sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Linha divisória



Ylana abriu a porta e vislumbrou a brancura gelada, que se estendia até onde seus olhos alcançavam. Respirou fundo. Sentiu os açoites do frio e do vento gélidos, atravessarem seu corpo, como alfinetes espetados bruscamente em uma almofada.

Afogada pela claridade da paisagem, desviou a atenção para o homem deitado no sofá em frente à lareira. Dimitri. Uma ebulição de pensamentos ferveu-lhe o cérebro, ao recordar os últimos acontecimentos. Cruzou os braços rente ao corpo, em busca de algum calor e conforto.  

“Por que alguns são mais fortes e outros são mais fracos?”

*  *  *

Conheceu Dimitri em uma galeria de arte em São Paulo. Hipnotizada por uma tela impressionista, perdeu-se em pensamentos longínquos.

Distraída, inclinou-se levemente para conferir o folheto da exposição e ao erguer os olhos deparou-se com ele. Apaixonou-se. E o quis. Simples assim.

Ylana sempre conseguia o que queria. E conseguiu. Cativou Dimitri com seus inúmeros encantos. Depois daquele dia, não se desgrudaram mais.

Quando ele a convidou para conhecer a família que morava distante, Ylana ficou radiante e aceitou prontamente.

Tão logo soube o destino, pulou de alegria. “Sibéria?! Ah, sim, vamos!”

Com ele, iria ao inferno, se preciso fosse.

“E que ele jamais saiba que o inferno sou eu” - rogou a si mesma.

Pela primeira vez Ylana sentia algo bonito por alguém. Mais do que uma necessidade, seu sentimento por Dimitri se intensificava, enchendo-a de esperanças.

“Quem sabe, esse amor me salve desse castigo a que estou condenada” - pediu Ylana em seus pensamentos.

*  *  *

Uma semana depois de chegarem, as coisas começaram a sair dos eixos.

Devidamente instalados em uma confortável pousada, Ylana convenceu Dimitri a aguardarem mais uns dias, pois o clima a golpeara de tal forma, que não se via pronta para o encontro com a família dele.

O oceano branco, além de afetar seu estado de espírito, atingira também seu metabolismo. Inchou e ficou roliça como uma foca.

Tinha receio de sair, escorregar na neve e rolar em avalanche, indo parar numa toca de marmotas.

Sua aparência estava grotesca. Antes, eufórica pela aventura romântica do passeio, agora, absurdamente incomodada. Em hipótese alguma aceitaria ser vista naquele estado lastimável. Queria causar a melhor impressão possível.

Dimitri achava graça e tentava tranquilizá-la de todas as formas. Sem sucesso.

— Ei, você está linda! Com tantas roupas, eu mal consigo ver seu corpo direito. Meus pais não perceberão nada. Relaxa, amor. 

— Linda? Pois eu me sinto horrível! – retrucava Ylana.

A reação despreocupada de Dimitri, diante daquela situação insólita, encheram-na de preocupação. Estava conhecendo um outro Dimitri, sarcástico e zombeteiro. E isso não lhe parecia nada bom.

“Não! Não faça pouco caso de mim. Ele pode acordar....e eu não serei mais dona de meus atos” - implorou Ylana, internamente.

Para seu desespero, continuou inchando, dia após dia.

Alheio ao perigo, Dimitri rolava de rir daquilo tudo.

Por sua vez, Ylana não era mais a mesma. Seu entusiasmo congelara. E todos os sintomas se pronunciavam contundentes, numa sequência de fatos que não mais conseguiria interromper.

Uma vez desencadeado o monstro da jaula, nada poderia ser feito para impedi-lo de agir. Só um milagre!... Mas Ylana não acreditava mais em milagres.  

No correr do tempo, sensações boas e ruins se debatiam dentro dela. E os remédios nessas horas não surtiam mais efeito. O pior acontecera.

Olhou novamente para o corpo inerte sobre o sofá.

Não estava mais no controle. O sangue em suas mãos eram prova disso. 

