domingo, 18 de setembro de 2016

À flor da pele


"A alma sensível é como harpa que ressoa com um simples sopro."
Ludwig van Beethoven



Marcela. Vou chamá-la assim. Ela existe. É de carne e osso. 

Marcela se melindra fácil. Qualquer coisa para ela é uma indireta, uma ofensa pessoal, um recado pontudo, afiado, mirado e lançado com endereço certo - o seu!

Magoa-se tão facilmente que quando conhece alguém vai logo avisando: "Sou muito emotiva. Pra lidar comigo você precisa ter jogo de cintura."

Nisso ela está inteiramente certa. Para lidar com Marcela será necessário ter muito jogo de cintura. Muito mesmo! Experts em dança do ventre terão mais chances de se entender bem com ela. Praticantes de bambolê também poderão se incluir nessa lista, sem medo. E tenistas, funkeiros, forrozeiros, políticos, adeptos de qualquer esporte ou profissão que exija flexibilidade superlativa. Porque não é para qualquer um ter molejo e gingado no trato com alguém tão mimizenta.

Se Marcela fosse apenas reclamona ainda seria possível encontrar um modo de tirar de letra o convívio com ela. Bastaria ignorá-la quando tivesse um de seus acessos de vitimização. Acontece que a probabilidade de seu bom humor não ser afetado diante de uma ignorada básica é equivalente a um castelo de areia à beira-mar manter-se intacto em dia de ressaca. Ou seja: zero.

E não adianta elogiar seus lindos olhos amendoados, a pose de modelo nas fotos publicadas nas redes sociais, o sorriso cativante e sedutor de dentes alinhados e branquinhos, o bom gosto na decoração do seu apartamento novo, o corte de cabelo... e por aí vai, porque Marcela desconfia dos elogios. Qualquer elogio. Até os sinceros. Tanto faz. Na mesma hora ela lança um olhar de esguelha e diz: "jura?".

Fere-se com as críticas negativas. Recebe no corpo uma brisa suave e sente na pele o impacto de uma rajada. É vulnerável como uma casinha de papelão no meio de um tornado. Tão delicada quanto um bibelô de cristal. Desmonta-se mais fácil que um brinquedo com pecinhas de lego. Tem a autoestima quebradiça como unhas atacadas por fungos. O coração sensível e sujeito a reações imediatas, como um cisco no olho. 

Marcela se desestabiliza fácil em situações que outros resolveriam com um pé nas costas. E por temor em causar um mal-estar repentino, os parentes evitam fazer-lhe revelações fortes. Resumindo: sua hipersensibilidade deixa a todos pisando em ovos.

Uma pena. Sua vida seria bem mais leve se entendesse que é tolice se magoar com tolices.

Rir das pequenas mazelas da vida é algo impensável para Marcela. Não é de sua natureza ser assim. E, definitivamente, a coisa da qual ela mais se orgulha é de ser uma pessoa autêntica e que não finge sentir o que não sente. Se isso é sinal de fragilidade, então, sua fraqueza também é a sua maior virtude. É assim que ela pensa.

Realmente, como um contraponto a esse traço singular de sua personalidade, Marcela se mostra mais humana e mais perceptiva do que pessoas ditas maduras, equilibradas, centradas. Em diversos momentos que outros recuaram, ela estendeu a mão e deu o primeiro passo para ajudar. Tem uma empatia aflorada e se preocupa de verdade com o sofrimento das pessoas ao redor, bem como as que sofrem ao longe.

Marcela é como uma Matrioska (aquela boneca russa que tem outras bonecas de tamanhos menores, uma dentro da outra). Causa uma reação de surpresa a cada aparição. 

É uma pessoa intensa. E pessoas intensas são como harpas que vibram ao menor toque. Uma personalidade interessante de se apreciar em novelas, ou no teatro, ou na literatura, ou no cinema, enfim, à distância, mas das mais complicadas de se lidar quando é na vida real.

É comum Marcela marcar um encontro e não aparecer. Às vezes nem justifica a falta. Deixa a pessoa esperando sem a menor consideração. Combina e não dá o ar da graça. Dias depois ela envia mensagem querendo marcar um almoço, um café, uma caminhada... Como se nada tivesse acontecido.

Pois é, ela apronta dessas com frequência. Entra em crise existencial e se recolhe. Mas quando surge até se mostra agradável. Embora lá no fundo dos seus olhos uma lágrima fique à espreita, prontinha para sair e pegar desprevenido quem está junto dela. Todo cuidado é pouco na escolha dos assuntos. Eu que o diga! Chega a ser uma aventura. Campo minado. Adrenalina pura!

Ultimamente ela anda sumida. Tenho telefonado e deixado recados, sem resposta.

Reconheço que não é fácil ser amiga de Marcela. Nada fácil! 

Mas eu não desisto dela.  

*  *  *

NOTA: Marcela nunca leu os meus livros, tampouco costuma visitar o meu blog. Mas se por uma casualidade ela souber desta crônica, sendo ela do jeito que é, corro sérios riscos de perder a amiga.


 

E você, convive ou já conviveu com 
uma pessoa hipersensível como Marcela?


