quinta-feira, 10 de março de 2011

Descobertas


Vitória arregalou os olhos, não cabendo em si de contentamento. E se coubesse, a alegria nem caberia na alegria e subiria faceira, indo fazer rir as nuvens.

O jardim da casa nova era uma novidade nunca vista antes por ela. O apartamento pequeno, com vista para outros prédios, a fizera pensar que pessoas nascessem em blocos, flores só crescessem em vasos, pássaros vivessem apenas em gaiolas, gatos e cachorros morassem em sofás e tapetes e ... eventualmente em sua cama.

Na pracinha onde costumava brincar, as flores viviam em grandes vasos de cimento. Agora, com as mãozinhas na boca de puro espanto, descobria que elas também nasciam do chão, direto da terra e cercada pela grama verdinha e fofa.

Os pais, zelosos com a saúde da filha, resolveram comprar uma casa, pois queriam que ela tivesse contato com a natureza. Vitória apresentara sintomas alérgicos e o ar fresco iria lhe fazer bem - recomendações médicas - que trataram de seguir.

Dando pulinhos, a menina explorou o terreno, gritando o tempo todo "olha! olha!". Com os pezinhos descalços, correu pela grama, tocando nas plantas e exclamando para os pais "como o pátio novo tinha um cheirinho bom".

Para completar a alegria da filha, os pais montaram uma pequena barraca no jardim, para que Vitória pudesse brincar e se proteger do sol. Cansada com tantas novidades, a menina deitou e dormiu em seguida, com o rostinho corado e feliz. Então, sentiu algo subindo pelo braço, causando-lhe cócegas. Abriu os olhos e viu uma joaninha. A coisa mais linda que já vira. Que bichinho seria aquele? Não sentiu medinho. Amou a criaturinha. Colocou-a nas mãos. Alisou. Contou-lhe historinhas. Conversou bastante com a pequenina visitante, revelando-lhe todas as lembranças que seus três anos de memória foram capazes. Exausta, adormeceu, esquecendo a joaninha, que ficou passeando dentro da barraca.

Quando acordou, já estava de pijama, deitada em sua cama. Era uma daquelas mágicas que amava mais que tudo. Quando dormia estava num lugar, quando acordava estava em outro. E os pais sempre por perto.

No dia seguinte, foi para o jardim brincar. Esperou pela joaninha, que naquele dia não apareceu. Contou para a mãe sobre o bichinho que parecia uma bolinha. A mãe riu muito e explicou para Vitória tudo o que sabia sobre joaninhas.

Os dias correram. A menina cresceu. E como é próprio da vida, os momentos vividos vão ficando para trás, sem nunca terem saído de dentro.

Tornou-se uma linda jovem e bióloga dedicada. Adquiriu um gosto inexplicável por joaninhas. Não sabe dizer a origem de sua afeição, mas sempre que encontra algum objeto com formato do bichinho, fica admirando, fascinada. Já comprou adesivos para seu notebook, mouse, pen drive, agendas, estojos, cadernos e vários utensílios com o tema. Seu atual sonho de consumo é um celular japonês, com designer imitando uma joaninha.

E quando, por curiosidade, perguntam a ela o motivo desta sua preferência, ela encolhe os ombros e responde:

- Sei lá. Gosto é gosto!



9 comentários:

  1. Olá Rosa!

    Obrigada por me descobrir e seguir

    Infância, um período que define os nossos gostos.

    Lindo seu texto!

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  2. Olá, Rosa! Que lindo conto! A infância é mesmo um mar de pequenos descobrimentos que acabam nos construindo a nossa personalidade...
    Beijos.

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  3. Olá meu amor!!

    Não lembro de correr na grama ou ter fascinação por coisa alguma na minha infancia.
    Não lembro se tive algum braço para correr de volta e contar possíveis somas de quem um dia eu seria.

    Mas lembro que fui independente das minha escolhas, como descobrir a paixão por Joaninhas.

    Gosto é gosto! E eu, sem notar sei dos meus!

    Um beijo meu amor!

    E nao some!

    Te amo!

    Vinicius.

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  4. Olá Rosa!! Bom ver seu lindo trabalho. Passei o carnaval bem, em casa tentando descansar, se é que isso é possível, com 3 adolescentes inventando moda o tempo todo. Bom...gosto é gosto e o melhor da vida é provar o que se gosta sem se preocupar com reprovação alheia. Obrigada pela visita carinhosa. Um FDS com muita paz e alegria.

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  5. Oi Rosa,

    Passando para ler mais um pouquinho, ta lindo o blog! Ótima noite para você beijos.✿ ܓ

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  6. Ola minha linda tudo bem ? Estou lhe seguindo ok.. Em relação ao efeito no mouse personalizado vou ver se arranjo um tempinho e preparo ok,, te aviso quando fizer.. bjaooo
    fadapri.com.br

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  7. Oi Rosa do Sul e dos contos e dos versos! Este seu conto é um registro vivo da infância , um tempo que realmente tomamos gosto ou aversão pelas coisas. Época fantástica em que a mente forma e busca os sentidos das coisas e os grava indelevelmente em nosso subconsciente e o que fica de bom ou de mal fica para toda vida. Um tempo de pureza e inocência, mas onde se codifica na alma alguns dos valores importantes para toda uma existência. E as perguntas do futuro podem ser respondidas pelas coisas do passado: - Sei lá. Gosto é gosto ! Saudações Poéticas - Mario Neves.

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  8. Boa noite querida,

    Há momentos de nossa infância q ficam gravados prá sempre.
    Vitória adora as joaninhas e não sabe explicar o pq, o passado nos fala mais do q podemos imaginar.
    Rosa, o conto é perfeito, delicado, gostosinho de ler, como só vc sabe criar.

    mil beijos e um fds com muitas alegrias!

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  9. bOA NOITE MINHA LINDA rOSA!!!aDOREI O CONTO QUERIDA,A INFÂNCIA É MAGICA E INESQUECIVÉL.sÃO MOMENTOS QUE NÃO ESQUECEMOS E LEVAMOS PARA A VIDA TODA.
    bEIJOS COM CARINHO!!!

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