
Fosse a porta uma janela e precisaria de cortinas. Mas a porta é uma porta e não uma janela. E por que iria querer ser algo que não é? Para saber como é ser o que não é? Pois até seria possível deixar de ser uma porta e se tornar uma janela, bastaria uma reforma estrutural. A questão é - a porta quer tanto assim ser uma janela? Talvez tenha lido poemas demais, a tal porta. Vá saber! Pode ter achado lindo "os olhos são a janela da alma". Janelas possuem status de contemplação - portas não. Ninguém diz "que vista linda tenho desta porta!", não é mesmo? Quase nunca se ouve isso.
Vai daí que um belo dia a porta quis se tornar uma janela. Refletiu junto ao madeirame e o batente e decidiu: "quero deslumbrar!" "quero cortinas!" "quero avistar!"
E não é que a danada da porta levou adiante o intento e passou por uma reforma mesmo? Incrível como se consegue mudar, quando se quer mudar. Não foi fácil deixar de ser o que sempre tinha sido. Afinal, tantos anos suportando batidas ao sabor dos humores alheios, que acostumara-se. Uma porta suporta, pois fora feito porta.
Analisava os pormenores de sua situação enquanto porta, quando se deu conta que além da falta de glamour também vez ou outra escutava gracejos do tipo "é burra feito uma porta". Mas hein... como podem ser tão cruéis! Ela só estava cumprindo sua função, poxa! Até os cupins sabiam disso. Ah, se fosse um cupim e não uma porta, sua existência seria melhor?
Ei, nada de perder o foco!
Dias depois já não era mais uma porta. Agora sim, sua vista era outra. Uma vista digna de admiração. Sem contar que ganhara uma cortina, um ornamento rendado e alguns trelelês balouçantes. Ahh, que maravilha era ser uma janela. Braços apoiavam-se por longos minutos e às vezes pássaros repousavam tranquilos sobre o pequeno beiral. Ser janela era muito, mas muito melhor que ser porta. Só mesmo uma janela que já foi um dia uma porta consegue entender.
Enfim, a vista é bela!








