sexta-feira, 29 de junho de 2012

Se o copo transbordou...


A culpa foi da água, que fez uma tempestade, achando que o copo era o mar.

Não houve culpados - o copo é que ficou pequeno demais para os dois. E ele não tem culpa de ser do tamanho que é. Cada um deve aprender a lidar com suas limitações.

Na verdade, a água se encheu do copo e foi comprar umas gotículas no garrafão da esquina, sedenta para beber algo novo, porque estava afogada naquela rotina insípida. Inundou-se com as novidades e nunca mais voltou.

Analisando bem, o limite da água termina na borda do copo, o que prova que a água além de ser incolor, também era cega e não enxergou até onde poderia ir.

O problema é que todas as águas são iguais – elas molham!

Estava escrito em grandes respingos no oceano, que um dia aquela água toda iria transbordar. Pois o que é excessivo, uma hora ou outra excederá. Fato!

A sina da água era cair do copo, pois é caindo que se aprende.

O importante não foi a água que transbordou, mas aquela que permaneceu encharcada de si, dentro do copo.

Sim, o copo poderia ter evitado o derramamento, se ele fosse uma jarra.

Pensando bem, tudo que é demais - é demais!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Paralelos que se Abrem

 
Anoiteceu. Sentei-me e abri as janelas. Esperei
Um cenário de cores e sons logo me arrebatam
O céu está limpo e as estrelas passeiam felizes
Vagueio como uma pluma levada pela ventania

Suspensa por fios invisíveis procuro por alguém
Sinto fome da presença dele. Aguardo, ansiosa
Enquanto isso, fico na orla comendo horizontes

Então, ele vem! 
 reluzente, das frestas do infinito

Tímida e dócil feito uma chinchila, pulo as ondas
E me alimento dele  e  de seus náufragos afagos
Mergulhando num doce momento, real e sublime
Depois, fecho as janelas e desligo o computador


sábado, 7 de janeiro de 2012

No mar, o tempo nada...



Mergulhado no mais profundo vazio, recuava ante o toque das gentes, o encostar das mãos e o cheiro do povaréu.

Daí, que partiu mar adentro, onde a natureza segue, na correnteza viva, mas sem gentes.[ou quase]

Quanto mais se afastava das multidões, mais sentia-se parte do oceano e satisfeito como jamais estivera.

Por lá ficou, navegando dias sem fim, no barco à deriva, alimentando-se de isolamento e de imensidão azul.

Até certa manhã, em que despertou novamente entediado com a própria existência, esbravejando para seu reflexo na água: “O que sou, afinal?”

O oceano parecia responder, com o barulho das ondas: nada! tudo! nada! tudo!...

Ciente de que onde quer que fosse, levaria gente com ele, sendo gente ele também, mergulhou até o fundo e num peixe se tornou.



sábado, 3 de dezembro de 2011

Só não previu o imprevisto


Nascera sob o signo da exuberância. Bela, ousada, sem papas na língua. Extravagante e impetuosa, vive o cotidiano com tamanha fúria, que não raro se corta e se perfura. Expurga emoções pelos poros, estampando no corpo diversas tatuagens. Tudo que ama, gravado na pele. Assim é Karla.



Alma aberta, como asas de um anjo, sedenta e faminta por prazeres inéditos. Provoca, avança e jamais se retrai. Valoriza a busca e devora o achado. E quando o risco se torna previsível, abandona o oásis, solta um palavrão e segue em frente, esvoaçando seus longos cabelos lisos e negros. 

A todos se intitula punk, rebelde e transgressora, mas quando está só em seu quarto, chora todas as dores do mundo, ao som do mais pesado metal.

Ela queria mais tempo, mas a vida é breve. Cada dia a mais, é um dia a menos. Não há tempo algum a perder e este é seu jeito de viver os dias que lhe restam.

Sim... faltam mais seis meses. Seis meses!!!...

Sonha desde pequena o mesmo sonho. Sabe que aos vinte irá morrer. E isso já não mais a atemoriza. 

"Como seria, se todos soubéssemos o instante da expiração, quando o ar falta e tudo fenece?"

Pensava nisso, ao caminhar distraidamente pela calçada, quando uma placa de anúncio desprende-se da fachada de um prédio e desaba em sua cabeça.

Um estouro. Sangue. O sangue de seu corpo indo embora.

Imóvel no chão, os olhos perplexos, vê as nuvens se movendo, formando o desenho de um anjo.

Se não estivesse se sentindo tão ludibriada, teria achado lindo.   

— “Que merdaaaaa....!”



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

À mercê

Eu realmente acreditava que a minha vida fosse minha, até sofrer um grave acidente e ficar dos pés à cabeça nas mãos de médicos e enfermeiros.

