quarta-feira, 11 de maio de 2016

Paredes Vivas - quarto capítulo



Retrato meus dias
com as cores que
tenho em mim.

Um aguaceiro desabou sobre a cidade, me tirando da cama antes da hora. Era cedo. A casa ainda estava silenciosa. O relógio redondo da parede do meu quarto marcava seis horas. Cedo demais para eu me levantar. Meus olhos ardiam de sono, pois novamente eu tivera muitos sonhos ruins. É difícil dormir com a cabeça cheia de sombras. Ah, se mamãe estivesse melhor, eu teria disparado para o quarto dela como fiz tantas vezes ao ter pesadelos. Respirei fundo. Aguentei firme. E não fui perturbá-la.

Levantei a persiana para espiar a chuva, quando relâmpagos cortaram o céu seguidos por uma série de trovoadas. Levei um susto tão grande que fechei a persiana na hora e me escondi embaixo das cobertas.

Fiquei encolhida, aguardando cheia de medo novos clarões e trovões. O ruído dos pingos fortes sobre o telhado me manteve em vigília. Se antes eu já tinha medo de tempestades, agora então, depois do temporal que vitimou papai, eu tenho ainda mais.

Papai, que saudades!...

Tem apenas seis dias que ele foi enterrado, mas as imagens do sepultamento permanecem vivas em minha mente, como se o tempo tivesse congelado naquele momento, lá no cemitério.

Perdida nas lembranças, acabei cochilando.

Escutei barulhos na cozinha.

Eram sete horas e trinta minutos. Levantei. Fui ao banhei­ro. Retornei. Troquei o pijama curto por um vestido leve, floral, de alças bem finas. Calcei os chinelos de ficar em casa e saí para ver quem estava acordado.

Tão logo botei os pés no corredor, já pude sentir um aroma delicioso de café tomando conta da atmosfera de nossa casa.

Acho esta uma casa muito aconchegante. Não é nenhum palácio, mansão, ou residência suntuosa, ao contrário, a simplici­dade está em toda parte. Qualquer pessoa que chega aqui sente-se à vontade, pois ao decorá-la mamãe priorizou o conforto em vez do luxo e da ostentação. Nossa casa é térrea, com suítes espaçosas, separadas do restante dos aposentos por um pequeno hall fechado. A cozinha, a despensa e a área de serviço ficam numa das laterais. Na parte da frente, o gabinete, as salas de estar, jantar e uma saleta de leitura. Um corredor central interliga todos os cômodos, em cujas paredes é possível admirar várias telas com pinturas da plantação de cana-de-açúcar de meus avós maternos. Todos os quadros são assinados por Margot Avelar, pintora talentosa de quem devo ter herdado a facilidade para desenhar e o gosto pelo desenho.

Quando entrei na cozinha me deparei com Nice preparando nosso café da manhã. Dei um meio-sorriso e falei um “olá”, sonolenta. Sentei. Cruzei os braços sobre a mesa. E fiquei por ali, mais para ter companhia do que para comer qualquer coisa.

— Caiu da cama, menina?

— Arrã.

— Que foi, hein? Que carinha é essa?

— Medo, Nice. Medo.

— Ora, ora, mas medo de que, menina?

— Do temporal, do relâmpago, do trovão, de cair um raio em cima da gente e...

— Ahh, pobrezinha, não vai acontecer nada disso não, viu? Foi só uma chuva forte, mas já está acalmando. E depois...

Nice interrompeu o que ia dizer. Abriu um sorriso largo, olhando para alguém atrás de mim.

— Mãezinhaaa! — gritei, contente por vê-la em pé e com a aparência tão boa.

— Bom dia, Nice. Bom dia, filha. Que está fazendo acor­dada tão cedo, mocinha?

— Tive um pesadelo horrível. Aí fui espiar a chuva e um raio quase entrou no meu quarto.

As duas riram do meu exagero.

— Vem cá, filha, me dá um abraço bem apertado.

— Assim? — perguntei enquanto abraçava forte e enchia mamãe de beijos.

— Assim mesmo — respondeu, entre risos, retribuindo todos os meus carinhos.

Mamãe parecia recuperada. Suas faces estavam coradas, seu semblante mais suave e o olhar brilhante voltara. Falou que após o café iria providenciar a Missa de Sétimo Dia de papai. E pediu para Nice caprichar no cardápio, pois iria convidar a irmã e o cunhado para virem almoçar conosco.

Suspirei aliviada ao ver mamãe reagindo e se reerguendo diante do baque sofrido. Vê-la mais forte me fortalecia. Vê-la voltar a sorrir me fazia querer sorrir também.

Após um tempinho com elas voltei para o meu quarto, a fim de dormir mais um pouco.  

Enfim a chuva cessara.

Abri uma fresta na janela, só para conferir.

O cheiro de terra molhada, ressecada por vários dias de sol inclemente, inundou minhas narinas.

Assim, curtindo o frescor de uma brisa suave misturado ao odor agradável da grama cortada na véspera, retornei para a cama.

Embora eu estivesse menos tensa por ter visto mamãe restabelecida, não consegui ter um sono tranquilo. Após várias noites insones e com sonhos agonizantes, pensei que finalmente iria dormir serenamente. Em vão. O pesadelo me envolveu tão logo entrei em sono profundo.

Em meio a uma nuvem de fumaça vi-me jogada em mãos implacáveis. Uma figura gigantesca, com garras enormes, invadiu o quarto pela abertura da janela puxando meu corpo para fora com violência e me arrastando pelas ruas da cidade. Esperneando, senti meus cabelos crescendo velozmente, esverdeados como a grama do jardim. Do couro cabeludo saíam ramos extensos, usados pela enorme criatura para me prender em uma das árvores próximas enquanto eu era levada para o fundo do rio. Sem conseguir respirar, debati-me, aterrorizada, como um peixe preso no anzol. Então... acordei!