Teria sido diferente, se Dimitri soubesse dizer a coisa certa, na hora certa. Mas não!... Estragara tudo! Ele era o culpado por não saber lidar com os instintos mundanos que dormiam nela. Novamente o fato se repetira. Pela quarta vez vira soltar-se da jaula, a fera de garras afiadas, cujos remédios mantinham sob inofensiva calma. Uma palavra errada. Um gesto equivocado. Um olhar acusador. Uma atitude suspeita. Um comentário sarcástico. Um sorriso cínico. E pronto! O cadeado se rompia. E o alívio só viria quando o autor da afronta fosse eliminado. 

Antes da tragédia acontecer, tentara avisar Dimitri, pois não queria assustá-lo e nem feri-lo. Porém, ao invés de compreensão, ganhara uma risada irônica como resposta e frases do tipo "todos temos nossos monstros, escondidos em labirintos escuros.”

— Diz isso porque não sabe do que Self é capaz – alertou, assustada.

— Self? Quer dizer que seu bicho papão de estimação tem nome? – debochou ele, rindo alto.

Enquanto Dimitri gargalhava, Ylana pode sentir o cadeado sendo forçado e bem perto de ser rompido. Self escutara! Devia estar enfurecido com aquela provocação. O tratamento, as internações, os remédios para mantê-lo inofensivo nunca eram o suficiente. Nunca!

Quando algo assim acontecia, ela utilizava a técnica aprendida com seu antigo terapeuta - contar de um a cem - e  de cem a duzentos, em casos extremos. Enquanto contava, sua respiração se normalizava, empurrando-o de volta para o fundo.

Mas Self era muito esperto e conhecia o truque de contagem de Ylana. Com sua força redobrada pela fúria, sacudiu a jaula, batendo o cadeado contra as vértebras de Ylana e com mãos vorazes abriu a cela e escalou velozmente até a saída.

Uma vez solto, nada o impediria de silenciar o inimigo: Dimitri.

Indiferente ao terror interno que Ylana vivia, Dimitri, com seu jeito calmo e alegre, continuava rindo, sem acreditar em nada do que ela lhe contava. 

E foi num momento de descuido, que a faca ganhou terreno, perfurando-o no instante exato em que tentara pegar uma xícara de café. Atacado de surpresa, cambaleou. Recuou alguns passos, com as mãos no peito e desabou no sofá.

Ylana afastou-se. Olhou atônita para o corpo sem vida. Abriu a porta, ainda com a faca nas mãos, assimilando lentamente o que acontecera.

Self acompanhara de perto. Assim como ocorrera das outras vezes, resolveria tudo e não deixaria vestígios incriminadores para ambos.

No entanto, dessa vez algo diferente precisaria ser feito. Ylana deixara de ser uma boa hospedeira.   

Em choque, ao ver o corpo de Dimitri, demorou para voltar à realidade.

O telefone tocava insistentemente. “Serão os pais de Dimitri?”

Ao girar o corpo para atender a ligação, Ylana recebeu o primeiro golpe. Tombou sobre o tapete da sala. Um filete de sangue escorreu de sua nuca.

Virou-se, com as últimas energias que lhe restara e encarou seu algoz.

Por quêê??? - perguntou, com voz entrecortada.

Porque eu me tornei mais forte que você - respondeu, Self - golpeando-a novamente.

Algumas horas mais tarde, os corpos de ambos foram encontrados pelos familiares de Dimitri. Assim como, misteriosas pegadas na neve, em direção da região central da cidade.


   

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Uma questão de hombridade


DOIS DIAS olhando para a embalagem. Dois dias hesitando entre descobrir seu conteúdo ou jogá-la no lixo. O cartão dizia apenas: “ABRA, SE FOR HOMEM!”

Não parecia ser uma bomba. Leve demais. Nenhum barulho. Ratos também não. Detestava ratos.

Aproximou-se da mesa e tocou o pacote. Sacudiu. Cheirou. Nada.

Largou a caixa e sentou-se na poltrona. Do que sentia medo, afinal? Era apenas uma inocente caixa. Provavelmente estaria vazia. Mas aquele cartão...

