sexta-feira, 13 de maio de 2016

Paredes Vivas - quinto capítulo


O tempo,
este senhor de sapiência infinita,
nem sempre desamarrota
o que passou.

Meu retorno para a escola ocorreu sem traumas. Organi­zada, deixei tudo pronto na véspera para facilitar: a mochila com cadernos, estojo com lápis e canetas, o uniforme limpo, escorado na poltrona, bem como os sapatos e as meias. Naturalmente, Nice havia cuidado disso para mim com o zelo de sempre. A saia azul-marinho e a camiseta branca com o emblema do colégio bem passadas e impecáveis. Para os dias mais frios temos um casaquinho listrado nas cores marinho, branco e cinza. Além de um agasalho para praticarmos esportes.

Como a escola fica a uns dez quarteirões daqui, mamãe me levou de carro. Falei que não precisava. Eu poderia ir de bicicleta, mas como era o primeiro dia mamãe fez questão de me acompanhar.

O dia iniciara refrescante. Estávamos na segunda semana de fevereiro. Então, por certo, ainda teríamos muito calor pela frente.

Saímos. E, pontualmente às sete horas e trinta minutos, paramos em frente ao prédio. Despedi-me com um abraço caloroso. Depois acenei um tchauzinho, antes de entrar.

Tão logo atravessei o portão, um arrepio percorreu minha espinha ao ver a multidão de crianças entusiasmadas pelo reen­contro com os colegas depois das férias prolongadas de verão. Aquela algazarra me fez sentir vontade de sumir dali. Não queria conversar nem interagir com ninguém. Talvez eu devesse ter ficado mais uns dias em casa. Ainda não estava pronta para enfrentar olhares piedosos que certamente iriam me lançar. Sem contar as perguntas que me fariam, a curiosidade e os dedos apontados na ferida ainda aberta, sensível, doída e sangrenta.

Pois foi exatamente isso o que aconteceu.

Fomos todos para o ginásio. A diretora saudou-nos e em seguida fez um pequeno discurso para oficialmente celebrar a abertura do ano letivo. Cumprimentou professores e nos desejou bons estudos. Destacou também a presença de dois alunos novos: Tobias e João Gregório. Demos as boas-vindas a eles com uma salva de palmas.

Em seguida a diretora lembrou, com pesar, a morte do doutor Artur Macedo de Souza, cuja dívida de gratidão seria eterna visto que ele era um homem estimado na cidade, querido e generoso. A Fundação Avelar, criada por meu avô para incentivar eventos culturais e administrada por papai, patrocinava compe­tições esportivas de minha escola e de outras instituições de ensino.

Senti os olhares fixos em mim.

Uma combinação de vergonha e gratidão me sacudiu. Queria sumir dali e ao mesmo tempo fiquei comovida por papai.

Após a homenagem, enfatizando que aquela era uma perda irreparável e sua morte uma infelicidade enorme, a diretora pediu que fizéssemos um minuto de silêncio.

Nunca um minuto demorou tanto a passar.

Pronto, agora a escola inteira sabia de meu luto. O que eu tanto temia acontecera. Virei o assunto do momento. Quem desconhecia o ocorrido era rapidamente informado por outros. Logo o colégio todo comentava sobre a morte de papai numa pescaria na lagoa assombrada.

Enquanto íamos em direção às salas de aula, pensei na promessa que fizera de não voltar a chorar. Como era difícil! Segurei firme a vontade de molhar as faces com lágrimas. O momento não poderia ser mais impróprio. A melhor coisa a fazer seria me concentrar nas lições e continuar sendo uma boa aluna, com um rendimento escolar acima da média, dedicada e estudiosa como sempre fora.

Com exceção dos dois novatos, que descobri fazerem parte de minha turma, o restante permanecera igual ao ano anterior.

Sentei na segunda fileira, recostada à parede, próxima às janelas. A professora entrou, quis saber sobre nossas férias e se estávamos animados para mais um período escolar. Cumprimentou os alunos novos e aproximou-se de mim dando-me os pêsames. Apenas olhei e balancei a cabeça em agradecimento.