Mauren, não vá enlouquecer, justo agora.

Por eu estar ofegante, custei a recuperar o fôlego e a razão.

Mesmo constatando que tudo não passara de mais um sonho terrível, fechei a janela.

E no exato instante em que eu vivia um grande conflito, correr pedindo colo ou ficar sem dormir dali em diante para evitar outros pesadelos, eis que Nice surgiu para avisar que meus tios haviam chegado e o almoço seria servido em breve.

Recompus-me. Embora por dentro estivesse desgrenhada, com as ideias em desalinho.

Assim, ainda sob o efeito daquelas imagens angustiantes, entrei na sala de jantar.

Cumprimentei educadamente meus tios, como uma boa menina.

Sentamo-nos todos para fazer a refeição.

Um aroma delicioso e peculiar exalava de uma grande travessa de porcelana, coberta, disposta no centro da mesa. Não podia ser!

Antes mesmo de ver eu soube o que era. Enquanto todos se serviam fiquei olhando sem acreditar na falta de sensibilidade de Nice. Preparou um belo prato de.... peixe à escabeche! Como pudera? Como pudera fazer aquilo?

Não sei se por esquecimento ou falta de tato, mas depois de tudo o que houve Nice nos servir peixe à escabeche me pareceu afrontoso, repulsivo e deixou meu estômago embrulhado.

Nauseada e com um nó na garganta, disfarcei o melhor que pude. Fingi comer, pois não queria chatear mamãe.

E enquanto brincava com a comida no prato observei o que acontecia ao meu redor. O teor das conversas me deixou estarrecida.

Tio Vicente falava sobre inventário, papeladas, situações legais a serem resolvidas. Com uma expressão tranquila, discutia com mamãe os problemas práticos da indústria de aguardente, na qual ele e papai estavam à frente sob o aval das irmãs, herdeiras de um patrimônio que envolvia plantações, engenhos, fábrica de engarrafamento, distribuição e um prédio onde funcionava a administração central. Naturalmente tudo ficaria nas mãos dele, dizia mamãe tendo a concordância de titia.

Tia Margot chegou a gargalhar em meio a uma das costumeiras piadas sem graça que o marido contou. Sem falar na preocupação em não adiar uma viagem já planejada a um de seus cursos de História da Arte.

Uma semana apenas da morte de papai e conseguiam gargalhar, fazer planos entre uma garfada e outra de peixe. Peixe!

Em choque, percebi o quanto eu estava só.

[...]



* Paredes Vivas é uma obra de ficção *

* O romance é composto por 20 capítulos no total *

* Todos os poemas que precedem os capítulos são de minha autoria * 

* No link do Skoob podem conferir a sinopse e resenhas do romance *



12 comentários:

  1. Rosa,
    Li com atenção o seu conto, que começa na manhã chuvosa e com trovões, a mãe doente, que a impede de a ela se juntar sob as cobertas, das lembranças do dia em que o pai foi sepultado, até o desfecho da história. Parabéns.
    Abraços.

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  2. Muito bom Rosa e faz pensar em quanto tudo continua, segue o ritmo normal após a morte... Por vezes achamos que tudo vai parar sem nó, mas é bem assim como relatas! bjs, chica

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  3. Boa noite, Rosa.
    Indiquei teu blog pata receber o prêmio Dardos.
    Está no Carinhos Em Selos.
    Você, sempre dez!
    Beijos na alma.

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  4. Boa noite, Rosa.
    Indiquei teu blog pata receber o prêmio Dardos.
    Está no Carinhos Em Selos.
    Você, sempre dez!
    Beijos na alma.

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  5. Oi Rosa,
    Li uma porção lá pra baixo e comentei
    É lindo esse livro.
    Beijos
    Lua Singular

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  6. Rosa querida
    A cada capítulo a história se revela mais envolvente e instigante
    Muitas vezes os adultos fingem ou mesmo percebem o conflito que se passa no coração de uma criança ao enfrentar a perda de um ente amado e cada um segue seu caminho sem perceber que frustração e o descaso com o sentimento daquela criança poderá se revelar um transtorno psíquico. Belíssimo minha amiga
    Já ansiosa pelo próximo
    Um beijo

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  7. Olá, Rosa...muitas pessoas quando sofrem perdas, sejam que tipo for, perdem também o rumo e isso acaba virando uma espiral sem fim que só leva cada vez mais ao fundo do poço. Precisamos saber lidar com as coisas ruins que acontecem na vida de qualquer um. O sofrimento, não diz respeito a ninguém, a não ser à nós mesmos,estaremos sempre sós, cada um reage de uma forma, pois,como podemos ler, a vida segue, uns se preocupam com o inventário, outros gargalham ruidosamente e outros até servem um peixe à escabeche sem se importar com o que poderia nos "causar"...belos dias,beijos!

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  8. As pessoas agem e reagem de modo muito diferente perante estas tragédias.

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  9. Continuas densa... firme... com a pena rasgando a pele, provocando nossa sensibilidade....!
    ... continua...

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  10. OI ROSA!
    ESTOU GOSTANDO MUITO DE TEU CONTO E QUE BOM ME AVISARES SEMPRE QUE COLOCAS UM CAPÍTULO NOVO, ACHEI ÓTIMO, POIS QUERO LER ATÉ O FIM, ESTOU MUITO INTERESSADA.
    A PERDA DE UM ENTE QUERIDO PARA A CRIANÇA, É MUITO MAIS COMPLICADA, POIS É DIFÍCIL PARA ELAS ENTENDEREM ESTA PASSAGEM NEM SEMPRE EXPLICÁVEL.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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