Fiquei entregue aos cuidados de estranhos, durante cinco semanas. Para eles eu era apenas mais uma vida a ser salva. Para mim, eles eram intrusos indesejáveis. Entravam no quarto a qualquer hora. Viravam meu corpo para todo lado. Injetavam-me líquidos misteriosos. Carregavam-me para salas de exames. Despiam-me. Preparavam-me para cirurgia. Devolviam-me para o quarto. Retiravam meus excrementos. Limpavam-me. Davam-me comprimidos, que eu ingeria febrilmente. 

Decidiam por mim, o que era melhor para mim.

Todos os quereres de antes, mudam de posição, depois que se cai numa cama de hospital. Afinal, um paciente não tem querer. Para melhorar, precisa obedecer.

É curioso como os pudores e constrangimentos iniciais, desaparecem à medida que os dias seguem. Quando se corre risco de morte, envergonhar-se por não estar depilada, ou qualquer coisinha desse tipo, nem teria cabimento. 

Engraçado lembrar disso, porque eu estava atravessando a avenida correndo entre os carros, para não perder o horário com a manicure.   

Pensando bem, sempre estive viva por um fio. Mas agia como se viver dependesse de minhas ações e que a responsabilidade por meus atos eram resultado das escolhas que eu fazia.

Sobram muitas horas para se pensar, enquanto se aguarda os ferimentos cicatrizarem. 

"É de vital importância que os órgãos vitais se revitalizem." - dissera-me o médico.  

Não tinha graça, mas eu ri.

E enquanto o organismo se recompõe, a mente segue trabalhando a todo vapor. Acho que nunca pensei tanto, como nos dias em que fiquei internada.

»«   

Quando recebi alta, estranhei a cadeira de rodas. Ajudada por familiares, despedi-me da equipe médica. Agradeci por terem se empenhado em me devolverem à vida. Ainda teria que fazer fisioterapia, para me adaptar à nova condição.

Eu nunca mais poderia andar. Eu nunca mais poderia correr entre os carros.

Acenei. E parti, para viver uma vida desconhecida. 


« FIM »  



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Mudando o ponto de vista

Fosse a porta uma janela e precisaria de cortinas. Mas a porta é uma porta e não uma janela. E por que iria querer ser algo que não é? Para saber como é ser o que não é? Pois até seria possível deixar de ser uma porta e se tornar uma janela, bastaria uma reforma estrutural. A questão é - a porta quer tanto assim ser uma janela? Talvez tenha lido poemas demais, a tal porta. Vá saber! Pode ter achado lindo "os olhos são a janela da alma". Janelas possuem status de contemplação - portas não. Ninguém diz "que vista linda tenho desta porta!", não é mesmo? Quase nunca se ouve isso.

Vai daí que um belo dia a porta quis se tornar uma janela. Refletiu junto ao madeirame e o batente e decidiu: "quero deslumbrar!" "quero cortinas!" "quero avistar!"

E não é que a danada da porta levou adiante o intento e passou por uma reforma mesmo? Incrível como se consegue mudar, quando se quer mudar. Não foi fácil deixar de ser o que sempre tinha sido. Afinal, tantos anos suportando batidas ao sabor dos humores alheios, que acostumara-se. Uma porta suporta, pois fora feito porta.

Analisava os pormenores de sua situação enquanto porta, quando se deu conta que além da falta de glamour também vez ou outra escutava gracejos do tipo "é burra feito uma porta". Mas hein... como podem ser tão cruéis! Ela só estava cumprindo sua função, poxa! Até os cupins sabiam disso. Ah, se fosse um cupim e não uma porta, sua existência seria melhor?

Ei, nada de perder o foco!

Dias depois já não era mais uma porta. Agora sim, sua vista era outra. Uma vista digna de admiração. Sem contar que ganhara uma cortina, um ornamento rendado e alguns trelelês balouçantes. Ahh, que maravilha era ser uma janela. Braços apoiavam-se por longos minutos e às vezes pássaros repousavam tranquilos sobre o pequeno beiral. Ser janela era muito, mas muito melhor que ser porta. Só mesmo uma janela que já foi um dia uma porta consegue entender.

Enfim, a vista é bela!



domingo, 29 de maio de 2011

Sobejamente

foto da internet, mas o sangue fui eu que coloquei


                                      Já fiz muitos versos tecidos a choros
                                            Cheios de dores carimbadas no couro
                                                  Macerados em estertores epilépticos

                                    Asfixiantes estrofes em decomposição
                               Como veias esticadas no varal da vida
                           Inoperáveis chagas vertendo à mostra

                                          O que fica nem sempre é o que sobra
                                             Se o tormento quer emergir - deixe vir!
                                                As palavras podem ser tudo que resta