliminado. 

Antes da tragédia acontecer, tentara avisar Dimitri, pois não queria assustá-lo e nem feri-lo. Porém, ao invés de compreensão, ganhara uma risada irônica como resposta e frases do tipo "todos temos nossos monstros, escondidos em labirintos escuros.”

— Diz isso porque não sabe do que Self é capaz – alertou, assustada.

— Self? Quer dizer que seu bicho papão de estimação tem nome? – debochou ele, rindo alto.

Enquanto Dimitri gargalhava, Ylana pode sentir o cadeado sendo forçado e bem perto de ser rompido. Self escutara! Devia estar enfurecido com aquela provocação. O tratamento, as internações, os remédios para mantê-lo inofensivo nunca eram o suficiente. Nunca!

Quando algo assim acontecia, ela utilizava a técnica aprendida com seu antigo terapeuta - contar de um a cem - e  de cem a duzentos, em casos extremos. Enquanto contava, sua respiração se normalizava, empurrando-o de volta para o fundo.

Mas Self era muito esperto e conhecia o truque de contagem de Ylana. Com sua força redobrada pela fúria, sacudiu a jaula, batendo o cadeado contra as vértebras de Ylana e com mãos vorazes abriu a cela e escalou velozmente até a saída.

Uma vez solto, nada o impediria de silenciar o inimigo: Dimitri.

Indiferente ao terror interno que Ylana vivia, Dimitri, com seu jeito calmo e alegre, continuava rindo, sem acreditar em nada do que ela lhe contava. 

E foi num momento de descuido, que a faca ganhou terreno, perfurando-o no instante exato em que tentara pegar uma xícara de café. Atacado de surpresa, cambaleou. Recuou alguns passos, com as mãos no peito e desabou no sofá.

Ylana afastou-se. Olhou atônita para o corpo sem vida. Abriu a porta, ainda com a faca nas mãos, assimilando lentamente o que acontecera.

Self acompanhara de perto. Assim como ocorrera das outras vezes, resolveria tudo e não deixaria vestígios incriminadores para ambos.

No entanto, dessa vez algo diferente precisaria ser feito. Ylana deixara de ser uma boa hospedeira.   

Em choque, ao ver o corpo de Dimitri, demorou para voltar à realidade.

O telefone tocava insistentemente. “Serão os pais de Dimitri?”

Ao girar o corpo para atender a ligação, Ylana recebeu o primeiro golpe. Tombou sobre o tapete da sala. Um filete de sangue escorreu de sua nuca.

Virou-se, com as últimas energias que lhe restara e encarou seu algoz.

Por quêê??? - perguntou, com voz entrecortada.

Porque eu me tornei mais forte que você - respondeu, Self - golpeando-a novamente.

Algumas horas mais tarde, os corpos de ambos foram encontrados pelos familiares de Dimitri. Assim como, misteriosas pegadas na neve, em direção da região central da cidade.


   

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Uma questão de hombridade


DOIS DIAS olhando para a embalagem. Dois dias hesitando entre descobrir seu conteúdo ou jogá-la no lixo. O cartão dizia apenas: “ABRA, SE FOR HOMEM!”

Não parecia ser uma bomba. Leve demais. Nenhum barulho. Ratos também não. Detestava ratos.

Aproximou-se da mesa e tocou o pacote. Sacudiu. Cheirou. Nada.

Largou a caixa e sentou-se na poltrona. Do que sentia medo, afinal? Era apenas uma inocente caixa. Provavelmente estaria vazia. Mas aquele cartão...

Seria um “presente” de sua ex, revoltada por tê-lo flagrado na cama com sua melhor amiga? Uma mulher rejeitada e traída é sempre um perigo para a integridade física de qualquer homem. Podia ser...

Não. Melhor não arriscar.

TERCEIRO DIA. A caixa ainda em cima da mesa parecia implorar para que ele a abrisse de uma vez. Só uma caixa. O que poderia acontecer? Afinal, ele era um homem, ou um rato? Não, rato não!!!