Queria que o tempo voasse e ninguém mais tocasse no assunto. Queria que o tempo varresse de minha memória qualquer resquício de tristeza. Queria que as pessoas não me olhassem com piedade. Queria curtir minha infância, como as outras crianças.

Ah, o tempo!...

Nesta época, eu considerava o tempo um grande aliado.

Desatenta, demorei a voltar a prestar atenção na aula. A professora escrevia no quadro-negro o tema da nossa primeira redação do ano. “Eu sou”... Devíamos nos descrever em apenas uma frase, ressaltando uma ou mais características dominantes e também um ou mais pontos fracos.

Pegamos a folha que nos foi entregue, abaixamos a cabeça e em silêncio escrevemos.

Sem olhar para os lados, peguei a caneta e prontamente redigi. Não me pareceu difícil falar de mim em poucas palavras. Ao contrário, em menos de um minuto concluí e entreguei minha frase.

Eu sou uma garota sonhadora que vive tendo pesadelos e 
mesmo sendo muito medrosa não resiste a um bom desafio.

Mauren Avelar - Santo Antônio, fevereiro de 2003


Os papéis em que escrevemos a frase, na verdade, eram as metades de uma folha inteira, quase um cartão. E à medida que eram recolhidos pela professora iam sendo fixados com alfinetes num grande mural de feltro que ficava na parede do fundo de nossa sala de aula.

Trinta e dois papeizinhos.

Achei que a professora iria ler para nós cada um deles, mas não. Avisou que eles ficariam lá até nossa próxima atividade.

Lógico que fiquei louca para ver o que meus coleguinhas tinham escrito. E assim que tocou o sinal para o intervalo fui lá conferir.

Quis ler primeiro o que os alunos novos haviam escrito, já que os demais eu conhecia mais ou menos e não me despertavam tanto interesse. Na verdade, mesmo tendo ótima memória algumas lembranças dessa época, são um pouco imprecisas.

João Gregório, que em pouco tempo passamos a chamar de Gregor, era um menino ruivo, sardento e um pouco rechonchudo. Foi a primeira pessoa de cabelo vermelho e com maior número de sardas que conheci na vida. Muito tímido, mas com um sorriso de dentes grandes e branquinhos. Ganhou minha simpatia.

A frase de Gregor encheu meu coração de ternura: “Eu sou... feliz, apesar de ser um garoto muito feio e complexado.”

Tobias tinha olhos negros, raivosos, cabelos castanhos e muito lisos. O que ele escreveu me atingiu de um modo esquisito. “Eu sou... a mosca que vai cair na sua sopa.” Não sei, mas assim que li percebi uma ameaça por trás das palavras. Mas talvez fosse apenas um deboche utilizando o trecho de uma letra de música.

O fato é que, algum tempo depois, minhas suspeitas iriam se confirmar: Tobias sentia prazer em incomodar, em ser a mosca na sopa.

Fui para o pátio tomada por uma angústia, um aperto no peito. Ainda com tão pouca idade, sem ter uma clara noção do que seria um mau pressentimento, suspeitei, mesmo sem nenhum motivo aparente, que alguma coisa ruim iria acontecer em breve.

Em pouco tempo alguns colegas me cercaram e me fizeram perguntas sobre o que realmente acontecera na lagoa. Queriam saber detalhes que eu sequer teria como responder.

Chateada, voltei para a sala vazia.

Sentei. Escorei os cotovelos na mesa. E foi nesse momento que vi o pedaço de um papel dobrado embaixo do meu caderno. Desdobrei. Com as mãos trêmulas, fui lendo o que estava escrito. E fiquei pasma com o teor do bilhete:

DUVIDO QUE VOCÊ RESISTA A UM BOM DESAFIO.
MAS SE ISSO FOR VERDADE, ME ENCONTRE HOJE
À MEIA-NOITE NA PORTA DO CEMITÉRIO.