17 comentários:

  1. Oi, Rosa... sobre sua Marcela, conheço algumas, umas mais , outras menos ,mas que se encaixam perfeitamente no perfil, que variam conforme nuvens de bom tempo ou de tempestades. Seu sobrenome é mulher?
    Um abraço

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  2. Rosa, já tive uma Marcela na minha vida, mas deletei, aos poucos, consegui deletar.
    Essa gente é tóxica. Não quero contacto!
    Você é boazinha, quase santa, pelo que vejo.
    Beijo

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  3. Rosa, Marcela nunca esteve na minha vida, pois tenho um temperamento forte e só elogio quando a pessoa o fez por merecer e com seu próprio dinheiro.
    Beijos
    Lua Singular

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  4. Báh, Rosa, conheço, sim e convivo com umas Marcelas, poucas! Se aparecer mais alguma no meu campo, já minado, juro que cometo um suicídio! São criaturas terríveis, dizem e pensam que sofrem horrores. Nada nunca está 100% bom. Mas sabes porque agem assim, dessa forma tão carente? Para chamarem atenção. Simples assim. Claro que por detrás, há algo mais sério.Bem mais sério.
    Ótimo teu texto, hiper realista. Como diz Nelson Rodrigues... a vida como ela é.
    Beijo, amiga.

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  5. Felizmente não convivo com ninguém assim.
    Seria muito complicado.
    Boa semana

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  6. Felizmente que não conheço ninguém assim.
    Parece uma espécie de complexo de inferioridade e que, por isso, precisa de ser empurrada para cima. Mas se ela até desconfia dos elogios...
    Mas, cá para mim, a culpa é das pessoas que a cercam. Se deixassem de "aparar o jogo" que ela faz habitualmente, talvez ela se modificasse. Enfim, é a penas uma suposição...
    Rosa, tem um bom fim de semana.
    Beijo.

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  7. Muito interessante o seu texto Rosa!
    Eu não convivo com ninguém assim,mas acho que ter como amiga a Marcela é um pouco difícil por tantos desatinos que ela apronta,talvez seja para chamar atenção ou simplesmente é o seu jeito de ser.Quem sabe uns puxões de orelha ou essa chamada ela mudará o seu modo de lidar com as pessoas,sabendo respeitá-las quando for preciso.
    Adorei ler.
    Bjs Rosa e obrigada pela visita.
    Carmen Lúcia.

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  8. Olá Rosa,boa noite... uma bela crônica.. partindo da situação narrada, Marcela é muito intensa, sensível e reativa, por se deixar afetar por coisas tão pequenas e insignificantes, que a faz perder um tempo precioso da vida e chegando até a destruir relacionamentos, de tanto se concentrar em detalhes irrelevantes. Sim ... Já. Por isso, fiz e creio que o ideal é Nunca desistir de alguém assim, porque se não podemos controlar tudo o que nos acontece, podemos nos condicionar.E ainda mais, Marcela se mostrou ser empática, humana , perceptiva e importante, tem valores que Não impregna todo o mundo atual: solidariedade ao próximo ="estendeu a mão e deu o primeiro passo para ajudar."
    Feliz semana,belos dias,beijos!

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  9. Boa noite Rosa, uma perfeita descrição da personagem Marcela, que pelas descrições de mudanças repentinas bem justifica o À flor da pele. É certo que todos tenham uma Marcela no caminho e com ela todo cuidado, pouca conversa ou quase nenhuma.
    Gostei.
    Abraços com carinho.
    Bjs de paz.
    Boa linda semana com menos Marcelas pelo caminho.

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  10. Convivo desde cedo com umas marcelas que animam a alma, Rosa.
    Obrigado pela simpática visita. Até mais!

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  11. Oi Rosa,
    Não!Não!, mesmo doente como estou, rio a vontade com meu vizinho que conta seus sonhos.
    Não aguentaria essa marcela, responderia pra ela, assim me livraria dela.
    Beijinhos com carinho
    Lua Singular

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  12. Oi, Rosa.
    Me encantei com o seu texto. Conforme ia lendo me passava pela cabeça o nome de alguma amiga ou amigo que se encaixava nessas camadas da Marcela. Pensando bem eu não convivi até agora com nenhuma Marcela, como todas essas camadas conflitantes. Mas convivo e já convivi com amigos e parentes com uma ou outra camada com que a Marcela tem.
    Abrçs.

    ✿Blog: Autora Marcia Pimentel✿ ✿Instagram✿ ✿Twitter✿

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  13. Quem não teve alguém assim em sua vida, seja no presente ou no passado! Há quem viva sempre com os nervos assim... Lindo te ler! bjs, chica

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  14. Boa noite querida Rosa e que obra linda escrevestes....
    Fico impressionada com a qualidade da sua literatura, pois é sempre muito criativa!!!

    Sabe, já conheci algumas "ditas Marcelas" e algumas tinham traços fortes da sua descrição...
    Veio à memória uma que conheci no meu primeiro trabalho que era exatamente assim, não se preocupava muito com os compromissos e depois vinha com aquela carinha de pouco caso de que havia se esquecido...rsrs
    Amizades assim são difíceis de prosperar, pois apesar da aparência de fragilidade, por traz se esconde uma pessoa que sempre será vítima da situação...

    Incrível sua crônica amiga, palmas pela beleza e o belo encaixe que apresentou!!
    Tenha uma semana maravilhosa querida!
    Beijos!! :)))

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  15. Eu conheço tanta gente assim, e confesso que pessoas assim sofrem demais e sentem demais!!

    bjokas=)

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  16. Confesso, que não convivo, presentemente, com ninguém assim... cuja sensibilidade... esteja assim tão à flor da pele... mas já assisti a quem o é... assim mesmo, de um jeito bem idêntico!...
    Adorei o texto, com uma riqueza descritiva absolutamente admirável!
    Beijinhos! Virei amanha, ver os restantes posts anteriores, que não tive ainda oportunidade de apreciar!
    Ana

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  17. BOA TARDE ROSA.
    PASSEI PARA AGRADECER SUA VISITA AO MEU BLOG E PELAS LINDAS PALAVRAS QUE LÁ DEIXASTE!
    AMEI O QUE ESCREVESTE AQUI!
    UM GRANDE ABRAÇO E VOLTE SEMPRE!
    BEIJOS!

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