Pensando bem, as mulheres não se vingam enviando ratos. As estatísticas comprovam que os métodos de vingança utilizados por elas são outros, bem mais cruéis e tão roedores quanto os roedores. Se bem que.... sempre existem exceções.

Deixou a caixa onde estava e foi assistir televisão.

No QUARTO DIA ele inflou o peito, pegou uma tesoura e cortou a fita. Respirou fundo. Precisava ser muito macho para tomar aquela atitude. Sim! E se tivesse algo venenoso dentro? Deveria levar a caixa para a polícia averiguar? Não. Ele faria o que precisava ser feito. Tinha coragem suficiente para isso.

Daí, lembrou da frase no cartão. Coçou a cabeça. Pensou. Para que tanta pressa? A caixa não ia fugir. Largou a tesoura. Foi tomar uma cerveja.

QUINTO DIA. Bateu no peito e gritou: “NÃO TENHO MEDO DESTA CAIXA!” Rasgou o papel com força. Segurou o pacote bem firme e abriu num supetão.

Dentro, vários papéis picados e um outro cartão que dizia:

"Assim que abrir a caixa, telefone pra mim. Fizemos uma aposta que você abriria no primeiro dia, já que adora contar vantagens dizendo não ter medo de nada. Assinado, seu amigo de pescarias." 







domingo, 17 de agosto de 2014

Serenata Azul




Serenata Azul

Observa-me o mar

entoando brisas azuis

e com seu jeito maroto

pesca o meu olhar.


Rosa Mattos


sexta-feira, 11 de abril de 2014

A rebelião


Quando o Autoritário mudou a máquina de café de seu local habitual e instalou-a próximo de sua sala, desagradou de imediato os funcionários do segundo andar.
— Mudou de local, por quê?  quis saber a Enxerida.
— Para ficar mais perto dele, é claro. Ele adora café!  respondeu o Bajulador.
— Mas isto é uma arbitrariedade!  gritou o Indignado. Vamos convocar uma reunião com o Autoritário, para discutirmos o assunto com a presença de todos os descontentes.
As qualidades não quiseram participar, alegando ser o motivo totalmente infundado para tanto alvoroço.
Os defeitos discordaram, veementemente. Insistiam em mostrar seu desagrado.
Assim fizeram. Já na sala de reuniões, iniciaram as reclamações.
O Covarde entrou e sentou-se bem distante de todos, não expondo sua opinião uma única vez.
O Exaltado quase quebrou a jarra d’água, ao bater na mesa com força e declarar sua revolta com aquele ato prepotente.
O Autoritário, que já encontrava-se a postos em sua belíssima poltrona, levantou-se, cheio de autoridade, disparando:
— Como ousam se rebelar contra uma ordem minha? A máquina vai ficar onde eu quiser e pronto! Quem não estiver satisfeito, pode mudar de setor, ou de empresa,  como queiram.
Ao ouvir tanto autoritarismo, vindo do mesmo Autoritário, os defeitos silenciaram.
Repensariam suas reivindicações. Perder o emprego por causa de uma máquina de café? Que bobagem seria. Só porque teriam de caminhar uns metros a mais?
Intimidados pela ameaça, retornaram cabisbaixos para seus cubículos.
Porém, inconformados, arquitetaram uma retaliação feroz.
No dia seguinte, colocando o plano em prática, Ardiloso e Dissimulado, dirigiram-se até a sala do Autoritário e desmancharam-se em desculpas e palavras gentis. Disseram que ele tinha toda a razão em mudar a máquina de lugar, que agora realmente ficara bem melhor, etc e tal. Falaram ainda, que até o café parecia com outro sabor. Devia ser a nova localização. Talvez a instalação elétrica fosse ali mais adequada. Enfim, adularam, até não poder mais.
O Autoritário, que gostava de ver suas ordens acatadas, ficou satisfeito e deu o assunto por encerrado.
Não sabia ele, que no quinto andar, onde ficava a sala do diretor-presidente, sua transferência estava sendo articulada.
Usando todo o seu poder de sedução, com sua volúpia e sensualidade, Lasciva convencia o grande chefe a transferir o Autoritário de setor, deslocando-o para outra função. Talvez outro andar. Melhor mesmo seria outra sede. Quem sabe, para uma filial em outra cidade. 
Já no dia seguinte, um memorando chegava às mãos do Autoritário com a novidade. Devia retirar-se imediatamente de sua sala e dirigir-se ao quinto andar. Outra pessoa ocuparia seu posto e os assuntos dali não lhe diziam mais respeito.
Assim foi feito.
O novo Autoritário - que não era tão autoritário assim - recolocou a máquina de café em seu antigo lugar.
E tudo voltou ao normal.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Complexo