Quem poderia ter escrito aquilo para mim?

Desconfiada, olhei pela janela em direção ao pátio lotado de crianças. Como saber quem havia deixado aquele bilhete? E por quê? Com qual intenção? Seria uma brincadeira maldosa?

Não havia como eu saber... a menos que...

A menos que eu fosse ao encontro no cemitério.

Levantei e fui até o fundo da sala para ler novamente os cartões no mural.

Quem sabe em algum deles eu reconhecesse a letra do bilhete.

Passei os olhos por todos eles. Nada. Mas, quando cheguei ao meu cartão, notei que haviam colocado uma interrogação no final de minha frase, bem grande, entre parênteses.

Então, a provocação estava declarada.

E eu teria até a meia-noite para decidir o que fazer.

[...]




* Paredes Vivas é uma obra de ficção *

* O romance é composto por 20 capítulos no total *

* Todos os poemas que precedem os capítulos são de minha autoria * 

* No link do Skoob podem conferir a sinopse e resenhas do romance *



13 comentários:

  1. Está esquentando...vamos ao desafio.
    Um abraço, paz e Bem!

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    1. oi Guaraciaba, obrigada por acompanhar os capítulos.

      Parei neste. Era só pra dar um gostinho. =)

      Beijos! Tudo de bom pra você/! ♥

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  2. Tenho entre mãos a leitura do livro "A amiga genial" de Elena Ferrante, um livro apaixonante! Curiosamente, reconheço na sua escrita muitos aspetos em comum, sobretudo a leveza e o ritmo da narrativa.
    Beijo

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    1. Nina, uma honra saber disso. Fiquei lisonjeada. Muito obrigada!

      Um beijo/!

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  3. Oi Rosa,Se você for escrever os livros em capítulos, ninguém vai ter interesse em comprar.O gostoso é pegar no livro, sentir seu cheirinho.
    Foram 3 livros que você editou, falta só um para eu comprar.
    Beijos
    Lua Singular

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    1. Oi Dorli. Sou muito grata por ter uma leitora querida como você.

      Verdade. Mas não pretendo postar o livro todo. Parei neste quinto capítulo.

      Paredes Vivas está com tiragem esgotada e só estou vendendo o livro em e-book na Amazon. Tenho comigo apenas uns 10 exemplares restantes. A Editora Dracaena mudou seu foco editorial deixando de publicar ficção e por isso o romance não teve uma segunda edição.

      Obrigada! Beijos/! ♥

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  4. Oi Rosa
    Terá ela coragem??
    Um belo desafio para a imaginação do leitor
    Rosa querida a tua escrita é envolvente e tem uma leveza contagiante permeada de mistérios que a mente deseja decifrar
    Com certeza o livro tem uma saga admirável. Pelo que acompanhei parabenizo-a pela magnífica narrativa
    Uma semana de paz e serenidade
    Beijos

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    1. oi Gracita, muito obrigada pelas palavras. Adoro teus comentários.

      Beijos/!♥

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    2. Se você tiver ainda Perto do Fim.manda-me um e-mail
      Cheguei agora de um casamento
      Beijos
      Minicontista2

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    3. Tenho sim. E-mail enviado, Dorli.

      Beijos =)

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  5. Olá, Rosa... nem sempre é possível esquecer o que não nos faz bem, nem sempre as pessoas parecem ser aquilo que são, do feio e complexado para o mosca que vai cair na nossa sopa, nem sempre nós nos conhecemos o suficiente e nem sempre a vida toma o rumo que queremos,mas, tudo na vida é aprendizado. E correr riscos, aceitar desafios, também é...Belos dias, beijos!

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    1. Gosto da forma como capta o sentido das coisas, Felis. Obrigada!

      Beijos/!

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  6. Olá,Rosa!
    Eu havia parado com o meu blog e resolvi voltar.Bateu saudade! rssss
    Vim te informar que estou com endereço novo.
    gifscantinhoencantado.blogspot.com.br.
    Tudo de bom prá ti... beijo.

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