Eu realmente acreditava que a minha vida fosse minha, até sofrer um grave acidente e ficar dos pés à cabeça nas mãos de médicos e enfermeiros.
Fiquei entregue aos cuidados de estranhos, durante cinco semanas. Para eles eu era apenas mais uma vida a ser salva. Para mim, eles eram intrusos indesejáveis. Entravam no quarto a qualquer hora. Viravam meu corpo para todo lado. Injetavam-me líquidos misteriosos. Carregavam-me para salas de exames. Despiam-me. Preparavam-me para cirurgia. Devolviam-me para o quarto. Retiravam meus excrementos. Limpavam-me. Davam-me comprimidos, que eu ingeria febrilmente.
Decidiam por mim, o que era melhor para mim.
Todos os quereres de antes, mudam de posição, depois que se cai numa cama de hospital. Afinal, um paciente não tem querer. Para melhorar, precisa obedecer.
É curioso como os pudores e constrangimentos iniciais, desaparecem à medida que os dias seguem. Quando se corre risco de morte, envergonhar-se por não estar depilada, ou qualquer coisinha desse tipo, nem teria cabimento.
Engraçado lembrar disso, porque eu estava atravessando a avenida correndo entre os carros, para não perder o horário com a manicure.
Pensando bem, sempre estive viva por um fio. Mas agia como se viver dependesse de minhas ações e que a responsabilidade por meus atos eram resultado das escolhas que eu fazia.
Sobram muitas horas para se pensar, enquanto se aguarda os ferimentos cicatrizarem.
"É de vital importância que os órgãos vitais se revitalizem." - dissera-me o médico.
Não tinha graça, mas eu ri.
Não tinha graça, mas eu ri.
E enquanto o organismo se recompõe, a mente segue trabalhando a todo vapor. Acho que nunca pensei tanto, como nos dias em que fiquei internada.
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Quando recebi alta, estranhei a cadeira de rodas. Ajudada por familiares, despedi-me da equipe médica. Agradeci por terem se empenhado em me devolverem à vida. Ainda teria que fazer fisioterapia, para me adaptar à nova condição.
Eu nunca mais poderia andar. Eu nunca mais poderia correr entre os carros.
Acenei. E parti, para viver uma vida desconhecida.
« FIM »








