quarta-feira, 4 de maio de 2016

Paredes Vivas - segundo capítulo


Não adianta reclamar, sempre
haverá coisas mal passadas
nos dias que passam e
naqueles que virão.


No funeral, enquanto mamãe era confortada por tia Margot, eu pensava em como seria bom ter uma irmã para rir, chorar, dividir problemas, compartilhar alegrias e me apoiar em momentos difíceis como aquele.

Se ao menos eu tivesse primos, mas titia descobrira, após várias tentativas infrutíferas, que não poderia ter filhos. Uma frustração enorme que a fizera apegar-se a mim de um modo excessivo.

Gostei, por um tempo, de suas demonstrações exageradas de afeto (seus abraços, seus carinhos, seus presentes). Mas depois, passei a me sentir sufocada, incomodada, irritada.

Herdeiras de uma das maiores fortunas da cidade, as irmãs haviam perdido os pais num grave acidente quando eram crianças.

Era inverno. Quase sete horas da manhã. A temperatura lá fora estava abaixo de zero. Dentro do carro o ar-condicionado mantinha a atmosfera agradável, bem diferente do clima externo. Os pais retornavam sozinhos, após uma viagem de férias na capital, onde tinham alguns parentes. Haviam saído propositalmente cedo para chegarem a tempo de tomarem café com as filhas. Gêmeas, as irmãs comemoravam seus aniversários naquela data e completariam seis anos. No banco de trás, muitos pacotes com presentes comprados para as duas.

Já próximos de casa, ao cruzarem a ponte que dá acesso a Santo Antônio, um caminhão desgovernado surgiu de repente chocando-se contra eles, arrastando-os para além da mureta de proteção. Sem terem para onde desviar, caíram nas águas geladas. E provavelmente teriam sobrevivido à queda se o enorme caminhão que os empurrara não tivesse tombado da ponte sobre eles. Um veículo que vinha logo atrás testemunhou toda a tragédia.

Ah, como deve ter sido doloroso para as duas perder os pais ao mesmo tempo, daquela forma trágica, sendo elas tão meninas. Imagino o quanto mamãe e tia Margot devem ter chorado e sofrido, pobrezinhas.

Tentando desviar meus pensamentos para longe de outros fatos que me deixassem ainda mais triste, levantei os olhos para o céu. Fiquei procurando anjinhos. Mamãe dissera que papai estava agora no Céu com eles. Mas... onde?

O céu estava lindo! Nunca vira azul mais azul. Nenhuma nuvem. Apenas o sol reinando no firmamento, absoluto, reluzente, escaldante, jorrando luz sobre nós.

Nem parecia um dia de luto, um dia de morte, tal era a abundância de vida que nos bombardeava por todos os lados. O cemitério estava lotado, de pessoas e de flores.

Mamãe colocou a mão no meu ombro.

À minha volta sons baixos, cochichos indiscretos, lançados aqui e ali, entre a multidão que acompanhava o cortejo fúnebre. “Dona Ione, sempre linda.” “Coitado!” “Que jeito horrível de morrer.” “Muito triste.” “Doutor Artur era um bom homem.” “Bem feito, quem mandou irem pescar na lagoa assombrada?”...
Mamãe realmente estava muito bonita. Trajava um vestido preto de mangas curtas, um pouco abaixo dos joelhos, sem aces­sórios, exceto por duas alianças na mão esquerda, scarpin de salto médio, óculos escuros, cabelos presos num coque realçando sua beleza natural.

Herdei de mamãe os traços físicos: enormes olhos verdes, cabelos acastanhados, meio louros, nariz pequeno, boca em formato de coração, dentes alinhados, quase perfeitos, estatura um pouco acima da média, pele clara, mãos grandes e dedos longos. De papai, adquiri a personalidade inquieta, introspectiva, emotiva, que não resiste a um desafio.

“Seus olhos são como dois halos solares, filhota.” As palavras de papai dançavam em minha mente e enchiam meu coração de uma saudade cruciante, que iria me acompanhar por toda a eternidade.