Seria um “presente” de sua ex, revoltada por tê-lo flagrado na cama com sua melhor amiga? Uma mulher rejeitada e traída é sempre um perigo para a integridade física de qualquer homem. Podia ser...

Não. Melhor não arriscar.

TERCEIRO DIA. A caixa ainda em cima da mesa parecia implorar para que ele a abrisse de uma vez. Só uma caixa. O que poderia acontecer? Afinal, ele era um homem, ou um rato? Não, rato não!!!

Pensando bem, as mulheres não se vingam enviando ratos. As estatísticas comprovam que os métodos de vingança utilizados por elas são outros, bem mais cruéis e tão roedores quanto os roedores. Se bem que.... sempre existem exceções.

Deixou a caixa onde estava e foi assistir televisão.

No QUARTO DIA ele inflou o peito, pegou uma tesoura e cortou a fita. Respirou fundo. Precisava ser muito macho para tomar aquela atitude. Sim! E se tivesse algo venenoso dentro? Deveria levar a caixa para a polícia averiguar? Não. Ele faria o que precisava ser feito. Tinha coragem suficiente para isso.

Daí, lembrou da frase no cartão. Coçou a cabeça. Pensou. Para que tanta pressa? A caixa não ia fugir. Largou a tesoura. Foi tomar uma cerveja.

QUINTO DIA. Bateu no peito e gritou: “NÃO TENHO MEDO DESTA CAIXA!” Rasgou o papel com força. Segurou o pacote bem firme e abriu num supetão.

Dentro, vários papéis picados e um outro cartão que dizia:

"Assim que abrir a caixa, telefone pra mim. Fizemos uma aposta que você abriria no primeiro dia, já que adora contar vantagens dizendo não ter medo de nada. Assinado, seu amigo de pescarias." 







domingo, 17 de agosto de 2014

Serenata Azul




Serenata Azul

Observa-me o mar

entoando brisas azuis

e com seu jeito maroto

pesca o meu olhar.


Rosa Mattos


sexta-feira, 11 de abril de 2014

A rebelião


Quando o Autoritário mudou a máquina de café de seu local habitual e instalou-a próximo de sua sala, desagradou de imediato os funcionários do segundo andar.
— Mudou de local, por quê?  quis saber a Enxerida.
— Para ficar mais perto dele, é claro. Ele adora café!  respondeu o Bajulador.
— Mas isto é uma arbitrariedade!  gritou o Indignado. Vamos convocar uma reunião com o Autoritário, para discutirmos o assunto com a presença de todos os descontentes.
As qualidades não quiseram participar, alegando ser o motivo totalmente infundado para tanto alvoroço.
Os defeitos discordaram, veementemente. Insistiam em mostrar seu desagrado.
Assim fizeram. Já na sala de reuniões, iniciaram as reclamações.
O Covarde entrou e sentou-se bem distante de todos, não expondo sua opinião uma única vez.
O Exaltado quase quebrou a jarra d’água, ao bater na mesa com força e declarar sua revolta com aquele ato prepotente.
O Autoritário, que já encontrava-se a postos em sua belíssima poltrona, levantou-se, cheio de autoridade, disparando:
— Como ousam se rebelar contra uma ordem minha? A máquina vai ficar onde eu quiser e pronto! Quem não estiver satisfeito, pode mudar de setor, ou de empresa,  como queiram.
Ao ouvir tanto autoritarismo, vindo do mesmo Autoritário, os defeitos silenciaram.
Repensariam suas reivindicações. Perder o emprego por causa de uma máquina de café? Que bobagem seria. Só porque teriam de caminhar uns metros a mais?
Intimidados pela ameaça, retornaram cabisbaixos para seus cubículos.
Porém, inconformados, arquitetaram uma retaliação feroz.
No dia seguinte, colocando o plano em prática, Ardiloso e Dissimulado, dirigiram-se até a sala do Autoritário e desmancharam-se em desculpas e palavras gentis. Disseram que ele tinha toda a razão em mudar a máquina de lugar, que agora realmente ficara bem melhor, etc e tal. Falaram ainda, que até o café parecia com outro sabor. Devia ser a nova localização. Talvez a instalação elétrica fosse ali mais adequada. Enfim, adularam, até não poder mais.
O Autoritário, que gostava de ver suas ordens acatadas, ficou satisfeito e deu o assunto por encerrado.
Não sabia ele, que no quinto andar, onde ficava a sala do diretor-presidente, sua transferência estava sendo articulada.
Usando todo o seu poder de sedução, com sua volúpia e sensualidade, Lasciva convencia o grande chefe a transferir o Autoritário de setor, deslocando-o para outra função. Talvez outro andar. Melhor mesmo seria outra sede. Quem sabe, para uma filial em outra cidade. 
Já no dia seguinte, um memorando chegava às mãos do Autoritário com a novidade. Devia retirar-se imediatamente de sua sala e dirigir-se ao quinto andar. Outra pessoa ocuparia seu posto e os assuntos dali não lhe diziam mais respeito.
Assim foi feito.
O novo Autoritário - que não era tão autoritário assim - recolocou a máquina de café em seu antigo lugar.
E tudo voltou ao normal.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Complexo


