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| by Tania-S deviantART |
Quando Joana viu a foto dele no jornal, soube de imediato estar diante do amor de sua vida. Cabelos grisalhos, olhar inteligente, expressão tranquila e confiável. Um psicanalista renomado. "Que homem fascinante!" - pensou.
Depois disso, esforçou-se para concentrar-se no trabalho, mas logo vinha a imagem dele, fazendo seus pensamentos se perderem em sonhos impossíveis.
Os dias transcorriam monótonos. Como um autômato, cumpria sua rotina enfadonha. Um trabalho tedioso e o retorno para uma casa vazia. Entre um e outro, a visão do médico a seguia.
Precisava fazer algo, não conseguia mais raciocinar direito, só pensava nele, o tempo todo. Pesquisou o telefone da clínica onde ele atendia e num ímpeto de ousadia, marcou uma consulta. Um médico famoso, muito requisitado, cujo valor cobrado era uma exorbitância. Isto, porém, não a fez recuar.
Semanas de espera, ansiedade e muita fantasia. O que diria para ele? Deveria pensar em algo, inventar um problema qualquer. Afinal, se marcara a consulta, é porque precisava de ajuda. Resolveu criar um personagem, assim como num filme. Inventaria uma história e exporia seu drama. Dupla personalidade, talvez tripla, quem sabe! Não seria difícil convencê-lo, fingindo um comportamento ambíguo e desequilibrado - presumiu Joana, animada.
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Finalmente, chegou o dia.
Entrou na sala, bastante nervosa, preocupada em não esquecer o texto ensaiado.
Quando viu-se frente a frente com seu amor, as pernas tremeram e seus sentimentos anteriores se confirmaram. Ele era realmente o que seus sentidos lhe diziam e muito mais.
Alheio a este vendaval de emoções, doutor Kessler iniciou fazendo algumas perguntas de praxe.
Por sua vez, acomodada em uma poltrona muito macia e confortável, Joana, em disfarçado êxtase, preparou-se para ser analisada.
Ouvia tudo, como num transe. Queria ficar ali, naquela poltrona, escutando aquela voz maravilhosa. Precisava ser extremamente convincente, para que fosse marcada uma nova consulta. Contava com isso. Falou então de suas personalidades conflitantes, das vozes em sua mente, dos desejos suicidas, das paranoias, de sua fixação pela morte, do seu inusitado gosto por sangue e de uma vontade demoníaca em ferir quem estivesse próximo.
Talvez tivesse exagerado um pouquinho ao descrever os sintomas, mas estava tão desesperada diante da possibilidade de nunca mais vê-lo, que seguiu seu plano e falou, falou...
Encerrado o tempo, para sua satisfação, agendaram uma nova data. Doutor Kessler disse ser ainda prematuro firmar um diagnóstico sobre seu caso. Ela, concordou de imediato. Sairia mais caro do que seu salário suportava. Daria um jeito. Estava apaixonada de forma arrebatadora. Não queria ser curada, queria ser eternamente analisada por ele. A cada seção, revelaria sentimentos ainda mais delirantes e catatônicos.
Na próxima consulta, Joana extrapolou em narrativas, evidenciando sua personalidade psicótica. Doutor Kessler escutava, atento, fazendo anotações, vez ou outra.
Sem perceber a seriedade da situação, Joana continuava seus relatos.
Durante meses compareceu ao consultório, para ficar perto de seu analista. Desfiava suas histórias, ricamente detalhadas, antecipadamente estudadas. Não queria interromper o tratamento, tinha de fazê-lo deduzir que seu caso era grave, só assim poderia vê-lo continuamente.
Obcecada, não conseguia mais se soltar da teia em que se enredara.
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Um dia, doutor Kessler a recebeu com uma expressão mais compenetrada e anunciou a novidade. Finalmente, concluíra seu diagnóstico: esquizofrenia paranoica.
Joana até sorriu, desnorteada.
— Sinto informar-lhe que o tratamento requer internação imediata. Minha equipe já foi acionada e deve levá-la agora mesmo para o Hospital Psiquiátrico, onde ficará sob cuidados extremos, até termos certeza de que não representará mais nenhum perigo para si e para a sociedade. Não se preocupe, cuidaremos bem de você.
Em seguida, dois homens entraram e a conduziram, em estado de choque, para uma ambulância que aguardava em frente ao consultório.
Tentou durante meses provar sua sanidade mental, até desistir, acreditando que realmente tinha enlouquecido e aquele era mesmo seu lugar, dali em diante.
Se ao menos seu amor fosse visitá-la, teria suportado a clausura e a convivência entre tantos dementes. Isto tinha sido o pior - ficar sem ele foi o seu fim.
Joana nunca mais o viu.
Durante a noite, gritava que o amava e um dia ainda ficariam juntos. Seus gritos ecoavam pelas alas. Seu pranto não comovia ninguém.
Parou de comer. E quando lhe forçavam a alimentar-se, vomitava. Perdera seu amor. Perdera seu alimento.
Não resistiu um ano naquelas condições e faleceu, sem conseguir esclarecer aquele equívoco.
"Fiz por amor" - repetiu, vezes e vezes, antes de silenciar por completo.