sábado, 14 de maio de 2011

Ele cantou a pedra...

... e a pedra se encantou por ele. Casaram-se. Tiveram dois pedregulhos e quase foram felizes para sempre.

Mas, no meio do caminho surgiu outra pedra, bem mais jovem e dona de uma superfície lisinha como mármore, causando um alvoroço naquela relação antes tão sólida.

Lascou-se a pedra-mãe. Derramou minérios de lágrimas. Em vão. Ele partiu. Restaram fragmentos do que um dia foi uma história bem lapidada.

A vida segue.



Os pedregulhos crescem e se tornam pedras mais ou menos atraentes e fortificadas. Não casam. Apenas ficam. E ficam. Procuram uma pedrinha leal e amorosa, como a mamãe. 

Não querem fazer o mesmo que papai fez.

O tempo passa e não encontram uma pedra linda e lisinha, que goste de suas imperfeições e os aceite como são. Então, juntam os cascalhos com as que demonstram mais carinho por eles, com medo de morrerem soterrados pela solidão.

É a vida!... Cada um carregando suas pedras?!




segunda-feira, 11 de abril de 2011

O sabor do vento

Esparramada no sofá, relaxada como uma gata
Admirava o movimento pelo quadrado  da janela
E não fosse  por  suas  pernas tão entorpecidas
Partiria, estonteante,  feito  um  albatroz-viajante

Como um raio silencioso que antecede o trovão
Romperia o ar que paira sobre ondas marinhas
Percorrendo longa distância até o néctar alado
E provaria o gosto sabor da liberdade sem fim


Seria bom sentir o doce aroma da dissolução
Rompendo esforços e cansaços do cotidiano
Deixando para trás todas as tristezas e  voar,
Ir feito nômade, para onde só vibrasse  o Sol


Ainda provava a espuma das ondas,  quando
Uma voz cristalina quebra a quietude da sala
Caindo nela como um falcão sobre sua presa
Trazendo-a de volta ao seu gasto  e  puído lar

Sua realidade não lhe dava mesmo sossego!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Só pra você!...


Só pra você!...

Eu me deixo despetalar até a última pétala
E desnudo meus botões róseos arrepiados
Que se abrem em flor ao sentir seus dedos
Exalando perfumes de inebriantes desejos

E perco o juízo enquanto ouço seu suspiro
Sobre o mar aberto, descortinado e úmido
Sua boca se perde e se encontra molhada
Enquanto arranho suas costas em vaivém

E digo “sim!” ao  que antes eu dizia “não!”
Só  pra você  eu  me entrego inteira assim
E de  mim receberás  o meu  maior gemido
Porque  é só você que eu quero em mim...

terça-feira, 29 de março de 2011

Estrabismo moral


As pernas seguem
Os pensamentos ficam

Os pensamentos travam
As pernas param

As pernas se abrem
Os pensamentos se chocam

Os pensamentos se abrem
As pernas ficam confusas

As pernas se fecham
Os pensamentos ordenam

Pernas, pra que te quero!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Toque-me!


Partitura aberta. No palco o piano espera
Da plateia ouvem-se rumorejos buliçosos
Corpos sequiosos pelo início do concerto

No interior, as cordas se agitam excitadas
Todas afinadas e prontas para os acordes
Tesas, no intervalo  que  antecede o toque

♫  ☼  ♫

Silêncio. O pianista surge. Meia-luz  em foco
Melodiosa sinfonia mansamente lírica ressoa
Tesouro  de  sons  tombando sobre as teclas

Breve, semibreve, sobre si, um fá, lá, sem dó
Longos dedos hábeis fazendo vibrar até o Sol
Contagiando os ouvidos, iluminando as almas

E as notas vão gemendo, subindo, deliciando,
extasiando  o  público, que em deleite sonoro,
levanta-se,  aplaude  e  grita: Bravo!  Bravo!...

♫  ☼  ♫ 

segunda-feira, 7 de março de 2011

O sorriso de Gardênia

criação totalmente minha - parece fácil - mas deu enorme trabalho pra fazer..rs

Tem situações para as quais não se encontram explicações. E por mais que se analise em partes minúsculas e se esquadrinhe por vários ângulos, o mistério permanece.

Aquela alegria toda, vinha de onde? Gardênia estava feliz desde o início do dia. E já passava das oito da noite! Muito estranho. Ninguém fica feliz assim, tantas horas seguidas. Ela não tirara o sorriso do rosto um minuto sequer. E o olhar, então! Brilhantes, como duas estrelas. A coisa mais linda!

Naquele dia, o dia amanheceu e morreu cinzento. Nem era um dia como outro qualquer. Não. Era o mais frio do ano. O mais chuvoso da última década. O mais adverso da estação. E Gardênia sorrindo. Aos pais, falou que tivera um estalo repentino. Botou o pé no chão ao levantar de manhã cedinho e constatou: a felicidade é uma estação e pode tocar sua música preferida dentro de você o dia todo. Ahh! E fazer Sol até o Sol raiar.... só depende de você!

- Que nojo, mana, tá parecendo uma idiota com esse brilho no olhar.

- Júnior, não implica, ser feliz é muito bom. Devia experimentar, viu?

- Mãe, acho que ela tá bêbada, ou apaixonada. O que é quase a mesma coisa.

- Pois saibam que eu descobri como ficar contente o tempo todo.    

- Arrá, nem vem, isso é impossível!

- Júnior, é simples, basta sorrir pra vida e ela vai sorrir pra você.

- Merdinha de clichê barato. Acho que vou vomitar. Isso tá demais pra mim. aff

- Como você é babaca, Júnior. Sabia que um dia sem sorrir é um dia desperdiçado? Eu li isso. Alguém famoso disse, só não lembro quem. Vai dizer que não é lindo?!

Os pais, começaram a sorrir também, felizes em ver a filha feliz. É o que todos os pais desejam, não é mesmo, ver os filhos felizes? Até aquele dia haviam se empenhado nesse sentido. Agora, viam que seus esforços foram recompensados. Ao menos com Gardênia. Já com o filho mais novo... Bem, Júnior estava em plena fase dark. Dezesseis anos. Idade complicada. Gostava de ficar triste. Achava bonito. Para ele, viver era sinônimo de escuridão e vazio. A vida. A morte. As relações afetivas. O poder institucional. Nada fazia sentido. Tudo era utópico e efêmero, desprovido de verdade. Quase nunca sorria. Achava repulsivo ver a irmã se enganando. “Coitada, dois anos mais velha e tão ingênua. Isso que dava ficar olhando novelas e lendo livros de autoajuda. Só podia ser!” – pensava o irmão.

- Mana, é triste ver você tão alienada. Vou pro meu quarto. Fui!

- Pois eu vou mostrar pra vocês que este sentimento não é passageiro - disse, sorrindo largamente, de orelha a orelha.

             *   *   *

Naquela noite, Gardênia dormiu sorrindo. Sonhou com um jardim florido, perfumado, cheio de borboletas coloridas, onde todos cantavam e cirandavam.

No dia seguinte, botou o pé no chão e deu por falta dos chinelos. Tudo bem. Vai sem chinelo mesmo. Foi andando pelo piso frio até o banheiro. Suspirou. A porta trancada. Esperou até o irmão sair. Tudo bem. Usar o banheiro logo após alguém deixar horrivelmente fedido. Coisas da vida. Entrou no boxe, abriu o chuveiro. E parou de sorrir, de súbito, quando viu que alguém tinha acabado com seu shampoo especial para cabelos volumosos.

- Mãããããeeeeeee!!!!