Gumercindo do Rego Grande odiava o próprio nome. Todos o conheciam pelo apelido, Guto. Chamá-lo pelo nome completo seria pedir briga na certa. Na escola, fora um problema quase diário. E quanto mais ele se irritava com as zombarias dos colegas, mais eles o caçoavam.

Com o sobrenome Rego, a mãe jamais deveria ter se casado com Almir Pereira Grande. E por que não pensaram no filho, quando foram registrá-lo? Cruelmente selaram seu destino, em cirandas de tormentos intermináveis. 

Bem que tentou adotar o codinome Guto Grande, informalmente, mas também não foi muito feliz. Pediam sua identidade e o desmascaravam, saboreando o momento com satisfação. As risadinhas infalíveis surgiam nos cantos das bocas.

Se ele fosse um cínico, tudo seria tão simples. Bastaria rir dele mesmo, da situação, da cilada em que se metera. Mas Guto era a seriedade esculpida em bronze. Não achava graça alguma.

Passaram-se os anos. Guto seguiu levando a vida, como a vida permitia. Ora esbravejando, ora tentando, num esforço hercúleo, parecer indiferente, diante dos inevitáveis gracejos.

Um dia, sem saber bem porquê, comprou um bilhete da loteria. Para seu  espanto, acertou em cheio. Ficou eufórico. Ainda mais quando soube tratar-se de uma fortuna considerável.

“Estou rico! Posso mudar de país, me tornar anônimo e ser quem eu quiser! Posso tudo!” – comemorou, aos gritos.

No dia seguinte, ansioso em pegar a bolada e dar um novo rumo para sua vida, apresentou-se para identificar-se e receber o prêmio. Depois das formalidades iniciais, o gerente do banco pediu-lhe os documentos, pois tinha de verificar a autenticidade e preencher toda a papelada. "Uma burocracia indispensável. O senhor entende, não é senhor... Gumercindo do Rego Grande" – disse-lhe, com um risinho incontido.

O sangue ferveu no corpo de Guto e subiu-lhe à cabeça todo ao mesmo tempo, borbulhando, deixando seu rosto num braseiro. Ficou por instantes paralisado na cadeira, olhando aquele homem, internamente rindo dele. Olhou para o abridor de cartas, em cima da mesa, bem ao alcance de sua mão. Esticou o braço. Sim, faria um bom estrago se cravasse o objeto pontiagudo na garganta daquele estupor.

Ao invés disso, levantou-se. Puxou o bilhete premiado das mãos do desgraçado. Pegou os documentos, colocou tudo no bolso e saiu do banco caminhando até a saída, com passos firmes. 

Chegando em casa, queimou aquele papel maldito, que o fizera passar por mais uma humilhação. Com certeza o assunto ficaria dentro dele por vários dias, até ser substituído por alguma outra situação constrangedora. 