Gumercindo do Rego Grande odiava o próprio nome. Todos o conheciam pelo apelido, Guto. Chamá-lo pelo nome completo seria pedir briga na certa. Na escola, fora um problema quase diário. E quanto mais ele se irritava com as zombarias dos colegas, mais eles o caçoavam.

Com o sobrenome Rego, a mãe jamais deveria ter se casado com Almir Pereira Grande. E por que não pensaram no filho, quando foram registrá-lo? Cruelmente selaram seu destino, em cirandas de tormentos intermináveis. 

Bem que tentou adotar o codinome Guto Grande, informalmente, mas também não foi muito feliz. Pediam sua identidade e o desmascaravam, saboreando o momento com satisfação. As risadinhas infalíveis surgiam nos cantos das bocas.

Se ele fosse um cínico, tudo seria tão simples. Bastaria rir dele mesmo, da situação, da cilada em que se metera. Mas Guto era a seriedade esculpida em bronze. Não achava graça alguma.

Passaram-se os anos. Guto seguiu levando a vida, como a vida permitia. Ora esbravejando, ora tentando, num esforço hercúleo, parecer indiferente, diante dos inevitáveis gracejos.

Um dia, sem saber bem porquê, comprou um bilhete da loteria. Para seu  espanto, acertou em cheio. Ficou eufórico. Ainda mais quando soube tratar-se de uma fortuna considerável.

“Estou rico! Posso mudar de país, me tornar anônimo e ser quem eu quiser! Posso tudo!” – comemorou, aos gritos.

No dia seguinte, ansioso em pegar a bolada e dar um novo rumo para sua vida, apresentou-se para identificar-se e receber o prêmio. Depois das formalidades iniciais, o gerente do banco pediu-lhe os documentos, pois tinha de verificar a autenticidade e preencher toda a papelada. "Uma burocracia indispensável. O senhor entende, não é senhor... Gumercindo do Rego Grande" – disse-lhe, com um risinho incontido.

O sangue ferveu no corpo de Guto e subiu-lhe à cabeça todo ao mesmo tempo, borbulhando, deixando seu rosto num braseiro. Ficou por instantes paralisado na cadeira, olhando aquele homem, internamente rindo dele. Olhou para o abridor de cartas, em cima da mesa, bem ao alcance de sua mão. Esticou o braço. Sim, faria um bom estrago se cravasse o objeto pontiagudo na garganta daquele estupor.

Ao invés disso, levantou-se. Puxou o bilhete premiado das mãos do desgraçado. Pegou os documentos, colocou tudo no bolso e saiu do banco caminhando até a saída, com passos firmes. 

Chegando em casa, queimou aquele papel maldito, que o fizera passar por mais uma humilhação. Com certeza o assunto ficaria dentro dele por vários dias, até ser substituído por alguma outra situação constrangedora. 

