Gumercindo do Rego Grande odiava o próprio nome. Todos o conheciam
pelo apelido, Guto. Chamá-lo pelo nome completo seria pedir briga na certa. Na
escola, fora um problema quase diário. E quanto mais ele se irritava com as
zombarias dos colegas, mais eles o caçoavam.
Com o sobrenome Rego, a mãe jamais deveria ter se casado com Almir
Pereira Grande. E por que não pensaram no filho, quando foram registrá-lo?
Cruelmente selaram seu destino, em cirandas de tormentos intermináveis.
Bem que tentou adotar o codinome Guto Grande, informalmente, mas
também não foi muito feliz. Pediam sua identidade e o desmascaravam, saboreando
o momento com satisfação. As risadinhas infalíveis surgiam nos cantos das
bocas.
Se ele fosse um cínico, tudo seria tão simples. Bastaria rir dele
mesmo, da situação, da cilada em que se metera. Mas Guto era a seriedade
esculpida em bronze. Não achava graça alguma.
Passaram-se os anos. Guto seguiu levando a vida, como a vida
permitia. Ora esbravejando, ora tentando, num esforço hercúleo, parecer
indiferente, diante dos inevitáveis gracejos.
Um dia, sem saber bem porquê, comprou um bilhete da loteria. Para
seu espanto, acertou em cheio. Ficou eufórico. Ainda mais quando soube
tratar-se de uma fortuna considerável.
“Estou rico! Posso mudar de país, me tornar anônimo e ser quem eu
quiser! Posso tudo!” – comemorou, aos gritos.
No dia seguinte, ansioso em pegar a bolada e dar um novo rumo para
sua vida, apresentou-se para identificar-se e receber o prêmio. Depois das
formalidades iniciais, o gerente do banco pediu-lhe os documentos, pois tinha
de verificar a autenticidade e preencher toda a papelada. "Uma burocracia
indispensável. O senhor entende, não é senhor... Gumercindo do Rego
Grande" – disse-lhe, com um risinho incontido.
O sangue ferveu no corpo de Guto e subiu-lhe à cabeça todo ao
mesmo tempo, borbulhando, deixando seu rosto num braseiro. Ficou por instantes
paralisado na cadeira, olhando aquele homem, internamente rindo dele. Olhou
para o abridor de cartas, em cima da mesa, bem ao alcance de sua mão. Esticou o
braço. Sim, faria um bom estrago se cravasse o objeto pontiagudo na garganta
daquele estupor.
Ao invés disso, levantou-se. Puxou o bilhete premiado das mãos do
desgraçado. Pegou os documentos, colocou tudo no bolso e saiu do banco
caminhando até a saída, com passos firmes.
Chegando em casa, queimou aquele papel maldito, que o fizera
passar por mais uma humilhação. Com certeza o assunto ficaria dentro dele por
vários dias, até ser substituído por alguma outra situação constrangedora.
Guto, no entanto, desconhecia o fato de que o gerente do banco
havia passado para frente a informação do ocorrido. Em poucas horas, a notícia
ganhou pernas, espalhando-se pela cidade. Tuitaram o episódio e
transformaram Guto no assunto mais falado do momento.
Sua fama correu velozmente por todos os cantos do país. Emissoras
de televisão tentavam entrevistá-lo, para entenderem tamanha sandice. O
calvário estava prestes a se tornar ainda maior do que já era. Ele agora teria
que conviver com mais um dilema: o nome que odiava desde pequeno e o fato de
ter sido milionário por apenas alguns minutos. Não haveria lugar no mundo
distante o bastante para que pudesse viver em paz.
O telefone não parava de tocar. Jornalistas acampavam em sua
porta, insistindo por uma coletiva. Ainda bem que os pais estavam viajando.
Sozinho, acuado, desesperado, cerrou cortinas, apagou luzes,
encolheu-se num canto, esperando cansarem de esperar e irem embora.
No meio da noite, aproveitando-se de uma trégua na vigilância da
imprensa e curiosos, entrou no carro, pegou a estrada e fugiu do centro da
cidade.
Com pouco dinheiro, refugiou-se num casebre antigo, onde costumava
ir quando queria se esconder do povaréu. Os pais retornariam em duas semanas,
até lá a poeira já teria baixado e ele poderia voltar para sua vidinha de
sempre. Pelo menos, torcia por isso.
O primeiro dia foi tranquilo. A velha casa ficava afastada de
outras e ele aparentemente estava a salvo. Levara alguns mantimentos. O tanque
do carro estava cheio. Ficaria bem. Não havia o que temer.
No segundo dia, Guto escutou passos próximos à janela onde dormia.
Pensando tratar-se de algum morador das redondezas, abriu a porta sem medo.
Deparou-se com Anita, a jornalista que tentara entrevistá-lo dias antes. A
surpresa foi tamanha, que sem pensar duas vezes empurrou-a para fechar a porta
e impedi-la de entrar. Os pés de Anita, que haviam subido três degraus para
espiar pela fechadura, se desencontraram e perderam o equilíbrio. Ao cair,
Anita bateu a cabeça nas pedras pontudas que cercavam um canteirinho tomado
pelo mato.
Guto entrou em pânico ao ver o corpo de Anita estirado em frente
ao casebre. Abaixou-se para constatar se ela ainda respirava, quando ouviu
gritos do outro lado da rua. Era o fotógrafo, parceiro da jornalista.
Percebendo a gravidade da situação, Guto disparou em direção ao seu carro e
desapareceu dali.
O fotógrafo chamou a polícia. Apontou Guto como o responsável pela
morte de Anita. Deram início a uma caçada para prender o assassino. A morte da
jornalista causou comoção nacional. Guto tornou-se um dos foragidos mais
procurados. Cartazes foram espalhados por todos os lugares, com sua foto e seu
nome completo em letras garrafais.
Ninguém achava mais graça de nada.
Em hipótese alguma ele se entregaria. Na prisão, além de
humilhado, ele seria massacrado. Com um nome como o dele, o pior ainda estaria
por vir. Puta que pariu - repetia incontáveis vezes, enquanto se
embrenhava pelas ruas da cidadezinha em busca de um buraco para se esconder. A
rodovia deveria estar bloqueada. Teria que roubar um carro. O que faria? Seria
perigoso sair da cidade. Seria perigoso sair para qualquer lugar.
Foi então que lembrou de alguém.
Abandonou o veículo. Colocou seu boné e esgueirando-se pelos
becos, pulou o pequeno muro de uma bela casa cor de areia. Na mosca! Lá estava
o desgraçado. Olhou em volta. Bem em cima do balcão da pia avistou o que ele
precisava. Pegou. E seguiu em busca de seu alvo, sem fazer barulho.
Sentado sozinho na sala, assistindo o noticiário, o homem nem percebeu o vulto
que se aproximava com uma faca na mão.
O gerente do banco
tinha acabado com a vida de Guto. Agora, chegara a vez dele fazer o mesmo.
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