Guto, no entanto, desconhecia o fato de que o gerente do banco havia passado para frente a informação do ocorrido. Em poucas horas, a notícia ganhou pernas, espalhando-se pela cidade. Tuitaram o episódio e transformaram Guto no assunto mais falado do momento.

Sua fama correu velozmente por todos os cantos do país. Emissoras de televisão tentavam entrevistá-lo, para entenderem tamanha sandice. O calvário estava prestes a se tornar ainda maior do que já era. Ele agora teria que conviver com mais um dilema: o nome que odiava desde pequeno e o fato de ter sido milionário por apenas alguns minutos. Não haveria lugar no mundo distante o bastante para que pudesse viver em paz.

O telefone não parava de tocar. Jornalistas acampavam em sua porta, insistindo por uma coletiva. Ainda bem que os pais estavam viajando.

Sozinho, acuado, desesperado, cerrou cortinas, apagou luzes, encolheu-se num canto, esperando cansarem de esperar e irem embora.

No meio da noite, aproveitando-se de uma trégua na vigilância da imprensa e curiosos, entrou no carro, pegou a estrada e fugiu do centro da cidade.

Com pouco dinheiro, refugiou-se num casebre antigo, onde costumava ir quando queria se esconder do povaréu. Os pais retornariam em duas semanas, até lá a poeira já teria baixado e ele poderia voltar para sua vidinha de sempre. Pelo menos, torcia por isso.

O primeiro dia foi tranquilo. A velha casa ficava afastada de outras e ele aparentemente estava a salvo. Levara alguns mantimentos. O tanque do carro estava cheio. Ficaria bem. Não havia o que temer.

No segundo dia, Guto escutou passos próximos à janela onde dormia. Pensando tratar-se de algum morador das redondezas, abriu a porta sem medo. Deparou-se com Anita, a jornalista que tentara entrevistá-lo dias antes. A surpresa foi tamanha, que sem pensar duas vezes empurrou-a para fechar a porta e impedi-la de entrar. Os pés de Anita, que haviam subido três degraus para espiar pela fechadura, se desencontraram e perderam o equilíbrio. Ao cair, Anita bateu a cabeça nas pedras pontudas que cercavam um canteirinho tomado pelo mato.  

Guto entrou em pânico ao ver o corpo de Anita estirado em frente ao casebre. Abaixou-se para constatar se ela ainda respirava, quando ouviu gritos do outro lado da rua. Era o fotógrafo, parceiro da jornalista. Percebendo a gravidade da situação, Guto disparou em direção ao seu carro e desapareceu dali.

O fotógrafo chamou a polícia. Apontou Guto como o responsável pela morte de Anita. Deram início a uma caçada para prender o assassino. A morte da jornalista causou comoção nacional. Guto tornou-se um dos foragidos mais procurados. Cartazes foram espalhados por todos os lugares, com sua foto e seu nome completo em letras garrafais.

Ninguém achava mais graça de nada.

Em hipótese alguma ele se entregaria. Na prisão, além de humilhado, ele seria massacrado. Com um nome como o dele, o pior ainda estaria por vir. Puta que pariu - repetia incontáveis vezes, enquanto se embrenhava pelas ruas da cidadezinha em busca de um buraco para se esconder. A rodovia deveria estar bloqueada. Teria que roubar um carro. O que faria? Seria perigoso sair da cidade. Seria perigoso sair para qualquer lugar.

Foi então que lembrou de alguém.

Abandonou o veículo. Colocou seu boné e esgueirando-se pelos becos, pulou o pequeno muro de uma bela casa cor de areia. Na mosca! Lá estava o desgraçado. Olhou em volta. Bem em cima do balcão da pia avistou o que ele precisava. Pegou. E seguiu em busca de seu alvo, sem fazer barulho.

Sentado sozinho na sala, assistindo o noticiário, o homem nem percebeu o vulto que se aproximava com uma faca na mão.

O gerente do banco tinha acabado com a vida de Guto. Agora, chegara a vez dele fazer o mesmo.