Guto, no entanto, desconhecia o fato de que o gerente do banco havia passado para frente a informação do ocorrido. Em poucas horas, a notícia ganhou pernas, espalhando-se pela cidade. Tuitaram o episódio e transformaram Guto no assunto mais falado do momento.

Sua fama correu velozmente por todos os cantos do país. Emissoras de televisão tentavam entrevistá-lo, para entenderem tamanha sandice. O calvário estava prestes a se tornar ainda maior do que já era. Ele agora teria que conviver com mais um dilema: o nome que odiava desde pequeno e o fato de ter sido milionário por apenas alguns minutos. Não haveria lugar no mundo distante o bastante para que pudesse viver em paz.

O telefone não parava de tocar. Jornalistas acampavam em sua porta, insistindo por uma coletiva. Ainda bem que os pais estavam viajando.

Sozinho, acuado, desesperado, cerrou cortinas, apagou luzes, encolheu-se num canto, esperando cansarem de esperar e irem embora.

No meio da noite, aproveitando-se de uma trégua na vigilância da imprensa e curiosos, entrou no carro, pegou a estrada e fugiu do centro da cidade.

Com pouco dinheiro, refugiou-se num casebre antigo, onde costumava ir quando queria se esconder do povaréu. Os pais retornariam em duas semanas, até lá a poeira já teria baixado e ele poderia voltar para sua vidinha de sempre. Pelo menos, torcia por isso.

O primeiro dia foi tranquilo. A velha casa ficava afastada de outras e ele aparentemente estava a salvo. Levara alguns mantimentos. O tanque do carro estava cheio. Ficaria bem. Não havia o que temer.

No segundo dia, Guto escutou passos próximos à janela onde dormia. Pensando tratar-se de algum morador das redondezas, abriu a porta sem medo. Deparou-se com Anita, a jornalista que tentara entrevistá-lo dias antes. A surpresa foi tamanha, que sem pensar duas vezes empurrou-a para fechar a porta e impedi-la de entrar. Os pés de Anita, que haviam subido três degraus para espiar pela fechadura, se desencontraram e perderam o equilíbrio. Ao cair, Anita bateu a cabeça nas pedras pontudas que cercavam um canteirinho tomado pelo mato.  

Guto entrou em pânico ao ver o corpo de Anita estirado em frente ao casebre. Abaixou-se para constatar se ela ainda respirava, quando ouviu gritos do outro lado da rua. Era o fotógrafo, parceiro da jornalista. Percebendo a gravidade da situação, Guto disparou em direção ao seu carro e desapareceu dali.

O fotógrafo chamou a polícia. Apontou Guto como o responsável pela morte de Anita. Deram início a uma caçada para prender o assassino. A morte da jornalista causou comoção nacional. Guto tornou-se um dos foragidos mais procurados. Cartazes foram espalhados por todos os lugares, com sua foto e seu nome completo em letras garrafais.

Ninguém achava mais graça de nada.

Em hipótese alguma ele se entregaria. Na prisão, além de humilhado, ele seria massacrado. Com um nome como o dele, o pior ainda estaria por vir. Puta que pariu - repetia incontáveis vezes, enquanto se embrenhava pelas ruas da cidadezinha em busca de um buraco para se esconder. A rodovia deveria estar bloqueada. Teria que roubar um carro. O que faria? Seria perigoso sair da cidade. Seria perigoso sair para qualquer lugar.

Foi então que lembrou de alguém.

Abandonou o veículo. Colocou seu boné e esgueirando-se pelos becos, pulou o pequeno muro de uma bela casa cor de areia. Na mosca! Lá estava o desgraçado. Olhou em volta. Bem em cima do balcão da pia avistou o que ele precisava. Pegou. E seguiu em busca de seu alvo, sem fazer barulho.

Sentado sozinho na sala, assistindo o noticiário, o homem nem percebeu o vulto que se aproximava com uma faca na mão.

O gerente do banco tinha acabado com a vida de Guto. Agora, chegara a vez dele fazer o mesmo.




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