domingo, 29 de maio de 2011

Sobejamente

foto da internet, mas o sangue fui eu que coloquei


                                      Já fiz muitos versos tecidos a choros
                                            Cheios de dores carimbadas no couro
                                                  Macerados em estertores epilépticos

                                    Asfixiantes estrofes em decomposição
                               Como veias esticadas no varal da vida
                           Inoperáveis chagas vertendo à mostra

                                          O que fica nem sempre é o que sobra
                                             Se o tormento quer emergir - deixe vir!
                                                As palavras podem ser tudo que resta


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Mendáculo


peguei na net a imagem de uma xícara, dupliquei, fiz efeitos e ficou assim

Lá fora, a chuva fina banhava as calçadas. Dentro da cafeteria, o casal conversava num tom pouco cordial. As feições de ambos demonstravam desconforto. Os olhos dele analisando cada expressão da bela jovem sentada à sua frente. Dois anos juntos. O flagrante. A surpresa da deslealdade. Enganara-se, mais uma vez. 


Uma iminência sinistra apossou-se dele, ao perceber a mancha alastrando-se diante de seus olhos. Inutilmente ela tentava fazer parecer o que sabidamente não era. Quanto mais explicações dava, mais a nódoa se espalhava. Conhecia as mulheres. Sabia que se não a deixasse falar até o fim, aquele fim nunca teria fim. 


Suportou quarenta longos minutos de palavras vazias que já não lhe diziam coisa alguma. A mancha agora cobria tudo, inclusive a alvura da fina toalha de linho. Engulhos revoltosos ameaçavam vir à tona. E no momento em que ela descaradamente lhe pediu perdão, ele não resistiu mais e vomitou. Lançou sobre ela, sobre a mesa, sobre suas ilusões, sobre seu tempo perdido, toda a náusea de sua inconformidade e foi embora, sem olhar para trás.
*  *  *
Vomitada e perigosa, levantou-se, enfurecida e fétida. Em sua roupa, o odor da incompreensão daquele com quem um dia compartilhara salivas, toalhas, roncos, chulés e seus pensamentos mais íntimos.
Ganhou a rua. A chuva lavou suas vestes das golfadas violentas de antes. Aquele ultraje seria devolvido. Sim! Pensaria em algo bem sórdido para revidar a maneira nojenta como fora tratada. Todos merecem perdão. Afinal, ter um caso com o irmão dele foi um acontecimento que aconteceu, sem ela querer que acontecesse.         
Naquela noite, não conseguiu dormir. A imagem tormentosamente ricocheteava em sua mente. Aquele cheiro de vômito nunca mais sairia dela. Lembrou-se do filme "Carrie, a Estranha", na cena em que o balde de sangue lhe cobriu o corpo.
Ahh, sua vingança seria pior, bem pior!
*  *  *
O refluxo ofensivo e insultuoso emergia a todo instante. O sangue nem corria mais nas veias, pululava tresloucado. Antevendo uma revanche melodramática e por isso mesmo malograda, recolheu-se por alguns dias. Não queria agir movida pela emoção. Seria impiedosamente implacável em sua vingança. A semente da desforra germinava em sua mente, doidivanamente, crescendo mais e mais a cada minuto. 
Planejou durante dois meses, com esmero e cuidado, as armas que usaria em seu fatídico ato final. Depois do que pretendia fazer, ele nunca mais lançaria seu hálito sobre ela, nem sobre inofensivas toalhas e porcelanas finas. Tampouco sentiria novamente o bafo de quem quer que fosse.
Tudo preparado. Pegou a sacola e saiu em direção ao prédio onde ele trabalhava.
Nervosa, chegou cedo. Aproveitou para olhar as promoções das lojas. Pelo reflexo do vidro, cuidava as pessoas do outro lado da rua. Logo o veria. Conhecia bem os hábitos dele. Enquanto isso, os vestidos e calçados a distrairiam. Vitrines.... ele odiava vitrines. Odiava esperar por ela. Pensava nisso, quando o viu. Alinhado e elegante, como de costume. E acompanhado! O quê?? Abraçado com... não, não podia ser! O que a irmã dela está fazendo com ele?