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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Primaveril



Da janela me encanto, com o jardim floreado
um tapete bordado, de fragrâncias estampado

   são tão lindas as cores, de suaves perfumes  
não resisto em tê-las, disparo para colhê-las

meus dedos feito anzol, içam hastes viçosas
repousadas aos braços, se deitam formosas

acomodadas num vaso, se agrupam festivas
é a primavera - tornando as vidas mais vivas


Rosa Mattos






terça-feira, 30 de julho de 2013

Silêncio


"O QUE É O SILÊNCIO?" O grande cartaz na parede esquerda, ao lado das escadarias do metrô, chamou a atenção de Emily. Leu as palavras gigantes e continuou caminhando apressada, pois estava atrasadíssima para um compromisso importante.

Seus pés seguiram o curso, enquanto sua mente repetia a pergunta. "O que é o silêncio?" Ora, o silêncio é a ausência de sons - respondeu-se. 

Num primeiro momento considerou a questão simplória e extremamente óbvia. No entanto, uma intrigante interrogação persistiu. Seria o silêncio mais do que a falta de ruídos? Talvez ela devesse analisar por outro prisma. Poderia a falta de sons representar o medo, por exemplo. O silêncio talvez seja o mistério, o embaraço, o temor, a precaução, o respeito, a veneração. Silenciar pode ser um subterfúgio, camuflado por aparente reflexão - ou educação? De qualquer modo, o silêncio instiga e exaspera, tanto quanto sossega e aniquila.

Pessoas muito quietas inspiram curiosidades: "Em que está pensando?" Tendo nós mesmos como parâmetro, concluímos que se alguém não fala é porque está escondendo algo. Deduzimos desta forma, porque fazemos isso. Calamos por fora, porém, continuamos falando por dentro. Alguns pensam e não revelam - ou afirmam não estarem pensando em nada. Ora, mesmo quando não tem importância alguma, importa. Queremos saber!   

Calar é passar a vez, para poder escutar. No entanto, nem sempre quem não está falando, está escutando. É comum, muitos falarem e ninguém se ouvir - continuou Emily, em seus devaneios.

Deveria ser assim, ao menos. Quanto mais ansioso, mais falante, então? Ao pensar isso, Emily riu interiormente. Ela se considerava boa ouvinte, embora ficasse reorganizando seus pensamentos, enquanto o interlocutor se expressava. Normal. Todo mundo faz assim, não é mesmo? É dificil desligar nosso estímulo cerebral enquanto ouvimos. Escutar o outro com cem por cento de atenção - quem consegue? Seria como entrar na cabeça de quem está falando. E para isso, precisaríamos abandonar a nossa. Não é fácil esquecermos de nós e nos deixarmos de lado.

Um minuto de silêncio. Mesmo em eventos onde pedem um minuto de silêncio, os sons não cessam. Emily já estava confortavelmente instalada na cadeira do dentista, sem no entanto deixar de meditar sobre o assunto. Haveria uma resposta para a pergunta do cartaz? Talvez fosse uma chamada para lançamento de algum produto novo. É mesmo!.... nem lera o que estava escrito nas letras menores. Passaria por lá novamente e mataria a charada.

*  *  *

Atravessou a plataforma do metrô quase correndo, impulsionada pela curiosidade em saber do que se tratava o anúncio. E quando postou-se em frente ao cartaz, percebeu que nas letras menores estava escrito apenas: "VOCÊ SABE?" 

Emily não podia negar que ficara decepcionada. Sentiu-se vítima de uma pegadinha.
  
E depois daquele dia, passou a pensar umas três vezes, antes de pensar demais. 


A editora Dracaena está em fase de finalização do meu livro Paredes Vivas. É minha estreia como romancista.
Em algumas semanas ele será lançado, mas já tenho a capa pronta pra verem como será. Que acharam?
Para saber mais (sinopse, curiosidades, atualizações, Skoob, etc.), clique nos links abaixo:

Fanpage do livro Paredes Vivas                          Paredes Vivas está no Skoob 


quinta-feira, 13 de junho de 2013

A magia de ler


pintura de Vladimir Volegov

Encontro nos livros, uma ponte 
para um mundo de sonhos,
que meus olhos não se
cansam de sonhar.