segunda-feira, 9 de maio de 2016

Paredes Vivas - terceiro capítulo


Calar
é passar a vez
para poder escutar.


Enlutados, retornamos em silêncio para casa. Uma casa linda, confortável e acolhedora, de fachadas revestidas em pedras, estilo rústico, com amplos cômodos, um jardim bem cuidado na frente, um quintal gramado nos fundos, situada numa rua tranquila e arborizada.

Nos semblantes, um duro golpe. Nosso mundo não seria mais o mesmo.

Assim que entramos, vagamos meio tontos por instantes e depois nos instalamos na sala de estar. Ficamos eu, mamãe, tia Margot e tio Vicente sem sabermos o que fazer, sem ânimo para falar, sem apetite para comer.

Quieta, sem pronunciar uma palavra, fiquei olhando para as fotos sobre a lareira.

Os porta-retratos me atingiram em cheio. Aquela família feliz das imagens, dali em diante, existiria apenas em nossas lembranças, nos vídeos que havíamos feito e nas fotografias que havíamos tirado.

Um sentimento de culpa pesou em minhas pálpebras.

Sentada no sofá, com as mãos apoiadas no colo, fui abaixando a cabeça até quase tocar nos joelhos. Papai nunca mais voltaria para nós. E ninguém jamais iria admitir, mas eu sabia que era a responsável pela morte dele. Ele ainda estaria vivo, se eu não...

Rompi num pranto soluçante e corri para o quarto para chorar o que não havia chorado até então. Joguei-me sobre a cama, enterrando a cabeça no travesseiro para reter as lágrimas.

Sem pensar em mamãe, sem pensar em mais ninguém, fiz a pior coisa numa situação como aquela — comecei a gritar que eu também queria morrer.

Meu desatino gerou uma correria. Quando vi estavam todos ao meu redor, quase me sufocando ainda mais. Mamãe preocupada, querendo me abraçar, tia Margot passando a mão em meu cabelo, falando para eu chorar bastante sim, pois iria me aliviar, nossa empregada Nice pedindo que eu tomasse um copo d’água com açúcar para me acalmar, tio Vicente em pé, com a testa franzida e um olhar de reprovação pelo meu rompante. Continuei gritando que eu queria morrer e teria gritado mais e mais até perder a voz, não fosse o súbito desmaio de mamãe. Empalideci com a cena, pois achei na hora que mamãe também tinha morrido. Seria terrível, terrível, terrível, se algo assim acontecesse. Não, eu não suportaria.

Um médico foi chamado. Acomodaram mamãe na poltrona, ao lado de minha cama, já consciente, apesar da brancura de suas faces e do olhar desolado, perdido.

Naquele dia, decidi não chorar mais.

Meu egoísmo quase causou outra tragédia. Seria certo eu ser castigada por isso. Mas depois desse episódio, agiram comigo como se nada houvesse acontecido. Eu era apenas uma criança sofrendo a perda do pai. Mamãe sofria a perda do esposo e do pai de sua filha, mas, por ser adulta, cabia a ela ter mais estrutura emocional para suportar as fatalidades da vida. Doía vê-la agindo como se fosse uma fortaleza, quando na verdade ela tinha todo o direito de extravasar. Ambas sofríamos juntas por dentro, mas apenas eu podia expressar intensamente por fora? Não parecia justo.

Antes de ir embora, o médico sugeriu que mamãe repousasse nos próximos dias, tomasse líquidos e fizesse refeições leves. De acordo com ele, as fortes emoções sofridas, somadas ao calor excessivo, foram os responsáveis pela queda de pressão e perda dos sentidos.

— Sinto muito por sua perda, dona Ione — disse ele ao se despedir.

Assim que o médico saiu, um novo tipo de silêncio imperou nos ares: um silêncio de preocupação. Até os calçados tocavam mais suaves no piso. O mal súbito de mamãe nos deixou a todos apreensivos. E mesmo sem percebermos o fato ocorrido desviou nossos pensamentos e nos colocou de sobreaviso, como se um movimento que déssemos em falso pudesse acarretar uma nova desgraça.

Ficamos envolvidos na recuperação de mamãe por vários dias.

Neste meio tempo fiquei entretida em meu quarto de brincar, tentando me distrair com bonecas e joguinhos, sem conseguir, na verdade, me concentrar em nenhum deles. Diferente de meu quarto de dormir, em cujo ambiente predominam o lilás e delicadas borboletas nos detalhes, esse outro é decorado com papel de parede em amarelo bem suave, liso, com nichos junto às paredes laterais, almofadados em tecido igualmente amarelo, estampado com margaridas miúdas, tendo gavetas embaixo para guardar os brinquedos. Toda a mobília é branca. Ao centro uma mesa redonda na qual posso montar jogos, desenhar, escrever, fazer refeições às vezes. De um lado e de outro, acima dos nichos, uma estante suspensa, baixa, em madeira, com diversos livros. Entre eles, o preferido de mamãe e responsável pela escolha de meu nome: Mauren, a menina encantada. Uma luminária em forma de margarida completa a decoração do espaço, onde antes eu me divertia sem ver o tempo passar.

Ali é onde passo a maior parte das horas, principalmente agora com mamãe acamada e também por conta das férias de verão.

Pensar na volta às aulas, me fez sentir um temor profundo. Em breve retornaria para a escola, querendo ou não, apesar de ainda não estar preparada para enfrentar os colegas e seus olhares de compaixão.

Mas eu teria de ir, infelizmente.

[...]

* Paredes Vivas é uma obra de ficção *

* O romance é composto por 20 capítulos no total *

* Todos os poemas que precedem os capítulos são de minha autoria * 

* No link do Skoob podem conferir a sinopse e resenhas do romance *




8 comentários:

  1. Rosa, a sua escrita prende e cativa. Parabéns.
    Beijo da Nina

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  2. Oi Rosa, eficiente escritora.
    Já comprei dois livros seus. Agora preciso dar um tempo estou gastando com doenças.
    Adoro quando vem ler minhas bobeiras
    Beijos
    Minicontista2

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  3. Maravilha,Rosa! Ficamos grudadas, quase sem respirar, te lendo! bjs, chica e adorando!

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  4. Rosa a sua prosa é envolvente. Quando me ponho a ler desejo que o capítulo se prolongue infinitamente para o meu delírio. E a cada parágrafo um arrepio de emoção e surpresa
    Estou amando acompanhar esta bela saga
    Um beijo

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  5. Olá,Rosa, resta nos aguardar o próximo capítulo,obrigado, belos dias,beijos!

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  6. OI ROSA!
    LENDO, ADORANDO E ESPERANDO O PRÓXIMO CPÍTULO.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  7. O embate depois de uma perda trágica é sempre terrível.

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  8. Boa noite Rosa,
    Um capítulo cheio de emoções...
    muita tristeza, dor e saudade.
    Sensações que em algum momento da
    vida, passamos por elas.
    Bjs!

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