Amo você, paizinho.

Absorta em recordações, despertei para a realidade fatídica ao sentir um forte aperto de mão. Mamãe estava gelada e trêmula. Segurava minha mão tão fortemente que senti vontade de chorar. Mas se eu começasse a chorar, não sei como iria fazer para parar. Olhei ao redor. A multidão silenciou. Cessou o som dos passos no extenso corredor central do cemitério. Havíamos chegado em frente ao mausoléu da família. Era o momento da despedida oficial.

Com os olhos salgados, guardei o pranto.

Quando fiquei diante da nova morada de papai, senti uma fisgada no coração e por pouco não desfaleci de tristeza.

Então, naquela hora, pensei que mamãe devia estar sofrendo bem mais do que todos nós ali e me controlei.

Segurando uma das alças do caixão e derretendo de calor dentro de um terno sóbrio, tio Vicente, abatido, esforçava-se para manter a formalidade, como pedia a ocasião.

Após uma cerimônia solene o caixão foi levado para dentro da cripta. Mamãe me pediu para aguardar do lado de fora. Obedeci e fiquei com tio Vicente, visivelmente pálido, desolado.

Era um sepulcro imponente, com dois anjos esculpidos em bronze, enormes, com as asas abertas e feições inocentes, um de cada lado ornamentando o alto do jazigo. Belo e sombrio. 

Naquele dia, sem saber ainda o que o futuro me reservava e desconhecendo as atitudes feias de tio Vicente no passado, senti pena dele.

[...]



* Paredes Vivas é uma obra de ficção *

* O romance é composto por 20 capítulos no total *

* Todos os poemas que precedem os capítulos são de minha autoria * 

* No link do Skoob podem conferir a sinopse e resenhas do romance *



8 comentários:

  1. Capítulo muito bem escrito, aliás, como é tua maneira de escrever! Gostando de acompanhar, ver a intensidade, as emoçoes variadas...bjs, chica

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  2. Oi Rosa,
    Seu livro é lindo e também triste, mas as coisas tendem a melhorar...
    Adorei seu livro
    Beijos
    Minicontista2

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  3. Vou continuar a acompanhar.
    Estou a gostar muito.

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  4. Só por ser de Santo Antônio da Patrulha, onde me dei por gente, já me cativa.... por começar na "lagoa" (simplesmente assim, chamávamos a Lagoa dos Barros, onde íamos na velha Belina 78, em algumas tardes dos finais de semana do verão) também já gostaria... mas mesmo que não o fosse, nem na "lagoa", nem em Santo Antônio, continuaria gostando, porque é da narrativa firma da autora, que vem o cativar.
    Obrigado, escritora!
    Um baita abraço de outras águas, agora, as fluviais que banham a parte sul do arquipélago do Marajó!

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  5. Querida Rosa
    Sou do tipo de leitora que entra na ficção e quando percebo já estou imaginando a sequência da história. Adoro me aventurar nessa trama de mistério
    Mais um capítulo espetacular amiga. Que venha o próximo pois estou ansiosa para conhecer o próximo enredo
    Beijos com carinho amiga

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  6. OI ROSA!
    ESTOU GOSTANDO MUITO E PRETENDO LER TODOS OS CAPÍTULOS E, COMO A GRACITA, ME ADIANTO NA HISTÓRIA MAS, TENHO CERTEZA QUE SEREMOS SURPREENDIDAS POIS, TEU TALENTO É INEGÁVEL.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  7. Olá,Rosa...
    creio que "as atitudes feias de tio Vicente no passado" devem alterar muito o rumo da história,resta aguardar o próximo...obrigado pelo carinho,belos dias,beijos!

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  8. Olá, Rosa Matos
    Que tenhas um fim de semana bom.
    E um dia das Mães, maravilhoso. Confesso, que não tenho mais a minha, ao meu lado aqui na terra. Mas, tenho a esperança de reencontrá-la um dia, em algum lugar de tempo e espaço, por que creio na ressurreição, em nome de Jesus Cristo.
    Um abraço, para você.

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