Diante de tamanho abalo, suas mãos tremem e a  sacola não resiste, desabando de encontro ao chão.
Nauseada até o último fio de cabelo, escorou-se no canto da loja e vomitou sobre o vidro, sobre a própria roupa, sobre a sacola, sobre alguns passantes, que nada tinham a ver com a vingança malograda, expelindo a raiva, a frustração e todo o café da manhã.
Do outro lado da rua, o casal troca carinhos e afagos.

Disfarçadamente, de esguelha, ele avista a mulher se estrebuchando contra a vitrine, sorri e segue em frente, sem olhar para trás.

« FIM »  
 

sábado, 14 de maio de 2011

Ele cantou a pedra...

... e a pedra se encantou por ele. Casaram-se. Tiveram dois pedregulhos e quase foram felizes para sempre.

Mas, no meio do caminho surgiu outra pedra, bem mais jovem e dona de uma superfície lisinha como mármore, causando um alvoroço naquela relação antes tão sólida.

Lascou-se a pedra-mãe. Derramou minérios de lágrimas. Em vão. Ele partiu. Restaram fragmentos do que um dia foi uma história bem lapidada.

A vida segue.



Os pedregulhos crescem e se tornam pedras mais ou menos atraentes e fortificadas. Não casam. Apenas ficam. E ficam. Procuram uma pedrinha leal e amorosa, como a mamãe. 

Não querem fazer o mesmo que papai fez.

O tempo passa e não encontram uma pedra linda e lisinha, que goste de suas imperfeições e os aceite como são. Então, juntam os cascalhos com as que demonstram mais carinho por eles, com medo de morrerem soterrados pela solidão.

É a vida!... Cada um carregando suas pedras?!




segunda-feira, 11 de abril de 2011

O sabor do vento

Esparramada no sofá, relaxada como uma gata
Admirava o movimento pelo quadrado  da janela
E não fosse  por  suas  pernas tão entorpecidas
Partiria, estonteante,  feito  um  albatroz-viajante

Como um raio silencioso que antecede o trovão
Romperia o ar que paira sobre ondas marinhas
Percorrendo longa distância até o néctar alado
E provaria o gosto sabor da liberdade sem fim


Seria bom sentir o doce aroma da dissolução
Rompendo esforços e cansaços do cotidiano
Deixando para trás todas as tristezas e  voar,
Ir feito nômade, para onde só vibrasse  o Sol


Ainda provava a espuma das ondas,  quando
Uma voz cristalina quebra a quietude da sala
Caindo nela como um falcão sobre sua presa
Trazendo-a de volta ao seu gasto  e  puído lar

Sua realidade não lhe dava mesmo sossego!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Só pra você!...


Só pra você!...

Eu me deixo despetalar até a última pétala
E desnudo meus botões róseos arrepiados
Que se abrem em flor ao sentir seus dedos
Exalando perfumes de inebriantes desejos

E perco o juízo enquanto ouço seu suspiro
Sobre o mar aberto, descortinado e úmido
Sua boca se perde e se encontra molhada
Enquanto arranho suas costas em vaivém

E digo “sim!” ao  que antes eu dizia “não!”
Só  pra você  eu  me entrego inteira assim
E de  mim receberás  o meu  maior gemido
Porque  é só você que eu quero em mim...

terça-feira, 29 de março de 2011

Estrabismo moral


As pernas seguem
Os pensamentos ficam

Os pensamentos travam
As pernas param

As pernas se abrem
Os pensamentos se chocam

Os pensamentos se abrem
As pernas ficam confusas

As pernas se fecham
Os pensamentos ordenam

Pernas, pra que te quero!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Toque-me!


Partitura aberta. No palco o piano espera
Da plateia ouvem-se rumorejos buliçosos
Corpos sequiosos pelo início do concerto

No interior, as cordas se agitam excitadas
Todas afinadas e prontas para os acordes
Tesas, no intervalo  que  antecede o toque

♫  ☼  ♫

Silêncio. O pianista surge. Meia-luz  em foco
Melodiosa sinfonia mansamente lírica ressoa
Tesouro  de  sons  tombando sobre as teclas

Breve, semibreve, sobre si, um fá, lá, sem dó
Longos dedos hábeis fazendo vibrar até o Sol
Contagiando os ouvidos, iluminando as almas

E as notas vão gemendo, subindo, deliciando,
extasiando  o  público, que em deleite sonoro,
levanta-se,  aplaude  e  grita: Bravo!  Bravo!...

♫  ☼  ♫